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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

A história definitiva do plágio de My Sweet Lord


My Sweet Lord tornou-se um clássico tão logo chegou às paradas de sucessos e lojas de discos pelo planeta. Não por acaso. Seu arranjo simples, vigoroso e envolvente, aliado à mensagem pacifista e divina que transmite, arrebatou um mundo que estava assistindo o final de um doce sonho.

A canção chegou num momento em que as lágrimas teimavam em não secar. Chorávamos o fim de Jimmy Hendrix, Jim Morrison e Janis Joplin, ao mesmo tempo em que lamentávamos o the end da maior de todas as bandas, Os Beatles. Estaria o Rock and Roll também nos estertores, indagavam os pessimistas?

My Sweet Lord veio como uma resposta e um lamento. A inspiração chegou para George Harrison ao ouvir atentamente o trabalho do grupo Edwin Hawkins Singers para "Oh! Happy Day". Naquela composição o ponto central estava nos vocais gospel. George foi compondo ao seu estilo, munido de um violão. Com a letra alinhavada, passou a avaliar como o mundo receberia uma canção que falasse de Deus. Temia reações negativas, sobretudo porque jamais compunha voltado para esse tema.

O que o instigava era a necessidade de levar aquilo em que acreditava, para seu público. Harrison sabia que quando "My Sweet Lord" chegasse ao mercado, modificaria algo em sua carreira. Estava certíssimo.

Quando o trabalho de estúdio iniciou, George Harrison alterou a letra original – que falava só em "aleluia." O ex-beatle incluiu o termo "hare krishna" por acreditar que ambas expressões tinham o mesmo significado. O produtor Phill Spector e os músicos que participaram da gravação disseram a George que aquele seria um hit mundial. Embora também pensasse dessa forma, George Harrison foi desapegado o suficiente, à ponto de entregar seu maior êxito da carreira-solo para Billy Preston. E Preston, por incrível que pareça, lançou My Sweet Lord antes dele! Felizmente para George, nada aconteceu com o compacto editado por Billy Preston, que fez uma versão equivocada da grande composição.

Quando a faixa ganhou execução nas emissoras de rádio, o êxito foi esse que conhecemos. Sucesso em todo o mundo, número 1 em dezenas de países, a grande alavanca de vendas do super-álbum triplo All Things Must Pass.

Não demorou porém, o início do drama paralelo à maciça aceitação de My Sweet Lord. A cabeça de George Harrison passou a ser martelada com informações que partiram inicialmente de amigos, e – depois – ganhou a mídia: a famosa composição, era plágio. E era mesmo.

"He's So Fine" entra em cena

He's So Fine é uma composição de 1963, do compositor Ronnie Mack - já falecido - e gravada pelo grupo negro americano The Chiffons. Ninguém deve sentir-se mal por não conhecê-la. A faixa não foi um hit e, curiosamente, ganhou até mais fama e execução depois da acusação de plágio envolvendo "My Sweet Lord". Os direitos autorais pertenciam à Bright Tunes Editora.

The Chiffons 

Nem de longe se pode comparar "He's So Fine" com "My Sweet Lord", portanto, em termos de qualidade da composição. George sentiu o drama ao escutar. Compreendeu com clareza que havia copiado algumas notas da canção dos Chiffons e percebeu que teria problemas. Sobretudo considerando o êxito que "My Sweet Lord" atingira. O caso ganhou repercussão e a Editora Bright Tunes entrou com ação na justiça. George veio à público e defendeu-se. Admitia o plágio, embora julgasse que o mesmo não era intencional. Penitenciou-se em programas de rádio e TV, alegando que – se mais atento – teria promovido pequenas modificações no arranjo, o que evitaria as comparações. E complicações.

George também explicava que "My Sweet Lord" era uma western song que adaptava para o popular o Maha Mantra, cântico sagrado que ele costumava entoar em suas meditações. Em 07 de setembro de 1976 aconteceu o desenlace em torno do caso. Irritadíssimo, George Harrison precisou ir à corte defender-se das acusações de plágio. Em seu livro I Me Mine ele revela sarcasticamente que o juiz que cuidou do caso dividiu a questão em dois pedaços: "Motif A" and "Motif B". O tal "Motivo A" indicava plágio nas notas iniciais e no trecho onde canta "my sweet Lord...". O "Motivo B" apontava plágio em cerca de cinco notas do trecho em que canta "really want to see you...".

George conta que cansou de ouvir no tribunal repetidas vezes as gravações de "My Sweet Lord" e "He's So Fine" para comparações. Em sua defesa o ex-beatle chegou a dizer ao juiz que 99% da música popular vinha de uma ou outra nota ou acorde que já havia sido criado. Não adiantou nada e ele foi condenado por plágio não consciente. Valor da indenização: 587 mil dólares. George recorreu para não pagar e o caso estendeu-se por anos, nos tribunais. Todas as batalhas foram perdidas e em 26 de fevereiro de 1981 – quase dez anos após o lançamento de My Sweet Lord, a indenização foi finalmente paga.

Onde Allen Klein entra na jogada

Não passa de lenda a afirmação de que Allen Klein sabia do plágio de "My Sweet Lord" e que teria enganado George Harrison de maneira vil. É igualmente inverídica a história de que Harrison teria pedido a Klein que verificasse sua suspeita de que outra composição com aqueles acordes havia sido feita antes. Mas Allen Klein efetivamente participou do episódio, ainda que por caminhos acidentais.

O ex-empresário dos Beatles já era uma figura queimadíssima no showbiz e diante dos Fab Four em 1980. Havia até passado uma temporada na cadeia por sonegação de impostos e respondia uma penca de processos na justiça – alguns dos quais movidos pelos quatro Beatles. Em 1980 porém, a empresa de Allen Klein, ABKCO, comprou a quase falída editora Bright Tunes, detentora dos direitos de "He's So Fine".

Em 26 de fevereiro de 1981, quando George Harrison pagou a indenização de 587 mil dólares da condenação por plágio contra "My Sweet Lord", quem recebeu a grana – ironicamente ou não – foi Allen Klein! E, detalhe, não havia mais nada que George pudesse fazer, já que legalmente a Bright Tunes havia sido adquirida pela ABKCO. Há mais: o caso teve muitas idas e vindas até novembro de 1990, quando finalmente foi encerrado pelo juiz da corte federal americana, Richard Owen. Ele definiu que George Harrison ficaria com os direitos autorais de "My Sweet Lord" assegurados para execução e vendagem nos EUA, Reino Unido e Canadá. Allen Klein permaneceria com os direitos de "He's So Fine" e sem poder de intervenção contra George Harrison nos países citados.

Decidiu finalmente que Harrison teria de pagar royalties à ABKCO do senhor Allen Klein no valor de 270.020 dólares, como indenização simbólica pelas execuções de "My Sweet Lord" ao longo do processo por plágio, fora do Reino Unido, EUA e Canadá. Ambas as partes aceitaram o veredicto e o assunto encerrou-se com perda financeira de 857.000 mil dólares para George Harrison, no total. E o ônus da acusação de plágio que rola até hoje.

Os porquês de My Sweet Lord 2000

Na histórica entrevista à Playboy em 1980, John Lennon falou do plágio de My Sweet Lord e criticou George. Para John, pequenas mudanças no arranjo teriam resolvido o problema. Estava certo. E George sempre martelou a própria cabeça com essa idéia. Tanto que reouvindo as fitas de All Things Must Pass durante o processo de remasterização do álbum, o ex-beatle achou que estava na hora de acertar as contas com um erro do passado. Iniciou os trabalhos de rearranjo para "My Sweet Lord" na brincadeira. Imaginava que podia fazer uma slide guitar melhor que na versão original, por exemplo. Mas o que o moveu foi a retirada dos acordes que resultaram em sua condenação por plágio.

Basicamente é por isso que existe My Sweet Lord 2000. Aos músicos de plantão no site, segue a informação de que George Harrison retirou acorde por acorde plagiado de "He's So Fine" na versão que aparece como bônus em All Things Must Pass. George teve tempo de comentar esse assunto no último disco que gravou em vida, o CD promocional A Conversation, feito no dia 15 de fevereiro de 2001 para a Capitol americana. Espero que as dúvidas em torno da questão fiquem definitivamente dissipadas. Até porque "My Sweet Lord" continua bela e eterna, apesar da passagem dos anos.

CLÁUDIO TERAN
ccsteran@noolhar.com






quarta-feira, 28 de setembro de 2016

O dia em que George Martin acabou com o Wings


Contrariando o que a grande maioria possa pensar, o Wings não acabou com a prisão de Paul McCartney no Japão em janeiro de 1980. Naquela época, os membros da banda ficaram realmente furiosos e experimentaram a frustração de não ganhar o dinheiro por uma turnê para a qual haviam ensaiado tanto. Os shows no Reino Unido em dezembro de 1979 haviam sido meros ensaios gerais para algo que pretendiam rolar mundo afora em 1980, repetindo o giro global que Paul havia feito entre 1975 e 1976. Denny Laine foi o mais decepcionado com o vacilo dos McCartney, que desembarcaram no aeroporto de Tóquio portando um saco cheio de erva.

Paul ainda estava na cadeia, quando Denny e os demais membros Laurence Juber e Steve Holly voltaram pra Inglaterra juntamente com o restante dos músicos de apoio e a equipe da turnê. Desesperado com a falta do dinheiro que nunca recebeu, e para comprar a casa própria que aquela grana teria lhe garantido, ele resolveu fazer um novo álbum solo. McCartney autorizou que Denny utilizasse três faixas suas que o Wings gravara nos anos 70 e nunca lançara em seus discos, e Denny finalizou com algumas novidades e soltou a bomba: "Japanese Tears", numa forte referência à decepção japonesa.

Ao retornar da prisão, após algumas semanas, McCartney trancou-se na sua fazenda na Escócia e acabou resolvendo fazer um disco ocasional com as demos que havia gravado sozinho no verão de 1979. Originalmente duplo, "McCartney II" trazia as melhores demos de um disco que o Wings certamente teria gravado após a turnê melada pela maconha. Os amigos que haviam escutado as demos de Paul vinham insistindo para que ele as lançasse naquele formato, então ele uniu o útil ao desagradável e soltou o LP. "Coming Up", o primeiro single, já vinha sendo tocada ao vivo pelo Wings e uma versão gravada com a banda em Glasgow ocupou o lado B e chegou a ser melhor trabalhada nas rádios americanas. Naquele verão de 1980, um clip de "Coming Up" com Paul fazendo praticamente todos os papéis numa banda (Linda fez alguns outros) surpreendeu o mundo. "Waterfalls" veio a seguir, numa época em que Paul já tratava de reunir o Wings.

No segundo semestre de 1980, com "Coming Up" estourada mundo afora, McCartney e sua banda reuniram-se num estúdio para ensaiar e também para gravar algumas demos, já pensando na pré-produção do próximo álbum. Mas McCartney também vinha trabalhando, homeopaticamente como sempre, num desenho animado com o personagem Rupert - cujos direitos ele havia adquirido no início dos anos 70, quando inaugurara sua MPL. Paul gravara uma nova demo com o tema "We All Stand Together" e outras pérolas, e chamara o velho amigo e produtor George Martin para produzir a gravação.

Martin, que era um dos grandes amigos de Paul, já havia feito o arranjo e produzido "Live And Let Die" para a trilha de 007 que lhe havia sido incumbida pelos produtores da série (o restante do LP traz orquestrações de Martin e pode ser considerado um disco seu). "We All Stand Together" foi gravada nos últimos dias de outubro de 1980 e, na seqüência, Paul perguntou a Martin se não gostaria de produzir seu novo disco.

Martin foi categórico: "Somente se eu puder realmente produzir, com autonomia até pra escolher 'bons músicos' pra te acompanhar". McCartney entregou-lhe sua demo, que incluía absurdos como "Boil Crisis", e foi pra casa esperar o veredito. Dito e feito, quando McCartney começou a gravar com Martin - em novembro de 1980, faixas que comporiam os LPs "Tug Of War" (82) e "Pipes Of Peace" (83) e uma série de lados B, somente Denny Laine pôde participar. Denny estava presente no estúdio no dia 9 de dezembro, quando a repercussão da morte de Lennon fez com que McCartney mergulhasse ainda mais no trabalho. Àquela altura, Laurence e Steve ainda esperavam ser chamados para as sessões, mas sabiam que tudo ficara meio no ar depois do assassinato do ex-parceiro de seu patrão.

Passado o Natal de 1980, Paul e a família acompanharam Martin e família na viagem que o velho produtor fazia para passar o reveillon e seu aniversário no Caribe. McCartney resolve então continuar as gravações no moderníssimo AIR Studios inaugurado por Martin na Ilha de Montserrat, e convidados ilustres como Stevie Wonder, Ringo Starr, Carl Perkins e o baixista Stanley Clarke são agendados para gravar entre janeiro e fevereiro daquele novo ano de 81. Ali caiu a ficha de Steve e Laurence, que compreenderam que somente Denny estava nos planos de Macca - e tão somente como músico, pois o disco em que vinha trabalhando era um novo álbum solo - dando prosseguimento à nova fase solo, iniciada incidentalmente com "McCartney II". O mundo já sabia que o Wings havia acabado, pelas aparências, mas os dois músicos foram os penúltimos a saberem. Porque o último, como o tempo provou, acabou sendo Denny Laine - o qual, depois de tocar naquelas diversas sessões, encerrou sua ligação com McCartney participando da gravação de "All Those Years Ago", que George Harrison fizera para homenagear Lennon e que contaria com os toques de Paul, Ringo e George Martin, além de Linda e Denny.

O fim do Wings foi anunciado oficialmente no final de abril de 1981. Denny Laine manteve-se calado por mais de dois anos, mas no final de 1983, quando a segunda metade daquele álbum solo de Paul saiu, ele vendeu sua história para um tablóide britânico malhando o ex-patrão e sua equipe. Publicada em capítulos diários pelo jornaleco, a história de Denny afastou-o definitivamente de McCartney - ainda que nos anos 90 eles tenham se reencontrado. Mas nem Denny nem os demais membros do Wings fizeram qualquer participação no projeto Wingspan, de 2000. Talvez todos tenham saído aborrecidos da banda de McCartney.

Por Marcelo Fróes