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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

The Beatles - A Hard Day's Night (1964)


No começo de 64, ainda na turnê francesa, e se preparando para invadirem a América, os Beatles começaram a gravar o seu terceiro álbum, enquanto ainda gravavam as versões alemães de I Want To Hold Your Hand e She Loves You. Então, além de aproveitarem para rever a vista (John e Paul estiverem em Paris no ano de 61, quando Mimi, tia de John, deu-lhe dinheiro de presente por seu aniversário de 21 anos e ele resolveu fazer esta viagem de presente ). John e Paul aproveitaram para compor algumas canções no quarto do hotel George V. E talvez por isso, pelo excesso de material é que neste álbum aconteceu um fato inédito que deve ter entristecido muitos fãs de George, ansiosos por ver a continuidade de seu processo de criação iniciado em "Don't Bother Me": só contém composições de Lennon & McCartney, nada de cover ou Harrison's songs.

Possivelmente pelo fato de George não ter desenvolvido seu estilo de compor ainda, pois embora, seja conhecido do público atualmente que You Know What To Do figuraria no terceiro álbum, foi gravada no dia 3 de junho, quando já deviam estar sendo feitas as mixagens. Provavelmente deve ter se perdido, assim como aconteceu com as demos de várias canções que os Beatles gravaram antes de cedê-las para outros cantores como Cilla Black ou Peter & Gordon, uma vez que só havia um take e nas documentações dos Estúdios Abbey Road até os anos 80 não consta nenhuma documentação desta gravação e de No Reply, contudo as mesmas estão no álbum Anthology, data de 3 de junho. Devem ter sido achadas somente agora depois de quase trinta anos.

Bem , mas de qualquer forma este álbum marca a introdução dos rapazes no cinema, mas não como fizera Elvis, aqui eles fazem seus próprios papéis, vivendo experiências muito conhecidas do seu cotidiano na época, tudo regado pelo seu bom humor, característico de sua terra. Já estão consolidados mundialmente, inclusive na terra de origem do rock'n'roll, portanto neste álbum, embora, apresentem a mesma disposição para cantar agitadinhas como "Can't Buy Me Love" ou "You Can't Do That", é nas baladas já com letras mais reflexivas que eles revelam seu atual estado de criação.

Lado 1
A Hard Day's Night

Os rapazes haviam acabado de voltar da bem sucedida turnê americana e já começaram a rodar seu primeiro filme, ainda sem título definido e já tinham que pensar nas canções do álbum e em apresentações nos teatros e TVs inglesas. Foi aí que Ringo falou a famosa frase "It's been a hard day..." e percebendo que já era de noite completou "...night". Então, como esta seria uma ótima idéia para o título de uma canção e do filme pelo fato de traduzir a rotina dos rapazes tão bem, ficou decidido que John e Paul deveriam compor algo com este título, o que não era nada fácil, pois eles estavam acostumados a compor as melodias e depois pensar no título. O título do filme foi anunciado no dia 13 de abril, e no dia 16 eles ficaram o dia inteiro concentrados nesta canção que abriria o primeiro filme e o terceiro disco. Ficou decidido que deveria haver um impacto inicial, então George Martin e Harrison trabalharam até conseguir um acorde que pertencesse à escala e ao mesmo tempo soasse estridente. Logo foi achado o acorde G4, usado mais como acorde final do que inicial, mas todos, inclusive Martin, acharam que ele era exatamente o que queriam. A track 1 foi só de ritmo básico. A track 2 foi a primeira a receber vocais de John (um deles) e Paul. A track 3 recebeu ainda piano, bongôs, bateria, violão e o solo final. Em nove takes estava pronta uma das melhores músicas de todos os tempos !

I Should Have Known Better
Gravada pela primeira vez no dia 25 de fevereiro, quando foram feitos três takes, se apresentava bem diferente da versão final. John fazia um solo mais ao estilo de Bob Dylan (já anunciando o que iria acontecer no próximo álbum) e George finalizava-a com sua guitarra. No dia seguinte, eles refizeram tudo (4-22), sendo o take 9 escolhido o melhor, mesmo sem a harmônica e o vocal dobrado sobrepostos do 22. John toca violão, além da gaita. No filme eles estão em uma espécie de gaiola, num compartimento do trem, jogando cartas e tocando. Do lado de dentro também está Pattie Boyd, futura esposa de George. Do lado de fora, estão algumas garotas.

If I Fell
John de novo toca violão nesta considerada uma progressão de "This Boy", por causa de sua estrutura complexa e por apresentar harmonias vocais intricadas de John e Paul num só microfone. Surpreendentemente foram feitos só 15 takes, sendo que só a partir do terceiro, Martin sugeriu uma bateria mais pesada. E o violão pungente de John na abertura foi introduzido a partir do take 11. John começa praticamente recitando sozinho os primeiros versos, e depois Paul entra com a melodia, deixando para John uma harmonia mais grave, nada fácil de ser reproduzida. Muitos podem até ouvir uma terceira voz, mas são só os dois mesmo, o fato é que eles cantam tão sicronizados que sugerem até uma terceira voz.

I'm So Happy Just To Dance With You
Gravada pela primeira vez no dia 1º de março (quatro takes), sendo os dois primeiros só de ritmo, com os instrumentos normais. No take 4 foram sobrepostos os vocais dobrados de George e os backing vocais vigorosos de John e Paul e o Ringo no tom tom. Foi John quem escreveu esta especialmente para George, provavelmente pelo fato de ele ser conhecido como um pé de valsa, ou melhor de rock'n'roll, o que todos os vídeos dos Beatles confirmam.

And I Love Her
Um bolero bem ao estilo de Paul nesta época. No cinema quando o filme passou, na parte em que Paul aparecia cantando isso, e a câmera dava close em sua face, muitas mocinhas gritavam ou desmaiavam. Gravada também, no dia 25 de fevereiro e refeita no dia seguinte, quando Ringo trocou a bateria por bongôs e claves. Mas o som ainda não agradou aos Beatles que a refizeram no dia 27, sendo que o segundo take do segundo remake foi o melhor.

Tell Me Why
Gravada pela primeira vez em 27 de fevereiro em oito takes, sendo o oitavo o melhor. Aqui John e Paul fazem ao contrário: John canta a melodia aguda (geralmente canta no grave) e Paul faz a harmonia grave (geralmente aguda) demostrando que são realmente virtuosos e que apesar do pouco conhecimento que tinham de técnica vocal na época, eram realmente bons na prática. Só em algumas partes é que Paul para complicar ainda mais, vai ainda mais agudo que John. Aqui novamente homenageiam os grupos femininos em "Is there anything I can do" quando cantam bem agudinho, ao estilo delas.

Can't Buy Me Love
Gravada pela primeira vez em Paris no dia 29 de janeiro, sendo portanto a primeira a ser gravada em 4 takes. Neste dia era bem diferente da versão que ficou conhecida. 1º take Paul canta bem negróide (ao estilo que adotaria para She's A Woman) e John e George adotam backings bem no estilo como Ooh satisfied, ooh just can't buy descartado depois do take 4, quanso ganha vocal duplo e guitarra de George. John e George volta a adotar estes vocais em algumas apresentações ao vivo em 64 (uma delas está no disco The Beatles - Anthology I) Eu particularmente acho até melhor com estes vocais "ooh satisfied". Conta a lenda que antes deste dia eles já haviam gravado num camarim com John, Paul e Ringo apenas, pois George estava no toalete. Ringo "tocou" numa mala, eles começaram direto em "I'll buy you diamond rings" e não em Can't buy me love... A gravação termina e se ouve George dando a descarga, mas não se sabe se esta gravação ainda existe ou se realmente algum dia existiu.

Lado 2
Anytime At All

Gravada em 2 de junho (7 takes só de ritmo e o 1º vocal de John) e deixada para mais tarde por não terem idéia de como fariam no middle-eight. Mas retomada no mesmo dia já com idéias para o miolo com piano, guitarras e a introdução de um vocal resposta de Paul. Sendo o 11º take o melhor.

I'll Cry Instead
John queria incluí-la na trilha sonora do filme, mas parece que ou não ficou pronta ou não agradou a Richard Lester. Foi gravada em duas sessões : A e B. Sendo três takes de cada editados juntos, mais tarde. Embora, muitos achem que soaria melhor na voz de Ringo, pelo estilo, pela letra você percebe por que optou por cantá-la. John troca sua jumbo pelo violão e o pandeiro e George adota um solo misturado de country e rock'n'roll.

Things We Said Today

John de novo toca violão, além do piano, que deveria ser limpo na mixagem, mas, que como não estava bem separado, acabou aparecendo ao fundo. Gravada pela primeira vez em 2 de junho em três takes, sendo o segundo completo e o terceiro, o segundo vocal de Paul, que foi dobrado sobre o segundo take.

When I Get Home
Gravada pela primeira vez em 2 de junho, em 11 takes. John tem sua chance de exercitar sua aparente agressividade vocal numa espécie de soul/rock, sendo mais um tributo ao estilo dos negros.

You Can't Do That
John novamente brinca com o estilo negro de cantar, desta vez mais exatamente Wilson Pickett, de quem eram admiradores , também. Paul toca sino e Ringo bongôs, além dos instrumentos normais e George introduz o violão de 12 cordas no som dos Beatles. O take 9 foi escolhido como o melhor.

I'll Be Back
Aqui eles fazem diferente dos álbuns anteriores : decidem por terminar com uma canção própria, mais bem elaborada e doce, talvez anunciando o estilo dominante do próximo álbum. Uma das canções do álbum que expressam a vontade de retornar ao lar (tipo When I Get Home, e o meio de A Hard Day's Night) Foi gravada pela primeira vez em 1º de junho em 16 takes, sendo 9 de ritmo e os outros 7 dos vocais dobrados de John no miolo e vocalização de Paul. John e George tocam violão e a canção termina com o clima do comerço, dando idéia de uma continuação. Eles realmente iriam voltar.

Foi lançado em 10 de julho.
Parlophone PMC 1230 (mono) e PCS 3058 (stereo), assim como o single "A Hard Day's Night"/"Things We Said Today". Parlophone R 5160

Por Marcelo Scavazza Sanches

sábado, 29 de outubro de 2016

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)


Em meados de 67, o chamado "Verão do Amor" estava prestes a acontecer, que iria desencadear uma série de festivais musicais ao redor do mundo. De 57 a 67, parecia que haviam passado muito mais que dez nos, pois se até aquele momento a ordem era aproveitar a vida ao máximo, já que a guerra não poderia ser evitada, e as letras ou eram ligeiramente sexuais ou bem puras, sem qualquer contexto político ou pacifista, com um arranjo eletrizante por trás. Ou melhor dizendo, de 64 a 67 a mesma geração já não pensava do mesmo jeito, pois embora ainda houvesse quem sonhasse com a volta dos Beatles à estrada, a grande maioria agora estava voltada para o conhecimento espiritual, ou engajado em manisfestações ou simplesmente curtindo a vida. E logicamente isto refletiu na música.

Quando os Beatles fizeram Rubber Soul, todos acharam que chegara o momento de investir em algo mais profundo, logo veio o Revolver e o fim das turnês. Vários grupos que apenas copiavam à sua maneira, os Fab, estavam agora adquirindo identidade própria, colocando guitarras distorcidas, como os Monkees, o Who e os Stones estavam apostando em linhas mais melódicas como "Ruby Tuesday" e "As Tears Go By", influenciados por "Yesterday", ao mesmo tempo que tocavam a pesada "Satisfaction", os Beach Boys haviam deixado a Surf Music e estava fazendo uma espécie de Surf psicodélico. Haviam ainda os Yarbirds, os Byrds, Mamas & The Papas, e inúmeros outros grupos ingleses e americanos.

Com tanta "concorrência" e sons novos no mercado, o fim das turnês, muita gente pensou que os Beatles já estariam ultrapassados depois de um sucesso de mais três anos. Não havia como alguém fazer sucesso sem apresentar sua música ao vivo, mesmo em meio à histeria, e quem comprava os discos eram os fãs que gritavam e lotavam os estádios e que sem eles a banda acabaria terminando.

Mas enquanto os rapazes estavam compondo e trabalhando no estúdio com a idéia de lançar um disco sobre suas infâncias, mas um lançamento seria necessário, afim de parar os boatos de separação que corria nas ruas, e decidiram por lançar o single "Penny Lane/Strawberry Fields Forever", sem qualquer citação sobre qual era o lado A e o B, o que caberia ao ouvinte. Mas ainda não havia sido suficiente para calar a boca da crítica. Vale lembrar que o rock ainda era tido como música de marginais (será que hoje finalmente ela não é?) e inferior até mesmo ao blues, e que um grupo popular jamais faria sucesso por tanto tempo, ou conseguiria amadurecer seu som, sem que ele soasse "chato". Mais os Beatles seriam pioneiros novamente.

Lado 1
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
Ruídos, afinação de instrumentos seguidos por uma guitarra abrem triunfantemente o disco e a faixa homônimos. Uma nova revolução provocada pelos FAB estava tendo início... Paul injeta seu baixo direto na mesa de gravação, sem usar um amplificador, abusando do timbre do seu Rickenbacker 4001C, ganho no ano anterior. Foi a primeira vez que alguém ousou fazer isto, o que deu um efeito inovador ao conjunto da música. E ainda toca guitarra base. John toca guitarra solo, assim como George, e fazem vocalizações, Ringo toca bateria e vários músicos foram recrutados da Orquestra Sinfônica de Londres para formar um naipe de metais e recriar o clima das bandas de fanfarras (dos parques de antigamente), sendo James W. Buck, Neil Sanders, Tony Randals, John Burden e G. Martin toca órgão. Foi gravada pela primeira vez em 1º de fevereiro, sendo feitos nove takes, terceira a ser gravada.

With A little Help From My Friends
Desde o início estava decidido que esta canção não iria apenas seguir a faixa título, mas sim segui-la, como se fossem um só tema. John toca sino e faz backing, não há guitarra base, portanto, o ritmo é segurado pelo baixo de Paul, que também toca piano e faz backings, George toca pandeiro e guitarra solo, Ringo dá sua contribuição vocal, numa canção composta basicamente por John para ele cantar. Diz a lenda que havia uma frase "What do you think if I sang out of tune, would you throw tomatos on me?" mas, que Ringo teria pedido que colocassem outra, pois ainda tinha lembranças dos dias em que jogavam jujubas, latas e até cadeiras no palco, e tinha receio que virasse uma nova mania. Dez takes foram feitos logo no dia 29 de março, sendo a décima segunda a ser gravada. O take 10 foi reduzido, criando um novo e várias sobreposições foram feitas.

Lucy in The Sky With Diamonds
Julian, filho de John, chegou em casa um dia com um desenho de uma menina num céu de estrelas, fazendo com que a cabeça de John retinisse e ele criasse uma canção inspirada em Alice no País das Maravilhas, um de seus contos favoritos. Mas isto deu muito pano para manga, pois depois que eles se confessaram usuários de drogas, todas suas canções começaram a ser investigadas, e descobriram que este título em siglas significava L.S.D., e a letra totalmente ao estilo poético de John, reforçava esta opinião. Mas a verdade era que foi realmente Julian, uma criança de quatro anos, na época que fez um desenho sobre sua colega de escola chamada Lucy O'Donnell.

Curiosamente, no primeiro registro da canção no estúdio houve apenas um ensaio e não gravações, uma coisa considerada extravagante, mas necessária neste auge de suas carreiras. Somente no dia 1º é que a canção foi finalmente gravada, em sete takes e uma redução, sendo a oitava a ser gravada.

Getting Better
Paul estava caminhando um dia, parece que com sua cadela Martha, quando lembrou-se de Jimmy Nichols, que tocou com eles em 64, quando Ringo operou as amígdalas, que sempre quando lhe perguntavam como iam as coisas, o otimista baterista respondia: "Está melhorando". O que gerava muitas brincadeiras. Então, a partir daí, teve a idéia principal para a letra.

As primeiras gravações foram feitas no dia 9 de março, quando sete takes foram só de ritmo, com participação de Martin tocando as cordas e não as teclas do piano. Bem inovador, sem dúvida. Reduções feitas do 7 e do 8 até o 12º. George faz um excelente trabalho vocal, roubando a cena dos vocais principais de Paul e toca, além do solo, um instrumento chamado tampura, que só foi adicionada dia seguinte. Ringo toca bateria e bongôs, os outros, os de praxe. Foi a 9ª a ser gravada.

Fixing A Hole
Mais uma vez os "intérpretes" pegaram no pé dos rapazes, dizendo que a letra se referia ao buraco causado pelas drogas injetáveis, contra as quais eles sempre foram contra. Paul estava se referindo ao buraco por onde a chuva entra, numa analogia brilhante entre este buraco e o buraco mental que faz a mente vagar, sem seguir em frente. (Pode servir como conselho a estes intérpretes)

No dia 9 de fevereiro, foi gravada pela primeira vez já com vocais e não só instrumentação. Situação incomum para estes dias. Há dúvidas se quem toca o cravo é Paul, pois embora Neil Aspinall tenha dito que foi ele, há registros de que a obra foi gravada em três takes ao vivo e Paul figura tocando baixo e cravo em todas. Como sabemos que ele é ótimo, mas não tem quatro mãos, então provavelmente o cravo deve ter sido tocado por outra pessoa, ou sobreposto mais tarde. John toca maracas. Foi a quinta a ser gravada.

She's Leaving Home
Paul leu uma estória no Daily Mail, sobre uma jovem de nome: Melanie Cole que abandonou a casa de seus pais ricos. Assim como John, Paul também tirava muito de sua inspiração em meio aos jornais, mas sempre fazendo uso de sua veia lírica.

Foi gravada pela primeira vez em 17 de março, a décima-primeira, em seis takes só de cordas, harpa, violinos, violoncelos e contrabaixo executados por Erich Gruenberg, Derek Jacobs, Trevor Williams, José Luis Garcia, John Underwood, Stephen Shingles, Dennis Vegay, Alan Daiziel, Gordon Pearce e Sheila Bromberg. Sòmente no dia eles adicionaram vozes. Apenas John e Paul cantam nesta faixa e a voz de John foi gravada duas vezes e sobreposta ao backing original, dando um efeito um pouco metálico. Diz a lenda que nesta faixa há uma citação à hora em que Paul teria sofrido o acidente.

Being for The Benefit of Mr. Kite
John se inspirou num cartaz de propaganda de um circo do século XIX de propriedade dePablo Fanque para escrever esta, que recebeu o título de "Salvador Dali Oral" de George Martin.

Gravada pela primeira vez em 17 de fevereiro, no mesmo dia do single Strawberry Fields / Penny Lane", foi a sexta, com 7 takes mais dois de reduções e sobreposições. Os primeiros sete foram apenas instrumentais : baixo, bateria e harmoniuns, tocados por George, Ringo, Mal Evans e Neil Aspinall. Muitas sobreposições foram feitas em vários dias de gravação, com John tocando órgão, Martin órgão Wullitzer e piano, George bateria, Paul baixo e guitarra.

Mas, depois de tantos dias, o resultado ainda não se parecia com o som que John tinha em sua cabeça: ele queria que soasse como um circo e Big George teve que se virar para fazer um arranjo que soasse como isto. Como não encontrou nada, teve a idéia de cortar as fitas em pedacinhos e juntá-las, teoricamente, ao acaso. Teoricamente, pois nada na vida é por acaso. A idéia deu certo e agradou John e os outros Beatles, e a milhares de ouvintes do mundo inteiro, pois soa popular e erudita ao mesmo tempo, e no solo dá até para sentir tontura, digna de um carroucel.

Lado 2
Within You, Without You

George compôs esta obra na casa de Klaus Voormann (amigo alemão dos tempos de Hamburgo, da turma de Astrid Kirschner, desenhista da capa de Revolver, que viria a se tornar baixista da Plastic Ono Band e desenhista das capas dos "Anthology"), em Hampstead, Londres.

Foi gravada a primeira vez em 15 de março, em um take. No estúdio estavam presentes apenas George, Neil Aspinall, os funcionários, Martin e músicos contratados. Violinos: Erich Gruenberg, Alan Loveday, Paul Scherman, Ralph Elman, David Wolshal, Jack Rothenstein e Jack Greene Violoncelos: Reginald Kilbey, Alan Ford e Peter Beaven Tabla, dilruba e sword mandel foram executados por músicos indianos, amigos de George. Neil e George tocam tamboura.

Mas uma vez George recorreu ao ADT, afim de conseguir um efeito incrível para sua única composição no disco, única, mas especial. Nela, George exercita seu lado devocional mais profundamente, mostrando tudo que havia aprendido até ali. De novo, os especuladores "cutucam" uma faixa, dizendo que o título seria sobre Paul, que na verdade, significa: com ou sem você.

When I'm Sixty-Four
Foi gravada pela primeira vez em 6 de dezembro, inspirada nos 64 anos que seu James McCartney, pai de Paul, completara em julho. Por isso, o clima nos leva de volta aos anos das Big Bands dos anos 20 e 30, quando o jazz americano e o vaudeville inglês reinavam absoluto, época em que Mr. McCartney tinha sua banda. Paul toca piano, baixo e faz o vocal e um dos backings, John toca guitarra solo e faz backing, George faz backing, músicos de estúdio tocam clarinetas.

Um detalhe audível incrível que prova a inteligência musical dos rapazes, é no trecho musical que segue na segunda parte: "We shall scrimb and save" quando eles repetem vocalmente o mesmo acorde dado pela guitarra na primeira parte "You'll be older, too". Diz a lenda que a melodia foi composta nos idos de 62, mas não há provas concretas sobre isto.

Lovely Rita
Paul compôs esta, logo após saber que nos EUA chamavam as "parquimeters" de "meter maids" (moças que controlam o estacionamento dos carros e os multam).

Seria uma canção de ódio, pois a tal Rita o multou e levou seu carro embora, mas, sendo um Beatle, ele resolveu amá-la, então na canção ela se tornou uma garota legal (afinal de contas, estava cumprindo a lei). George, John e Paul friccionam pentes contra papéis para produzir um som de "cha cha cha". John e George tocam violões, Paul toca baixo e piano com Martin.

Good Morning, Good Morning
John se inspirou num comercial de flocos de milho para criar esta faixa capaz de acordar qualquer um. No dia 8 de fevereiro, quando foi gravada pela primeira vez, porém, não passava de uma canção bem simplesinha, mas mudou muito depois de sobreposições.

Eles recebem a ajuda de um grupo de Kent, The Sound Incorporated, que eles conheceram no Star Club na Alemanha, e que foram contratados por Epstein em 64: Barrie Cameron, David Glyde, Alan Holmes, saxofones, John Lee e A.N. Other, trombones e Tom French, horn. Paul toca guitarra solo, George toca a rítmica, John faz apenas os vibrantes vocais principais.

Ele tinha a idéia de reproduzir o som de uma fazenda, com sons de todo o tipo de animais (inspirado no "Pet Sounds, do grupo americano Beach Boys)

Então, se você não tinha acordado até agora, não iria escapar, pois o final iria ser mais alucinante ainda, uma cadeia alimentar onde animais maiores engolem musicalmente animais menores e de repente somos conduzidos de volta para o teatro onde a banda do Sgt, Pepper se apresentava.

Sgt Pepper's (Reprise)
George Martin, genialmente traça uma analogia entre o carcarejo do galo e a primeira nota da guitarra da banda. Paul conta até quatro para iniciar esta espécie de bis da primeira faixa, com andamento acelerado, sem os metais da abertura com todos os quatro cantando.

Foi gravada a primeira vez em 1º de abril, em nove takes. John toca maracas e guitarra solo, e os outros seus instrumentos normais. Antes que o som desapareça por completo, em meio aos aplausos, entram os acordes daquela que é a mais polêmica das faixas.

A Day In The Life
Esta canção é na verdade junção de duas canções, uma de John e outra de Paul: John começou, mas não conseguia um miolo que o deixasse satisfeito, então perguntou a Paul se ele tinha algo, e ele coincidentemente tinha um miolo, mas não tinha nem começo nem fim da música. E como mágica as duas se encaixaram e se tornaram uma só.

Como esta faixa é a gravação mais complexa de todas realizadas, tentarei fazer o melhor possível, afim de que os detalhes sejam esclarecidos e a curiosidade saciada:

Em seu primeiro dia de gravação 19 de janeiro - foram feitos 4 takes sob o nome de "In the life of..." sem a parte de Paul, apenas com as letras de John, que foram inspiradas em notícias de jornais. No dia 20 foram feitos mais três takes, já com a parte de Paul, título definitivo e sobreposições de outro vocal de John, o baixo de Paul e bateria de Ringo. Havia muito a ser feito, mas o arranjo não estava satisfazendo Ringo e Paul, então foi feito um outro.

Paul percebeu que o meio pedia uma orquestra. Pensou numa orquestra de 90 músicos tocando a menor nota que um instrumento poderia tocar e terminando com um mi maior. Indo de pianissíssimo a fortíssimo. Não haveria partituras e Paul explicaria a Martin o que queria e ele aos músicos profissionais. Eles seriam independentes, tendo o cuidado de fazer algo diferente do outro.

Depois deve ter achado que esta idéia mais parecia ter saído da cabeça de um dodecafônico (músicos eruditos contemporâneos que acham que as escalas tonais podam a criatividade musical) e a orquestra foi reduzida para 41 músicos regidos pelo próprio Paul, mas com o respeito à escala tonal. Não foram usadas partituras e eles tiveram que contar com seu feeling e Martin, que servia de ponte entre os conhecimentos práticos de ouvido de Paul e os teóricos de músicos de orquestra. Finalmente, eles entenderam tudo e se mostravam ansiosos para começar, depois de colocarem narizes e óculos falsos, para completar o clima de fantasia, com Paul regendo com um avental e tudo sendo registrado em filme e fotos!

Foram gravados quatro takes no dia de fevereiro de orquestra. John toca violão e piano, Paul baixo piano, George bongôs e piano, Ringo bateria, maracas, piano e pandeiro, Martin harmônico, Mal Evans conta o tempo (se você separar os sons em canais, ainda vai ouvir sua voz contando, pois não conseguiram limpar tudo, apenas sobrepuseram os sons) toca piano e coloca o despertador que toca antes de Paul "acordar"

Não seria nem necessário mencionar as polêmicas causadas pela canção, primeiro a notícia do fim das turnês e a mudança de visual, o isolamento em estúdio coincidiram com o posterior acidente de moto de Paul, que por causa da letra da música, todos pensaram que era de carro,que foi na verdade tirada de uma notícia de jornal sobre o acidente de Tara Browne, um jovam irlandês. Para eles esta era uma "prova contundente", uma declaração de John em música.

Além disso, girando a faixa ao contrário alguns tiveram mais certeza disso, mas não passava de uma mensagem inaudível para seres humanos (só audível para cães) mesclada com frases que escaparam durante as festas que ocorriam nas gravações do álbum.

Descobriram, ainda uma alusão as drogas "Eu gostaria de ligar", que na verdade, era uma frase corrente nas ruas de Londres na época, mas que não havia sido usada em música, ainda.

A faixa foi proibida de tocar em várias rádios, assim como Lucy in The Sky..., mas não deixaram de virar clássicos famosos. Pois, quem iria deixar de comprar um álbum dos Beatles e conhecer as faixas ?

Quebrando mais barreiras culturais novamente, o álbum foi lançado em 1º de junho de 67, sendo elogiado por público e crítica. Eles conseguiram também, quebrar o preconceito, pela primeira vez todos até os mais conservadores que os criticaram quando foram condecorados poderiam admitir que gostavam deles, sem serem tido como imaturos e ignorantes. Eles haviam crescido. Todos puderam entender por que foi necessário o fim das turnês, que podava sua criatividade.

Embora, alguns proibissem sua música de tocar nas rádios,por julgarem que incitavam o uso de drogas, eles eram considerados revolucionários, mas, não eram uma ameaça pública. Apenas queriam paz, amor e muita música.

Continuando, depois que Sgt. Pepper's foi lançado, muita gente admitiu que gostaria de tê-lo feito e muito daqueles que estavam fazendo sucesso com seus álbuns, como o Pet Sounds, dos Beach Boys, confessaram que não havia nada melhor, era o auge dos Beatles. Brian Wilson, dos Beach Boys chegou a entrar em depressão, julgando que jamais conseguiriam fazer sucesso novamente com os Beatles como concorrentes (ele é realmente bastante carente e depressivo) e só saiu dela depois que Paul declarou que o álbum havia sido inspirado em Pet Sounds, que por sua vez fora inspirado em Rubber Soul. Talvez não há muita semelhança sonora, mas sem dúvida, foi a atmosfera, confirmando a teoria da cadeia musical, ou seja, uma mínima coisa desencadeia uma coisa grandiosa que pode desencadear uma revolução sonora, pelo menos nesta época dourada. E vale dizer, foi gravado em apenas quatro canais (lembram-se de Please Please Me, em apenas dois ?) e com quatro cabeças pensantes e criativas como esta, aliadas à de George Martin e sua equipe, não há necessidade de mais nada.

Por Marcelo Scavazza Sanches

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

The Beatles - With The Beatles (1963)

Com o sucesso do primeiro álbum, os singles anteriores "Love Me Do" e "Please Please Me" e os posteriores "From Me To You" e "She Loves You" (que foi o compacto mais vendido de todos os tempos até 78, quando perdeu a posição para "Mull of Kintyre", dos Wings) e fantásticas turnês ao redor da Inglaterra, Martin viu a necessidade de impor a meta de dois LPs por ano, afim de que eles comprovassem que realmente haviam vindo para ficar.

Para isso, ao invés de apenas um dia de gravação foram necessários mais de cinco dias espalhados em quatro meses; pois não tinha como programar mais de cinco dias de gravação em Abbey Road, pois tinha turnês, programas de rádio, entrevistas, e eles ainda "moravam" oficialmente em Liverpool e deveriam ter tempo para compor material novo.

Os jovens e inexperientes meninos de um ano antes que nunca tinham pisado em um estúdio profissional, deram lugar a rapazes espertos e curiosos. Como compositores John e Paul estavam ainda mais profundos e suas características, embora imperceptíveis na época começavam a aparecer, contribuindo para a união neste momento e a definição do estilo de cada um. George, por outro lado também estava despontado como compositor, ainda sem seu estilo característico mas, com um charme inestimável.

Além disso este foi o primeiro álbum ouvido nos paises americanos (tipo Brasil com Beatlemania e EUA com Meet The Beatles) Isto e muito mais fazem de With The Beatles no mínimo marcante, pois a partir daí, à semelhança do que havia acontecido com os singles "Love Me Do" e "Please Please Me", quando Liverpool cedeu seus rapazes para toda a Inglaterra, ela seria obrigada a cedê-los para o mundo.

Lado 1
It Won't Be Long

A explosiva primeira canção levou 23 takes na segunda sessão de gravação (30 de julho) pois, mesmo depois de 10 takes, sendo 2 deles sobreposições, a mesma se apresentava incompleta. Então, eles retornaram a ela mais tarde fazendo mais doze. John entra direto sem introdução, dando o melhor de seu vocal nesta canção que, embora não seja das mais conhecidas é tida por alguns como o melhor início de um álbum. Deve-se destacar as fantásticas harmonias de Paul e especialmente George que, apesar de ter uma voz tão aguda quanto Paul sempre se utilizava de seu registro grave, afim de que John cantasse na sua altura natural e Paul brilhasse no agudo. Este é para mim o melhor backing feito por George, nada fácil de ser reproduzido.

All I've Got To Do
Foi gravada pela primeira vez em 11 de setembro, quando foram feitos 15 takes (sendo oito começos falsos e um overdub). Assim como havia acontecido com Paul desde que começou a compor mais ou menos em 57, e com Lennon & McCartney em 59, John também, estava adquirindo experiência e evoluindo em suas composições, criando belos arranjos, explorando novas tonalidades e desenvolvendo seu próprio estilo de compor, o que iria mudar o som do grupo e ter boas e más consequências... John faz uso de seu característico vocal de balada começando doce e liberando sua agressividade perto do final, mas desta vez ele retorna à doçura inicial na "Boca chiusa" Foi inspirada em Smokey Robinson and The Miracles, grupo vocal negro da Motown, cujo uma das vocalistas era uma mulher, do qual gostavam muito e fingiam ser.

All My Loving
Esta Paul compôs a letra antes da melodia, como um poema. Quatorze takes foram feitos sendo 12-14 só de overdubs e a master foi um overdub do take 14, no take 11. Embora, a maioria só se lembre do vocal principal é no baixo que Paul mostra a que veio. John e George contribuem no "oo..." e George pega a melodia na segunda parte indo Paul para uma voz mais aguda, o que resulta num belo dueto.

Don't Bother Me
Foi gravada em 11 de setembro quando recebeu 7 takes. A primeira composição de George escrita sobre um período em que o músico querendo ficar sozinho (sem repórteres) pede que não o amolem. No dia seguinte eles continuaram até take 19, que recebeu sobreposições do 15 para o 13 (vocal dobrado de George) Paul nas claves John no pandeiro e Ringo num bongô árabe (cortesias do Abbey Road Studios).

Little Child
Começou a ser gravada em 11 de setembro quando foram gravados 2 takes e retomada no dia seguinte (mais 15 takes) sendo o take 7 o melhor, recebendo sobreposições de harmonica (take 13) e piano de Paul (take 15) e o solo do meio de harmonica de John (take 18) dentro deste Sem dúvida um rhythm & blues para ninguém colocar defeito que soa uma mistura de "Clarabella" com "I Saw Her Standing There".

Till There Was You
Começou a ser gravada em 18 de julho. Como o primeiro álbum foi um standard se fazia necessário repetir a fórmula de impacto com novos números, então eles resgataram esta canção das fitas do Decca, por ser uma canção com acordes bem construídos,de inspiração latina, requerer um vocal totalmente doce, assim como "A Taste of Honey" É uma regravação de uma canção do musical "The Music Man". Lógico que é Paul que usa de todo o seu mel vocal para adoçar ainda mais contexto da canção, fazendo muitas mocinhas bem comportadas terem ataques histéricos e suspirarem como no Ed Sullivan Show, em 64. No segundo dia (30 de julho) Ringo optou por um par de bongôs, para não quebrar o clima romântico. Take 8 foi considerado o melhor.

Please Mr. Postman
Apesar de considerarem este número das garotas Marvelettes uma das canções que eles gostariam de ter composto, eles só a gravaram por sugestão dos fãs. A primeira vez foi em 30 de julho, quando foram feitos 9 takes, sendo 9 no take 7, considerado o melhor.

Lado 2
Roll Over Beethoven

Eles resolveram regravar um cover de Chuck Berry que marcou muito a sua época. Mais uma vez contrariando o padrão de regravar apenas desconhecidos. Conta a lenda que John fazia o vocal e que George só começou a cantá-lo na Alemanha. Foram feitos 8 takes, sendo o 5 considerado o melhor.

Hold Me Tight
Primeira a ser gravada ainda nas sessões de "Please Please Me ", quando foram feitos 13 takes, que infelizmente não existem mais. Foi retomada em 12 de setembro quando foram feitos 9 takes, sendo o 29, o melhor. Foi inspirada no vocal dos cantores negros, principalmente o grupo feminino The Shirelles.

You Really Got A Hold On Me
Finalmente uma original de Smokey Robinson and the Miracles. Eles respeitaram o arranjo original apenas trocando o sax por uma guitarra. George faz a harmonia grave para John que desta vez surpreende (realmente seu vocal é surpreendente) e canta aguda, Paul deixa os dois brilharem e só se junta nos backing a partir da segunda parte e o resultado é de deixar qualquer um boquiaberto. Começou a ser gravada no dia 18 quando 7 takes foram feitos, sendo quatro completos.

I Wanna Be Your Man
Foi gravada pela primeira vez em 11 de setembro (1 take) e retomada no dia 12, ficando ainda insatisfatória e tendo sua versão aprovada somente no final de outubro. Foi o segundo single dos Rolling Stones e seu primeiro hit. Conta a lenda que em setembro de 63, Paul e John convidaram o ex-secretário de Brian Epstein, Andrew Oldham, e na época agente dos Stones para uma carona no taxi onde eles estavam. Ele foi e eles acabaram indo a um lugar onde os Stones estavam tocando. Os rapazes e os Stones ainda não eram rivais musicais, pois, eles já estavam consolidados com um album e dois singles batendo recorde de vendagem e os Stones, apesar de um single, ainda eram desconhecidos e precisam encontrar uma canção que estourasse. Não se sabe se eles pediram ou se L&M oferesseu a canção, ainda incompleta, a qual eles aceitaram no ato. Então, a dupla pegou uma guitarra e terminou-a no banheiro, talvez o único local com uma acústica boa ou sem barulho externo. Quando eles voltaram, os Stones não acreditaram e ficaram "petrificados" com sua rapidez. E a partir daí uma nova dupla se fornou : Jagger e Richards e uma nova banda alcançou o primeiro lugar das paradas. Ringo além de cantar e tocar toca maracas.

Devil In Her Heart
Cover do grupo The Donays, sendo um grande hit para elas. George impõe um vocal tranqüilo contrastando com a euforia de John e Paul (de acordo com a letra), sendo necessários só seis takes no dia 18 de julho. Ringo novamente toca bateria e maracas.

Not A Second Time
Foi gravada a primeira vez em 11 de setembro, nove takes, sendo o 6º reduzido no 9º , inclusive o vocal dobrado de John e o piano de Martin. Diz a lenda que muitos críticos perceberam cadências parecidas com as da Canção da Terra de Gustav Mahler, comprovando o amadurecimento musical adquirido com a ajuda de Martin. Mas segundo John serão pássaros exóticos?

Money (That's What I Want)
Se o primeiro álbum foi um estouro, certamente uma das razões foi a escolha minuciosa de cada canção e sua sequência, então seria bom repetir o mesmo tipo de vocal que fechou o primeiro neste aqui. Sendo assim um outro cover de outro artista negro, gravado originalmente por Barret Strong, da Tamla Motown, também, resgatada no repertório do Decca. John novamente põe para fora toda sua agressividade dizendo que amor é bom mas, ele quer dinheiro, o que não conduzia muito com o seu pensamento, pois apesar de ter dito quando adolescente em se casar com uma milionária, John acreditava totalmente no amor. Foram necessários 7 takes, desta vez sem sua garganta doer tanto, pois estavam mais tranqüilos. O trabalho dos rapazes terminara, mas para Martin e os outros ele estava apenas começando, pois ainda seria preciso dias e dias de mixagem. Eles haviam evoluído muito desde seu primeiro disco, já eram jovens astros e a confiança em seu potencial não era infudada. Agora sabiam que Martin os trataria como profissionais e não como aspirantes. E para Martin eles estavam ficando cada vez melhores, e em tão pouco tempo. No final do ano, John e Paul foram eleitos os compositores do ano. Na Europa inteira pessoas se aglomeravam nas portas dos teatros para vê-los, mas, para os americanos eles apenas mais um grupinho estrangeiro querendo vencer na terra do rock'n'roll... até aquele momento.

Por Marcelo Scavazza Sanches

terça-feira, 25 de outubro de 2016

The Beatles - Revolver (1966)


Revolver é o nome certo para um álbum que marca o amadurecimento total dos Beatles, pois se no anterior, eles já estavam experimentando outros timbres e estilos - bem, na verdade, eles já fazem isto desde o primeiro álbum! - aqui eles mergulham de vez, deixando o yeah, yeah, yeah e as antigas influências juvenis um pouco de lado. Estão cada vez mais inspirados em sons profundos produzidos pelos mestres eruditos, pelos blues elétricos da Motown, pelos sons espirituais da Índia, pelo jazz, pelo folk, que misturados produzem sons inusitados em suas mentes, sem deixar o bom rock de lado.

Estavam totalmente decididos que era no estúdio e não nas turnês que estava o futuro de suas carreiras, por isso, embora tenha sido feito em meio às suas últimas turnês, Revolver soa como se eles tivessem feito de propósito, não produzindo nada que pudesse ser cantado em meio à gritaria de adolescentes excitados.

O fato é que não foi de propósito e suas cabeças realmente já estavam visualizando o que estava por vir, e só produzia sons que nunca ninguém antes havia pensado em fazer- ou melhor, dizendo, havia tido a coragem de lançar sem ser taxado de doido. Os arranjos eram complexos e levava meses e meses para ser feito um álbum. E não havia como reproduzir estas canções num palco, com amplificadores e instrumentos bons, mas sem caixas de retornos e mesas de sons, tão comuns hoje em dia. Mas se a tecnologia de palco não era suficiente, George Martin e sua equipe tinham criatividade suficiente para que no estúdio eles encontrassem tudo o que era preciso e o que não encontravam, era inventado.

Este álbum é definitivamente o DIVISOR DE ÁGUAS NA CARREIRA DOS BEATLES: felizmente, estão maduros profissionalmente e cada um tem sua característica individual. George está se firmando como compositor com um estilo próprio, sem precisar recorrer ao estilo Lennon-McCartney de composição, ganha mais espaço, ganhando mais uma faixa, abre o disco e ainda convida amigos indianos para acompanhamento. John compõe letras mais complexas, com arranjos as vezes até relativamente simples, mas completamente inusitados, que não permitem que você fique em cima do muro, ou você gosta ou detesta. Paul mostra de vez sua veia erudita, compondo belas melodias, com arranjos complexos, fazendo uso de orquestrações, inovando, sem, portanto, soar convencional, que também o deixam sem opção ou você gosta ou não gosta (mas até mesmo John gostava). Já Ringo reafirma seu jeito bonachão de ser cantando "Yellow Submarine". Mas infelizmente, por outro lado, sabemos que por causa desses estilos musicais diferentes que afloraram depois que nossos adolescentes que amavam o Rock'n'Roll, o blues e o country & western cresceram é que eles se separaram, mas, esta é outra estória. Vamos nessa agora...

Lado 1
Taxman
Foi gravada pela primeira vez em 20 de abril. Foram feitos onze takes só nos dois primeiros dias de gravação, sendo que um deles pode ser conferido no Anthology II com John e Paul dizendo "Anybody got a little bit of money ?", como era a idéia inicial, sendo que só a partir do 12 (take) esta frase foi trocada por "Mister Wilson" (Harold Wilson, primeiro ministro, eleito pelo partido trabalhista) "Mister Heath" (líder da oposição). Aqui George exercita sua veia política, que era tão aflorida quanto a de John Lennon, criticando os impostos exorbitantes cobrado a eles, uma vez que, ao contrário do que todos pensam, nesta época, seu contrato não era tão bom quanto os dois artistas atuais e só davá-lhes direito de comprar casas, instrumentos e o que necessitassem, sendo que dinheiro mesmo, ia para o cobrador de impostos. George inaugura pela pela primeira vez um disco dos Beatles e diz a lenda que John deu-lhe uma força na composição, porém seu nome não aparece nos créditos. Paul toca a guitarra solo novamente, foi a sexta a ser gravada.

Eleanor Rigby
Oitava a ser gravada, no dia 28 de abril, os vocais principais de Paul e o backing de George foram sobrepostos depois da sessão de cordas somente no take 14. Paul contou certa vez que o nome original desta canção era Daisy Hawkins, mas este lhe parecia um tanto irreal para soar como uma pessoa comum, ele precisava de um nome que soasse mais natural. E segundo suas memórias o nome Eleanor Rigby surgiu do nada, mas como o nada não existe, teologicamente falando, se você for ao cemitério da igreja St. Peter's, Liverpool, você poderá visitar o túmulo de Eleanor Rigby e de seu pai. Ou seja, Paul deve ter ido não poucas vezes a este lugar, pois embora não fosse tão perto de sua casa, era perto de John e do lado do lugar onde eles se conheceram, deve ter visto o túmulo e guardou esta imagem no seu subconsciente, de modo que conscientemente não se lembra de ter visto este nome em algum lugar. Pois o fato de ter existido esta pessoa, e o fato de seu túmulo se encontrar na mesma cidade em que nasceram e perto do lugar onde se conheceram, é evidência mais que suficiente.

Já o Padre Mckenzie foi tirado de uma lista telefônica, pois o original Padre McCartney desagradou a Paul, pois poderiam pensar que era sobre seu pai, e não queria ver o nome da família associado à uma estória de solidão. O quarteto de cordas, formado por 4 violinos, 2 violas e 2 cellos, foi conduzido por George Martin.

I'm Only Sleeping
Foi a sétima a ser gravada no dia 27 de abril, em mono. Uma espécie de autobiografia de John, pois diz a lenda que John não gostava de ter que acordar cedo e quando era obrigado, ficava um tempo na cama, pensando ou olhando o teto. Mas também, depois que acordava era difícil fazê-lo parar. Foram feitos uns 11 takes até se conseguir um clima de sonolência, para o qual foram usadas fitas ao contrário e George tocou todo o solo de trás para frente.

Love You To
George faz uso daquela que iria se tornar sua marca : a música indiana misturada com o Rock'n'Roll e o folk, que influenciaria muitas gerações. A letra mescla romantismo e reflexão, pois ele e John são os primeiros a perceber que as coisas estão mudando e o tempo passando. George toca cítara, e Anil Bhagwat, irmão de Ravi Shankar, seu mestre, toca tabla, entre outros músicos indianos. Era chamada "Granny Smith", um tipo de maçã verde (!) no dia 11 de abril, quando foi a terceira gravada, mantendo este nome muitos dias depois.

Here, There and Everywhere
Balada muito bem-construída por Paul, uma das favoritas do companheiro John. Foi gravada pela primeira vez em 14 de junho, sendo a décima-terceira. George e John fazem as belas harmonias em escalas de ooo, não muito fáceis de serem reproduzidas à perfeição. Aqui todos estão em seus instrumentos de costume.

Yellow Submarine
John e Paul tem duas versões diferentes sobre a composição: John disse que a imaginou logo após ter tomado "o café mágico" na casa do dentista de George, já Paul disse que teve esta idéia, um pouco antes de dormir, em meio as suas sonolências. Seja qual for a verdadeira, ou talvez os dois tenham concebido a mesma idéia ao mesmo tempo, o que importa é esta canção nos leva de volta aos nossos dias de infância (pelo menos à infância da época de John, Paul, George e Ringo, com direito a bandinha daquelas dos parques) razão pela qual, decidiram dar o vocal a Ringo, uma vez que ele era o favorito das crianças. Foi gravada pela primeira vez em 26 de maio, sendo a décima-primeira a ser gravada. No coro encontramos os roadies Mal Evans e Neil Aspinall, o produtor Martin, o Stone Brian Jones, entre outros.

She Said, She Said
Foi gravada pela primeira vez em 21 de junho, sendo a décima. Por muito tempo foi denominada "sem título" até receber este nome. Foi baseada numa "viagem"que John teve com Peter Fonda, conhecido ator de cinema, que participou de diversos filmes, entre eles "Easy Rider", (Sem Destino) ao lado de Denis Hopper, que marcou época. Diz-se que Fonda começou a falar "Cara, eu sei o que é estar morto" e outras coisas esquisitas e como John não perderia uma frase dessas por nada, tratou de colocá-la numa cancão. Décima canção a ser gravada em 26 de maio.

Lado 2
Good Day Sunshine
Seu título original era "A good Day's Sunshine". Paul se inspirou no som negro jazzístico de New Orlens, com direito a George Martin, tocando o piano Honk Tonk. Sua primeira gravação data de 8 de junho. Aqui eles retomam o recurso dos álbuns anteriores : fazendo uso das batidas de palmas para que todo o espaço seja preenchiodo com música. Brincam pela primeira vez com o estéreo, de modo que no final da faixa cada voz sai num canal diferente, soando impossível para um ouvinte de primeira viagem descobrir de onde virá o próximo som. Foi a décima-terceira a ser gravada, inspirada em Jane Asher, depois da primeira noite de amor, que aconteceu mais ou menos por esta época, três anos depois de se conhecerem.

And your Bird Can Sing

Apresenta vocais dobrados de John e Paul, que foram mixados para parecerem apenas um de cada. Diz a lenda que gravar estes segundos vocais deu muito pano para manga, pois geramente eles gravavam um vocal por cima do outro, apenas quando cantavam solo e não aqui que fazem um dueto. Na hora de gravarem o segundo vocal, John desatou numa risada e Paul embora estivesse concentrado, não conseguiu se segurar e começou a rir também. Como nenhum engenheiro conseguiu preservar a primeira gravação, uma vez que era a matriz, ficou decidido que voltariam no dia 26 de abril, seis dias depois, mas, não conseguiram fazer tudo igual ao primeiro dia, soando um tanto diferente. George também tocou o solo uma vez e o "retocou" igualzinho e os mixou de uma forma que soassem como um só.

For No One
Foi gravada a primeira vez em 12 de abril, sendo a nona, recebendo dez takes neste dia, mas os vocais e o French Horn só foram sobrepostos nos dias 16 e 19. Paul se exercita no estilo o caracterizaria : o de criador de belas melodias, que o tornaria o favorito de vários maestros, pela sua veia e refinamento eruditos, nesta canção que parece ter sido feita para Jane Asher, depois de uma briga. Paul toca piano, cravo e French Horn (instrumento de sopro), Alan Civil, músico de estúdio, toca trompa. Diz-se que apenas Paul e Ringo estavam presentes.

Dr. Robert
Foi inspirada em Robert Freyman, um médico alemão que trabalhava em Nova York e era conhecido por deixar a cidade "alta", e não no dentista de George, que não se chamava Robert ! John soube dele através dos jornais, mas nunca o conheceu pessoalmente. Além dos instrumentos habituais, George toca maracas, John harmonium e maracas e Paul piano. Foi gravada em 17 de abril, sendo a quarta.

I Want to tell you
Foi gravada pela primeira em 2 de junho, sob o título de "Laxton's Suberb", também um tipo de maçã. e logo mudou para "I don't Know', pois nem mesmo George sabia o nome da obra. De novo o tema é romântico, mostrando um pouco de profundidade nas letras. John toca pandeiro, além dos instrumentos normais de cada um. De novo ouve-se a brincadeira com o estéreo.

Got to Get you Into My life
Segunda a ser gravada em 7 de abril. Foi composta por Paul com a tentativa de fazer uma alusão à maconha apresentada em 64, por Bob Dylan- (inspirado talvez pelas letras de John, que muito gostou da música, dizendo na entrevista da Playboy ser uma letra muito boa) do que à Jane Asher. Criando a linha que seria muito utilada no álbum posterior, um naipe de metais foi chamado, composto por Eddie Thornton, Ian Hamer e Les Conlon, nos trumpetes e Peter Coe no sax tenor, afim de reproduzir o clima das gravações de soul da Motown, que Paul faz juz, pois apesar de ser branco e inglês, consegue aflorar sua veia negra, provando a versatilidade dos Beatles mais uma vez. Martin toca órgão, John pandeiro e os outros seus instrumentos originais.

Os Beatles decidiram assumir serem usuários de drogas do que serem hipócritas, negando o fato, afim de parecerem bonzinhos, como muitos artistas de diversos gêneros de música fazem, inclusive no Brasil. Não pretendiam fazer apologia e apenas serem adultos, assumindo sua responsabilidade, assim como os bluesmen assumiam-se usuários de bebida (e morriam muito jovens) na década de 20 e 30, quando havia a Lei Seca. Portanto, embora tivessem proibido a maconha e o LSD a pouco tempo (assim que viram que os jovens as estavam usando e não só os psicólogos) não havia ainda este conceito de auto-destruição adquirido depois das mortes de Janis Joplin, Jim Morrison e Jimi Hendrix (que poderiam ter morrido bebendo ou fumando tabaco... )

Tomorrow Never Knows
Foi a primeira a ser gravada no dia 6 abril, sob o título de Mark I, já ditando o clima experimental que mandaria neste LP. A exemplo daquela sessão do Rubber Soul, que eu disse que era a primeira, esta também, teve direito a não uma mas várias sessões. Depois das declarações sobre drogas pensaram que esta certamente falava sobre este tema, mas John se inspirou "apenas" no Livro dos Mortos Tibetanos, escrito por ninguém mais que o "papa" do LSD: Timothy Leary.

John tinha a idéia de ter um coro que soasse como macacos cantando, no entanto, humanamente, isto parecia impossível. Mesmo assim, Paul trabalhou junto com Martin e Geoff Emerick para tentar desvendar os mistérisos da mente de John, e agradar a ambos, John e Ringo, que também havia dado umas idéias.

John canta através do alto-falante de um Leslie Organ e toca pandeiro, George toca cítara, Paul toca baixo e piano Honk Tonk, Martin piano e Ringo bateria. Foi de longe a faixa mais difícil de ser gravada, até aquele momento: para isso fizeram uso de toda a tecnologia existente nos Estúdios Abbey Road e principalmente, das inventadas pelo próprio como o ADT.

ADT (Artificial Double Tracking) foi uma espécie de recurso inventado pelos funcionários para simular a "dobragem" de um som sobre outro, que consistia em criar a ilusão que uma voz previamente gravada e uma outra gravada pela mesma pessoa , sobreposta alguns segundos depois e não em cima, como em "And Your Bird Can Sing" na sequência (como num canone). Mas, na verdade, havia apenas uma gravação e outra era uma repetição da primeira que entrava num tempo determinado depois, criando um efeito incrível ! Os Beatles, logicamente amaram esta idéia que era original, provavelmente porque com isso teriam mais tempo para gravar outras coisas e ter outras idéias, ao invés de gravarem a mesma voz diversas vezes. Este recurso foi "imitado" várias vezes, por várias bandas nos últimos 36 anos, até mesmo pelos que se julgam "modernos".

Nota: O Álbum saiu em 05 de agosto de 1966 com o nome de Revolver e não Abracadabra, como havia se pensado anteriormente.Depois deste álbum e a conseqüente extinção das turnês, todos julgaram que o grupo jamais conseguiria produzir algo tão bom ou melhor, e acabaria retornando ao formato inicial ou acabando, pois, nenhum grupo havia conseguido se manter na crista da onda sem excursionar. Mas os Beatles fariam sua tentativa.

Por Marcelo Scavazza Sanches

domingo, 23 de outubro de 2016

The Beatles - Please Please Me (1963)

Please Please Me o primeiro álbum, lançado em 22 de março de 63, Parlophone PMC 1201 (mono). Nasceu da idéia de aproveitar o sucesso adquirido com o primeiro lugar de "Please Please Me"/"Ask Me Why", afim de que eles não fossem um grupo de um sucesso só. Foi gravado em apenas um dia e mixado em dois e dispondo de apenas dois canais (sendo que qualquer bandinha de quinta categoria de hoje em dia, usa no mínimo, uns vinte para produzir qualquer bobagem), o que prova que mais que equipamento, é necessário competência, dedicação e sentimento de conjunto. Por isso, Please Please Me, ainda soa atual - no bom sentido, é claro - mesmo depois de tantas décadas. Ninguém conseguiu fazer um disco tão bom em sua estréia e continuar produzindo som de qualidade.

Lado 1
I Saw Her Standing There
"Seventeen" este foi o nome desta canção desde o dia em que foi composta por Paul, sendo apresentada assim em Hamburgo, no Star Club e até no Cavern Club. Foi gravada oficialmente em 11 de fevereiro, quando recebeu 12 takes. Diz a lenda que Paul teria escrito-a em 61 com "never been a beauty queen" e que a cantava assim nos shows da banda, até John sugerir-lhe "You know what I mean". A sincronia das guitarras é surpreendente, mas é a cozinha (Ringo e Paul) que tornou esta canção numa das mais difíceis de ser reproduzida ao vivo à perfeição - inclusive até por eles mesmos (eu sei que muitas cover a tocam). Para completar eles ainda adicionam palmas. Paul confessou certa vez que as "bass lines" foram inspiradas em "Talkin' About You", de Chuck Berry, que soavam originais e únicas. Nem preciso me aprofundar muito para falar do brilhante backing rocker de John nas partes principais e no middle eight contrastando com a agressividade vocal de Paul.

Misery
A doce e melancólica segunda canção do disco teve 11 takes até que o vocal de John e Paul soassem como um só (no mono, pelo menos). E eles conseguiram, embora possam ter timbres completamente diferentes, eles conseguem timbrar muito bem e o dueto só é percebido em alguns trechos. Foi escrita por uma cantora chamada Helen Shapiro, muito conhecida na época, até mais que eles, mas parece que o seu empresário não a deixou gravá-la e acabou sendo gravada por Kenny Lynch. No final, eles homenageiam o vocal típico dos grupos americanos femininos com "La la la la la...".

Anna (Go To Him)
O primeiro cover do disco foi gravada em três takes. John demonstra pela primeira vez em estúdio a sua característica vocal ao interpretar baladas: geralmente começa doce como a melodia e aos poucos vai ficando com um tom agressivo. Paul e George também não deixam a desejar, segurando bem o clima romântico da melodia.

Chains
George põe para fora uma dose de sua agressividade - e seu marcante sotaque - dividindo o vocal com Paul e John. Este tributo a Gerry Goffin e Carole King, uma das duplas de compositores que influenciou-os e também às Cookies, grupo feminino americano, recebeu 4 takes. John faz a introdução na gaita e o andamento agilizado.

Boys
Agora é a vez de Ringo provar a que veio. E fez isso com um só take. De novo, eles pagam tributo ao vocal dos grupos femininos americanos, desta vez das muito conhecidas Shirelles. Diz-se que foi necessário um "faded ending" porque ficou grande demais para a época.

Ask Me Why
Escrita em 62. Uma de suas primeiras audições foi no lendário Star Club, da Alemanha. Mas sem dúvida, esta versão do disco é a mesma do single "Please Please Me"/"Ask Me Why" que foi gravada em 26 de novembro e lançado em 11 de janeiro, alcançando o primeiro lugar nas paradas. Foram feitos apenas seis takes, um feito, pois não é das mais fáceis de ser executada, apresentando um belo arranjo vocal e instrumental. De novo John faz uso de sua doce agressividade vocal.

Please Please Me
Foi inspirada numa canção de Bing Crosby chamada Please que sua mãe costumava cantar que usava os sentidos de Please (agradar e por favor). Ficando "Por favor, agrade-me". Conta a lenda que já nas sessões de Love Me Do e P.S. I Love You, Martin já sabia que Love Me Do ficaria entre as primeiras, mas, que precisavam de um primeiro lugar e que How Do You Do It de um compositor do cast da gravadora. Apesar de gravarem-na eles não queriam lançar e sugeriram que fosse dada a Gerry and the Pacemakers, outro grupo de Liverpool, seu antigo rival. Martin os desafiou a compor algo melhor, então eles apresentaram Please Please Me, que parecia de Roy Orbison com um vocal meio bluesy. Martin achou os acordes muito bons, mas achou que seria melhor uma melodia mais rápida e a repetição da primeira parte no final. Era uma boa música que não poderia ser desprezada, mas não havia motivos para colocá-la como seu próximo single. No dia 26 de novembro eles a apresentaram novamente, já reestruturada e com o solo de gaita, deixando George Martin tão impressionado que ele exclamou : "Senhores, vocês acabam de gravar seu primeiro número um". Há ainda uma estória a respeito destas sessões: Martin havia acabado de comprar uma gravata, da qual estava especialmente orgulhoso e a estava estreando neste dia. Com a intenção de deixar os liverpudlianos a vontade disse: "Caso vocês não gostem de alguma coisa é só falar" e George não perdeu a oportunidade: "Bem, para começar eu não gosto da sua gravata" Todos ficaram sérios, mas, acabaram dando boas risadas. Na reprise da letra Last night... Paul canta: I know you never even try girl, mas John canta I know I never, como no início. É quase imperceptível, se você estiver desatento.

Lado 2
Love Me Do
Foi escrita em 58, pertecendo à primeira safra de originais, ainda de McCartney-Lennon. Foi inspirada no estilo Buddy Holly de compor e no estilo dos Everly Brothers de cantar, artistas brancos do country/rock americano que muito influenciaram os rapazes neste período. A primeira canção gravada na Parlophone, em 6 de junho, com Pete Best na bateria, o que resultou na observação de Martin que precisavam de outro baterista no estúdio. O que para eles não era uma boa idéia, pois era uma enganação. Com isso Pete Best foi trocado e Ringo, um velho amigo tomou seu lugar. E com ele gravaram a versão de "Love Me Do" do compacto, sem pandeiro datada de 4 de setembro. Foram feitas umas quinze versões, insatisfatórias para Martin. A próxima sessão foi no dia 11 de setembro, sob a produção de Ron Richards que chamaram Andy White, um experiente baterista que já havia tocado com Bill Halley, quando este veio à Inglaterra em 57 - Paul assistiu este show, em Liverpool. Ringo teve que contentar-se com o pandeiro, muito bem tocado, por sinal. E esta foi a versão do álbum, a mais conhecida até. Conta a lenda que era John quem fazia o vocal principal e partia em seguida para a gaita, o que não agradou Martin, que sugeriu que Paul o fizesse. Paul tremeu, pois não estava preparado. Felizmente Paul aprendeu-o muito bem, assim como Ringo desenvolveu seu próprio estilo de tocá-la.

P.S. I Love You
A gravação data de 11 de setembro, assim como "Love Me Do" e apresenta White na bateria e Ringo nas maracas. Trata-se de uma melodia de inspiração latina, pois a música latina como o cha-cha-cha, a rumba, o calipso e a bossa-nova estavam em moda na época. É Paul quem canta os vocais sendo apoiado por John. Parece que Paul queria que ela fosse o lado A, mas Richards disse como ex-editor musical tinha uma idéia de que alguém já havia lançado um single com este título. Então ela entrou como lado B.

Baby It's You
Gravada pela primeira vez em 11 de fevereiro em três takes. Aqui John faz uso novamente de seu vocal doce de balada que vai se tornando agressivo com o decorrer da melodia - inspirado, sem dúvida, nos vocais negros. É outro cover das Shirelles.

Do You Want o Know a Secret?
Esta canção foi inspirada numa outra chamada "Wishing", do filme White Snow, que Julia costumava cantar-lhe. Já a melodia foi inspirada em "I Realy Love You". Trata-se do segundo vocal principal de George no disco, que faz uso de um timbre doce para contar o segredo de estar apaixonado há algumas semanas à uma garota. Foram feitos 8 takes. George entra sozinho sendo acompanhado apenas por uma guitarra, em "Listen" os instrumentos entram todos juntos. Porém, só no segundo é que John e Paul entram nos backing "doo-a-doo" típico dos cantores de doo-wop. O melhor take foi exatamente o oitavo com sobreposição do 6. Foi gravada também por Billy J. Kramer And the Dakotas, outro grupo de Epstein, da cidade, chegando ao primeiro lugar

A Taste Of Honey
Canção tema do musical e do filme de mesmo nome. Como não poderia deixar de ser é Paul quem está nos vocais dobrados desta canção de toque latino. Foi a primeira vez que eles fizeram uso do recurso de dobrar a voz e para isso foi necessário sobrepocionar uma gravação sobre a outra, sincronizando-as para dar um efeito cheio. Foram pegos os takes 7 e 5.

There's A Place

Embora, pareça uma versão de "Please Please Me", esta foi inspirada no estilo dos cantores negros da Motown. Foi a primeira canção a ser gravada naquele dia, sendo necessários 10 takes. Alguns deles só com solos de gaita. A beleza das harmonias vocais merece destaque: John canta a melodia, sendo apoiado pela harmonia aguda de Paul e no final quando todos já estavam acostumados a isso, George aparece cantando a voz grave e John pula para uma voz intermediária. Apesar de ainda abordar temas românticos, esta letra já demonstra maturidade, pois trata de um lugar onde o autor (provavelmente John) pode ir e lá refletir sobre a vida e sua garota.

Twist And Shout
Cover de um hit de 58 do grupo negro de soul Isley Brothers. Já era tarde e os Beatles haviam passado o dia 11 inteiro gravando, e John que já estava com gripe se encontrava agora com a garganta dolorida, mas, ainda não haviam encontrado uma música para fechar o album, então alguém sugeriu que ele deveria cantar "Twist And Shout", apesar da versão original ser cantada por um cantor de voz mais aguda como Paul. John, apesar de tudo, não titubeou, chupou umas pastilhas e tomou um copo de leite quente e mandou ver, sendo apoiado por Georgee Paul. Foi feito apenas um take, embora se tenha documentos de um segundo take, não foi achado nenhum registro discográfico e George Martin disse que queria um segundo, mas, que John não aguentaria fazer tudo de novo. Diz-se que todos ficaram boquiabertos, pois nunca haviam visto um grupo ainda ter pique para cantar e tocar daquela forma depois de mais de dez horas de gravação e com gripe, Martin até comentou "Eu não sei como fazem isso. Estivemos gravando o dia inteiro e quanto mais tempo isto leva mais eles conseguem". Os colegas de Martin também ficaram maravilhados e levaram uma cópia que tocaram para cada colega, e todos ficavam surpresos. Eram 22 horas da noite, estava na hora de fechar os estúdios. 5 minutos depois qualquer músico do cast da Abbey Road já estaria nas plataformas da Estação de metrô St. John's Wood, mas os Beatles não se mostravam cansados e queriam ouvir algumas gravações. Então, Brian Epstein ofereceu-se para levá-los de carros às suas casas. Ninguém nunca havia visto um grupo assim.

Por Marcelo Scavazza Sanches

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

The Beatles - Magical Mystery Tour (1967)


O que se podia esperar de um disco dos Beatles realizado após o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band? Certamente, fãs e imprensa mal conseguiam imaginar que novas canções viessem tão cedo, já que no ano anterior, 1966, o quarteto havia lançado apenas um álbum inédito, o não menos brilhante Revolver, quebrando uma série tradicional de dois LPs por ano desde 1963. Imaginou-se também que uma coleção de preciosidades tão revolucionárias fosse deixar a dupla Lennon/McCartney na lona, sem repetir um nível tão alto de criatividade musical.

Na verdade, dois meses antes do Pepper's ser lançado - o que aconteceu em 1 de junho de 1967 - os Beatles já estavam gravando material para um projeto pretensamente ainda mais ambicioso de Paul McCartney: um filme para a televisão com uma trilha sonora que incluiria novas faixas!

Macca teve a ideia enquanto viajava de avião para a América, no dia 11 de abril. Concebeu uma história modesta, cujo roteiro se basearia em uma viagem de ônibus pela psicodélica Inglaterra de 1967. Quando reencontrou os outros Beatles, dias depois, contou-lhes a idéia e ganhou o apoio dos parceiros. A partir daí, começaram a gravar algumas canções que poderiam ser usadas na trilha para o filme que seria, de fato, um especial de fim de ano para a TV.

As gravações foram acontecendo esporadicamente entre abril e novembro, período de mudanças substanciais na vida do grupo; no dia 14 de junho, eles gravaram "All You Need Is Love" para a primeira transmissão mundial via-satélite da história da humanidade. Lançada em single, esta canção chegou ao primeiro lugar nos dois lados do Atlântico, enquanto o Pepper's fazia o mesmo, deixando público e imprensa de bocas abertas com seu conteúdo inovador, luxuoso, rico em técnicas de arranjos, composição e gravação.

Em função das badalações em torno do lançamento do single e do Pepper's, o projeto do filme e de novas canções para a trilha foi deixado de lado temporariamente. Paul acabou por revelar na TV que usava LSD, causando um rebuliço quase igual ao da célebre frase de John sobre Cristo um ano antes. Portanto, uma subseqüente retirada geral para férias na Grécia veio a calhar. O famoso encontro com a meditação transcendental do Maharishi Yogi se daria no dia 25 de agosto, em Bangor, North Wales.

Nem tudo era luz, afinal. Em 27 de agosto, enquanto John, Paul, George e Ringo conheciam seu guru, Brian Epstein vem a falecer, deixando desnorteados seus pupilos, que não entendiam nada de negócios. Muitos historiadores observam neste trágico desaparecimento de Epstein o início da separação dos Beatles.

Assim, depois de algumas poucas sessões de gravação sem maiores compromissos, os quatro encontraram-se na casa de Macca, no dia 1 de setembro, para decidir o que fazer. E resolveu-se que o Magical Mystery Tour iria acontecer mesmo, o que fez com que as gravações de novos temas se reiniciassem a seguir, bem como as filmagens do especial, que rolariam de setembro até exatamente ao dia 31 de outubro. Os Fabs partiram com uma turma de 43 pessoas –entre amigos, técnicos e atores- em um ônibus pelo interior da Inglaterra, para o desenrolar de uma história improvisada que acabou ganhando 'roteiros' extras de John, George e Ringo. Eles se dividiriam então entre os estúdios da Abbey Road, os sets de filmagem no Shepperton studios, as locações abertas e algumas poucas entrevistas para a TV. O último dia de filmagem aconteceu com a solitária presença de Paul em Nice, frança, quando gravou a famosa cena de The Fool On The Hill.

Em novembro, os Beatles lançavam um novo single com "Hello Goodbye" e "I Am The Walrus"; a boutique da Apple é inaugurada, enquanto Ringo inicia sua carreira solo como ator filmando Candy. Harrison não fica atrás: começa a compor a trilha sonora do filme Wonderwall, inspirada na música indiana.

Em 8 de dezembro, é lançado um EP duplo com as novas canções do filme: "Magical Mystery Tour", "The Fool On The Hill", "Flying", "Blue Jay Way", "Your Mother Should Known" e, novamente, "I Am The Walrus", que conheceu seu segundo lançamento menos de um mês após sair como lado B de "Hello Goodbye". O filme chegou à TV em 26 de dezembro, com sua premiére na BBC 1.

Os críticos malharam o projeto com gosto, considerando-o uma baboseira gigantesca. Era a primeira vez que os Beatles eram criticados negativamente por um trabalho. Apesar do esforço de Paul em defender aquele que era seu projeto de fato, pouco adiantou. A unanimidade se formou ao redor das críticas ruins, que diziam ser perda de tempo total acompanhar tamanha junção de cenas desconexas, sem sentido, absolutamente inócuas para o que se pretendia classificar de entretenimento saudável.

Enquanto na Inglaterra a trilha saiu em EP, na américa a gravadora Capitol tomou uma atitude diferente, reeditando a tradição de antigamente, que era a de montar um repertório próprio. Para tanto, juntou às canções do Magical todos os compactos simples lançados durante o ano; ou seja, pela primeira vez, músicas como "Penny Lane", "Strawberry Fields Forever", "All You Need Is Love", "Baby You're A Rich Man" e "Hello Goodbye" chegaram a um LP. A EMI alemã seguiu a ideia da filial americana e também lançou a trilha no mesmo formato e repertório. No Brasil, o disco saiu exatamente como na Inglaterra, com o lançamento da edição americana acontecendo somente 10 anos depois, em 1977, quando a matriz inglesa finalmente lançou o LP. No entanto, o Magical Mystery Tour tornou-se, para todos os efeitos, o 9º álbum de carreira dos Beatles. Vamos às faixas, todas produzidas pelo bom e velho George Martin.

MAGICAL MYSTERY TOUR
A faixa-título que apresenta o filme, também abre o LP. Não por coincidência, foi a primeira música a ser gravada, o que aconteceu entre 25 de abril e 3 de maio, no estúdio 3 da EMI em Abbey Road. Foi composta por Paul, claro, a partir de sua idéia do filme. Tem uma introdução pesada em 6/8, passando para um acelerado ritmo em 4/4. Ao longo da canção o ritmo muda para um andamento mais lento, que se alterna com os rápidos constantemente. A melodia é simples, deixando a força para os back-vocais e para o tom de 'tema de abertura' da faixa. O arranjo ganhou instrumentos de sopro tocados por David Mason, Elgar Howarth, Roy Copestake e John Wilbraham. Paul tocou percussão, contrabaixo e piano, fez o vocal principal, o coro e idealizou o arranjo; John e George ficaram com os violões, guitarras rítmicas e percussões diversas. Ringo, além da bateria, também tocou percussão.

THE FOOL ON THE HILL
Uma das melodias mais bonitas escritas por McCartney, uma espécie de irmã mais desenvolvida de For No One. George Martin descreveu certa vez a capacidade de Paul de surpreender os ouvintes com uma resolução harmônica súbita acompanhada de um quebra de ritmo, como acontece aqui na volta do refrão para a melodia principal. A letra também é bonita, ressaltando que atrás de uma personalidade aparentemente comum, pode haver um espírito nobre e visionário. Essa música começou a ser gravada em 25 de setembro, terminando com os overdubs das flautas em 20 de outubro. Paul está no vocal e no piano, enquanto John e George, além de violões, tocam harmônicas. A versão final do LP ficou apenas com alguns efeitos percussivos de Ringo. Ken Essex e Leo Birnbaum acrescentaram violas na última sessão também.

FLYING
Único tema inteiramente instrumental (ou sem letra) do grupo lançado até 1994 (quando a "12 Bar Original" saiu no Anthology), esta faixa começou a ser gravada em 8 de setembro. Ganhou o inédito crédito dos quatro Beatles! Trata-se de uma melodia simples e de complemento de cena (aparece durante uma pegada de câmera nas nuvens), na tradicional cadência harmônica de tônica-dominante e sub-dominante em dó maior, melodia esta ressaltada em um coro com as vozes de todos eles. Tinha uma montagem original que a encerrava com um arranjo de jazz tradicional com saxofone, que acabou sendo cortado da versão final. Ao invés disso, um mellotron tocado por Lennon foi acrescentado fechando a canção com ares psicodélicos.

BLUE JAY WAY
Esta é a contribuição de Harrison para o filme. Começou a ser gravada na madrugada do dia 7 de setembro, depois de gravações adicionais em I Am The Walrus e The Fool On The Hill, fato que retrata bem o que George dizia: que suas músicas sempre recebiam atenção apenas nas horas de sobra de estúdio, depois que John e Paul gravavam suas composições. Blue Jay Way segue o esquema de Within You Without You, ou seja, usa desenhos melódicos que insinuam uma forte influência das ragas indianas. A letra é banal, revelando o sentimento de expectativa da chegada de Derek Taylor à casa alugada por George em Los Angeles um mês antes, quando esteve na América. A rua em que ficava a casa deu o título à canção. Neste caso, Harrison dispensou a cítara e a tabla e acrescentou um órgão Hammond, que dá o gosto timbrístico da gravação juntamente com os cellos. Os vocais também são cheios de efeitos, criando um dos mais fortes climas psicodélicos desta fase.

YOUR MOTHER SHOULD KNOW
Esta canção foi gravada algumas vezes com versões distintas. A que entrou no disco acabou sendo a primeira a ser gravada, em 22 e 23 de agosto, antes da morte de Epstein. O trabalho foi feito no Chappell Recording Studio, em Londres. Paul aproveitou a disponibilidade do estúdio após ter produzido a gravação de "Catcall", canção de sua autoria, com o grupo Chris Barber Band. Os estúdios da Abbey Road estavam sem horários livres, o que também levou o grupo a escolher outro local. A melodia de "Your Mother..." tem a mesma raiz criativa de "When I'm 64", embora seja mais simples e não possua uma segunda parte.

I AM THE WALRUS
Um dos maiores clássicos da música popular mundial de todos os tempos, esta canção é um marco da fase psicodélica do rock e o retrato mais visceral das experiências de Lennon com o LSD. Começou a ser gravada no dia 5 de setembro, uma terça feira. Tem uma melodia típica de John, que conseguia como poucos montar um desenho que usava poucas notas, repetindo-as genialmente de tal maneira que se criava uma tensão instigante e assombrosamente bela. O piano elétrico tocado pelo autor e sua voz ácida acrescida de efeitos tétricos de distorção fazem de Walrus uma obra prima da época e uma espécie de visão às avessas do flower-power. O arranjo de Martin é outro ponto alto: cordas que sobem e descem em semitons são a vestimenta perfeita para uma letra que transpira a loucura e o surrealismo de uma viagem alucinógena, mas ao mesmo tempo lúcida, que começou a sugerir à John Lennon uma realidade mais sombria do que as flores coloridas que cercavam a geração paz e amor. Uma revolução.

HELLO GOODBYE
Abrindo o lado 2 do LP americano, está o lado A do último single lançado pelos Beatles em 1967. É uma linda canção de Paul, mais uma vez simples e eficiente, tocada sobre a escala decrescente de dó maior. Assim como no resto das músicas desta fase, há poucos solos de guitarra no arranjo. Aqui, a mixagem final deixou que apenas duas notas como efeitos complementares para as cordas e para o mellotron tocado por John. Ringo obtém um bom jogo de virada de compassos na bateria, enquanto a voz de Macca ganhou uma tonalidade mais aguda com a aceleração da fita onde se registrou seu vocal. Gravação iniciada em 2 de outubro e finalizada em 2 de novembro, 22 dias antes de ser lançada em compacto.

STRAWBERRY FIELDS FOREVER
O que dizer de um LP que tenha em seu repertório "Strawberry Fields", "I Am the Walrus" e "Penny Lane", por exemplo? Sem dúvida, foi a única feliz decisão da Capitol americana no que diz respeito às montagens de discos dos Beatles em seu território. Desnecessário dizer, mas vamos lá: esta é a divisora das águas da música pop, uma obra prima primorosa e avassaladora, os gênios criativos de John Lennon e de George Martin em ação. Sim, pois este último era o único que conseguia traduzir para as pautas musicais e fitas magnéticas o que o compositor tinha em mente. Melodia simples e bela, arranjo audacioso e repleto de efeitos, esta faixa é, como já disse, um marco na história da música popular em vários quisitos: surrealismo da letra, revolução em técnicas de gravação, arranjos e transposição da imaginação em resultados sonoros concretos. São os Beatles voltando ao passado, evocando sua memória infantil e lúdica, observando os detalhes minuciosos escondidos por entre as árvores de um orfanato. Tudo isso revestido com as cores do psicodelismo e com as abstrações provocadas pelo LSD.

PENNY LANE
O diálogo de Paul com o parceiro John, sua resposta igualmente evocativa das memórias de criança que brinca pelas ruas escuras e úmidas de Liverpool. Outro clássico, uma obra prima imprescindível no imaginário musical de qualquer ser humano, uma canção pop com uma melodia nobre e bucólica, lindíssima e envolvente, uma harmonia elaborada adornada por trompetes que resgatam Bach para o ambiente popular/jovem, efeitos sonoros e timbrísticos que nos levam para dentro de nós mesmos, numa viagem interminável e saborosa pelos mais misteriosos cantos da mente humana. Essa era a diferença crucial entre Paul e John: enquanto o último imprimia uma melancolia instigante e uma dor sutil em seus temas, o primeiro sempre deixava transparecer sua doce vocação para a felicidade e o otimismo. E em Penny Lane ele nos fala das ruas de Liverpool, do barbeiro, das gírias malandras e das luzes divinas que se diluem em nosso cotidiano.

BABY YOU'RE A RICH MAN
Esta faixa saiu originalmente no lado B de "All You Need Is Love", em junho. Começou a ser gravada em 11 de maio. É um tema de John, uma canção despretensiosa e agradável, criada para o filme Yellow Submarine, outro projeto oferecido aos Beatles na ocasião. Trata-se de uma daquelas faixas em que eles experimentavam efeitos diferentes, timbres desconhecidos; Lennon toca um instrumento chamado Clavioline, um teclado que podia reproduzir vários sons, enquanto Eddie Kramer, o segundo engenheiro de som de Abbey Road, acrescentou um vibrafone. A letra é uma ironia à vida de 'ricos e famosos' que os quatro levavam.

ALL YOU NEED IS LOVE
O LP americano se encerra com esse mega sucesso lançado seis meses antes em single. É o hino da geração hippie, o ápice da mensagem colorida do verão do amor. Com uma melodia simples e um arranjo rebuscado pela orquestra de Martin, "All You Need Is Love" é mais uma celebração de um evento (a transmissão via satélite) do que uma peça musical, e encerra com um colorido ingênuo e festivo um álbum repleto de visões ácidas, viagens psicodélicas, memórias vívidas e surrealismos saltitantes. Sim, Magical Mystery Tour sobreviveu à proximidade com o Sgt. Pepper's.

Por Marcelo Scavazza Sanches

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

1965, o ano de ouro dos Beatles e de Bob Dylan


Que tal um ano em que os Beatles e Bob Dylan lançaram 4 álbuns quesão obras primas das mais brilhantes na história da musica popular, e todos eles lançados dentro de um período que durou 9 meses? Alguma coisa acontecia naquele momento. Mas você não soube dizer o que era... soube, Mr. Jones?

Hoje, mais de meio século depois, dá pra se fazer uma pálida ideia.


Poucos momentos na história da música popular mundial tiveram tanta importância como o ano de 196. Foi a fase em que as grandes estrelas pop influenciaram-se mutuamente, trocando informações e fontes inspiradoras. Bob Dylan influenciou os Beatles, que passaram a utilizar elementos da musica folk em seu Rock'n'roll, além de melhorarem substancialmente suas letras, que passaram a versar sobre temas mais complexos, que iam muito além de romances adolescentes e desilusões amorosas juvenis. Dylan também apresentou a maconha aos garotos de Liverpool, fazendo com que tivessem pensamentos e posturas transcendentes, que culminariam no psicodelismo e nas suas futuras experiências musicais inovadoras.

No entanto, o movimento contrário também aconteceu: Bob deixou de tocar apenas folk music, acrescentando o instrumental elétrico em suas gravações e reproduzindo harmonias mais extensas e ricas, coisa que a dupla Lennon & McCartney já fazia com espantosa habilidade. "Acho os acordes dos Beatles surpreendentes, e as harmonias que constroem são super válidas. Para tocar esse som você precisa ter vários músicos. Eu sei que eles estão apontando para a direção certa da música", declarou Mr. Zimmerman na ocasião, dando uma explicação pra uma crítica estupefata com seu novo álbum..

O primeiro resultado concreto desta confluência magnífica está no LP Bringing It All Back Home, lançado por Dylan em março de 65, com um lado folk de voz e violão (para não desagradar ao seu público mais tradicional de então) e outro de rock básico, com guitarras, baixo e bateria. Uma explosão! Aqui estão clássicos como as acústicas "Mr Tambourine Man", "It's All Over Now, Baby Blue" e as elétricas "Subterranean Homesick Blues" (uma precursora do rap, com seu canto falado) e "Maggie's Farm", entre outras. Dylan deixou de lado as sérias canções de protesto e passou a cantar poesias concretas, letras aparentemente sem nexo, mas recheadas de alusões às drogas, ao cinismo, à vida on the road e ao deboche em cima dos padrões do american way of life ("Ei, senhor que toca tamborim, cante uma canção pra mim/ estou sem sono e não tenho pra onde ir, e quando surgir a desconcertada manhã/eu estarei atrás de ti"). Um disco histórico, imperdível e essencial! Daí veio a ideia de seu título, uma espécie de "Manda tudo isso de volta pra casa", ou seja, "deixem-me fazer meu novo som, mandando o que já é velho para onde sempre esteve, nas tradições".

O clima de gravações do LP foi, no mínimo, improvisado. Alguns músicos que tocaram nas sessões - que duraram apenas 3 dias - lembram-se de não saberem direito os acordes das musicas, e que Dylan simplesmente pedia para que não "esquentassem a cabeça" e tocassem de improviso, olhando para os acordes que ele fazia na sua guitarra. Ás vezes, a banda parava de tocar no meio de um take, tudo porque Bob começava a dar gargalhadas dos erros que todos cometiam ou porque eles disparavam a tocar antes que ele completasse a contagem inicial. Enfim, quando lançado, Bringing It All Back Home foi tão malhado quanto elogiado, provocando uma divisão que marcaria a história da carreira de Dylan; uns exigiam que ele voltasse ao folk puro, enquanto outros vibraram com aquelas melodias curtas e marcantes, de letras quase psicodélicas, tocadas em cima de uma base rock. Tudo era possível, era essa a mensagem ("você não precisa de um meteorologista pra saber pra onde o vento sopra", diz a letra de "Subterranean Homesick Blues"). Apenas 5 meses meses depois, em agosto, Bob concretizou a guinada de seu estilo lançando o ainda melhor Highway 61 Revisited, álbum completamente elétrico, e com os clássicos "Like A Rolling Stone" (considerada uma das canções mais marcantes de todos os tempos, segundo pesquisa recente da revista inglesa UNCUT) e "Ballad Of A Thin Man" (com a famosa pergunta "algo está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é, sabe, Mr. Jones?").

Em julho, entre as duas obras Dylanescas, os Beatles apareceram com o filme e o álbum HELP!. O filme trazia referências da cultura indiana (que mudaria para sempre a vida de George Harrison). Já o LP representou um grande passo na evolução dos Fabs, mostrando, por exemplo, que eles podiam sim escrever uma canção com toques eruditos: "Yesterday", obra irretocável de Paul McCartney. Mas já havia sinais evidentes da troca de influências com Dylan, principalmente nas canções de Lennon. Em "You've Got To Hide Your Love Away" John reproduz nitidamente o acento folk típico dos temas de Bob, quase lhe imitando o vocal e a levada preguiçosa no violão. Além do mais, a letra fora inspirada em Brian Epstein, um homossexual, com Lennon procurando retratar a difícil situação vivida por alguém com opção sexual diferente em meio a um contexto machista. Em "Ticket To Ride", John escreveu uma letra retratando a partida de uma mulher que decide viajar sem seu companheiro e contra a vontade deste, numa sutil referência à emancipação feminina. Em "It's Only Love" ele se revela um garoto tímido que treme na frente da força de sua amada; e por aí a coisa foi. Musicalmente, HELP! já sinalizava um uso cada vez maior do timbre acústico, com acompanhamento mais intenso de violões e de vocais menos formais e mais improvisados, como na faixa título.

Mas a gota d'água e o fechamento de ouro deste ano seria com Rubber Soul. É o disco mais unplugged dos Beatles, com temas melódicos delicados, percussão eficiente e minuciosa de Ringo Starr, mais os arranjos predominantemente acústicos, como "Michelle", "I'm Looking Through You" e "Norwegian Wood", esta última uma descrição de um affair romântico de Lennon com uma garota independente, que usa o parceiro apenas para fazer sexo, invertendo os papéis, saindo no dia seguinte para seu trabalho sem que ele ao menos soubesse seu nome. É a afirmação da temática do feminismo iniciada em "Ticket To Ride". Em "Nowhere Man", John fala do homem comum que no fundo comanda o mundo, o anônimo cidadão, e que não tem consciência do seu poder dentro da sociedade capitalista. Em "Girl", novamente ele se coloca como um 'pobre tolo' diante de uma mulher sorrateira e sem escrúpulos que está sempre na iminência de traí-lo ('ela é o tipo de garota que te faz sentir-se um tolo, quando os amigos estão ao redor'). Neste álbum, um marco dentro da musica pop e do rock, os Beatles deixam de lado a eletricidade e o ritmo acelerado do rock pra entregarem-se com habilidade aos arranjos acústicos claramente inspirados no folk e em letras mais sérias, num movimento contrário aos de Dylan, revelando assim a imensa e criativa troca de influências que ambos realizaram naquele precioso ano de 1965.

Por Marcelo Sanches

sábado, 29 de novembro de 2003

George Harrison: a Turnê norte-americana de 1974


Estamos "comemorando" (na verdade, lamentando) nestes dias os dois anos de passagem do saudoso e querido George Harrison, que em 29 de novembro de 2001 faleceu vitimado por câncer, deixando uma lacuna irreparável no cenário da música popular mundial. O amigo Eric Clapton, juntamente com a viúva Olivia de Arias e o filho Dhani Harrison organizaram um show em homenagem ao eterno guitarrista dos Beatles exatamente um ano depois, no Royal Albert Hall londrino, quando muitos músicos e artistas amigos de Harrison prestaram uma homenagem à ele reinterpretando várias de suas preciosas canções, desde aquelas compostas com os Fabs até temas criados em sua carreira solo precocemente interrompida com o agravamento da doença. O DVD e o CD duplos que estão saindo agora trazem o concerto na íntegra, dando-nos uma sensação da presença sutil de George entre os colegas que reproduziram com afeição e amor as suas músicas, incluindo-se aí os colegas de banda Paul McCartney e Ringo Starr. Paul, aliás, escolheu a maravilhosa "All Things Must Pass", composta por George em 1968 e que acabou sendo renegada pelo grupo (leia-se Macca e Lennon) durante as filmagens de "Let It Be" em janeiro do ano seguinte.

Quem possui os bootlegs destas sessões percebe a displicência da dupla em acompanhar Harrison nesta faixa magnífica que exalta em sua letra a inerente condição de transformação e efemeridade que acompanha a vida humana em todos os sentidos, seja material ou espiritualmente. Pode ser impressão minha, mas McCartney talvez tenha escolhido essa canção justamente para 'pagar' seu débito com George, reconhecendo sua indisponibilidade (ou má vontade) com o colega naquela ocasião, quando não lhe dava espaço para incluir suas composições nos discos dos Beatles. Bem, o fato é que a Warner parece estar de posse do catálogo de Harrison novamente, e Dhani promete muitas novidades para os próximos anos, coisas como remasterizações de álbuns antigos, bônus tracks e out-takes da carreira solo do pai, além, é claro, de músicas inéditas. E aí só nos resta rezar para que George 'ventile' nos pensamentos do filho a permissão para lançar material da mal fadada excursão realizada em fins de 1974 pela América do Norte, há 29 anos atrás, quando o guitarrista dos Beatles apresentou-se em 26 cidades daquele continente, em 45 concertos, entre os dias 2 de novembro e 20 de dezembro. Eu escrevi 'mal fadada' por força de expressão, já que as críticas negativas à turnê foram massacrantes, fazendo com o que o próprio Harrison - que registrou em fita muitos shows com a idéia de lançar um LP duplo e um filme - se limitasse a exibir esse material editado apenas para os privilegiados visitantes de Friar park.

O ano de 1974 não foi dos melhores para George. Logo de início, ele teve que suportar a partida da esposa Patti com seu melhor amigo, Eric Clapton. A relação do casal não estava mais dando certo há muito tempo e Harrison na verdade parecia não investir muito nela, já que vivia desenvolvendo affairs românticos com outras mulheres (entre elas, a de Ringo!) e dedicando-se às meditações e rituais da seita Hari-Khrisna, o que irritava e magoava Patti. Mas é sempre complicado ver a mulher partir, e com nosso herói não foi diferente. Pintou crise, e George atolou-se no trabalho como forma de tapear a dor de corno... montou seu selo próprio, Dark Horse Records, gravou uma série de novas canções, compôs em parceria com RonWood, tocou em jams sessions com músicos de jazz-rock em Los Angeles e produziu dois álbuns do amigo e mestre Ravi Shankar, além do excelente disco de estréia do duo Splinter.


Ao final do ano, ele reuniu algumas faixas gravadas no decorrer do período em diferentes estúdios de LA e Londres e preparou o LP "Dark Horse", que fora concluído em outubro de 1974 em meio aos ensaios da turnê pela América, que ele anunciou em setembro e também numa grande coletiva à imprensa no dia 24 de outubro já em território americano. Tantas atividades e ensaios (além de alguns drinks) fizeram com que George perdesse sua voz. No dia 2 de novembro, Harrison & banda (Billy Preston, teclados; Willie Weeks, contrabaixo; Andy Newmark, bateria; Jim Keltner, bateria (a partir da metade da turnê); Robben Ford, guitarra; Tom Scott, saxophone; Jim Woods, sopro; Chuck Findley, trompete, e Emil Richards, percussão) dividindo os holofotes com Ravi Shankar e banda, iniciaram sua peregrinação em Vancouver, Canadá. O repertório começava com "Hari's On Tour", número instrumental que também abria o LP "Dark Horse", e passava por "The Lord Loves The One" (esta apresentada somente no primeiro show), "While My Guitar Gently Weeps", "Something", "Will It Go Round In Circles" (com Billy Preston), "Who Can See It" (também só no primeiro show), "Sue Me Sue You Blues", sete (7) peças indianas de Shankar, "For You Blue", "Give me Love", "Soundstage Of Mind" (outro instrumental com criação coletiva, embora registrada em nome de George), "In My Life" (Lennon/ McCartney), "Tom Cat" (instrumental com Tom Scott & LA Express), "Maya Love", "Dark Horse", "Nothing From Nothing" (Billy Preston), "Outa Space" (Billy Preston) e "What Is Life", com "My Sweet Lord" no 'encore'. A última apresentação aconteceu no dia 20 de dezembro no Madison Square Garden novaiorquino, quando John Lennon assistiu a apresentação da platéia, indo ao encontro de George no backstage. Na maior parte dos dias o grupo apresentou-se em duas sessões, uma vespertina e outra noturna, como era costume nos anos 70.

Na verdade, esses shows tiveram inúmeros bons momentos, com uma excelente performance dos músicos participantes e uma proposta ousada para a época, que era unir em um só espetáculo a música pop, o funk e o jazz-rock com a tradicional e clássica música indiana (os músicos brincavam entre si, classificando-se de 'cowboys' e 'indianos'). Mas vamos começar pelos maus bocados: as críticas negativas ao ritmo do espetáculo tinham lá um pouco de razão; afinal, apesar da proposta interessante e do caráter enriquecedor da troca de informações culturais para uma audiência acostumada ao barulho (e à cada vez mais fugaz pasteurização musical já em vigor na ocasião), as apresentações de Shankar acabaram sendo longas demais para os 'ligadões' e afoitos fãs dos Beatles e do rock & roll em geral. Além do mais, insistir numa 'catequização' de Khrisna para um público já mergulhado no mundo da cocaína e no desbunde pré-punk e barra pesada que marcaria a primeira metade da década era remar na contramão dos modismos vigentes, bem como uma cantilena meio careta. Mas George gostava de ser do contra. E foi em frente. Shankar, no entanto, sucumbiu à tensão dos primeiros 18 dias da excursão e acabou sofrendo uma ameaça de enfarte, o que o impossibilitou de atuar nos shows durante alguns dias, voltando a fazer parte do programa somente em 19 de dezembro, no penúltimo concerto.

A voz de Harrison foi outro problema, fazendo com que as interpretações fossem, em algumas oportunidades, constrangedoras, pois nas partes melódicas de notas mais altas George passou a usar um recurso antigo do amigo Bob Dylan, que era o de simplesmente 'falar' as canções, alterando suas melodias para adequa-las à carência do vocal. Isso sem falar nas mudanças das letras originais, outra mania copiada de Dylan. Em "something", por exemplo, George cantava "If there's something in the way/ we can moved it", ao invés da linha original "something in the way/ she moves", numa possível citação ao fim de seu casamento. Em "While My Guitar Gently Weeps", ele cantava "gently smile", tentando acrescentar um otimismo oriental ao tema originalmente melancólico da letra; em "In My Life" (uma das surpresas dos shows, pois ninguém podia imaginar George cantando um tema Lennon/McCartney nestas alturas do campeonato) ele cometeu uma 'heresia às avessas' ao cantar "in my life i love God more", alterando a letra do clássico de "Rubber Soul"!



Segundo declarações do saxofonista Tom Scott à revista Rolling Stone, durante os ensaios para a turnê, Ravi Shankar - temendo uma rejeição ruidosa do público - procurou convencer Harrison a incluir temas dos Beatles no repertório do show, coisa que ele se recusava a fazer em princípio. Convencido pelo amigo a ceder, mesmo assim o guitarrista parecia cultivar uma irritante indiferença ao cantá-las, como se ele se sentisse 'obrigado' pelas circunstâncias a fazê-lo. Parecia alimentar uma espécie de auto-paródia, imprimindo também um certo cinismo na maneira de interpretá-las. Na verdade, Harrison buscava auto-afirmação como um artista solo, tratando os Beatles como um fato do passado. O seu bom e sarcástico humor também aparecia, vez por outra. Em alguns shows, ele insistia em se anunciar como Neil Diamond! E seu encontro com o então presidente Ford na Casa Branca para um lanche naqueles dias proporcionou aos fãs e à mídia um espetáculo bizarro, inusitado e meio deslocado. Quem podia entender?

Durante muitas apresentações, George parecia desanimar-se com a apatia da platéia, que pouco aplaudia alguns de seus temas mais recentes, parecendo mais entusiasmada com Billy Preston, que vivia naqueles tempos um período de muito sucesso. No show realizado em Uniondale, estado de NY, no dia 15 de dezembro, ele disse ao público: 'Oh, merda! Tem alguém aí embaixo? Vocês estão tão quietos!'. Em Los Angeles, no dia 5 de novembro, inconformado com a pouca vibração das pessoas, ele foi ao microfone resmungar: "Daqui de cima a gente não consegue ver direito, mas parece-me que vocês estão mortos aí embaixo!". O bode de George com o público refletiu-se em alguns momentos de maneira mais perceptível, como em Long Island, em 15 de novembro, quando ele cantou com um desânimo incrível e parecia definhar-se no palco. Coincidentemente, George e John haviam saído juntos - com suas respectivas namoradas na época, Olivia de Arias e May Pang - na noite anterior, e Lennon estava presente entre os convidados nesta mesma apresentação do dia 15, prometendo a George que tocaria com ele quando a excursão chegasse em Nova Iorque. Se aconteceu algum stress entre eles, ninguém soube ao certo.

Billy Preston, por sua vez, tinha três faixas no set list, e procurava incendiar o público o tempo todo com gritos e danças amalucadas pelo palco. Alguns críticos escreveram que ele salvara os shows da melancolia e pasmaceira, chegando a ofuscar Harrison, que em muitas oportunidades mostrava-se acuado e incomodado com tal situação. Até a versão de 'My Sweet Lord' que fechava a apresentação era a gravada por Preston em 1971! Na verdade, George tinha grandes dificuldades em sentir-se seguro no palco, e precisava de qualquer maneira assegurar-se de que não era o centro das atenções, preferindo dividir a cena com Preston e os outros músicos (na turnê realizada no Japão, 17 anos depois, Eric Clapton acabou sendo seu parceiro nesta 'divisão'). Assim, sentia-se mais livre como músico, como se fosse menos 'cobrado'. Para um repórter que insinuou que o ex-beatle sentia ciúmes do pique de Preston, Harrison respondeu: "Preciso muito de Billy ao meu lado, não sei o que seria de mim sem ele". Ele falava sério...

Voltar a se expor na mídia, para qualquer um dos 4 ex-beatles, significava submeter-se à um verdadeiro bombardeio com a pergunta "Quando é que os Beatles vão voltar?", o que irritava e descontrolava Harrison, que, visivelmente nervoso, respondeu certa vez à Rolling Stone: "Ghandi disse 'crie e preserve sua própria imagem'. A minha imagem escolhida não é a do 'beatle George'. Se o público só quer pensar em Beatles, que vá assistir ao show dos Wings! Por que viver no passado? Esteja aqui e agora, e se você não gosta de mim, dane-se, pois eu sou o que sou". Quando se perguntava sobre as reações negativas do público dos shows, a coisa ficava mais pesada: "Olha, tem muito mais coisa rolando do que bêbados chatos gritando, enchendo o saco e passeando durante a parte de Ravi. O público tem que pensar um pouco. Tem que sacrificar alguma coisa, tem que criar uma boa energia também. Tem que ouvir e observar, e se prestar atenção, verá que existe conteúdo no palco. Se as pessoas deixarem de fazer delas mesmas uma barreira e abrirem suas mentes, se divertirão muito mais com o coração. Há muita alegria no mundo!".

Na última apresentação, em Nova Iorque, George havia insistido para que John subisse ao palco com ele para juntos tocarem "In My Life", faixa que ele sempre terminava dizendo 'Obrigado, John, Paul e Ringo, os ex, ex, ex- beatles! Deus os abençoe!". Voltando atrás na promessa feita alguns dias antes, não subiu ao palco, deixando o parceiro decepcionado. Quando foi ao encontro de Harrison no backstage, após o final do show, teria recebido um empurrão dele em meio a uma discussão relativa à Apple e seus constantes problemas burocráticos e financeiros. John alegou depois que George estava de fato enfurecido com ele porque não assinou um dos milhões de termos contratuais que envolviam os Beatles, sob conselho de seu astrólogo, que não achava o dia "propício a esse tipo de coisa". Alegando também falta de tempo para ensaiar, Lennon achou melhor não subir ao palco "para tocar só um ou dois acordes". Alguns dias mais tarde, declarou à imprensa: "Apesar de sua voz estar péssima, a atmosfera do show em Long Island (no dia 15/12) era boa, e o público vibrou. O grande erro de George foi não ter tocado as coisas antigas que o público queria. Mas eu o entendo e o respeito. Ele não estava preparado, pois comigo aconteceu o mesmo durante os shows beneficentes que fiz em Nova Iorque dois anos antes". Passado o momento de atrito, os dois teriam seguido juntos para a boate Hippopótamus com toda a equipe do espetáculo, para uma festa de despedida. Até Yoko estava presente, mais uma vez cercando John, que poucos dias depois já estava ao lado da esposa outra vez. Foi o último encontro dos amigos em vida. Pelo menos aqui, neste planetinha...

Quando se ouve aos vários discos piratas gravados da platéia durante as apresentações (e principalmente as duas faixas mixadas e lançadas em um compacto oficial que acompanhou o livro caríssimo e de edição limitada "Songs From George Harrison", de 92) pode-se perceber que as performances de George e do grupo que o acompanhou eram em sua maioria fortes e concisas, dotadas de swing e de um espírito funk e até jazz-rock, como já disse acima, estilos estes então inéditos na carreira de Harrison. A influência de Billy Preston certamente foi decisiva, mas o fato é que o ex-beatle estava buscando novas direções para sua música, investindo mais no apuro técnico e na diversificação rítmica como formas de renovar sua criatividade, assim como fizera anos antes com a música indiana nos discos dos Beatles, com a country music e o gospel em "all Things". Neste sentido, essas apresentações soaram mais eloqüentes e representativas do que os seus discos da ocasião (com exceção do 'Thirty-Three and a Third', de 76, que revela o mesmo espírito funk vibrante e um guitarrista no auge de sua capacidade técnica); ao reinterpretar seus temas, ele buscou também não utilizar a fórmula fácil de reproduzir ao vivo os arranjos bolados e tocados em estúdio, praticando um pouco de improvisação e enriquecendo mais o feeling das execuções das músicas. Ao final de muitos shows, a platéia entendia sim essa empreitada, e os aplausos e palmas eram intensos. Essa turnê, portanto, serve de síntese dos caminhos percorridos pela música de George Harrison, já que a igualmente instigante presença de Shankar trouxe a parte indiana ao evento como parte fundamental de sua transição de roqueiro rock-a-billy para horizontes mais extensos. Como todos sabem, George Harrison foi um dos principais responsáveis pela inclusão da música indiana no circuito da música pop dos anos 60.

Em vida, George parecia não querer se submeter às críticas negativas que tanto o derrubavam, deixando esse material arquivado e para uso pessoal, apenas. Mas o que se espera é que Dhani nos dê esse presente um dia, abrindo um capítulo esquecido e mal compreendido da carreira de seu pai, lançando essas apresentações em DVD e em CD. Enquanto isso não acontece, recomendo aos fãs a audição de 'Washington 74', 'Live At Seattle', 'FortWorth, Texas' e 'Baton Rouge', as melhores gravações da turnê de 74 disponíveis entre os colecionadores.

Por Marcelo Sanches

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http://www.bekkoame.ne.jp/~garp/hari/live74.htm