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segunda-feira, 17 de outubro de 2016

11 músicas de George Harrison depois do álbum Cloud Nine


Quando George Harrison morreu, em novembro de 2001, deixou um álbum praticamente pronto, com uma coleção de músicas gravadas e instruções bem precisas sobre como ele deveria ser finalizado. O resultado foi o álbum Brainwashed, lançado no ano seguinte, produzido por Dhani Harrison e Jeff Lyne.

Mas e antes disso? Seu último álbum lançado foi o Cloud Nine, de 1987. Após isso, um grande hiato em lançamentos e, numa época em que a Internet ainda estava apenas começando, poucas eram as informações sobre as atividades de George.

Muitas lendas e mitos foram levantadas nesses 14 anos de aparente inatividade, principalmente dando conta de que ele havia se tornado uma espécie de eremita, dedicando-se apenas à jardinagem. Poucas eram as informações, mas os fãs mais interessados sabiam de algumas atividades artísticas- muitas, na verdade.

É absolutamente falso dizer que nada fez na última década e meia de vida. George formou em 1988 o derradeiro super-grupo de rock do século passado, os Traveling Wilbury's e com eles gravou dois álbuns, singles, um mini-documentário e videoclipes. Chegaram a pensar em excursionar, o que não ocorreu por conta do falecimento de Roy Orbison. George também fez canções de encomenda para amigos como Eric Clapton, incluiu faixas em trilhas sonoras de filmes, produziu um álbum de caridade.

Saiu em turnê pelo Japão e daí editou um irretocável disco duplo ao vivo. Há mais. O beatle místico participou de um sem número de discos de companheiros da cena rocker, lançou singles próprios, três livros, uma coletânea, e ninguém pode esquecer seu concerto de 1992 no Royal Albert Hall em favor do obscuro Partido da Lei Natural, reeditando no mais nobre dos palcos ingleses, a banda e o show que fez na Terra do Sol Nascente.

Naquele mesmo ano George Harrison foi um dos luminares da festa pelos 30 anos de carreira de Bob Dylan no Madison Square Garden. E mais: com Ringo Starr e Paul McCartney, participou ativamente das ações que resultaram nos relançamentos das coletâneas Azul & Vermelha e do histórico álbum da BBC. Fez o projeto Anthology, Yellow Submarine Songtrack e The Beatles One. Voltemos então ao objetivo principal dessa divagação toda.

O pesquisador Cláudio Teran buscou as músicas que poderiam formar um hipotético CD, seguindo algumas regras. À imagem e semelhança do que seria uma continuação de Cloud Nine, necessitava de onze faixas publicadas após esse período. Música anterior a 1987 só teria chance se fosse absolutamente inédita. Foram eliminadas gravações ao vivo de takes já conhecidos. Haveria liberdade para recorrer à pirataria se uma canção relevante para o projeto só estivesse disponível nessa forma. Nao final, alinhando as faixas cronologicamente, o resultado foi surpreendente.

E o que fazer com essa coleção de músicas? Na época, em 2001, o Portal Beatles Brasil criou uma promoção e sorteou algumas cópias, para alguns poucos felizardos, entre muitos que responderam à seguinte questão: "você já sonhou com os Beatles?". A relação das músicas, com suas devidas explicações encontram-se abaixo. Lembrando, claro, que foi antes do lançamento do Brainwashed - não se podia prever, mas duas delas foram lançadas no álbum póstumo.

George Harrison - After Cloud Nine (2001)

MO: composição de 1977. Entrou no projeto porque veio à luz somente em 1994, e para um CD em edição limitada com o objetivo de homenagear Mo Ostin, capo da Warner que se aposentava. Provavelmente foi retrabalhada para esse lançamento.

RIDE RAJBUN: gravação de 1992, lançada em 1995 no escasso CD com a trilha sonora do desenho animado Bunbury Tails. George está acompanhado de Ravi Shankar e do filho Dhani. A faixa soa como uma evolução para "Blue Jay Way" ou "Within'You Without You".

HEADING FOR THE LIGHT: faixa-solo incluída no primeiro disco dos Traveling Wilbury's.

CHEER DOWN: composição que Eric Clapton esnobou. George gravou e a editou como um single, incluindo-a em seguida na trilha sonora de Máquina Mortífera 2.

POOR LITTLE GIRL: editada para a coletânea Best of Dark Horse. Canção inspiradíssima que conta ainda com uma versão encurtada especialmente para emissoras de rádio, em CD single.

COCKAMAMIE BUSINESS: candidata a clássico desse álbum imaginário. Uma das faixas que certamente ganharia atenções da mídia se não estivesse perdida numa coletânea (Best of Dark Horse).

MAXINE: faixa-solo das sessões para o segundo álbum com The Traveling Wilbury's, com a diferença que só saiu através do mercado pirata.

ABSOLUTELY SWEET MARIE: George escolheu uma canção pouco divulgada dentro do vasto repertório de Bob Dylan para homenageá-lo no histórico concerto pelos seus 30 anos de carreira. Ao violão, o ex-beatle se destaca pela base competente e segura.

BETWEEN THE DEVIL AND THE DEEP BLUE SEA: O original dessa gravação é de 1931 por Cab Caloway. George sempre gostou de regravar coisas antigas, e entre os exemplos estão "True Love" e "Baltimore Oriole". Essa composição foi pré-gravada em estúdio, e exibida num programa da TV inglesa, Mr. Roadrunner. Destaque para o som do ukelele tocado por George.

MY SWEET LORD 2000: Exceto pela percussão de Ringo e a linha de baixo, George regravou quase completamente seu maior clássico na carreira-solo – questão não entendida pelos críticos. Ele explicou, na entrevista editada no CD promo, A Conversation. De acordo com Harrison, lhe incomodava ter sido processado por plágio, somente por causa de três acordes. Indignado com isso ele providenciou a regravação para divertir-se, e eliminar os 'acordes da discórdia'. Destaque para o potente vocal gospel de Sam Brown.

HORSE TO THE WATER: o esforço derradeiro de George Harrison em vida. Uma canção gravada um mês e meio antes de seu falecimento. Ele se abandona num solo incomum porque longo e sem o habitual recurso do slide. A letra é autobiográfica, destaca-se a base da banda de Jools Holland, e novamente Sam Brown nos vocais. É uma canção tocante, bela, contemporânea - e perdida num CD difícil de encontrar. O fecho perfeito para um imaginário álbum de continuação para Cloud Nine?

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

The Rooftop Concert - A última apresentação pública dos Beatles




Fazia um frio dos diabos em Londres na manhã daquele dia trinta de janeiro de 1969, uma terça-feira, por volta do meio-dia. A região onde funcionava o escritório da Apple Records, na área central, era conhecida por abrigar atividades comerciais como escritórios de advocacia, consultórios médicos, setores executivos de empresas, lojas de departamentos e bancos, entre outros. Desde o dia vinte e sete havia uma movimentação incomum de pessoas subindo e descendo do telhado do prédio de quatro andares onde estava instalada a gravadora dos Beatles. E também dos edifícios em frente, ao lado e aos fundos. Era a equipe do cineasta Michael Lindasy-Hogg trabalhando para viabilizar uma idéia de Paul McCartney, copiada na realidade de uma iniciativa pioneira da banda Jefferson Airplane e de dois loucos geniais, Jean-Luc Goddard e D.E Pennebaker.

Paul tomara conhecimento da filmagem de uma apresentação do Jefferson Airplane em novembro de 1968 no teto de um edifício em Nova York. A sequência foi inserida no filme One A.M (American Movie), de Jean-Luc Goddard e D.E Pennebaker, dois cineastas com forte ligação com o rock and roll. A produção jamais seria finalizada, mas a sequência onde o 'Airplane' toca a complicada canção 'The House at Pooneil Corners" deu o que falar atraindo na rua abaixo uma considerável leva de pedestres. A aventura acabou abortada pela polícia nova-iorquina. Num trecho do filme um policial 'brande' em direção aos músicos um exemplar do código de posturas, informando que o grupo não poderia estar tocando naquele local. McCartney achou a idéia fantástica para o fechamento do projeto Get Back/Let it Be. Talvez não imaginasse que a apresentação registrada no teto da Apple entraria para a história como a última realizada pelos Beatles.

Se a ideia original de tocar ao vivo num telhado não foi dos Beatles, que sirva como consolo que a repercussão foi muito superior à do concerto realizado pelo Jefferson Airplane. Todo mundo que tocou no alto de um prédio depois de janeiro de 1969 o fez inspirado na atitude dos Fab Four, indubitavelmente. Na última semana daquele mês já estava decidido que Get Back não seria mais um documentário de televisão. Ganharia o mundo através das telas de cinema. Também já havia sido tomada a decisão de que a banda não faria o que inicialmente se planejou: um documentário entremeado com cenas de um mega concerto nunca antes realizado, numa locação exótica. A idéia de tocar nas ruínas de Pompéia, por exemplo, surgiu nessa ocasião e foi veementemente 'rejeitada' por John Lennon e, sobretudo, George Harrison. Também se debateu a possibilidade do concerto se realizar no Roundhouse em Londres, mas a proposta também não avançou.

O clima, um mês depois do início das filmagens do que viria a ser Let it Be, não era nada bom entre os Fab Four. Deteriorava-se a relação entre John Lennon & Paul McCartney. E George Harrison chegou a abandonar a produção por quase duas semanas. Como é do conhecimento geral, a intenção de se promover 'a volta' dos Beatles ao modo mais simples de produzir discos e canções e que poderia ter desaguado no retorno da banda aos palcos do planeta, acabou servindo para consolidar seu fim.

O retorno de George Harrison, registre-se, foi decisivo para dar fim às filmagens do projeto Get Back/Let it Be. Depois da mini tour com Delaney, Bonnie and Friends ele desembarcou em Londres numa quarta-feira, dia quinze de janeiro e reuniu-se com os outros três para uma conversa a portas fechadas que durou cinco horas. George avisou que estava pronto para deixar definitivamente o grupo. Ninguém replicou. O que ficou acertado nesse dia é que não haveria mais especial de televisão nem concerto ao vivo em nenhuma locação. Combinou-se também que o melhor do material produzido viraria um álbum de inéditas, desde que fosse devidamente lapidado nos estúdios. Apple estúdios. Para o restante das filmagens o material seria capturado na gravadora própria da banda. Por incrível que pareça somente a partir desse dia é que tudo o que fora gravado com pretensões de exibição televisiva passou a ser tratado como projeto para o cinema. Isso em parte explica o festival de erros e equívocos de edição do filme Let it Be, abordados - como os internautas mais atentos sabem - em duas revistinhas virtuais anteriores desta coluna.

A idéia de tocar ao vivo no telhado para fechar o filme surgiu nesse turbilhão. George, John & Ringo também tinham acompanhado as notícias da controvertida apresentação do Jefferson Airplane quase um ano antes e se posicionaram favoráveis. John & Paul achavam - e nisso concordavam plenamente - que a apresentação num local exótico e não anunciado em pleno horário de almoço funcionaria como diversão gratuita para os trabalhadores das redondezas. Sem falar que a reação deles poderia render muito para os flagrantes que as câmeras iriam capturar. Mas o Rooftop Concert não se realizaria totalmente sem restrições. George Harrison deixou claro que não tocaria nenhuma de suas músicas. Novas ou velhas.

Ao mesmo tempo, Michael Lindsay-Hogg corria contra o tempo para viabilizar a aventura de tocar no telhado da Apple em termos técnicos. A primeira providência dele foi assistir às pressas com sua equipe, trechos da filmagem de One A.M (American Movie) aquele que uniu Goddard e Pennebaker. Visualizando-se uma produção e outra é possível observar que Michael copiou alguns planos e contra planos utilizados pelos colegas mais famosos para documentar a apresentação dos Beatles. Espalhou câmeras pelos prédios vizinhos, preocupou-se com a iluminação natural por considerar o mau tempo daquela ocasião em Londres e estava interessado no maior número possível de material que pudesse produzir para a futura edição final.

De maneira prosaica para os dias de hoje, Lindsay-Hogg também espalhou técnicos com câmeras e gravadores de áudio Nagra pela calçada defronte ao edifício da Apple para capturar o som ambiente e possíveis reações do público. Como se vê no filme, passantes foram entrevistados enquanto o som rolava lá do alto, sendo capturado com muito eco de forma distante pelos microfones acoplados aos Nagra no solo, quatro andares abaixo. E lá em cima? Lá em cima os Beatles foram instruídos a ocupar pequenos espaços 'demarcados' com fitas crepe, coladas às tábuas que foram estendidas sobre o piso do teto, uma medida para 'encorpar' um pouco mais o som da banda. A filmagem trabalhou com quatro câmeras no teto gravando direto, seguindo o sistema adotado nas tomadas em Twickenham e nos estúdios Apple.

Apesar da fama e da importância dos Beatles, a produção de Get Back não utilizou sequer uma grua para fazer imagens aéreas da frente do, digamos assim, 'palco' onde a banda tocou. Dada a ausência desse equipamento - e do pequeno espaço lá em cima - não foi fácil capturar imagens frontais. Alguns câmeras foram obrigados a trabalhar quase deitados aos pés de John e Paul. Essa precariedade para realizar tomadas fica visível no filme, em prejuízo das aparições de George Harrison & Ringo Starr. Havia uma 'parafernália' de fios e de equipamentos espalhados pelo local. As ligações e conexões foram providenciadas pela turma de Michael Lindsay-Hogg e pela equipe comandada por Mal Evans. Mal e Tony Bramwell se responsabilizaram por montar o equipamento dos Beatles, que então dispensara as caixas Vox.

Os retornos de som agora eram belíssimas caixas Fender valvuladas. E não houve passagem de som a não ser na hora em que as gravações iriam rolar. Quando as câmeras foram ligadas no final da manhã daquele dia trinta de janeiro de 1969, John, Paul, George & Ringo subiram ao teto para o que desse e viesse, sem saber exatamente o que aconteceria posteriormente. Iriam tocar e pronto. E não subiram sozinhos. As novas músicas exigiam a presença de um competente tecladista e pela primeira e única vez numa apresentação pública (ou quase pública) os Beatles tocavam com um quinto músico, Billy Preston, que por sinal, estava participando das gravações nos estúdios Apple desde o dia vinte e dois passado (1969).

O comportamento dos quatro Beatles lá em cima não foi exatamente o de quem realizava um concerto. Nem poderia ser diferente. Eles estavam naquele telhado para uma filmagem. Pareciam inicialmente tensos e trabalharam o tempo todo em benefício das câmeras de Lindsay-Hogg, sem preocupação com o público, que por sinal, não pôde vê-los naquele dia, apesar da aglomeração que se formou diante da Apple. Com o andamento da apresentação o destaque foi a alegria de John Lennon, com suas piadas, tiradas sarcásticas e a inclusão de paródias entre uma e outra canção. Ringo também parecia relaxado, além de tocar com grande precisão. George Harrison é enquadrado quase todo tempo muito sério, sisudo, mas tocando sua Telecaster Rosewood com destreza e uma velocidade incomum se considerarmos seu estilo.


Como o que estava rolando no teto da Apple era uma filmagem, foi necessário repetir algumas canções em busca da perfeição. "Get Back", por exemplo, foi tocada quatro vezes, com o objetivo de ajustar o som e produzir 'best takes' para a melhor tomada de imagem possível. A Apple/EMI instalou um equipamento multi track para registrar todo o áudio para a história. Mas nem tudo o que rolou lá em cima teve registro profissional. Em nome da preservação histórica pela passagem dos 40 anos do Rooftop Concert, a coluna Pop Go The Beatles detalha passo a passo os quarenta e dois minutos que marcaram a última ocasião em que o quarteto THE BEATLES se apresentou ao vivo.

Thursday 30 January

Apple Corps (Roof) London
- Metade do material filmado e gravado no teto da Apple foi parar no filme Let it Be. As versões de "I've Got a Feeling", "Dig a Pony" e "One After 909" foram editadas e incluídas no LP/CD Let it Be.

SETTING UP
O primeiro som que se ouve quando o multi track começa a gravar no alto do teto da Apple é o da voz de Michael Lindsay-Hogg. O cineasta ordena: 'all cameras take one' ao tempo em que os Beatles sobem, ajustam instrumentos, Ringo reclama com Mal Evans de ter montado do lado errado uma parte de sua bateria... e a magia está para começar. Antes, entretanto, os gravadores Nagra conectados às câmeras A e B captam Lindsay Hogg informando na linha interna que a gravação começaria pelo rolo de fita número 560-E. Ele também instrui os operadores das quatro câmeras para ligar os equipamentos simultaneamente.

GET BACK (rehearsal 1)
O multi track não 'pega' a primeira versão de "Get Back", que dura pouco tempo, tão somente para ajustar os equipamentos. O trecho é gravado à distância, capturado pelo microfone de um dos gravadores Nagra (não exatamente os conectados às câmeras A e B). Não consta nos rolos gravados profissionalmente. Seguem-se ruídos de afinações de guitarras, vozes dos Beatles e dos técnicos trocando instruções, etc.

GET BACK (rehearsal 2)Multi track ligado. Michael Lindsay Hogg avisa que aquele será o take um e os Beatles mandam ver. A voz de Paul está em primeiro plano, em single track sem a segunda voz de John, que parece mais preocupado com o solo. Na segunda parte ele participa dos backing vocals. Esta versão é considerada 'ensaio'. No encerramento, aplausos educados são ouvidos da parte dos técnicos e dos privilegiados que estavam lá em cima, pertinho dos Beatles. Paul pisoteia um grilo saído debaixo das tábuas e murmura alguma coisa sobre Ted Dexter, um músico famoso na Inglaterra. John brinca afirmando que a banda tinha um pedido musical para atender da parte de 'Martin Luther'.

I WANT YOU (She's So Heavy)
Sons de afinação de guitarras são ouvidos e uma linha ou duas da introdução dessa faixa é escutada. Não consta do multi track.

GET BACK (take 01)

Esta versão de "Get Back" é melhor executada que a anterior (rehearsal 2). Michael Lindsay Hogg utilizaria pedaços das duas para editar a versão que vemos no filme. No final da canção John diz: 'atendendo ao pedido de Daisy Morris e Tommy'.

DON'T LET ME DOWN (take 01)
A versão ficou tão boa que foi para o filme sem retoques. Soberba interpretação. No áudio dos Nagra disponíveis na pirataria é possível ouvir as vozes de Paul e John bem cruas.

I'VE GOT A FEELING
Mais uma interpretação magistral aproveitada integralmente no filme e no disco Let it Be. Ao final John diz: 'oh my soul... (ouvem-se aplausos) e ele conclui afirmando... 'so hard'. George faz vocalizações ao longo da faixa. Há uma interrupção para afinação de instrumentos e trocas de instruções. Ouvem-se gritos e breves discussões de John, Paul e Michael Lindsay Hogg.

ONE AFTER 909 (snippet)
Começa com o teclado de Billy Preston enquanto Lindsay Hogg ordena que as câmeras se preparem para a gravação. Esse trecho dura apenas dezessete segundos.

ONE AFTER 909 (take 01)
Estupenda versão com show particular de George Harrison na guitarra solo. A gravação é utilizada no filme e aproveita inclusive o trecho sarcástico em que John canta uma linha de 'Danny Boy' ('Oh danny boy, the pipes, the pipes are calling') antiga canção de 1913, composta pelo advogado Frederick Weatherly e originada de um trecho do hino da Irlanda, Londonderry Air. Este take de One After 909 também foi selecionado para os discos Let it Be e Get Back (não lançado).

DIG A PONY (rehearsal)
Enquanto novas afinações de instrumentos são feitas, ouve-se George Harrison ensaiando a introdução e o solo de guitarra. É possível ouvir pelo equipamento profissional multi track o pedido de John pela letra da música. No filme há uma cena de um assistente ajoelhado com uma prancheta apontada na direção de John Lennon

DIG A PONY (take 01)
A canção começa com um false start e uma contagem ('one, two, three... one, two three'). A introdução e o encerramento da faixa onde eles cantam, 'all I want is you' foi 'limada' pelo produtor Phil Spector para o disco Let it Be, aparecendo de forma integral no filme.

GOD SAVE THE QUEEN
A banda para. Novos ajustes de equipamentos e do instrumental são feitos, enquanto se ouve discussões. O cineasta Michael Lindsay-Hog troca rolos de filme em suas câmeras, além de distribuir ordens aos técnicos. A fita do multi track também precisou ser trocada nesse trecho. Enquanto o segundo engenheiro Alan Parsons (aquele do Alan Parsons Project) fazia o serviço, um trecho de 'God Save the Queen' foi tocado. Aparece integral nas fitas dos Nagra e como um mero fragmento na nova fita do multi track.

I'VE GOT A FEELING (take 2)
Começa com trechos dos acordes nas guitarras, enquanto se ouve Paul conferindo a afinação do baixo. A versão foi tentada como alternativa em relação à primeira, mas não entrou no filme. John erra a letra. É possível perceber que foi tocada de forma despretensiosa. No encerramento John brinca com um trecho de 'Pretty Girl is Like a Melody', hit do ano de 1946 na voz de Irving Berlin. Ouve-se ainda brevíssimo acorde de "Get Back". Esta gravação foi usada no álbum Let it Be...Naked (2003), mas inclui ouverdubs do take um e de outras versões desta mesma composição gravadas em estúdio.

DON'T LET ME DOWN (take 2)

Também foi gravada como 'garantia' a pedido de Michael Lindsay Hogg. Não foi usada no filme nem no disco Let it Be, mas aparece de forma editada em Let it Be...Naked. Imagens inéditas da filmagem desse take são usadas num promo vídeo distribuído por ocasião do CD 'Naked' em 2003.

GET BACK (take 02)
Já com a presença da polícia pedindo que a gravação fosse encerrada eles tocam a quarta versão de "Get Back" (esta gravação foi lançada oficialmente no terceiro volume da série Anthology, em 1996). Antes Paul comenta: “você está tocando nos telhados novamente, mesmo sabendo que sua mãe não gosta. Ela vai acabar vendo você preso”. Neste take as caixas de retorno de John e George são desligadas, o que leva Paul e Ringo a 'segurarem' sozinhos o trecho inicial da canção no baixo e na bateria. O fechamento se dá com a clássica frase de John: “I'd like to say thank you on behalf of the group and ourselves and I hope we passed the audition”.

- Entre sete e dez da noite daquele dia 30 de janeiro de 1969 o engenheiro Glyn Johns mixou gravações (inclusive as tocadas no teto da Apple) no Olimpic Sound Studios do jeito que quis, trabalhando sozinho. No dia seguinte entregou acetatos aos Beatles com o resultado do trabalho.

- Dois promo films para "Get Back" e "Don't Let me Down" foram preparados com o objetivo de promover um dos últimos singles lançados pelos Beatles. Em ambos, imagens dirigidas por Michael Lindsay-Hogg, mas de ângulos diferentes dos mostrados em Let it Be - e capturados no rooftop - foram utilizados.

- Virtualmente tudo o que aconteceu no telhado da Apple durante aqueles quarenta e dois históricos minutos do dia 30 de janeiro, uma terça-feira por volta do meio-dia, estão preservados em filmes e em áudio. Reafirmo minha opinião pessoal: esse material devia ser lançado integralmente em DVD (com as canções repetidas e tudo) numa edição luxuosa e recheada de extras do filme Let it Be.

- No dia 31 de janeiro as filmagens de Let it Be chegaram ao fim, assim como o conturbado processo de gravação do futuro disco. A faixa título e "The Long and Winding Road" foram finalizadas na ocasião e dali em diante - pouco mais de um ano depois - era anunciado formalmente o fim dos Beatles. E de uma era.

Por Cláudio Teran

domingo, 19 de outubro de 2008

Paul McCartney - Ecce Cor Meum (2008)

Paul McCartney nunca aprendeu a ler ou escrever música valendo-se de partituras. Muito menos amealhou anos de estudo de música clássica a sério. Mesmo assim é detentor de um respeitável catalogo de êxitos no setor. Ecce Cor Meum é um trabalho clássico de 'canto coral' concebido em homenagem a Linda McCartney, mas vai mais além, pois também inclui reminiscências da infância do ex-beatle que tem no seu vasto e respeitável currículo de astro do rock e do pop, três trabalhos orquestrais. Sem ter a devida compreensão das regras e métodos da música clássica, registre-se. Ecce Cor Meum, expressão do latim que, vertida para o inglês significa "Behold my Heart" (algo como 'Observe Meu Coração'), ganhou até premiação de melhor álbum do gênero no final de 2006. O CD foi publicado em setembro daquele ano. Dois meses mais tarde, em novembro, aconteceu a estréia de gala no Royal Albert Hall, objeto do presente lançamento em DVD.

A segunda e última 'performance' pública desta peça ocorreria no começo de dezembro de 2006 no vetusto Carnegie Hall, em Nova York. O evento foi integralmente transmitido ao vivo por uma emissora de rádio FM, com direito a entrevista exclusiva com Paul. Alguns trechos da exibição americana são brevemente mostrados no DVD. Infelizmente, porém, esta produção lançada nos EUA e Europa no dia 05 de fevereiro (não há previsão de lançamento nacional) deixa a desejar.

A edição inclui o documentário, “Creating Ecce Cor Meum”, onde Paul McCartney explica detalhadamente a produção, revelando que começou a criar a peça no início dos anos 90, mas chegou a abandonar o trabalho pelo agravamento da doença de Linda. Nos quatro movimentos, a homenagem à falecida esposa ganha tons de saudade, lamento, luto e perda. Há outras entrevistas no documentário com músicos, cantores, o maestro que conduziu a orquestra e o coral, além de belas cenas de ensaios e gravações nos estúdios Abbey Road. Tudo sem legendas de jeito nenhum. Nem mesmo em inglês. A produção do DVD Ecce Cor Meum em geral é pobre, apesar do público a que se destina, e comete a meu ver um tremendo sacrilégio com o projeto original.

Quem esteve presente revelou que num intervalo da peça de quatro atos, a orquestra e o coral deram tratamento quase operístico para canções da 'carreira-solo' de Paul McCartney criadas em homenagem a Linda, como "Warm and Beautiful", "Some Days" e outras. De forma incompreensível essa sequência do espetáculo não aparece no DVD. A única forma de ouvi-la é através da edição pirata de áudio do show do Carnegie Hall. Avalio que a inclusão desse trecho por certo facilitaria aos menos iniciados a compreensão de um trabalho denso, por vezes pesado da mais radical das incursões ao clássico praticadas pelo ex-beatle até a data.


Por Cláudio Teran

domingo, 12 de outubro de 2003

The Beatles - Let It Be...Naked (2003)


Antes mesmo do lançamento, o álbum Let it Be...Naked foi objeto de polêmicas, debates e divisão de opiniões. Normal no mundo beatle.
Quando a faixa-título do novo disco chegou aos fãs, publicamos um breve review onde revelávamos que a propalada nudez do Naked seria contida - quase recatada. Os produtores do álbum - Paul Hicks, Alan Rouse e Guy Massey - deixaram isso claro em entrevistas, ressaltando que a idéia era 'finalizar de fato' as canções que os Beatles fizeram para o conturbado projeto Get Back. Daí a explicação para, digamos, o 'polimento da nudez' explicitada em Naked. E uma outra certeza: o presente disco não é o velho Let it Be - que continuará valendo. O 'faixa a faixa' que apresentamos objetiva contribuir para saciar a curiosidade dos que desejam saber de onde os takes se originam e o que foi feito (além da remixagem e redução de ruídos dos masters) para trazer à luz o novo disco de uma banda que até se desfêz, mas nunca acabou.

GET BACKTrata-se de uma remixagem da versão do álbum Let it Be - sem os sons adicionais de estúdio no começo e final do take.

DIG A PONYAqui temos um remix da versão tradicional. Foi retirado o breve false start e mantída a idéia de Phil Spector, que cortou a frase 'all I want is you' no começo e final da faixa. A gravação (como se sabe) foi feita no rooftop.

FOR YOU BLUENesta faixa percebemos o valor do trabalho de remixagem e redução de ruídos. O take é o do disco Let it Be - mantém o overdub vocal dirigido por Phil Spector, mas acrescenta breves 'trechos extras' do violão de George, retirados de dois outtakes muito próximos da versão que foi selecionada para o LIB original.

THE LONG AND WINDING ROADAqui temos um novo remix para a versão do filme Let it Be. Esse take não aparece tal como foi gravado. Na gravação original, Paul vocaliza enquanto Billy Preston faz o solo no órgão. Essa vocalização (cortada na edição feita para o filme) também ficou de fora do Naked.

TWO OF USAqui mais uma remixagem da faixa que abre o disco Let it Be. A intro com 'I Dig a Pigmy' foi retirada, já que não foi gravada no contexto de Two of Us. A versão originalmente publicada em Let it Be é mais longa, levando-nos a ouvir o assovio de John por maior tempo.

I'VE GOT A FEELINGAqui uma alteração considerável. Trata-se da segunda versão tocada no rooftop. A primeira - publicada no Let it Be - é melhor. Esta, porém, é muito boa. Há um breve 'insert' da versão do Let it Be transposto para esta, no refrão.

ONE AFTER 909Mais uma faixa beneficiada pela remixagem e a redução de ruídos. Ouve-se com clareza a exclamação de John Lennon, 'yes I did' ao longo da primeira parte da canção. É um belo remix da edição gravada no rooftop e publicada em Let it Be - mais uma vez foram limadas no final as inserções, caso do verso 'danny boy'.

DON'T LET ME DOWNAqui temos a faixa magistralmente tocada no rooftop. A produção castigou a nudez. O verso 'inventado' por John Lennon (neologismos intraduziveis) foi retirado. Em seu lugar corrigiram a letra, enxertando o trecho, 'and from the first time that she really done me...' retirado de um dos takes mixados  originalmente por Glyn Johns em 10 de março de 1969.

I ME MINEAqui um remix da versão do Let it Be com a inclusão da idéia de Phil Spector (ele duplicou o refrão artificialmente, como se sabe). A única novidade (ou capricho) foi mudar o ponto onde a edição foi feita. Questão dificil de perceber.

ACROSS THE UNIVERSE
A versão publicada no LIB e tal como foi trabalhada para o disco World Wildlife Fund. Só que sem overdubs. O trabalho de Phil Spector foi integralmente retirado (os arranjos orquestrais). Manteve-se a breve alteração na velocidade da gravação.

LET IT BEo take 27 do disco original sem orquestra, coral, eco e os overdubs de bateria. Os dois overdubs de guitarra providenciados por George Harrison (e publicados no single e no LIB) foram desprezados pelos novos produtores. Mesmo destino teve o solo (muito pobre) da gravação original. Para Naked os produtores optaram pelo solo tocado na versão incluída no filme Let it Be (o take 27B).

Por Cláudio Teran