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terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Caixa com LPs de George Harrison já tem data de lançamento: 24 de fevereiro

Lembra de quando noticiamos aqui sobre o lançamento de uma caixa com todos os álbuns de George Harrison? Pois bem, agora já temos até uma data concreta: 24 de fevereiro, aniversário do ex-beatle. O trabalho é caprichadíssimo, com uma caixa dura e uma arte gráfica soberba. Além dos 12 álbuns de estúdio, a caixa traz o álbum Live in Japan (duplo) e 02 picture discs que, aparentemente, só serão disponíveis na caixa. Um vídeo oficial já está sendo veiculado, mas não se fala no preço ainda - que deverá ser bem salgado. Nosso chute: R$1.500,00 (mil e quinhantas pilas).

domingo, 1 de janeiro de 2017

James McCartney lança single com participação de Dhani Harrison

James McCartney, filho de Paul McCartney, acaba de lançar um single que já está sendo chamado pelo apelido de "Beatles 2.0". O motivo é que a canção "Too Hard" traz a participação de outro beatle-filho, Dhani Harrison, filho de George, na guitarra e vocal.

O single é parte do álum The Blackberry Train,, a ser lançado no dia 6 de maio. Uma boa curiosidade, que serve como um rápido aperitivo para o novo álbum que o outro McCartney (o papai) promete lançar esse ano.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Vem aí uma caixa com os LPs de George Harrison!

Já pensou poder adquirir todos os álbuns de George Harrison em LP, ainda embalado por uma linda caixa? Parece que ano que vem será possível! É o que sugere a foto postada por Dhani Harrison em seu Facebook. Ainda é cedo para comentar, mas pelo visual, é realmente uma maravilha!

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma narrativa emocionante sobre os últimos dias de George Harrison


Em 2001, o mundo foi forçado a suportar a partida de mais um Beatle. Duas décadas depois de John Lennon, era George Harrison que "despertava desse sonho" (nas palavras da viúva Olivia). Confira um trecho emocionante, que narra os últimos momentos de George, que selecionamos do espetacular livro A Batalha Pela Alma dos Beatles, de  Peter Doggett, lançado em 2009.

Ao longo de 2000, Harrison convalesceu, trabalhou esporadicamente em material para um novo álbum e supervisionou o relançamento do álbum All Things Must Pass. Foi incluído um arranjo retrabalhado de My Sweet Lord, omitindo cuidadosamente todos os elementos que tornaram o compacto original um trabalho tão comercial. Foi um gesto tipicamente intencional, irritante, mas estranhamente admirável, como a própria pessoa do guitarrista. Houve rumores de que os Harrisons sairiam de Friar Park, não obstante a casa em Maui ainda estar sob condições de litígio. Mais surreal foi a sugestão de que Neil Aspinall se aposentaria como diretor executivo da Apple, e Harrison assumiria o cargo – uma opção bizarra para uma celebridade notoriamente reclusa.

Logo transpareceu que não haveria tempo para mudanças, e restava apenas um pequeno e precioso tempo a ser vivido. Em março de 2001, Harrison passou por uma cirurgia para remover um tumor no pulmão. No mês seguinte, ficou sob os cuidados do Instituto de Oncologia do Sul da Suíça, passando uma temporada numa casa à beira de um lago próximo à fronteira com a Itália. Ele se encontrou com Paul McCartney brevemente, em Milão, algumas semanas depois, mas pela maior parte do tempo usufruiu da privacidade que sempre desejara, embora sabendo que a doença lhe sobrepujava pouco a pouco. Se o assassinato de John Lennon foi possivelmente a exposição mais nua e crua dos perigos de ser uma celebridade, os meses finais de Harrison foram, a seu modo, lembretes igualmente cruéis.

Última foto de Paul, Ringo e George juntos

Por uma ironia selvagem, ele, uma das figuras públicas mais relutantes em aceitar sua notoriedade, foi explorado não uma, mas duas vezes, por gente que se preocupou menos com o lado humano do que com a fama. Ele divulgou um comunicado, no início de julho de 2001, declarando que estava ‘se sentindo bem’ e se desculpando por quaisquer preocupações sentidas pelos fãs. Porém, duas semanas depois, o produtor dos Beatles, George Martin, foi amplamente citado como se tivesse virtualmente emitido uma sentença de morte: ‘Ele é um espírito indomável, mas sabe que vai morrer em breve, e está aceitando isso.’ Quando essa declaração apareceu na imprensa, um Martin chocado telefonou a Harrison para pedir desculpas e negar que tivesse feito aqueles comentários. E falou a verdade: suas palavras de fato tinham sido: ‘Ele foi resgatado várias vezes... Acho que ele espera ser resgatado novamente. E acho que vai. Mas ele sabe perfeitamente que há uma chance de não ser’. Este texto foi a seguir distorcido por uma série de editores até se transformar em algo mais sensacional. Harrison insistiu que estava ‘ativo e se sentindo muito bem’, mas a primeira reportagem foi a que ficou na mente das pessoas, mesmo depois de Richard Starkey visitar o amigo e anunciar que Harrison estava ‘bem’.

No início de outubro, Harrison entrou em estúdio pela última vez, para gravar uma canção chamada "Horse to Water" [Cavalo à água] com a banda de Jools Holland. ‘Ele não passou bem no início do ano,’ reconheceu Holland, ‘mas então pareceu muito, muito melhor. Pareceu forte, e sua voz soou realmente forte. Ele vai continuar a melhorar’. Ainda assim, a letra da canção de Harrison soava rude como a voz de um profeta do Velho Testamento confrontando, do leito de morte, os pecados de seu povo. Havia uma estrofe sobre ‘um amigo meu sofrendo tanto’, na qual dificilmente não se via o rosto assombrado de Paul McCartney em luto; outra sobre um alcoólico; uma terceira sobre um ‘pregador’ que ‘me alertou contra Satã’, ficando a inferência de que nenhum desses aparentes heróis conseguira encontrar a paz. Quando os direitos autorais da canção foram registrados, Harrison usou uma nova empresa editora: RIP Ltd, 2001. Foi um golpe final de humor negro.

Duas semanas depois da gravação, a saúde de Harrison declinou acentuadamente. Ciente de que a luta entrava nas semanas finais, ele renunciou ao cargo de diretor da Harrisongs em favor de sua esposa, que logo sucedeu o marido também no conselho da Apple. O câncer seguira um caminho comum, dos pulmões ao cérebro; Harrison ficou dolorosamente magro e sofreu as alucinações provocadas pelos analgésicos mais fortes. Ele cruzou o Atlântico para o período terminal, em busca de um tratamento experimental com radiação na clínica pioneira do Hospital da Universidade de Staten Island. Dali a alguns dias, recebeu uma visita de McCartney. Os dois homens, amigos por mais de 45 anos, mas tantas vezes divididos em consequência da fama, passaram as últimas horas juntos relembrando o passado em comum. ‘Nós rimos e brincamos, como se nada estivesse acontecendo. Fiquei impressionado com a força dele’, recordou McCartney posteriormente.

Uma equipe médica buscou focalizar doses de alta densidade de radiação no tumor cerebral de Harrison, para tentar lhe ganhar alguns meses a mais de vida. Porém, de acordo com uma queixa registrada alguns anos depois, um médico perdeu a compostura e rendeu-se aos apelos da fama de Harrison. Segundo declarou Olivia Harrison, em 2004, o médico levou seus filhos até a casa alugada pelos Harrisons, ‘onde [George] estava de cama e passava por grandes desconfortos’. Lá, o médico fez Harrison ouvir o filho tocar guitarra, e depois pediu-lhe que autografasse o instrumento do garoto. O debilitado músico recusou: ‘Eu nem sei se consigo mais soletrar meu nome’, disse ele. O médico teria dito: ‘Vamos lá, você consegue’, colocando uma caneta na mão de Harrison e ajudando-o a rabiscar o nome na guitarra.

Harrison abandonou o tratamento e voou para Los Angeles, para sessões mais convencionais de radioterapia. Durante o voo, ele estava tão fraco que quase morreu, mas agarrou-se à vida por mais duas semanas. Em 28 de novembro, no entanto, era óbvio que estava perto da morte, e seu velho amigo Ravi Shankar viajou a Los Angeles para visitá-lo. A filha de Shankar, Anoushka, recordou: ‘[George] tinha um olhar que eu nunca tinha visto antes, tão cheio de amor e paz. Ele não podia mais dizer nada com os lábios, mas seus olhos falavam por ele. Aquela casa estava tão cheia de amor’.

George e Olivia Harrison
No dia seguinte, George Harrison morreu às 13h30, na presença da esposa, do filho e de amigos devotos de Krishna. ‘George aspirava a deixar seu corpo de maneira consciente, essa era uma das metas da sua vida’, recordou a esposa. Seu amigo Mukanda Goswami disse simplesmente: ‘Ele era uma pessoa muito espiritual, que não tinha medo de morrer’. Partiu com o perfume do incenso nas narinas, enquanto os amigos cantavam louvores a Krishna. Seu corpo foi coberto com uma manta de seda amarela, e ungido com pétalas de rosas e água benta. A causa oficial da morte foi menos poética: ‘câncer metastático nas células do pulmão’ acompanhado de ‘carcinoma nas células escamosas da cabeça e do pescoço’.

Não houve nada semelhante ao choque gerado pela morte de Lennon 21 anos antes; apenas um profundo pesar por este homem complexo e determinado ter morrido com 58 anos de idade. Seu filho Dhani descreveu a natureza espiritual de Harrison: ‘Não havia nenhuma urgência para ele. Ocasionalmente ele ficava motivado, mas não porque sentisse que ia morrer. Ele nunca se sentou e sentiu pena de si mesmo. Não tinha mais nem medos nem preocupações quando morreu’. Harrison faria falta, disse Richard Starkey, por seu humor e generosidade de espírito. Paul McCartney, que ainda se lembrava de como uma única palavra mal colocada lhe causara problemas quando da morte de Lennon, pronunciou um tributo cuidadoso, mas sincero: ‘Estou arrasado e muito, muito triste. Ele era um cara adorável e um homem muito corajoso, e tinha um maravilhoso senso de humor. Ele é realmente o meu irmão caçula’. O corpo de Harrison foi cremado, e sua família levou as cinzas para Varanasi, na Índia, onde as águas sagradas do Ganges, do Yamuna e do Saraswati se encontram. Olivia Harrison proferiu um réquiem adequadamente espiritual: ‘Estamos profundamente tocados pelo extravasamento de amor e compaixão das pessoas ao redor do mundo. A beleza profunda do momento da passagem de George – de seu despertar deste sonho – não foi surpresa para aqueles de nós que sabiam como ele desejava estar com Deus. Nesta busca, ele foi incansável’. Numa repetição bizarra das repercussões após a morte de Linda McCartney, a mídia atentou para as discrepâncias na certidão de óbito de Harrison – criando um mistério de cinco dias que só foi resolvido ao revelarem o local verdadeiro do falecimento, uma casa nas colinas de Hollywood, arrendada por Paul McCartney (A certidão citava como lar de Harrison um endereço em Lugano, na Suíça, presumivelmente para efeitos fiscais).

Em janeiro de 2002, My Sweet Lord foi o compacto mais vendido na Grã-Bretanha, e Olivia Harrison preparou uma ação judicial contra um membro mais afastado da família, acusado de roubar pertences do marido e vendê-los no dia seguinte à morte dele. Em julho, ela realizou uma celebração particular da vida do músico, em Friar Park, com a presença de McCartney, Starkey e George Martin. E em 29 de novembro de 2002 – ‘fazendo um ano hoje’, como diziam os cartazes – ela organizou o Concerto Para George, no Royal Albert Hall, onde muitos dos amigos mais próximos apareceram para prestar-lhe uma homenagem musical. Dhani Harrison, arrepiantemente parecendo uma reencarnação do pai, como este era em 1963, permaneceu no palco durante todo o concerto.

Como confessou Eric Clapton, George Harrison provavelmente teria dito algo como: ‘Muito obrigado, mas eu realmente não queria isso’. Clapton acrescentou ironicamente que Harrison ‘colocaria um pouco de água no ponche... Ele podia ficar bastante contrariado’. Mas o Harrison a ser celebrado era o buscador espiritual, o mestre de sutis mudanças melódicas e profundo lirismo pessoal. Ambos os Beatles sobreviventes estavam lá. Starkey, quase roubando a cena no evento: ‘Eu amava George; George me amava’, declarou ele, cheio de confiança. Por seu turno, McCartney aparentava hesitação, e quase constrangimento – talvez intimidado por estar em companhia dos aliados mais próximos de Harrison. Ansioso para que não pensassem que buscava os holofotes, ele se apresentou com uma discrição não característica, embora com emoção claramente visível. Mas não seria difícil imaginar o cinismo de Harrison, quando McCartney conduziu a banda numa interpretação intensa de "All Things Must Pass" – uma das canções que os outros Beatles se recusaram a levar a sério em janeiro de 1969.

Sendo naturalmente uma ocasião comovente, o concerto apenas representou uma parte da personalidade de Harrison. ‘George era o homem mais engraçado que eu já conheci’, declarou sua viúva. ‘Quando ele morreu, foi como um “ah, acabou a festa”’. Com um humor astuto que seu marido teria saboreado, ela recordou: ‘Ele não tolerava nenhuma rabugise que não fosse a dele mesmo’. Nos anos seguintes, ela e Dhani supervisionariam os relançamentos dos álbuns de Harrison, e Dhani lançou sua própria carreira musical, além de assumir a função muito necessária de estabelecer conexões entre a Apple e o público do século XXI. ‘A descrição do meu trabalho é ser um entusiasta’, disse ele, aos 30 anos de idade, em 2009.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Wonderwall, um filme que tem tudo a ver com os Beatles


Por ser um filme difícil de se encontrar, podendo ser considerado até certo ponto raro, poucos conhecem em quanto a áurea ‘Beatle’ esta presente em Wonderwall. Lançado originalmente em 1969, disponível no mercado em DVD desde a virada do século, Wonderwall, embora seja mais conhecido pela sua trilha sonora escrita e gravada por George Harrison, é um daqueles filmes que reflete bem o seu tempo, neste caso, Londres durante o chamado ‘Swinging Sixties’.

O enredo do filme é relativamente simples contando a história de um cientista atrapalhado e esquecido que anda sempre com uma lista de lembretes no bolso. Seu nome é Professor Oscar Collins e ele é um personagem tão desorganizado, que se não conferir antes em sua lista, é capaz de esquecer de tirar as meias antes de molhar os pés.

Este homem tem sua rotina então atrapalhada pela vizinha, que ele não conhece, mas vê através de um buraco que ele descobre em sua parede que dá para o apartamento ao lado. Ele apaixona-se platonicamente pela menina, uma modelo vistosa que ocasionalmente recebe o namorado, que também é modelo. O professor e a modelo nunca conversam e ele só a vê através do buraco ou em seus sonhos. Este detalhe oferece ao espectador alguns ângulos e imagens interessantes em devaneio hippie.

Voltando ao assunto original deste texto, a razão que trago para a sua atenção Wonderwall é porque o filme apresenta ocasionais lembretes de uma presença Beatle na obra. De fato, além de compor a trilha sonora, George Harrison também é creditado com produção executiva, o que em outras palavras significa que ele entrou com parte do dinheiro para o orçamento do filme. Assim, explica-se, embora não diminua a surpresa, encontrar pequenos detalhes durante o filme que sugerem referencias aos Beatles.

A primeira a se observar seria o fato de que as únicas cenas em que se vê os personagens comendo, estão comendo maçãs. Logo em uma das primeiras cenas externas, vemos o bom professor descendo a rua com um saco de maças verdes. Um carro desce a rua, todo pintado de verde claro, com o estofado do carro em verde maça. O veículo passa por uma micro ônibus estacionado que a primeira vista, lembra o ônibus usado no Magical Mystery Tour, mas não é. Em letras vermelhas, lê-se na traseira do ônibus o nome da transportadora Beales Travel.

Dentro do carro passamos a conhecer o fotógrafo e o namorado da menina. O fotógrafo está de terno e calças verdes maçã, mesma cor do estofado e do carro. O modelo, embora vestido de roupas comum para época, está trazendo consigo uma foto aumentada em preto e branco no banco de trás que mais parece sobra da capa do Sgt. Pepper's. Não é, claro! A foto parece ser dele mesmo, contudo, outras fotos de atrizes espalhadas pelo apartamento, todas em preto e branco, trás novamente a capa do Sgt. Pepper's à memória.

Outro elo com a turma dos Beatles está nos desenhos que aparecem durante o filme, todos feitos pelo grupo holandês The Fool, os mesmos que trabalharam na Apple Boutique, como também na empresa Apple Corp. Três membros do The Fool também contribuem com a presença física sendo vistos no filme durante uma festa realizada no apartamento. Porém, a mais evidente demonstração de que há um elo intencional entre este filme e os Beatles está no nome da modelo, o personagem central do enredo. Embora ela não tenha uma fala sequer durante todo o filme, é ela o motivo de toda a história. O seu nome é Penny Lane.

Embora não esteja registrado entre os créditos, do disco ou filme, existem ainda mais algumas curiosidades para se mencionar. Em sua trilha sonora, a guitarra sendo tocada em "Ski-ing And Gat Kirwani" é ninguém menos que Eric Clapton. Outro amigo presente na trilha é Ravi Shankar na citara.

A última surpresa fica por conta de uma pequena cena despretensiosa no filme. Nela, o bom professor está fazendo hora ouvindo uma propaganda no rádio enquanto espera a vizinha chegar em casa. O comercial oferece duas jovens conversando entre si sobre o prazer de se usar certo produto à base de lanolina. Em momento algum identifica-se qual o produto sendo promovido, porém o texto da propaganda é sutilmente insinuante, permitindo mais de uma interpretação. A surpresa é que todo o texto deste comercial foi escrito por John Lennon.

O DVD, que saiu no mercado em 1999, oferece o chamado ‘Director’s Cut’ que significa na prática que o diretor mexeu em alguns detalhes na obra original. A mudança mais evidente está na abertura, que teve a musica "Microbes" substituída por outra da banda, The Remo Four. O DVD inclui como material extra a abertura com a musica original, o texto de John tratado como poema, algumas edições feitas com imagens do ator Jack MacGowran, que faz o professor, como também um pequeno clipe com "Ski-ing And Gat Kirwani".

O DVD também oferece um curta metragem chamado "Reflections On Love" que tem imagens diversas de Londres em ’68 com trilha sonora da banda Kula Shanker. Entre as imagens apresentadas encontra-se também cenas com os Beatles em ’65. Entre os atores da historinha que fala de um casal prestes a casar, temos Jenny Boyd, modelo e irmã de Patty Harrison.

As imagens tiveram um tratamento de limpeza trazendo à vida todo o colorido que antes estava desbotado. O trailer do filme, incluindo no pacote, não teve tal tratamento, servindo como exemplo claro da diferença entre o que se via e o que agora pode-se ver das imagens. Não posso deixar de mencionar também que a musica do filme é linda! Aproveito para lembrar que existem alguns temas na trilha sonora que não estão no disco.

Como podem perceber, para qualquer Beatlemaniaco, este DVD é extremamente interessante e altamente recomendável. E mesmo para os não Beatle fanáticos, mas que gostam e se interessam por material da época, este filme é mesmo um pequeno tesouro!



quarta-feira, 19 de outubro de 2016

O dia em que George Harrison perdeu seu "banjo"

Alf Bicknell, o motorista particular dos Beatles nos anos de 1964, 1965 e 1966, conta o episódio em que George perdeu seu "banjo".

"Sempre saímos com a banda e com todos os instrumentos. Mal (roadie dos Beatles) resolveu me ajudar porque os Beatles estavam ensaiando em Londres. Eles deixaram suas guitarras que coloquei no carro. O único lugar para colocá-las era no porta-malas. Nós as colocamos no porta-malas e rumamos para Blackpool. Enquanto eu estava guiando apareceu um grande caminhão.

Ringo gritou:

- Alf, acho que aquele caminhão está piscando os faróis para lhe dizer algo.

Eu saí do carro e fui falar com o homem. Ele saiu da cabine, olhou para mim e disse:

- Você perdeu o banjo lá atrás, na estrada.

Fui até o carro e vi que uma guitarra havia sumido. Fiquei muito chateado. Fui até o carro, abri a porta e disse ao John:

- John, perdemos o banjo.

Ele ficou parado um segundo, saiu do carro e disse:

- Precisamos achá-lo. Alf, você pode ganhar um bônus.

Eu disse:

- E qual bônus?

- Pode ter o emprego de volta.

- Então vamos achá-lo.

Nós voltamos pelo caminho que havíamos feito. Sim, nós o encontramos. Encontramos o banjo. Encontramos um pedaço aqui, um pedaço lá, um pedaço acolá. Mas eu parei de recolhêlo e continuei no emprego."

O "banjo" era uma guitarra Gretsch Country Gentleman!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

11 músicas de George Harrison depois do álbum Cloud Nine


Quando George Harrison morreu, em novembro de 2001, deixou um álbum praticamente pronto, com uma coleção de músicas gravadas e instruções bem precisas sobre como ele deveria ser finalizado. O resultado foi o álbum Brainwashed, lançado no ano seguinte, produzido por Dhani Harrison e Jeff Lyne.

Mas e antes disso? Seu último álbum lançado foi o Cloud Nine, de 1987. Após isso, um grande hiato em lançamentos e, numa época em que a Internet ainda estava apenas começando, poucas eram as informações sobre as atividades de George.

Muitas lendas e mitos foram levantadas nesses 14 anos de aparente inatividade, principalmente dando conta de que ele havia se tornado uma espécie de eremita, dedicando-se apenas à jardinagem. Poucas eram as informações, mas os fãs mais interessados sabiam de algumas atividades artísticas- muitas, na verdade.

É absolutamente falso dizer que nada fez na última década e meia de vida. George formou em 1988 o derradeiro super-grupo de rock do século passado, os Traveling Wilbury's e com eles gravou dois álbuns, singles, um mini-documentário e videoclipes. Chegaram a pensar em excursionar, o que não ocorreu por conta do falecimento de Roy Orbison. George também fez canções de encomenda para amigos como Eric Clapton, incluiu faixas em trilhas sonoras de filmes, produziu um álbum de caridade.

Saiu em turnê pelo Japão e daí editou um irretocável disco duplo ao vivo. Há mais. O beatle místico participou de um sem número de discos de companheiros da cena rocker, lançou singles próprios, três livros, uma coletânea, e ninguém pode esquecer seu concerto de 1992 no Royal Albert Hall em favor do obscuro Partido da Lei Natural, reeditando no mais nobre dos palcos ingleses, a banda e o show que fez na Terra do Sol Nascente.

Naquele mesmo ano George Harrison foi um dos luminares da festa pelos 30 anos de carreira de Bob Dylan no Madison Square Garden. E mais: com Ringo Starr e Paul McCartney, participou ativamente das ações que resultaram nos relançamentos das coletâneas Azul & Vermelha e do histórico álbum da BBC. Fez o projeto Anthology, Yellow Submarine Songtrack e The Beatles One. Voltemos então ao objetivo principal dessa divagação toda.

O pesquisador Cláudio Teran buscou as músicas que poderiam formar um hipotético CD, seguindo algumas regras. À imagem e semelhança do que seria uma continuação de Cloud Nine, necessitava de onze faixas publicadas após esse período. Música anterior a 1987 só teria chance se fosse absolutamente inédita. Foram eliminadas gravações ao vivo de takes já conhecidos. Haveria liberdade para recorrer à pirataria se uma canção relevante para o projeto só estivesse disponível nessa forma. Nao final, alinhando as faixas cronologicamente, o resultado foi surpreendente.

E o que fazer com essa coleção de músicas? Na época, em 2001, o Portal Beatles Brasil criou uma promoção e sorteou algumas cópias, para alguns poucos felizardos, entre muitos que responderam à seguinte questão: "você já sonhou com os Beatles?". A relação das músicas, com suas devidas explicações encontram-se abaixo. Lembrando, claro, que foi antes do lançamento do Brainwashed - não se podia prever, mas duas delas foram lançadas no álbum póstumo.

George Harrison - After Cloud Nine (2001)

MO: composição de 1977. Entrou no projeto porque veio à luz somente em 1994, e para um CD em edição limitada com o objetivo de homenagear Mo Ostin, capo da Warner que se aposentava. Provavelmente foi retrabalhada para esse lançamento.

RIDE RAJBUN: gravação de 1992, lançada em 1995 no escasso CD com a trilha sonora do desenho animado Bunbury Tails. George está acompanhado de Ravi Shankar e do filho Dhani. A faixa soa como uma evolução para "Blue Jay Way" ou "Within'You Without You".

HEADING FOR THE LIGHT: faixa-solo incluída no primeiro disco dos Traveling Wilbury's.

CHEER DOWN: composição que Eric Clapton esnobou. George gravou e a editou como um single, incluindo-a em seguida na trilha sonora de Máquina Mortífera 2.

POOR LITTLE GIRL: editada para a coletânea Best of Dark Horse. Canção inspiradíssima que conta ainda com uma versão encurtada especialmente para emissoras de rádio, em CD single.

COCKAMAMIE BUSINESS: candidata a clássico desse álbum imaginário. Uma das faixas que certamente ganharia atenções da mídia se não estivesse perdida numa coletânea (Best of Dark Horse).

MAXINE: faixa-solo das sessões para o segundo álbum com The Traveling Wilbury's, com a diferença que só saiu através do mercado pirata.

ABSOLUTELY SWEET MARIE: George escolheu uma canção pouco divulgada dentro do vasto repertório de Bob Dylan para homenageá-lo no histórico concerto pelos seus 30 anos de carreira. Ao violão, o ex-beatle se destaca pela base competente e segura.

BETWEEN THE DEVIL AND THE DEEP BLUE SEA: O original dessa gravação é de 1931 por Cab Caloway. George sempre gostou de regravar coisas antigas, e entre os exemplos estão "True Love" e "Baltimore Oriole". Essa composição foi pré-gravada em estúdio, e exibida num programa da TV inglesa, Mr. Roadrunner. Destaque para o som do ukelele tocado por George.

MY SWEET LORD 2000: Exceto pela percussão de Ringo e a linha de baixo, George regravou quase completamente seu maior clássico na carreira-solo – questão não entendida pelos críticos. Ele explicou, na entrevista editada no CD promo, A Conversation. De acordo com Harrison, lhe incomodava ter sido processado por plágio, somente por causa de três acordes. Indignado com isso ele providenciou a regravação para divertir-se, e eliminar os 'acordes da discórdia'. Destaque para o potente vocal gospel de Sam Brown.

HORSE TO THE WATER: o esforço derradeiro de George Harrison em vida. Uma canção gravada um mês e meio antes de seu falecimento. Ele se abandona num solo incomum porque longo e sem o habitual recurso do slide. A letra é autobiográfica, destaca-se a base da banda de Jools Holland, e novamente Sam Brown nos vocais. É uma canção tocante, bela, contemporânea - e perdida num CD difícil de encontrar. O fecho perfeito para um imaginário álbum de continuação para Cloud Nine?

domingo, 16 de outubro de 2016

O amigo português de George Harrison

 

Se George Harrison tinha amigos no Brasil, tinha pelo menos um em Portugal, Domingos Piedade, tudo por causa da Fórmula 1. Quando GH morreu, o site português NetParque entrevistou Domingos Piedade. Aqui vai a entrevista:
Geeorge Harrison não tinha medo de morrer" - Domingos Piedade


Domingos Piedade, atual administrador geral da Mercedes AMG, um dos departamentos da Daimler Chrysler, adora o desporto automóvel. Foi essa paixão que fez com que, no início dos anos 70, se tornasse amigo de George Harrison, falecido a 29 de Novembro de 2001.

Em entrevista ao NetParque, Domingos Piedade reage em primeira mão e recorda o músico, o amigo, a pessoa e histórias como a de um vinho do Porto de 1943 que Harrison recusou por provir de uma péssima colheita, por ser o seu ano de nascimento.


Quando conheceu George Harrison e em que circunstâncias?
Conheci-o pessoalmente ainda no início dos anos 70, quando eu trabalhava com o Emerson Fittipaldi. Já nessa altura o George era um grande entusiasta pelos automóveis. Continuamos, desde então, a manter uma óptima relação, de amizade mesmo. Em 1978, quando fez o álbum que tinha a canção "Faster" (o álbum George Harrison, editado em 1979, sendo que "Faster" é inspirado por Jackie Stewart e Niki Lauda, duas lendas da Fórmula 1), acompanhei-o todo o ano, de São Paulo aos Estados Unidos, passando por Espanha. Estive com ele sempre, dentro e fora das corridas. Mantivemo-nos sempre em contacto e, quando vim para a Mercedes, ele passou a ser um cliente nosso muito especial. Tinha uma relação muito boa com ele e havia muitas vezes a necessidade de fazer com os automóveis coisas para lá do normal, para ele.

Que tipo de coisas eram essas? Extravagâncias?
Não eram extravagâncias. Eram pormenores de um grande entusiasta de automóveis. Ele não gostava dos pormenores da electrónica, como os utensílios que dão a indicação da distância do carro da frente. Esses pormenores davam-lhe cabo da cabeça, não os queria. Ele guiava muitíssimo bem, tinha mesmo o McLaren F1. Encontrávamo-nos várias vezes na McLaren. Estivemos juntos no último Grande Prémio do Canadá há cerca de 15 meses e, nessa altura, já me pareceu na linha descendente. Mas estava cheio de vontade. O George tinha feito um acordo com outro grande amigo nosso, o Eric Clapton, para que ele usasse os nossos carros (da Mercedes AMG), já que são os carros que também ele usa. Disse-me também que queria fazer uma digressão com o Eric Clapton e o Bob Dylan. Mas agora já não dá.

Não foi a tempo.
O que é uma pena. Ele sempre foi um defensor do "low profile", desde sempre. Não diria que tinha complexos, mas sabia que não era um virtuoso da guitarra. Daí aquela sua vontade de aprender, a vontade de que o Eric Clapton lhe ensinasse. Ele era bom, mas não era um virtuoso. Sentia-se, se houvesse um escalão nos Beatles, ainda sem o Ringo, o pior intérprete dos três, tanto a cantar como a tocar. Mas a verdade é que ele era um compositor fabuloso, fez coisas muito boas. Depois teve o caso do "My Sweet Lord", em que o acusaram de roubar passagens de música de outrém, e isso magoou-o muito. Ele era uma pessoa extremamente sensível.

Além do lado musical de George Harrison, que é sobejamente conhecido, que características da sua personalidade assinalaria como mais importantes?
Como pessoa, odiava o vedetismo. Era capaz de apanhar um avião e vir discutir técnica conosco à Alemanha, como adorava que fôssemos a casa dele em Inglaterra, onde ficávamos horas a falar sobre questões técnicas. Era uma pessoa muito normal... Era um connaisseur de vinho.

E conhecia o vinho português?
Eu quis, uma vez, quando ele fez 55 anos, dar-lhe uma garrafa de vinho do Porto de 1943, ao que ele me respondeu: "That's a shitty year" ("esse é uma porcaria de ano", ano do seu nascimento). Vou estar agora com o Eric Clapton em Tóquio, nos últimos concertos da sua digressão, e vai ser uma tristeza. Vai estar toda a gente muito chateada. Ainda por cima é a sua última digressão. Estes dinossauros não tocam mais.

Que relação tinha George Harrison com Portugal, já que visitou o país mais do que uma vez a propósito dos Grandes Prémios de Fórmula 1? Que opinião tinha ele de Portugal?
Nenhuma em especial. É um pouco como o Eric Clapton. Quando Eric Clapton começou a sua última digressão europeia em Madrid, eu disse-lhe: "Não podes começar a digressão em Madrid sem ir a Portugal". Ele ficou a olhar para mim. Mas lá veio a Portugal, lá se fez o concerto. Não havia nenhuma razão especial para não ter tocado em Portugal em vinte e tal anos de carreira. "No reason", disse-me o Eric Clapton. O George Harrison, quando vinha a Portugal para os Grandes Prémios, vinha por vir. São pessoas envergonhadas. O George era mesmo o estilo de grande vedeta que tinha vergonha de ser tão famoso. Ficava embaraçado quando lhe diziam "Ó George, adoro as suas canções!". Ele dizia sempre "Mas por quê? Já passaram tantos anos...". Ele queria viver de forma diferente, daí ter ido para a Austrália há 15 ou 20 anos. Ali é que ele vivia bem e feliz. Ele teve várias fases, a da Índia, por exemplo, e a do "Faster", em que era um autêntico bicho do mato. Não conversava com ninguém, estendiam-lhe a mão e ele encolhia-se, cheio de medo de uma transmissão de vírus. Lembro-me um concerto com os Everly Brothers em Adelaide, em 84 ou 85, em que estávamos muito satisfeitos no "backstage". Nesse concerto, pediram-lhe para fazer uma perninha na guitarra e ele fez, sem problemas, só porque estava na Austrália, onde se sentia muito bem. Sinto muitíssimo a morte dele porque era uma pessoa boa demais e porque esta questão vai mexer muito com a cabeça do Eric Clapton.

Que tipo de emoção sentiu quando soube da morte do seu amigo?
Ontem saí da Alemanha muito tarde e como vou para o Japão, estive a arrumar as minhas últimas coisas. Levo sempre comigo coisas pessoais, alguns amuletos ligados a grandes amigos meus. No meio das coisas, tinha um recorte do Herald Tribune de quando o George foi para Lugano, na Suíça, fazer a primeira fase de tratamento ao cancro. É incrível como ontem (29 de Novembro) estive com esse recorte de jornal na mão, que tem quatro ou cinco meses. E pensei: "Tenho que ligar-lhe". Hoje, no avião, li uma notícia do jornal de ontem que dizia que ele estava internado em Nova Iorque. Pensei mesmo: "Não pode ser, tenho que ligar-lhe. Como terça-feira vou para Tóquio, tenho que ver se eu e o Eric Clapton entramos em contacto com ele". E ficou assim. Cheguei a Lisboa e deram-me a notícia. Fiquei mais chateado do que triste. Deveria haver, para certas pessoas, imunidade à idade, à doença e aos males da própria existência.

Tendo em conta que George Harrison era uma pessoa extremamente mística e humanista, diria que encarou a morte de uma forma natural, como se fosse o menos preocupado de todas as pessoas que o envolvem?
Quando, há três anos, foi assaltado e esfaqueado, falei com ele e senti que ele não tinha medo de morrer. Ele era tão realista que não fez grandes dramas das suas doenças. Foi um processo muito discreto, em que as pessoas sabiam das coisas quase por acaso. Ele tinha repugnância por grande publicidade, dizia com frequência "Não entendo por que sou tão popular, por que as pessoas gostam tanto de mim. Não fiz nada de especial". Mas ele não era exactamente uma pessoa normal, era como os grandes génios, com altos e baixos. Tudo isto é uma pena. A comunidade vai perdendo estas lendas, que não se fazem mais.




quarta-feira, 12 de outubro de 2016

1967: George Harrison visita a Califórnia


Apesar dos Beatles terem sido cultuados por toda a geração hippie, só um deles visitou a turma cabeluda no seu local de origem, a cidade de San Francisco, Califórna, EUA (com rápida passagem por Los Angeles). Foi George Harrison, que em 1967 passou uma semana na terra do flower power, acompanhado pela esposa Pattie e pelo amigo Neil Aspinall - que é quem narra a história, dia a dia. Nessa viagem, a turma passou muito tempo com Ravi Shankar, foram à Disneylândia e até conferiram uma sessão de gravação dos lendários The Mamas & The Papas. Com a palavra, Mr. Aspinal!


Terça-feira, 1º de agosto de 1967
Viagem de avião de Londres a Los Angeles. Estavam George, Pattie, o "gênio" eletrônico Magic Alex e eu (Neil). Os Harrison viajaram como "Sr. e Sra. Weiss", que era o nome do homem que encontraria conosco e depois nos mostraria a Califórnia. O primeiro problema no desembarque foi a falta de uma de minhas malas, que ficou seis milhas atrás, em Londres. Você ganha tempo quando voa do Reino Unido para a América. Almoçamos e ficamos apenas uma tarde em Los Angeles. Fomos de carro do aeroporto até a casa que tínhamos alugado por uma semana.

A casa da colina

Era um pequeno, mas muito bonito lugar numa colina em Hollywood numa rua chamada Blue Jay Way. Eram nomes bastante figurativos. A casa pertencia a um advogado que estava de férias no Hawaí. O longo voo tinha deixado todo mundo bem cansado, mas Pattie não dormiu, pois queria ligar para sua irmã, Jenny, que estava em São Francisco, e ela disse que iria até lá encontrar-nos. George telefonou para Derek Taylor, que começou descrevendo as complicadas regras do lugar para eles.

A nova canção
A conversa com Derek Taylor pelo telefone inspirou George a escrever uma canção chamada "Blue Jay Way". Ele sentou perto de um mini-organ que tinha lá e compôs enquanto esperava por Derek. Você pode ouvir "Blue Jay Way" no disco Magical Mystery Tour.

Quarta-feira, 2 de agosto de 1967
Dormimos até tarde, fizemos algumas compras e depois fomos todos nos encontrar com Ravi Shankar em sua escola de música. Sentamos e ficamos vendo Ravi ensinando sua classe de mais ou menos 50 pessoas de idade entre 16 e 30 anos, pessoas muito diferentes, todos estudantes de música indiana. O tocador de tabla de Ravi, Alla Rahka, deu uma lição que nós só vimos um pouco, pois saímos para almoçar com Ravi em Sunset Trip.

Quinta-feira, 3 de agosto de 1967
De manhã bem cedo (quer dizer, lá pelas 11h), George foi à escola comigo e Alex enquanto Pattie e Jenny foram passear. Amanhã à noite Ravi faria um show no Hollywood Bowl então nesta manhã ele tinha uma coletiva com a imprensa. Todas as rádios locais e repórteres sabiam que George estava lá, é claro, e atacaram-no com milhões de perguntas do tipo: "O que você acha do LSD?" ou "Onde você está hospedado, George?". À tarde George e eu fomos a uma loja chamada Sidereal Time. Compramos muitas camisetas e coisas como mocassins e pôsters. À noite fomos ver Ravi Shankar dar uma palestra sobre a história da música indiana e então fomos a uma sessão de gravação do The Mamas And The Papas com derek Taylor.

Nova guitarra
Um dos caras da sessão tinha uma guitarra fantástica - um primeiro protótipo e algo muito especial. George não pôde resistir e ficou com ela.

Sexta-feira, 4 de agosto de 1967

Às 9h da noite começou o show de Ravi Shankar no Hollywood Bowl, que durou quatro horas. Com ele estava um grupo de estudantes; foi uma maravilhosa noite musical. Primeiro veio Bismillah Khan com acompanhantes tocando uma flauta indiana chamada shennai. O resto da turma acompanhou Bismillah até um certo momento em que não podiam mais acompanhá-lo, então ele teve que tocar sozinho! Veio um tocador de tambor sul-indiano tocando um instrumento chamado mridangam, uma espécie de tambor clássico, que você bate dos dois lados. Então veio Ali Akbar Khar e seu filho Ashish tocando uns tambores modernos que eles chamavam de sarods; eles "conversavam" através de seus tambores. Finalmente, antes de o próprio Ravi tocar, veio um tocador e professor de tabla chamado Alla Rahka, que permaneceu no palco para acompanhá-lo com sua cítara para a última hora do show.

Sábado, 5 de agosto de 1967
Nesta manhã todos nós fomos ao estúdio de gravações com Ravi Shankar assistir Alla Rahka e o tocador de tambor sul-indiano gravarem um lado de um LP. Um cantor sul-indiano, usando sua voz como se fosse um instrumento, gravaria o lado 2 do LP. George ficou muito satisfeito por receber um convite para escrever as notas da capa do outro LP que ali seria gravado esta semana, de Ali Akbar Khan e seu filho Ashish. Mais tarde, nos encontramos com Derek, sua esposa e seus filhos. Foram com eles visitar Alvera Street, um lugar muito histórico. Vinha sendo preservado como atração turística, com aquelas casinhas da Califórnia. Bandas estavam tocando e existiam muitas barraquinhas vendendo souvenirs de Hong Kong! Comemos comida mexicana em um dos restaurante pequenos e engraçados na Alvera Street e compramos uma grande quantidade de quadros mexicanos, feitos sobre veludo. Pequenos shows com fúnebres palhaços aconteciam no local. Eles dançavam sob uma música antiga e seguravam uma grande flor, tirando pétala por pétala. Era uma pechincha - apenas uns poucos dólares cada - e duravam muito tempo. Nós também compramos um toureiro com um grande touro verde junto. George nos deixou (eu e Alex) comprando uns casacos coloridos enquanto ele estava com Ravi Shankar, que comprava uma cítara.

Domingo, 6 de agosto de 1967
George foi sozinho bem cedo ver Ashish e falar sobre as notas da capa do LP e essas coisas. Mais tarde, enquanto todos estavam na Disneylândia, George ficou atrás. Nós não ficamos muito tempo na Disneylândia, mas deu para ver que é um lugar fantástico. Visitamos "Tomorrowland", "Fantasyland" e um pouco de "Frontierland". Lá tem uns telefones que você pode usar para ligar para os personagens. Eu liguei para o Pluto mas uma voz disse: "Desculpe, ele está ocupado. Aqui é o Pateta"! À noite todos foram à casa de Ravi Shankar.

Segunda-feira, 7 de agosto de 1967
Hoje fomos até São Francisco e andamos pelo Haight-Ashbury. Derek foi conosco. Ficou meio esquisito depois de um tempo. Existia uma procissão ridícula de pessoas seguindo o George como se ele fosse o "novo guru". Mas eles não seguiram até o rio. De qualquer forma, foi um bom dia, uma boa cena foi ver coisas que nos deixou felizes e coisas que nos deixou tristes, como todas aquelas pessoas que pegavam o dinheiro dos turistas. E foi a primeira vez que nós vimos São Francisco como um lugar além do show que os Beatles fizeram lá.

Terça-feira, 8 de agosto de 1967
À noite, voamos de volta para casa. Quatro fãs foram até a casa onde estávamos, mas não teve problema algum e George gostou de vê-las. Ah, e quase que eu me esqueço: a minha mala ainda estava em Londres! Eu fiquei 8 dias com a mesma roupa!


Músicas com "BEATLES" no título


O jornalista português Luis Pinheiro de Almeida teve um trabalho "do caraças", mas produziu uma curiosa lista de músicas que citam nos seus títulos o nome da maior banda de rock de todos os tempo, bem como algumas variações. Você conhece alguma que não está nessa relação? Passe um e-mail para jc@thebeatles.com.br e ajude-nos a completar essa lista!


BEATLES

We Love The Beatles - Vernon Girls/Carefrees/Pebbles
Letter To The Beatles - Four Preps/Picasso Trio
Nur Keine Beatles Frisur - Gerd Bottcher
Beatles - Alan Gordon The Extragordonary Banda
Pop Hates The Beatles - Allan Sherman
Introducing The Beatles To Monkey Land - Del Randle
I'm Better Than The Beatles - Brad Bernich
Something About The Beatles - Stackridge
Beatles Memory - Philippe Chatel/Polad Bol-Bool Ogly
The Beatles Thing - Moran
Chasing The Beatles - Hindu Rodeo
The Beatles - Gary Burton Quartet
The Beatles Revival Song - Beatles Revival Band
The Beatles Pledge Of Allegiance - David Peel and the Apple Band
We Wew Listen To The Beatles - Karnaval
Addressing To The Photo Of The Beatles - Scret
The Beatles Barber - Scott Douglas
Welcome Beatles - Lil' Sally and the Venturas
Saga Of The Beatles - Johnny and the Hurricanes
Beatles - Los Modulos/Daniel johnston
Bring Back The Beatles - David Peel
The Beatles - Peggy March/Donne Lynn
The Beatles Got To Go - Keith & Ken
Wie Die Beatles Tragt Mein Bobby Seine Haare - Nichi & Nero
El Blue De Los Beatles - Santo & Johnny
Beatles Hymn - Pat & Tina Starr
Roll Over Beatles - Peter belli
I Dreamed I Was A Beatle - Runaway Kellum
Yoko Killed The Beatles - Juvenocrazy
Get Back Beatles - Gerard Kenny
The Beatles Song - Japanese Beatles
Bring Back My Beatles (To Me) - Bonnie Brooks
Beatles Please Come Back - Grig Parker
Beatles - Karel Gott/Forbes
I Want The Beatles For Christmas - Jackie & Jill
Beatles/Best Ex-Beatles - Charlie
El Stomp De Los Beatles - Santo & Johnnhy
Come Back Beatles - Lipstick
Christmas With The Beatles - Judy and the Duets
Beatles Song - Sense Field
Beatles, Rolling Stones e Bob Dylan - Elio e la storie Tese
The Beatles March (A Funeral Dirge) - Eddie Addison
Turn On The Beatles Loud! - Deti
We Love You, Beatles - Sweet Sixteen
Beatlesque - Richard Orange
The Beatles Are Coming! - Joycee Germain
The Beatles Move - Manchesters
The Beatles Is Back - Lenore King
Ban The Beatles - Matt McGuinn
Bigger Than The Beatles - Joe Diffie
Je Beatles En De Buren - Alda
About The Beatles - Slovesnik
Beatles, You Bug Me - Bug Men
C'Era Un Ragazzo Che Come Me Amava i Beatles e I Rolling Stones - Gianni Morandi
Nosso abraço Aos Beatles e aos Rolling Stones - Incríveis
Chiedi Chi Erano I Beatles - Lucio Dalla e Gianni Morandi
História dos Beatles - Ministars
Beatles And Stones - House Of Love
Era Um Garoto Que, Como Eu, Amava Os Beatles e Os Rolling Stones - Engenheiros/Incríveis
Ode To The Beatles - Quarteto 1111
The Beatles Tune (Tomorrow Never Knows) - David Lee Roth
The Beatles - Edwyn Collins
Beatles Forever - Electric Ligh Orchestra
When The Beatles Hit America - John Wesley Harding
Jesus And The Beatles - William Pears
Beatles Reunion Blues - Mike Scott
Saudade dos Beatles - Zezé di Carmargo & Luciano
My Ladybug Stay Away From The Beatles - Dean taylor

"BEATLE" (singular)

Quiero Ser Beatle - Andres Pajares
Apple Beatle Foursome - David Peel
Little Beatle Boy - Angels
Beatle Crazy - Bill Clifton
All I Want For Christmas Is A Beatle - Dora Bryan
I Ain't No Beatle - Gary/Sarders/Jack White
My Gurl's Been Bitten By The Beatle Song - Annie and the Orphans
Beatle Blues - Scramblers
Mein Beatle baby - Flamingo
Beatle Bones 'N' Smoking Stones - Captain Beefhart
I Want To Be A Beatle - Bobby Wilding/Gene Cornish
Bring Me A Beatle For Christmas - Cindy Mella
The Beatle Flying Saucer - Ed Solomon
We Wanna Marry A Beatle - Carol Connors
Through The Eyes Of A Beatle - Frost
I Dreamed I Was A Beatle - Murry Kellum
Beatle Maniacs - Ray Ruff
The Boy With The Beatle Haircut - Swans
Beatle Bouce - Bobby Comstock
A Beatle I Want To be - Sonny Curtis
A Beatle Meets A Ladybug - Paula Lemmont
Beatle Tribute - Billy Preston
Beatle Rap - Qworymen
My Boyfriend Got A Beatle Haircut - Donna Lynn
No Bed For Beatle John - Yoko Ono
Are You A Beatle Or A Rolling Stone? - Delaney and Bonnie
Discobeatlemania - DBM
Beatle Stomp - Bob Moline
Beatle Walk - Dave Hamilton
Beatle Fine - Murray The K
Ballad For A Beatle - Sonny Curtis
Beatle City - Don Woods

BEATLEMANIA

Beatlemania - Jack Nitzsche
Beatlemania - Newfast Automatic Daffodils
Beatlemania Blues - Roaches
Beatlemania - Erasmo Carlos

PAUL MCCARTNEY

Abrace Paul McCartney por Mim - Joyce
Johnny McCartney - Leno
I'm Old As Paul McCartney - Mike Berry
Paul McCartney - Tony Hazzard
Et Paul Chantait Yesterday - Michel Delpech
Saint Paul - Terry Kurpest
A Letter To Paul - Tracy Steel
Mr. Paul McCartney - Marianne Rosenberg
Paul McCartney Is Going To See Us - Deti
Hello, Paul! - Valery Yarushin
So Long, Paul - Werbley Finster (Jose Feliciano)
Ballad Of Paul - Mystery Tour
The Ballad Of James Paul McCartney - David Peel
Brother Paul - Billy Shears and the All-Americans

LINDA MCCARTNEY

Linda - Jan and Dean
Lovely Linda - Paul McCartney

JOHN LENNON

Requiem (In Memory Of John Lennon) - Avtograf
If Lennon Were Alive - Dr. Bajan & Brain Drain
To Mr. Lennon - Ruja
Life Is Real (Song For Lennon) - Queen
John Lennon Is Watching Me & You - Back Pack
Keep John Lennon In America - David Peel
Wish We Had lennon - Libido Slaves
The Brain Of John lennon - Toxico
Rest In Peace, John Lennon - Juan Hernandez
Who Killed John Lennon - Ellis Paul
John Lennon's Guitar - Barclay james Harvest
John Lennon - Hamell On Trial
Tell Me, My Friend (In Memory Of John Lennon) - Mashina Vremeni
The Immigrant (Dedicated To John Lennon) - Neil Sedaka
John Lennon Is Tired - Blue Whale
John Winston (Lennon) - Quarrymen
I Just Shot John Lennon - Cranberries
Las Gafas de Lennon - Pedro Guerra
Comentário a Respeito de John - Belchior
Como Queria John Lennon - Banda Black Rio
Eu Queria Ser John Lennon - Odair José
Pra John - Tunai
Pro John - Ney Matogrosso
Brother John - Rosa Maria

YOKO

Dear Yoko - John Lennon
Yoko - Tony Hatch
Oh Yoko - John Lennon
Yoko Killed The Beatles - Juvenocracy
Be My Yoko Ono - Barenaked Ladies
I Won't Be Your Yoko Ono - Dar Williams
Naquela Noite com Yoko - Simone
Yoko Ono - Rita Lee

RINGO STARR

You Can't Go Far Without A Guitar (Unless You're Ringo Starr) - Neil Sheppard
Ringo Ringo Little Star - Al Fisher and Lou Marks
Ringo Bells - Three Blond Mice
Like Ringo - Dick Lord
Ringo Comes To Town - Chug and Doug
Ringo's Beat - Ella Fitzgerald
What's Wrong With Ringo - Bom Bons
Ringo For President - Rolf Harris/Young World Singers
Santa Bring Me Ringo - Christine Hunter
Go Go With Ringo - Whippets
Ringo Ringo - Darlene Terri
Ringo Is God Is Acid - Steve Dirkx
Twinkle Ywinkle Ringo Starr - James Kochalka Superstar
(Thought I Feel Like) Ringo Starr - Badger
Treat Him Tender Maureen (Now That Ringo Belongs To You) - Angie and the Chicklettes
My Friend Ringo - Young Frash Fellows
There's No More Ringo Starr - Harry Nilsson
Ringo - Weekends/Car and the Haircuts/Starlettes
Ringo Did It - Veronica Lee
A Tribute To Ringo Starr - Larry Finegan
Ringo Boy - Dorie Peyton
Ringo I Love You - Bonnie Jo Mason (Cher)/Stereo Total
Ringo's Theme - George Martin
Total Ringo - Happy Mondays
R (Is For Ringo) - Tina Ferrer
My Ringo - Rainbows
Ringo And The Boys - Comedian Slovene
Ringo-Deer - Garry Ferrier
Like Ringo - Dick Lord

GEORGE HARRISON

George Harrison - Udi Subudi
Preciso De Ti (No Dia da Morte de George Harrison) - Fernando Tordo

OUTROS

The Ballad Of John And Yoko - Beatles/Teenage Fan Club/Percy Faith/Love/ Hootie & the Blowfish/Persuasions/Dave Edmunds
Between John And Yoko - Easy
Julia - Beatles
Don't Worry Kyoko - Plastic Ono Band
John, Paul, George & Ringo - Bulldogs
Para Milton, Lennon e McCartney - Lula Barboza
Paul, George, John & Ringo (All The Way To The Bank) - Al Fisher and Lou Marks
The Beatles - John, Paul, George Und Ringo - Peggy March
John, George, Ringo & Paul - Liverpool Express
Para Lennon e McCartney - Simone/Milton Nascimento/Affonsinho/Friends From Rio/Elis Regina
Let John And Yoko Stay In The USA - Justice Department
In The Sky - John Lennon

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Blue Jay Way - A rua que inspirou George existe mesmo!


"There's a fog upon LA...."

Estas palavras lembram alguma coisa? Claro, a música "Blue Jay Way", de George Harrison, sobre uma avenida de Los Angeles chamada... Blue Jay Way! No dia 01 de agosto de 1967, George estava em uma casa - na verdade, uma bela mansão - alugada exatamente nesta rua. Ele tocava um órgão e ia compondo uma música de melodia meio oriental, enquanto esperava pelo amigo e relações-públicas dos Beatles, Derek Taylor, que demorava demais por ter se perdido no trajeto. Pouco depois, ela se tornava uma das músicas do disco e filme Magical Mystery Tour.

A história começou quando Brian Epstein telefonou para um empresário de Los Angeles, Robert Fitzpatrick, solicitando uma casa para George, enquanto ele estivesse fazendo uma visita à cidade. Este conseguiu persuadir o amigo Ludwig Gerber a alugar sua casa na Blue Jay Way 1400 ao ex-beatle, enquanto ele, Ludwig, viajava ao Hawaii. O Sr. Gerber, proprietário da casa, já falecido, teve uma vida movimentada: foi coronel do Exército Americano na II Grande Guerra, empresário da cantora Peggy Lee e produtor de cinema. Comprou a casa assim que entrou para o mundo do cinema, localizada em um lugar realmente difícil de achar - por serem muitas e longas alamedas, muito parecidas umas com as outras - e, de fato, uma área com muita neblina ("fog"). Fica no caminho para Hollywood Hills (aquelas famosas colinas com o logotipo "HOLLYWOOD"), pertinho da Sunset Strip e do clube Whisky A Go Go.

Alguns anos depois, já nos anos 70, Ludwig Gerber passou por aperto financeiro e vendeu a propriedade por um bom valor, certamente devendo a ótima cotação à história com George, conforme ele contou em uma entrevista: "eu cheguei a responder dezenas de vezes sobre essa história com o George. As pessoas me perguntavam até detalhes sobre como a música foi composta, como se eu tivesse lá, ao lado dele naquela hora, sendo que nunca encontrei o George pessoalmente. Muitos pediam para entrar e conhecer a casa. Infelizmente tive que vendê-la, mas o preço foi bom, cerca de 2 milhões de dólares".

Frente da casa

Curiosidades

Outro astro que passou um tempo nessa casa foi Paul Simon, pouco depois do George. Lá, ele escreveu os dois primeiros versos de sua obra-prima "Bridge Over Troubled Water", bem como a música "Cecilia" (que além de composta, também foi gravada lá).

Por incrível que pareça, ao chegar à casa, George já encontrou o tal órgão preto e branco onde compôs "Blue Jay Way". Ele não sabia tocar bem o instrumento, mas o suficiente para criar aquela estranha melodia indiana, bem curtinha, que seguiu por toda a música, enquanto ele improvisava a letra.

Como chegar à Blue Jay Way? É fácil: ao chegar em Los Angeles, é só pegar a rota de Sunset Strip e seguir até Hollywood Hills. Nessa região, hoje em dia, qualquer taxista sabe o caminho exato e toda a historinha que você acabou de ler. Vale o ditado "quem tem boca vai a Roma".

Por José Carlos Almeida.

Área interna da casa

O órgão onde foi composta a música
 
Mapa de Los Angeles

sábado, 1 de outubro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: A primeira Rickenbacker 360/12


No último trimestre de 1963 Francis Hall, proprietário e presidente da Rickenbacker, começou a receber informações sobre uma banda de muito sucesso na Inglaterra, da qual ele nunca tinha ouvido falar. Os Beatles iriam visitar os EUA no ano seguinte e a Capitol Records orquestrava uma campanha na mídia para preparar a América para a sua chegada.

Harold Buckner, um dos representantes de venda da companhia, foi o primeiro a chamar sua atenção. Logo depois, Roy Morris - sócio da distribuidora de instrumentos musicais londrina Rose-Morris e interessado na distribuição da Rickenbacker no Reino Unido - também mandou uma carta para Hall na qual anexou um recorte de jornal com uma foto da banda tocando nas suas Rickenbackers 325 e 425. Pedia amostras dos dois modelos.

Francis Hall enxergou uma oportunidade aí e, através de informações obtidas com Roy Morris, entrou em contato com Brian Epstein e conseguiu marcar uma reunião com os Beatles em New York na semana de sua primeira aparição no Ed Sullivan Show, em fevereiro. Hall tinha noção da importância dessa reunião tanto que escreveu para Harold Brucker confirmando que conseguira marcá-la e pedindo enfaticamente para que ele não comentasse com ninguém, pois não queria que a concorrência soubesse que ele estaria em New York na mesma época que a banda.


Os equipamentos da marca estavam disponíveis a partir de 7 de janeiro numa suíte do Hotel Savoy Hilton e, além das guitarras, incluiam os amplificadores "B-16" para baixo, "B-22D" para guitarra e um recente desenvolvimento - uma câmara de eco usando um princípio eletrostático patenteado. Apesar de testados, os equipamentos eletrônicos não seriam usados pela banda devido ao acordo com a Jennings para o uso exclusivo dos amplificadores Vox.

No dia 8 de fevereiro, após ensaios para o Ed Sullivan Show, Brian Epstein, John Lennon, Paul McCartney e Ringo Starr apareceram. George Harrison tinha ficado em sua suíte do Hotel Plaza, isolado do grupo por estar com gripe. John testou alguns instrumentos, entre eles a nova guitarra de 12 cordas. Achando-a muito interessante, disse que gostaria que George a visse e se eles se importariam de levá-la até ele no outro hotel. Eles atravessaram o Central Park e lá estava George em sua suíte, ouvindo ao rádio. Hall desempacotou a 360/12 e Harrison a dedilhou por uns instantes. Logo em seguida o telefone tocou e era a sua irmã, Louise, que dava uma entrevista à estação WDGY de Minneapolis e havia ligado a pedido do DJ pra saber como ele estava se sentindo. Ao ser perguntado o que estava fazendo, respondeu: "Estou dedilhando uma guitarra de 12 cordas". O interlocutor então perguntou se ele estava gostando e ele respondeu: "Sim, é uma Rickenbacker!". O DJ então ofereceu o instrumento como um presente. Mas Francis Hall já tinha decidido presentear George com a guitarra e assim o fez.

O instrumento

A guitarra de George foi fabricada em dezembro de 1963. Foi a segunda a ser feita e foi pintada num "sunburst" avermelhado chamado de "Fireglo", tinha filetes brancos na frente e atrás do corpo, marcações triangulares em madrepérola, escudo duplo branco e knobs pretos pequenos.

A característica mais marcante e inovadora desse modelo é a distribuição das tarraxas.


As guitarras de 12 cordas normalmente têm as doze tarraxas distribuídas seis de cada lado do headstock, que tem que ser alongado para acolhê-las. Isso além de quebrar o equilíbrio da guitarra também torna a afinação um pouco confusa, já que muitas vezes estamos tentando afinar uma corda e girando a tarraxa de outra. A Rickenbacker visualizou uma maneira muito criativa de dispô-las juntando o modo de colocação das tarraxas do violão clássico com o do violão de aço. Isso simplificava muito a afinação e equilibrava física e esteticamente o instrumento.

Mas algo não funcionava bem.


O primeiro instrumento foi encordoado da maneira tradicional, com a corda oitavada acima da corda normal. Dessa maneira, as tarraxas que normalmente afinavam as cordas normais estavam afinando as cordas oitavadas - o que tornava tudo confuso. A solução foi inverter tudo, colocando a corda oitavada abaixo da normal, o que foi feito na segunda guitarra - aquela que foi dada a George. Era criado o encordoamento reverso, que levou a um instrumento com timbre único e que é uma das características mais marcantes da música dos anos 60.

A guitarra foi usada praticamente em todo ano de 1964 - ao vivo e no estúdio - na fase do disco A Hard Day's Night. A primeira música a ser gravada com ela foi "You Can't Do That", seguida de "I Should Have Known Better". A última foi "Ticket To Ride". Depois dessas, nas canções gravadas com guitarra de doze cordas, foi utilizada outra Rickenbacker 360/12, comprada em 1965. Na carreira solo, George usou a sua primeira Rickenbacker na gravação de "Fish On The Sand" no álbum Cloud Nine.

A guitarra pertence até hoje ao espólio de George Harrison e pôde ser vista exposta no palco no magnífico "Concert For George".

Especificações Originais

Número de série: 
CM 107

Ano de fabricação: 
1963

Cor: 
Fireglo

Escudo: 
Duplo, branco

Corpo: 
Maple, semi sólido

Braço: 
Maple, laminado

Escala: 
Rosewood, 628mm

Marcadores de posição: 
Triangulos de madrepérola

Tarraxas: 
Kluson, não seladas

Captadores: 
2 Single coil estilo "toaster" (torradeira)

Controles: 
Chave seletora de três posições, 2 controles de volume, 2 controles de tom e 1 "blend"

Saídas: 
Standard (mono) e Rick-o-Sound (stereo)

Ponte: 
Rickenbacker

Cordal: 
Chapa estampada

Knobs: 
Pretos, pequenos

Preço de tabela: 
US$ 524,50 (aprox. US$ 3.300,00 hoje)

Por Carlos Assale

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A história definitiva do plágio de My Sweet Lord


My Sweet Lord tornou-se um clássico tão logo chegou às paradas de sucessos e lojas de discos pelo planeta. Não por acaso. Seu arranjo simples, vigoroso e envolvente, aliado à mensagem pacifista e divina que transmite, arrebatou um mundo que estava assistindo o final de um doce sonho.

A canção chegou num momento em que as lágrimas teimavam em não secar. Chorávamos o fim de Jimmy Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin, ao mesmo tempo em que lamentávamos o the end da maior de todas as bandas, Os Beatles. Estaria o Rock and Roll também nos estertores, indagavam os pessimistas?

My Sweet Lord veio como uma resposta e um lamento. A inspiração chegou para George Harrison ao ouvir atentamente o trabalho do grupo Edwin Hawkins Singers para "Oh! Happy Day". Naquela composição o ponto central estava nos vocais gospel. George foi compondo ao seu estilo, munido de um violão. Com a letra alinhavada, passou a avaliar como o mundo receberia uma canção que falasse de Deus. Temia reações negativas, sobretudo porque jamais compunha voltado para esse tema.

O que o instigava era a necessidade de levar aquilo em que acreditava, para seu público. Harrison sabia que quando "My Sweet Lord" chegasse ao mercado, modificaria algo em sua carreira. Estava certíssimo.

Quando o trabalho de estúdio iniciou, George Harrison alterou a letra original – que falava só em "aleluia." O ex-beatle incluiu o termo "hare krishna" por acreditar que ambas expressões tinham o mesmo significado. O produtor Phill Spector e os músicos que participaram da gravação disseram a George que aquele seria um hit mundial. Embora também pensasse dessa forma, George Harrison foi desapegado o suficiente, à ponto de entregar seu maior êxito da carreira-solo para Billy Preston. E Preston, por incrível que pareça, lançou My Sweet Lord antes dele! Felizmente para George, nada aconteceu com o compacto editado por Billy Preston, que fez uma versão equivocada da grande composição.

Quando a faixa ganhou execução nas emissoras de rádio, o êxito foi esse que conhecemos. Sucesso em todo o mundo, número 1 em dezenas de países, a grande alavanca de vendas do super-álbum triplo All Things Must Pass.

Não demorou porém, o início do drama paralelo à maciça aceitação de My Sweet Lord. A cabeça de George Harrison passou a ser martelada com informações que partiram inicialmente de amigos, e – depois – ganhou a mídia: a famosa composição, era plágio. E era mesmo.

"He's So Fine" entra em cena

He's So Fine é uma composição de 1963, do compositor Ronnie Mack - já falecido - e gravada pelo grupo negro americano The Chiffons. Ninguém deve sentir-se mal por não conhecê-la. A faixa não foi um hit e, curiosamente, ganhou até mais fama e execução depois da acusação de plágio envolvendo "My Sweet Lord". Os direitos autorais pertenciam à Bright Tunes Editora.

The Chiffons 

Nem de longe se pode comparar "He's So Fine" com "My Sweet Lord", portanto, em termos de qualidade da composição. George sentiu o drama ao escutar. Compreendeu com clareza que havia copiado algumas notas da canção dos Chiffons e percebeu que teria problemas. Sobretudo considerando o êxito que "My Sweet Lord" atingira. O caso ganhou repercussão e a Editora Bright Tunes entrou com ação na justiça. George veio à público e defendeu-se. Admitia o plágio, embora julgasse que o mesmo não era intencional. Penitenciou-se em programas de rádio e TV, alegando que – se mais atento – teria promovido pequenas modificações no arranjo, o que evitaria as comparações. E complicações.

George também explicava que "My Sweet Lord" era uma western song que adaptava para o popular o Maha Mantra, cântico sagrado que ele costumava entoar em suas meditações. Em 07 de setembro de 1976 aconteceu o desenlace em torno do caso. Irritadíssimo, George Harrison precisou ir à corte defender-se das acusações de plágio. Em seu livro I Me Mine ele revela sarcasticamente que o juiz que cuidou do caso dividiu a questão em dois pedaços: "Motif A" and "Motif B". O tal "Motivo A" indicava plágio nas notas iniciais e no trecho onde canta "my sweet Lord...". O "Motivo B" apontava plágio em cerca de cinco notas do trecho em que canta "really want to see you...".

George conta que cansou de ouvir no tribunal repetidas vezes as gravações de "My Sweet Lord" e "He's So Fine" para comparações. Em sua defesa o ex-beatle chegou a dizer ao juiz que 99% da música popular vinha de uma ou outra nota ou acorde que já havia sido criado. Não adiantou nada e ele foi condenado por plágio não consciente. Valor da indenização: 587 mil dólares. George recorreu para não pagar e o caso estendeu-se por anos, nos tribunais. Todas as batalhas foram perdidas e em 26 de fevereiro de 1981 – quase dez anos após o lançamento de My Sweet Lord, a indenização foi finalmente paga.

Onde Allen Klein entra na jogada

Não passa de lenda a afirmação de que Allen Klein sabia do plágio de "My Sweet Lord" e que teria enganado George Harrison de maneira vil. É igualmente inverídica a história de que Harrison teria pedido a Klein que verificasse sua suspeita de que outra composição com aqueles acordes havia sido feita antes. Mas Allen Klein efetivamente participou do episódio, ainda que por caminhos acidentais.

O ex-empresário dos Beatles já era uma figura queimadíssima no showbiz e diante dos Fab Four em 1980. Havia até passado uma temporada na cadeia por sonegação de impostos e respondia uma penca de processos na justiça – alguns dos quais movidos pelos quatro Beatles. Em 1980 porém, a empresa de Allen Klein, ABKCO, comprou a quase falída editora Bright Tunes, detentora dos direitos de "He's So Fine".

Em 26 de fevereiro de 1981, quando George Harrison pagou a indenização de 587 mil dólares da condenação por plágio contra "My Sweet Lord", quem recebeu a grana – ironicamente ou não – foi Allen Klein! E, detalhe, não havia mais nada que George pudesse fazer, já que legalmente a Bright Tunes havia sido adquirida pela ABKCO. Há mais: o caso teve muitas idas e vindas até novembro de 1990, quando finalmente foi encerrado pelo juiz da corte federal americana, Richard Owen. Ele definiu que George Harrison ficaria com os direitos autorais de "My Sweet Lord" assegurados para execução e vendagem nos EUA, Reino Unido e Canadá. Allen Klein permaneceria com os direitos de "He's So Fine" e sem poder de intervenção contra George Harrison nos países citados.

Decidiu finalmente que Harrison teria de pagar royalties à ABKCO do senhor Allen Klein no valor de 270.020 dólares, como indenização simbólica pelas execuções de "My Sweet Lord" ao longo do processo por plágio, fora do Reino Unido, EUA e Canadá. Ambas as partes aceitaram o veredicto e o assunto encerrou-se com perda financeira de 857.000 mil dólares para George Harrison, no total. E o ônus da acusação de plágio que rola até hoje.

Os porquês de My Sweet Lord 2000

Na histórica entrevista à Playboy em 1980, John Lennon falou do plágio de My Sweet Lord e criticou George. Para John, pequenas mudanças no arranjo teriam resolvido o problema. Estava certo. E George sempre martelou a própria cabeça com essa idéia. Tanto que reouvindo as fitas de All Things Must Pass durante o processo de remasterização do álbum, o ex-beatle achou que estava na hora de acertar as contas com um erro do passado. Iniciou os trabalhos de rearranjo para "My Sweet Lord" na brincadeira. Imaginava que podia fazer uma slide guitar melhor que na versão original, por exemplo. Mas o que o moveu foi a retirada dos acordes que resultaram em sua condenação por plágio.

Basicamente é por isso que existe My Sweet Lord 2000. Aos músicos de plantão no site, segue a informação de que George Harrison retirou acorde por acorde plagiado de "He's So Fine" na versão que aparece como bônus em All Things Must Pass. George teve tempo de comentar esse assunto no último disco que gravou em vida, o CD promocional A Conversation, feito no dia 15 de fevereiro de 2001 para a Capitol americana. Espero que as dúvidas em torno da questão fiquem definitivamente dissipadas. Até porque "My Sweet Lord" continua bela e eterna, apesar da passagem dos anos.

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com






terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Gretsch Duo Jet


"Minha primeira boa guitarra foi a Gretsch Duo Jet. Não era fácil conseguir uma guitarra americana em Liverpool em 1960 por causa da severa deficiência no suprimento e, mais importante ainda naqueles tempos, insuficiência de dinheiro. Um dia, numa edição do Liverpool Echo, vi um anúncio na seção For Sale onde um marinheiro, que a tinha comprado na América, a colocou à venda.

Só Deus sabe como consegui juntar 75 libras economizando o que eu estava começando a ganhar tocando... parecia uma fortuna! Me lembro de ter o dinheiro no bolso e pensar 'Espero que ninguém me assalte!'. Corri ao endereço indicado no anúncio e voltei pra casa como um muito satisfeito proprietário de uma Gretsch. Foi minha primeira guitarra americana de verdade e eu te digo - era realmente de segunda-mão, mas eu a poli direitinho. Estava muito orgulhoso de tê-la." - George Harrison

Era 1961. George acabara de comprar uma Gretsch 6128 "Duo Jet" de 1957. Usou essa bela e robusta guitarra nos primeiros singles, nas sessões do Please, Please Me e em inúmeros shows em Hamburgo, no Cavern, no Casbah e por concertos pela Inglaterra até meados de 1963. Depois disso ela ainda foi levada em excursões pela Europa e América como back-up.

Depois daquelas turnês a guitarra foi presenteada a Klaus Voormann, que trocou um captador e ficou com ela por mais ou menos 20 anos, quando a devolveu a George. Em 1986 ou 1987 ela foi levada ao luthier Roger Giffin para um trabalho de reabilitação. Toda a fiação foi refeita e dois captadores DeArmond iguais aos originais foram colocados. George voltou a usá-la em 1987 nas gravações de Cloud Nine, com a qual aparece na foto da capa.


Especificações

Número de série:
21179

Cor:
Preta.

Escudo:
Prata.

Corpo:
Mogno semi-sólido (oco), com "top" arqueado em maple.

Braço:
Mogno.

Escala:
Jacarandá da Bahia (mesmo!), 628mm.

Marcadores de posição:
Retangulares com uma corcova, em celulóide imitando madrepérola (característica única das Duo Jet de 1957).

Filetes:
Branco e preto no corpo, braço e paleta (mão).

Tarraxas:
Grover StaTite.

Captadores:
 Dois DeArmond Dynasonics.

Controles:
Volume para cada captador, tom, volume master e chave de seleção de 3 posições.

Ponte (cavalete):
Barra contínua (Não original).

Tremolo:
Bigsby com recorte em V (Não original).

Knobs:
Metálicos, marcados com um "G" atravessado por uma flecha (introduzidos em 1957).

Por Carlos Assale

domingo, 25 de setembro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Resonet Futurama


Em 1959 o embargo britânico sobre produtos americanos ainda vigorava e marcas como Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker eram impossíveis de se conseguir no Reino Unido. A maioria dos jovens guitarristas sonhava com instrumentos inalcançáveis. George Harrison, na adolescência, sonhava acordado com guitarras, desenhando-as nos cadernos da escola e estudando as capas dos discos de seus ídolos.

A Futurama era o mais próximo que, nessa época, na Grã Bretanha, um guitarrista conseguiria chegar da mais desejada guitarra da época: a Fender Stratocaster. Desde 1958 os guitarristas britânicos estiveram olhando a capa de um disco de Buddy Holly cobiçando a guitarra brilhante, futurista, com três captadores, que aparecia nela. George Harrison era um deles.

"Se fosse do jeito que eu queria, a "Strat" (Fender Stratocaster) teria sido a minha primeira guitarra. Eu tinha visto a Strat de Buddy Holly na capa dp álbum "Chirping Crickets" e tentei achar uma. Mas em Liverpool, nesses dias, a única coisa que pude encontrar que lembrasse uma Strat foi uma Futurama. Era muito difícil de tocar, as cordas ficavam a mais ou menos meia polegada da escala. Mas apesar disso ela realmente parecia algo futurista", disse George.

Em 20 de novembro de 1959, George Harrison e Paul McCartney foram à loja de instrumentos de Frank Hessy.

"Paul estava comigo quando comprei a Futurama. Ela estava pendurada na parede com todas as outras guitarras e Paul a plugou num amplificador mas nenhum som saiu dela. Então aumentou o volume do amplificador ao máximo. A guitarra tinha três chaves oscilantes e quando acionei uma delas um poderoso "boom" saiu do amplificador e todas as outras guitarras caíram da parede. Minha mãe assinou a compra a prazo por mim, o que significava uma libra agora e o resto quando te pegarem".

A Cooperativa Drevokov

Anos antes, em 1953, em Blatna, Checoslováquia, hoje República Checa, a Cooperativa Drevokov - uma empresa estatal especializada em produzir lambris, móveis, cabides e outros produtos de madeira - recebia um novo gerente: Josef Ruzicka, um homem com inclinações musicais. Por sua decisão a companhia começou a experimentar a produção de instrumentos musicais e em 1954 ele e o designer Vlcek lançaram o primeiro instrumento elétrico da empresa. Era uma guitarra estilo havaiana que ostentava a marca "Resonet". O modelo era chamado de "Akord" e a "Resonet Akord" marcou o início da manufatura de guitarras elétricas na Checoslováquia.

Resonet foi o nome que a Drevokov usou para todos os seus instrumentos elétricos. Apesar de ainda fazerem confusão não existe uma empresa Resonet, esse nome é só uma marca. No cartão de garantia havia a frase: "Resonet: a marca dos primeiros instrumentos eletrofônicos checoslovacos".

A Resonet Grazioso 

A Resonet Akord se mostrou muito popular e no ano seguinte a Drevokov decidiu fabricar uma guitarra elétrica, instrumento que se popularizava rapidamente. A inspiração para esse projeto foi uma Fender Stratocaster 1955 trazida dos EUA. Entretanto, ao invés de copiá-la, eles a examinaram cuidadosamente e a redesenharam completamente. De fato, várias funções da Stratocaster foram aperfeiçoadas, particularmente a parte elétrica e o trêmolo.

A nova Resonet tinha interruptores oscilantes para a seleção de captadores que permitiam sete combinações (oito se considerarmos a guitarra sem emitir som) ou seja, sete timbres diferentes. Isso estava muito à frente da Stratocaster, que naquela época só permitia três. Ela também tinha um controle de tom "master", que atuava em todos os captadores - a Stratocaster não tinha um controle desses para o captador da ponte. A pestana era uma peça totalmente inovadora integrando as guias e o apoio das cordas. Esse sitema foi muito usado por luthiers independentes nos anos 80 e ainda é utilizado por alguns. Os captadores tinham polos com ajustes individuais que não existiam na Stratocaster. O suporte do jack de saída era praticamente idêntico ao do instrumento da Fender.


O trêmolo foi um projeto totalmente novo e tornou-se um mecanismo muito sofisticado. Nada disponível no mundo se aproximava da excelência da engenharia desse dispositivo. Muito mais avançado que o da Fender, pivotava em dois pilares - como seriam os Floyd Rose bem mais tarde - e tinha seis molas individualmente ajustáveis, uma para cada corda.


Detalhes do trêmolo

Uma diferença evidente estava na paleta, que abrigava tarraxas no estilo de violão clássico, com pinos grossos, distribuídas no formato "3+3" ao contrário das da Stratocaster que eram de pino fino e distribuidas no formato "6-em-linha". As maiores similaridades maior estão na forma de construção do braço em uma só peça, sem uma escala em separado e na cor escolhida para seu acabamento.

Apesar de serem encontrados instrumentos pintados em cores sólidas como preto e vermelho, a grande maioria teve o corpo pintado em sunburst de dois tons com os braços em acabamento natural, uma combinação tradicional da Stratocaster. Ao modelo foi dado o nome de "Grazioso" e ele se tornou um grande sucesso, ganhando até uma medalha de ouro na "Expo 1958" em Bruxelas.

A Resonet Futurama 

No final de 1957 a Drevokov assinou um contrato com a Selmer para distribuição de seus produtos na Grã Bretanha. As primeiras peças chegaram ostentando o nome "Grazioso" na paleta, mas isso logo se mostrou inadequado mercadologicamente. Logo depois a Selmer as rebatizou de Futurama e elas começaram a chegar sem nenhum nome inscrito na paleta, vinham apenas com o logo "Resonet" no escudo. Só instrumentos sunburst foram importados. Pelas novidades que apresentava, a Selmer as promovia como "A Mais Avançada Guitarra Elétrica Do Mundo", o que não fugia muito da verdade na época.

Era uma Futurama dessa primeira versão que George Harrison usava.

Apesar de George reclamar da dificuldade em tocá-la, tudo indica que ela não era um mau instrumento e com certeza era um instrumento muito moderno para os padrões disponíveis na Grã Bretanha na época. Ela era vendida por £57.75 (aprox. £1030 hoje), incluindo uma correia. Um case custava mais £6.30. Isso fazia da Futurama um instrumento muito caro numa época que um Hofner Club 40 custava £33.60 e uma Rosetti Solid 7 £18.90. Mais tarde a Futurama foi comercializada como uma linha mais econômica, mas as primeiras certamente se colocavam na faixa mais alta. Muitos guitarristas influentes da época usavam uma, entre eles Gerry Marsden do Gerry and the Pacemakers e o jovem Jimmy Page, que trocou sua Hofner Senator por uma Grazioso quando suas habilidades guitarrísticas começaram a melhorar. E é fato que quase todas as bandas da Grã Bretanha tinham uma Futurama entre seus intrumentos no início dos anos 60. Larry Wassgren, um colecionador de Wisconsin, EUA, possui uma exatamente igual à de George e conta que ela tem uma excelente sonoridade e é muito confortável de tocar.

George a usou desde o final de novembro de 1959 até a primeira quinzena de julho de 1961 quando comprou a Gretsch Duo Jet. Isso cobre várias apresentações em Liverpool e as duas viagens à Hamburgo. Foi ela que George usou nas gravações em junho de 1961 quando os Beatles acompanharam Tony Sheridan em oito canções, que foram lançadas no LP Tony Sheridan & The Beat Brothers (Os Beatles foram rebatizados por Bert Kaempfert, o produtor do disco, como "The Beat Brothers" porque a palavra "beatles" pronunciada com sotaque germânico soava muito parecida com "peedles" que é uma palavra alemã para "pênis"). Nesse dia os Beatles também gravaram "Ain't She Sweet" e "Cry For A Shadow" na qual se pode ouvir George fazendo o solo com a sua Futurama.

A Drevokov inovadora 

Outros instrumentos Resonet interessantes eram o lap-steel Arioso e o baixo Arco, um baixo elétrico para ser tocado como um contrabaixo acústico de orquestra. A Arioso, introduzida em 1955, tinha um captador com duas bobinas reversas - os tchecos haviam inventado o captador humbucker independentemente de Seth Lover e nem se deram conta disso! Estranhamente ele não foi desenvolvido posteriormente e nunca mais apareceu num instrumento da marca.

O Baixo Arco era um instrumento de concepção inédita na época. Tinha um formato angular, um repouso regulável para o joelho e um controle de volume na traseira do instrumento, para fácil acesso. O baixo Arco também foi importado pela Selmer como o Futurama Bass.

Outro instrumento à frente de seu tempo foi o baixo Pedro VI que aparentemente foi o primeiro baixo de seis cordas a aparecer comercialmente.

A Drevokov até os dias de hoje 

Em 1959 um novo diretor tomou posse na Drevokov, um homem que não se importava muito com música. Josef Ruzicka e sua equipe foram movidos para uma nova fábrica em Hradec Kralove e posteriormente as fábricas em Krnov e Horovice. Agora a produção estavam sob a tutela da estatal CSHN (Instrumentos Musicais Tchecoslovacos) e várias marcas foram utilizadas, como Neoton, Delicia e Jolana. Muitas mudanças foram feitas na Futurama mas sempre no sentido do barateamento de produto, acabando por comprometer sua qualidade. Conta-se uma interessante história: a mudança de braço parafusado por braço colado aconteceu não por uma busca de timbre mas sim porque eles acabaram ficando sem parafusos.

No momento que o embargo aos produtos americanos foi levantado e as Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker ficaram disponíveis na Grã Bretanha, as Futurama foram imediatamente esquecidas. Apesar disso, a fábrica continua produzindo até hoje e há inclusive um modelo Grazioso atualizado. Nos anos 80 eles até fabricaram os modelos Striker e Vanguard para a Kramer.

Hoje, com o crescente entusiasmo com coisas relacionadas aos Beatles, as Futurama têm sido alvo de um maior interesse no mercado "vintage".

Não sei se vai chegar à procura que têm os outros instrumentos mais nobres que os Beatles usaram mas, conhecendo toda a história e as inovações escondidas nela, ficamos com vontade de ter uma Futurama bem ao ao alcance das mãos.

É um capítulo honroso da história da guitarra!

por Carlos Assale