Com o sucesso do primeiro álbum, os singles anteriores "Love Me Do" e "Please Please Me" e os posteriores "From Me To You" e "She Loves You" (que foi o compacto mais vendido de todos os tempos até 78, quando perdeu a posição para "Mull of Kintyre", dos Wings) e fantásticas turnês ao redor da Inglaterra, Martin viu a necessidade de impor a meta de dois LPs por ano, afim de que eles comprovassem que realmente haviam vindo para ficar.
Para isso, ao invés de apenas um dia de gravação foram necessários mais de cinco dias espalhados em quatro meses; pois não tinha como programar mais de cinco dias de gravação em Abbey Road, pois tinha turnês, programas de rádio, entrevistas, e eles ainda "moravam" oficialmente em Liverpool e deveriam ter tempo para compor material novo.
Os jovens e inexperientes meninos de um ano antes que nunca tinham pisado em um estúdio profissional, deram lugar a rapazes espertos e curiosos. Como compositores John e Paul estavam ainda mais profundos e suas características, embora imperceptíveis na época começavam a aparecer, contribuindo para a união neste momento e a definição do estilo de cada um. George, por outro lado também estava despontado como compositor, ainda sem seu estilo característico mas, com um charme inestimável.
Além disso este foi o primeiro álbum ouvido nos paises americanos (tipo Brasil com Beatlemania e EUA com Meet The Beatles) Isto e muito mais fazem de With The Beatles no mínimo marcante, pois a partir daí, à semelhança do que havia acontecido com os singles "Love Me Do" e "Please Please Me", quando Liverpool cedeu seus rapazes para toda a Inglaterra, ela seria obrigada a cedê-los para o mundo.
Lado 1
It Won't Be Long
A explosiva primeira canção levou 23 takes na segunda sessão de gravação (30 de julho) pois, mesmo depois de 10 takes, sendo 2 deles sobreposições, a mesma se apresentava incompleta. Então, eles retornaram a ela mais tarde fazendo mais doze. John entra direto sem introdução, dando o melhor de seu vocal nesta canção que, embora não seja das mais conhecidas é tida por alguns como o melhor início de um álbum. Deve-se destacar as fantásticas harmonias de Paul e especialmente George que, apesar de ter uma voz tão aguda quanto Paul sempre se utilizava de seu registro grave, afim de que John cantasse na sua altura natural e Paul brilhasse no agudo. Este é para mim o melhor backing feito por George, nada fácil de ser reproduzido.
All I've Got To Do
Foi gravada pela primeira vez em 11 de setembro, quando foram feitos 15 takes (sendo oito começos falsos e um overdub). Assim como havia acontecido com Paul desde que começou a compor mais ou menos em 57, e com Lennon & McCartney em 59, John também, estava adquirindo experiência e evoluindo em suas composições, criando belos arranjos, explorando novas tonalidades e desenvolvendo seu próprio estilo de compor, o que iria mudar o som do grupo e ter boas e más consequências... John faz uso de seu característico vocal de balada começando doce e liberando sua agressividade perto do final, mas desta vez ele retorna à doçura inicial na "Boca chiusa" Foi inspirada em Smokey Robinson and The Miracles, grupo vocal negro da Motown, cujo uma das vocalistas era uma mulher, do qual gostavam muito e fingiam ser.
All My Loving
Esta Paul compôs a letra antes da melodia, como um poema. Quatorze takes foram feitos sendo 12-14 só de overdubs e a master foi um overdub do take 14, no take 11. Embora, a maioria só se lembre do vocal principal é no baixo que Paul mostra a que veio. John e George contribuem no "oo..." e George pega a melodia na segunda parte indo Paul para uma voz mais aguda, o que resulta num belo dueto.
Don't Bother Me
Foi gravada em 11 de setembro quando recebeu 7 takes. A primeira composição de George escrita sobre um período em que o músico querendo ficar sozinho (sem repórteres) pede que não o amolem. No dia seguinte eles continuaram até take 19, que recebeu sobreposições do 15 para o 13 (vocal dobrado de George) Paul nas claves John no pandeiro e Ringo num bongô árabe (cortesias do Abbey Road Studios).
Little Child
Começou a ser gravada em 11 de setembro quando foram gravados 2 takes e retomada no dia seguinte (mais 15 takes) sendo o take 7 o melhor, recebendo sobreposições de harmonica (take 13) e piano de Paul (take 15) e o solo do meio de harmonica de John (take 18) dentro deste Sem dúvida um rhythm & blues para ninguém colocar defeito que soa uma mistura de "Clarabella" com "I Saw Her Standing There".
Till There Was You
Começou a ser gravada em 18 de julho. Como o primeiro álbum foi um standard se fazia necessário repetir a fórmula de impacto com novos números, então eles resgataram esta canção das fitas do Decca, por ser uma canção com acordes bem construídos,de inspiração latina, requerer um vocal totalmente doce, assim como "A Taste of Honey" É uma regravação de uma canção do musical "The Music Man". Lógico que é Paul que usa de todo o seu mel vocal para adoçar ainda mais contexto da canção, fazendo muitas mocinhas bem comportadas terem ataques histéricos e suspirarem como no Ed Sullivan Show, em 64. No segundo dia (30 de julho) Ringo optou por um par de bongôs, para não quebrar o clima romântico. Take 8 foi considerado o melhor.
Please Mr. Postman
Apesar de considerarem este número das garotas Marvelettes uma das canções que eles gostariam de ter composto, eles só a gravaram por sugestão dos fãs. A primeira vez foi em 30 de julho, quando foram feitos 9 takes, sendo 9 no take 7, considerado o melhor.
Lado 2
Roll Over Beethoven
Eles resolveram regravar um cover de Chuck Berry que marcou muito a sua época. Mais uma vez contrariando o padrão de regravar apenas desconhecidos. Conta a lenda que John fazia o vocal e que George só começou a cantá-lo na Alemanha. Foram feitos 8 takes, sendo o 5 considerado o melhor.
Hold Me Tight
Primeira a ser gravada ainda nas sessões de "Please Please Me ", quando foram feitos 13 takes, que infelizmente não existem mais. Foi retomada em 12 de setembro quando foram feitos 9 takes, sendo o 29, o melhor. Foi inspirada no vocal dos cantores negros, principalmente o grupo feminino The Shirelles.
You Really Got A Hold On Me
Finalmente uma original de Smokey Robinson and the Miracles. Eles respeitaram o arranjo original apenas trocando o sax por uma guitarra. George faz a harmonia grave para John que desta vez surpreende (realmente seu vocal é surpreendente) e canta aguda, Paul deixa os dois brilharem e só se junta nos backing a partir da segunda parte e o resultado é de deixar qualquer um boquiaberto. Começou a ser gravada no dia 18 quando 7 takes foram feitos, sendo quatro completos.
I Wanna Be Your Man
Foi gravada pela primeira vez em 11 de setembro (1 take) e retomada no dia 12, ficando ainda insatisfatória e tendo sua versão aprovada somente no final de outubro. Foi o segundo single dos Rolling Stones e seu primeiro hit. Conta a lenda que em setembro de 63, Paul e John convidaram o ex-secretário de Brian Epstein, Andrew Oldham, e na época agente dos Stones para uma carona no taxi onde eles estavam. Ele foi e eles acabaram indo a um lugar onde os Stones estavam tocando. Os rapazes e os Stones ainda não eram rivais musicais, pois, eles já estavam consolidados com um album e dois singles batendo recorde de vendagem e os Stones, apesar de um single, ainda eram desconhecidos e precisam encontrar uma canção que estourasse. Não se sabe se eles pediram ou se L&M oferesseu a canção, ainda incompleta, a qual eles aceitaram no ato. Então, a dupla pegou uma guitarra e terminou-a no banheiro, talvez o único local com uma acústica boa ou sem barulho externo. Quando eles voltaram, os Stones não acreditaram e ficaram "petrificados" com sua rapidez. E a partir daí uma nova dupla se fornou : Jagger e Richards e uma nova banda alcançou o primeiro lugar das paradas. Ringo além de cantar e tocar toca maracas.
Devil In Her Heart
Cover do grupo The Donays, sendo um grande hit para elas. George impõe um vocal tranqüilo contrastando com a euforia de John e Paul (de acordo com a letra), sendo necessários só seis takes no dia 18 de julho. Ringo novamente toca bateria e maracas.
Not A Second Time
Foi gravada a primeira vez em 11 de setembro, nove takes, sendo o 6º reduzido no 9º , inclusive o vocal dobrado de John e o piano de Martin. Diz a lenda que muitos críticos perceberam cadências parecidas com as da Canção da Terra de Gustav Mahler, comprovando o amadurecimento musical adquirido com a ajuda de Martin. Mas segundo John serão pássaros exóticos?
Money (That's What I Want)
Se o primeiro álbum foi um estouro, certamente uma das razões foi a escolha minuciosa de cada canção e sua sequência, então seria bom repetir o mesmo tipo de vocal que fechou o primeiro neste aqui. Sendo assim um outro cover de outro artista negro, gravado originalmente por Barret Strong, da Tamla Motown, também, resgatada no repertório do Decca. John novamente põe para fora toda sua agressividade dizendo que amor é bom mas, ele quer dinheiro, o que não conduzia muito com o seu pensamento, pois apesar de ter dito quando adolescente em se casar com uma milionária, John acreditava totalmente no amor. Foram necessários 7 takes, desta vez sem sua garganta doer tanto, pois estavam mais tranqüilos. O trabalho dos rapazes terminara, mas para Martin e os outros ele estava apenas começando, pois ainda seria preciso dias e dias de mixagem. Eles haviam evoluído muito desde seu primeiro disco, já eram jovens astros e a confiança em seu potencial não era infudada. Agora sabiam que Martin os trataria como profissionais e não como aspirantes. E para Martin eles estavam ficando cada vez melhores, e em tão pouco tempo. No final do ano, John e Paul foram eleitos os compositores do ano. Na Europa inteira pessoas se aglomeravam nas portas dos teatros para vê-los, mas, para os americanos eles apenas mais um grupinho estrangeiro querendo vencer na terra do rock'n'roll... até aquele momento.
Por Marcelo Scavazza Sanches
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quinta-feira, 27 de outubro de 2016
domingo, 23 de outubro de 2016
The Beatles - Please Please Me (1963)
Please Please Me o primeiro álbum, lançado em 22 de março de 63, Parlophone PMC 1201 (mono). Nasceu da idéia de aproveitar o sucesso adquirido com o primeiro lugar de "Please Please Me"/"Ask Me Why", afim de que eles não fossem um grupo de um sucesso só. Foi gravado em apenas um dia e mixado em dois e dispondo de apenas dois canais (sendo que qualquer bandinha de quinta categoria de hoje em dia, usa no mínimo, uns vinte para produzir qualquer bobagem), o que prova que mais que equipamento, é necessário competência, dedicação e sentimento de conjunto. Por isso, Please Please Me, ainda soa atual - no bom sentido, é claro - mesmo depois de tantas décadas. Ninguém conseguiu fazer um disco tão bom em sua estréia e continuar produzindo som de qualidade.
Lado 1
I Saw Her Standing There
"Seventeen" este foi o nome desta canção desde o dia em que foi composta por Paul, sendo apresentada assim em Hamburgo, no Star Club e até no Cavern Club. Foi gravada oficialmente em 11 de fevereiro, quando recebeu 12 takes. Diz a lenda que Paul teria escrito-a em 61 com "never been a beauty queen" e que a cantava assim nos shows da banda, até John sugerir-lhe "You know what I mean". A sincronia das guitarras é surpreendente, mas é a cozinha (Ringo e Paul) que tornou esta canção numa das mais difíceis de ser reproduzida ao vivo à perfeição - inclusive até por eles mesmos (eu sei que muitas cover a tocam). Para completar eles ainda adicionam palmas. Paul confessou certa vez que as "bass lines" foram inspiradas em "Talkin' About You", de Chuck Berry, que soavam originais e únicas. Nem preciso me aprofundar muito para falar do brilhante backing rocker de John nas partes principais e no middle eight contrastando com a agressividade vocal de Paul.
Misery
A doce e melancólica segunda canção do disco teve 11 takes até que o vocal de John e Paul soassem como um só (no mono, pelo menos). E eles conseguiram, embora possam ter timbres completamente diferentes, eles conseguem timbrar muito bem e o dueto só é percebido em alguns trechos. Foi escrita por uma cantora chamada Helen Shapiro, muito conhecida na época, até mais que eles, mas parece que o seu empresário não a deixou gravá-la e acabou sendo gravada por Kenny Lynch. No final, eles homenageiam o vocal típico dos grupos americanos femininos com "La la la la la...".
Anna (Go To Him)
O primeiro cover do disco foi gravada em três takes. John demonstra pela primeira vez em estúdio a sua característica vocal ao interpretar baladas: geralmente começa doce como a melodia e aos poucos vai ficando com um tom agressivo. Paul e George também não deixam a desejar, segurando bem o clima romântico da melodia.
Chains
George põe para fora uma dose de sua agressividade - e seu marcante sotaque - dividindo o vocal com Paul e John. Este tributo a Gerry Goffin e Carole King, uma das duplas de compositores que influenciou-os e também às Cookies, grupo feminino americano, recebeu 4 takes. John faz a introdução na gaita e o andamento agilizado.
Boys
Agora é a vez de Ringo provar a que veio. E fez isso com um só take. De novo, eles pagam tributo ao vocal dos grupos femininos americanos, desta vez das muito conhecidas Shirelles. Diz-se que foi necessário um "faded ending" porque ficou grande demais para a época.
Ask Me Why
Escrita em 62. Uma de suas primeiras audições foi no lendário Star Club, da Alemanha. Mas sem dúvida, esta versão do disco é a mesma do single "Please Please Me"/"Ask Me Why" que foi gravada em 26 de novembro e lançado em 11 de janeiro, alcançando o primeiro lugar nas paradas. Foram feitos apenas seis takes, um feito, pois não é das mais fáceis de ser executada, apresentando um belo arranjo vocal e instrumental. De novo John faz uso de sua doce agressividade vocal.
Please Please Me
Foi inspirada numa canção de Bing Crosby chamada Please que sua mãe costumava cantar que usava os sentidos de Please (agradar e por favor). Ficando "Por favor, agrade-me". Conta a lenda que já nas sessões de Love Me Do e P.S. I Love You, Martin já sabia que Love Me Do ficaria entre as primeiras, mas, que precisavam de um primeiro lugar e que How Do You Do It de um compositor do cast da gravadora. Apesar de gravarem-na eles não queriam lançar e sugeriram que fosse dada a Gerry and the Pacemakers, outro grupo de Liverpool, seu antigo rival. Martin os desafiou a compor algo melhor, então eles apresentaram Please Please Me, que parecia de Roy Orbison com um vocal meio bluesy. Martin achou os acordes muito bons, mas achou que seria melhor uma melodia mais rápida e a repetição da primeira parte no final. Era uma boa música que não poderia ser desprezada, mas não havia motivos para colocá-la como seu próximo single. No dia 26 de novembro eles a apresentaram novamente, já reestruturada e com o solo de gaita, deixando George Martin tão impressionado que ele exclamou : "Senhores, vocês acabam de gravar seu primeiro número um". Há ainda uma estória a respeito destas sessões: Martin havia acabado de comprar uma gravata, da qual estava especialmente orgulhoso e a estava estreando neste dia. Com a intenção de deixar os liverpudlianos a vontade disse: "Caso vocês não gostem de alguma coisa é só falar" e George não perdeu a oportunidade: "Bem, para começar eu não gosto da sua gravata" Todos ficaram sérios, mas, acabaram dando boas risadas. Na reprise da letra Last night... Paul canta: I know you never even try girl, mas John canta I know I never, como no início. É quase imperceptível, se você estiver desatento.
Lado 2
Love Me Do
Foi escrita em 58, pertecendo à primeira safra de originais, ainda de McCartney-Lennon. Foi inspirada no estilo Buddy Holly de compor e no estilo dos Everly Brothers de cantar, artistas brancos do country/rock americano que muito influenciaram os rapazes neste período. A primeira canção gravada na Parlophone, em 6 de junho, com Pete Best na bateria, o que resultou na observação de Martin que precisavam de outro baterista no estúdio. O que para eles não era uma boa idéia, pois era uma enganação. Com isso Pete Best foi trocado e Ringo, um velho amigo tomou seu lugar. E com ele gravaram a versão de "Love Me Do" do compacto, sem pandeiro datada de 4 de setembro. Foram feitas umas quinze versões, insatisfatórias para Martin. A próxima sessão foi no dia 11 de setembro, sob a produção de Ron Richards que chamaram Andy White, um experiente baterista que já havia tocado com Bill Halley, quando este veio à Inglaterra em 57 - Paul assistiu este show, em Liverpool. Ringo teve que contentar-se com o pandeiro, muito bem tocado, por sinal. E esta foi a versão do álbum, a mais conhecida até. Conta a lenda que era John quem fazia o vocal principal e partia em seguida para a gaita, o que não agradou Martin, que sugeriu que Paul o fizesse. Paul tremeu, pois não estava preparado. Felizmente Paul aprendeu-o muito bem, assim como Ringo desenvolveu seu próprio estilo de tocá-la.
P.S. I Love You
A gravação data de 11 de setembro, assim como "Love Me Do" e apresenta White na bateria e Ringo nas maracas. Trata-se de uma melodia de inspiração latina, pois a música latina como o cha-cha-cha, a rumba, o calipso e a bossa-nova estavam em moda na época. É Paul quem canta os vocais sendo apoiado por John. Parece que Paul queria que ela fosse o lado A, mas Richards disse como ex-editor musical tinha uma idéia de que alguém já havia lançado um single com este título. Então ela entrou como lado B.
Baby It's You
Gravada pela primeira vez em 11 de fevereiro em três takes. Aqui John faz uso novamente de seu vocal doce de balada que vai se tornando agressivo com o decorrer da melodia - inspirado, sem dúvida, nos vocais negros. É outro cover das Shirelles.
Do You Want o Know a Secret?
Esta canção foi inspirada numa outra chamada "Wishing", do filme White Snow, que Julia costumava cantar-lhe. Já a melodia foi inspirada em "I Realy Love You". Trata-se do segundo vocal principal de George no disco, que faz uso de um timbre doce para contar o segredo de estar apaixonado há algumas semanas à uma garota. Foram feitos 8 takes. George entra sozinho sendo acompanhado apenas por uma guitarra, em "Listen" os instrumentos entram todos juntos. Porém, só no segundo é que John e Paul entram nos backing "doo-a-doo" típico dos cantores de doo-wop. O melhor take foi exatamente o oitavo com sobreposição do 6. Foi gravada também por Billy J. Kramer And the Dakotas, outro grupo de Epstein, da cidade, chegando ao primeiro lugar
A Taste Of Honey
Canção tema do musical e do filme de mesmo nome. Como não poderia deixar de ser é Paul quem está nos vocais dobrados desta canção de toque latino. Foi a primeira vez que eles fizeram uso do recurso de dobrar a voz e para isso foi necessário sobrepocionar uma gravação sobre a outra, sincronizando-as para dar um efeito cheio. Foram pegos os takes 7 e 5.
There's A Place
Embora, pareça uma versão de "Please Please Me", esta foi inspirada no estilo dos cantores negros da Motown. Foi a primeira canção a ser gravada naquele dia, sendo necessários 10 takes. Alguns deles só com solos de gaita. A beleza das harmonias vocais merece destaque: John canta a melodia, sendo apoiado pela harmonia aguda de Paul e no final quando todos já estavam acostumados a isso, George aparece cantando a voz grave e John pula para uma voz intermediária. Apesar de ainda abordar temas românticos, esta letra já demonstra maturidade, pois trata de um lugar onde o autor (provavelmente John) pode ir e lá refletir sobre a vida e sua garota.
Twist And Shout
Cover de um hit de 58 do grupo negro de soul Isley Brothers. Já era tarde e os Beatles haviam passado o dia 11 inteiro gravando, e John que já estava com gripe se encontrava agora com a garganta dolorida, mas, ainda não haviam encontrado uma música para fechar o album, então alguém sugeriu que ele deveria cantar "Twist And Shout", apesar da versão original ser cantada por um cantor de voz mais aguda como Paul. John, apesar de tudo, não titubeou, chupou umas pastilhas e tomou um copo de leite quente e mandou ver, sendo apoiado por Georgee Paul. Foi feito apenas um take, embora se tenha documentos de um segundo take, não foi achado nenhum registro discográfico e George Martin disse que queria um segundo, mas, que John não aguentaria fazer tudo de novo. Diz-se que todos ficaram boquiabertos, pois nunca haviam visto um grupo ainda ter pique para cantar e tocar daquela forma depois de mais de dez horas de gravação e com gripe, Martin até comentou "Eu não sei como fazem isso. Estivemos gravando o dia inteiro e quanto mais tempo isto leva mais eles conseguem". Os colegas de Martin também ficaram maravilhados e levaram uma cópia que tocaram para cada colega, e todos ficavam surpresos. Eram 22 horas da noite, estava na hora de fechar os estúdios. 5 minutos depois qualquer músico do cast da Abbey Road já estaria nas plataformas da Estação de metrô St. John's Wood, mas os Beatles não se mostravam cansados e queriam ouvir algumas gravações. Então, Brian Epstein ofereceu-se para levá-los de carros às suas casas. Ninguém nunca havia visto um grupo assim.
Por Marcelo Scavazza Sanches
Lado 1
I Saw Her Standing There
"Seventeen" este foi o nome desta canção desde o dia em que foi composta por Paul, sendo apresentada assim em Hamburgo, no Star Club e até no Cavern Club. Foi gravada oficialmente em 11 de fevereiro, quando recebeu 12 takes. Diz a lenda que Paul teria escrito-a em 61 com "never been a beauty queen" e que a cantava assim nos shows da banda, até John sugerir-lhe "You know what I mean". A sincronia das guitarras é surpreendente, mas é a cozinha (Ringo e Paul) que tornou esta canção numa das mais difíceis de ser reproduzida ao vivo à perfeição - inclusive até por eles mesmos (eu sei que muitas cover a tocam). Para completar eles ainda adicionam palmas. Paul confessou certa vez que as "bass lines" foram inspiradas em "Talkin' About You", de Chuck Berry, que soavam originais e únicas. Nem preciso me aprofundar muito para falar do brilhante backing rocker de John nas partes principais e no middle eight contrastando com a agressividade vocal de Paul.
Misery
A doce e melancólica segunda canção do disco teve 11 takes até que o vocal de John e Paul soassem como um só (no mono, pelo menos). E eles conseguiram, embora possam ter timbres completamente diferentes, eles conseguem timbrar muito bem e o dueto só é percebido em alguns trechos. Foi escrita por uma cantora chamada Helen Shapiro, muito conhecida na época, até mais que eles, mas parece que o seu empresário não a deixou gravá-la e acabou sendo gravada por Kenny Lynch. No final, eles homenageiam o vocal típico dos grupos americanos femininos com "La la la la la...".
Anna (Go To Him)
O primeiro cover do disco foi gravada em três takes. John demonstra pela primeira vez em estúdio a sua característica vocal ao interpretar baladas: geralmente começa doce como a melodia e aos poucos vai ficando com um tom agressivo. Paul e George também não deixam a desejar, segurando bem o clima romântico da melodia.
Chains
George põe para fora uma dose de sua agressividade - e seu marcante sotaque - dividindo o vocal com Paul e John. Este tributo a Gerry Goffin e Carole King, uma das duplas de compositores que influenciou-os e também às Cookies, grupo feminino americano, recebeu 4 takes. John faz a introdução na gaita e o andamento agilizado.
Boys
Agora é a vez de Ringo provar a que veio. E fez isso com um só take. De novo, eles pagam tributo ao vocal dos grupos femininos americanos, desta vez das muito conhecidas Shirelles. Diz-se que foi necessário um "faded ending" porque ficou grande demais para a época.
Ask Me Why
Escrita em 62. Uma de suas primeiras audições foi no lendário Star Club, da Alemanha. Mas sem dúvida, esta versão do disco é a mesma do single "Please Please Me"/"Ask Me Why" que foi gravada em 26 de novembro e lançado em 11 de janeiro, alcançando o primeiro lugar nas paradas. Foram feitos apenas seis takes, um feito, pois não é das mais fáceis de ser executada, apresentando um belo arranjo vocal e instrumental. De novo John faz uso de sua doce agressividade vocal.
Please Please Me
Foi inspirada numa canção de Bing Crosby chamada Please que sua mãe costumava cantar que usava os sentidos de Please (agradar e por favor). Ficando "Por favor, agrade-me". Conta a lenda que já nas sessões de Love Me Do e P.S. I Love You, Martin já sabia que Love Me Do ficaria entre as primeiras, mas, que precisavam de um primeiro lugar e que How Do You Do It de um compositor do cast da gravadora. Apesar de gravarem-na eles não queriam lançar e sugeriram que fosse dada a Gerry and the Pacemakers, outro grupo de Liverpool, seu antigo rival. Martin os desafiou a compor algo melhor, então eles apresentaram Please Please Me, que parecia de Roy Orbison com um vocal meio bluesy. Martin achou os acordes muito bons, mas achou que seria melhor uma melodia mais rápida e a repetição da primeira parte no final. Era uma boa música que não poderia ser desprezada, mas não havia motivos para colocá-la como seu próximo single. No dia 26 de novembro eles a apresentaram novamente, já reestruturada e com o solo de gaita, deixando George Martin tão impressionado que ele exclamou : "Senhores, vocês acabam de gravar seu primeiro número um". Há ainda uma estória a respeito destas sessões: Martin havia acabado de comprar uma gravata, da qual estava especialmente orgulhoso e a estava estreando neste dia. Com a intenção de deixar os liverpudlianos a vontade disse: "Caso vocês não gostem de alguma coisa é só falar" e George não perdeu a oportunidade: "Bem, para começar eu não gosto da sua gravata" Todos ficaram sérios, mas, acabaram dando boas risadas. Na reprise da letra Last night... Paul canta: I know you never even try girl, mas John canta I know I never, como no início. É quase imperceptível, se você estiver desatento.
Lado 2
Love Me Do
Foi escrita em 58, pertecendo à primeira safra de originais, ainda de McCartney-Lennon. Foi inspirada no estilo Buddy Holly de compor e no estilo dos Everly Brothers de cantar, artistas brancos do country/rock americano que muito influenciaram os rapazes neste período. A primeira canção gravada na Parlophone, em 6 de junho, com Pete Best na bateria, o que resultou na observação de Martin que precisavam de outro baterista no estúdio. O que para eles não era uma boa idéia, pois era uma enganação. Com isso Pete Best foi trocado e Ringo, um velho amigo tomou seu lugar. E com ele gravaram a versão de "Love Me Do" do compacto, sem pandeiro datada de 4 de setembro. Foram feitas umas quinze versões, insatisfatórias para Martin. A próxima sessão foi no dia 11 de setembro, sob a produção de Ron Richards que chamaram Andy White, um experiente baterista que já havia tocado com Bill Halley, quando este veio à Inglaterra em 57 - Paul assistiu este show, em Liverpool. Ringo teve que contentar-se com o pandeiro, muito bem tocado, por sinal. E esta foi a versão do álbum, a mais conhecida até. Conta a lenda que era John quem fazia o vocal principal e partia em seguida para a gaita, o que não agradou Martin, que sugeriu que Paul o fizesse. Paul tremeu, pois não estava preparado. Felizmente Paul aprendeu-o muito bem, assim como Ringo desenvolveu seu próprio estilo de tocá-la.
P.S. I Love You
A gravação data de 11 de setembro, assim como "Love Me Do" e apresenta White na bateria e Ringo nas maracas. Trata-se de uma melodia de inspiração latina, pois a música latina como o cha-cha-cha, a rumba, o calipso e a bossa-nova estavam em moda na época. É Paul quem canta os vocais sendo apoiado por John. Parece que Paul queria que ela fosse o lado A, mas Richards disse como ex-editor musical tinha uma idéia de que alguém já havia lançado um single com este título. Então ela entrou como lado B.
Baby It's You
Gravada pela primeira vez em 11 de fevereiro em três takes. Aqui John faz uso novamente de seu vocal doce de balada que vai se tornando agressivo com o decorrer da melodia - inspirado, sem dúvida, nos vocais negros. É outro cover das Shirelles.
Do You Want o Know a Secret?
Esta canção foi inspirada numa outra chamada "Wishing", do filme White Snow, que Julia costumava cantar-lhe. Já a melodia foi inspirada em "I Realy Love You". Trata-se do segundo vocal principal de George no disco, que faz uso de um timbre doce para contar o segredo de estar apaixonado há algumas semanas à uma garota. Foram feitos 8 takes. George entra sozinho sendo acompanhado apenas por uma guitarra, em "Listen" os instrumentos entram todos juntos. Porém, só no segundo é que John e Paul entram nos backing "doo-a-doo" típico dos cantores de doo-wop. O melhor take foi exatamente o oitavo com sobreposição do 6. Foi gravada também por Billy J. Kramer And the Dakotas, outro grupo de Epstein, da cidade, chegando ao primeiro lugar
A Taste Of Honey
Canção tema do musical e do filme de mesmo nome. Como não poderia deixar de ser é Paul quem está nos vocais dobrados desta canção de toque latino. Foi a primeira vez que eles fizeram uso do recurso de dobrar a voz e para isso foi necessário sobrepocionar uma gravação sobre a outra, sincronizando-as para dar um efeito cheio. Foram pegos os takes 7 e 5.
There's A Place
Embora, pareça uma versão de "Please Please Me", esta foi inspirada no estilo dos cantores negros da Motown. Foi a primeira canção a ser gravada naquele dia, sendo necessários 10 takes. Alguns deles só com solos de gaita. A beleza das harmonias vocais merece destaque: John canta a melodia, sendo apoiado pela harmonia aguda de Paul e no final quando todos já estavam acostumados a isso, George aparece cantando a voz grave e John pula para uma voz intermediária. Apesar de ainda abordar temas românticos, esta letra já demonstra maturidade, pois trata de um lugar onde o autor (provavelmente John) pode ir e lá refletir sobre a vida e sua garota.
Twist And Shout
Cover de um hit de 58 do grupo negro de soul Isley Brothers. Já era tarde e os Beatles haviam passado o dia 11 inteiro gravando, e John que já estava com gripe se encontrava agora com a garganta dolorida, mas, ainda não haviam encontrado uma música para fechar o album, então alguém sugeriu que ele deveria cantar "Twist And Shout", apesar da versão original ser cantada por um cantor de voz mais aguda como Paul. John, apesar de tudo, não titubeou, chupou umas pastilhas e tomou um copo de leite quente e mandou ver, sendo apoiado por Georgee Paul. Foi feito apenas um take, embora se tenha documentos de um segundo take, não foi achado nenhum registro discográfico e George Martin disse que queria um segundo, mas, que John não aguentaria fazer tudo de novo. Diz-se que todos ficaram boquiabertos, pois nunca haviam visto um grupo ainda ter pique para cantar e tocar daquela forma depois de mais de dez horas de gravação e com gripe, Martin até comentou "Eu não sei como fazem isso. Estivemos gravando o dia inteiro e quanto mais tempo isto leva mais eles conseguem". Os colegas de Martin também ficaram maravilhados e levaram uma cópia que tocaram para cada colega, e todos ficavam surpresos. Eram 22 horas da noite, estava na hora de fechar os estúdios. 5 minutos depois qualquer músico do cast da Abbey Road já estaria nas plataformas da Estação de metrô St. John's Wood, mas os Beatles não se mostravam cansados e queriam ouvir algumas gravações. Então, Brian Epstein ofereceu-se para levá-los de carros às suas casas. Ninguém nunca havia visto um grupo assim.
Por Marcelo Scavazza Sanches
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
As Canções Encomendadas a Lennon e McCartney
Certamente a dupla de compositores John Lennon e Paul McCartney é a mais gravada de todos os tempos. Bastaria a canção "Yesterday" com mais de 2.000 versões para lhes conferir este título. Isto sem contar uma seleção de astros que já interpretaram seus clássicos, já imortalizados pelos próprios Beatles, como Frank Sinatra, Elvis Presley, Rolling Stones, Aretha Fraklin, Michael Jackson, Bee Gees, Barbra Straisand, Elton John, U2, e muitos outros. Mas houve uma época em que os jovens músicos compunham por encomenda de seu empresário para outros artistas tão jovens e menos conhecidos que os Beatles.
O ano de 1963 foi um marco para a história da música pop britânica, pois em um cenário onde a música popular norte-americana dominava por anos, nunca uma dupla de compositores ingleses haviam ficado em primeiro lugar nas paradas por tanto tempo como Lennon e McCartney que, além de arrebatarem o topo das paradas com o álbum de estréia "Please Please Me", estacionaram lá o single "From Me To You" por sete semanas. Um outro grupo estreante de Liverpool, Billy J. Kramer and The Dakotas foi o primeiro a regravar uma canção dos Beatles com "Do You Want To Know a Secret?" e, para o lado B, solicitaram uma outra inédita de Lennon e McCartney, que escreveram para eles "I'll Be On My Way", e o sucesso foi imediato.
Empolgado com este súbito sucesso, o empresário dos Beatles, Brian Epstein tinha em sua empresa (a NEMS) uma série de outros artistas, aos quais as canções da dupla foram logo encomendadas. Como John e Paul compunham em profusão, eles possuíam um excedente de canções com que puderam atender a demanda de Epstein, sem muita dificuldade. E, em 26 de julho, o mesmo Billy J Kramer and The Dakotas lançou o single "Bad To Me" que foi outro grande sucesso comercial. Quatro dias depois, foi a vez de "Tip of My Tongue" com o cantor Tommy Quickly e, surpreendentemente, veio um dos pouquíssimos fracassos, senão o único, de Lennon e McCartney. Porém, um mês depois o grupo The Fourmost emplacou com "Hello Little Girl" seguido por Cilla Black com "Love of The Loved" e, no final do ano, Billy e seus Dakotas junto com o Fourmost repetiram o feito, respectivamente, com "I'll Keep You Satisfied" e "I'm In Love". Com tamanha quantidade de hits John Lennon e Paul McCartney poderiam até largar o grupo e sobreviver apenas de seus direitos autorais, mas o sucesso dos Beatles no final de 63 bateu todos os recordes de vendagem no Reino Unido com os singles "She Loves You" e "I Want To Hold Your Hand", estancou, em parte, as douradas encomendas.
No início de 1964, com o sucesso mundial do grupo, a demanda pelas canções com a grife "Lennon e McCartney" começaram a extrapolar os limites dos contratados da NEMS, pois naquele momento quase todos queriam uma canção inédita da dupla, como o duo inglês Peter and Gordon que, em fevereiro, lançaram o compacto "World Without Love" e desta vez foram ao primeiro posto da paradas não só na Inglaterra como também nos Estados Unidos. Peter e Gordon ainda gravaram mais duas canções inéditas de John e Paul, ambas grandes êxitos como "Nobody I Know" e "Woman", esta curiosamente assinada pelo pseudônimo de Bernard Weeb, pois os compositores quiseram testar se suas músicas vendiam apenas pela sua popularidade ou se realmente teriam qualidade.
Não demorou e veio a primeira encomenda dos Estados Unidos, proveniente de um grupo de estúdio chamado The Applejacks, liderado pelo compositor de vários dos sucessos de Chubby Checker, Dave Appell, que lançaram no verão de 64 o single "Like Dreamers Do". Devido aos muitos compromissos dos Beatles e à atenção cada vez maior dada aos seus próprios álbuns, fez com que John Lennon e Paul McCartney compusessem com exclusividade para seu próprio grupo. Os poucos felizardos que ainda foram brindados com canções inéditas foram o grupo inglês The Strangers com "One & One is Two" (64), o cantor americano radicado na Inglaterra P.J. Proby ganhou "That Means a Lot" (65, uma sobra do álbum "Help!"), a conterrânea da dupla, Cilla Black ainda recebeu "It's For You" (64) e "Step Inside Love" (68) e uma das últimas e raras inéditas "Goodbye" (69) interpretada por Mary Hopkin, primeira contratada pela gravadora dos Beatles, a Apple Records. Naquela altura, Lennon e McCartney já eram uma lenda viva da música pop da década de 60 e suas canções, mesmo as já gravadas pelos Beatles, eram regravadas por vários outros artistas, com isso eles se tornaram os maiores arrecadadores de direitos autorais da história.
Entretanto, mesmo com toda a fama, John e Paul sempre quiseram escrever uma canção inédita para Frank Sinatra, um ídolo da dupla antes do rock'n'roll capturá-los. Sinatra já havia gravado "Yesterday", mas um dia telefonou para os estúdios de Abbey Road, em Londres, onde falou com McCartney, pedindo-lhe uma canção. Paul havia escrito uma música em sua adolescência chamada "Suicide" sonhando um dia entregá-la para Frank Sinatra, tratava-se de uma canção em estilo cabaré. Foi justamente esta a canção que Paul enviou para Sinatra, que não entendendo o tom de brincadeira da letra, a recusou terminantemente. Parte de"Suicide" foi parar em "McCartney", primeiro disco solo de Paul em 1970, com o título de "Glasses". Anos mais tarde, num concerto, Frank Sinatra, antes de cantar "Something" de George Harrison, anunciou que cantaria uma música de Lennon e McCartney. O que é a fama!
Por Sérgio Farias
sábado, 24 de setembro de 2016
A terrível noite de John Lennon em uma casa mal assombrada
Entre as perguntas que os jornalistas fizeram a John Lennon, a mais amargamente lembrada por John foi aquela que dizia assim: “você tem mêdo de fantasmas?”. Não é que John sinta medo de almas do outro mundo, mas é que êle passou uma noite dessas que qualquer cristão jamais esquece. Mas como foi essa noite? Deixemos que o próprio John nos conte:
“Foi em 1963 numa viagem que fizemos por todo o país ao lado de Chris Montez e de Tommy Roe. Eu era recém-casado e pedi a Brian que me deixasse voltar logo após o término da temporada. Ele me deixou, e daí eu tive que voltar no Jaguar que possuía antes. Uma tempestade na altura de New Brighton atrapalhou os meus planos, pois fiquei sem condições de vir dirigindo até Liverpool. A chuva apertava e eu precisava dormir em um hotel pelas proximidades. A única coisa que eu conseguia ver eram as torres de um grande e antiquíssimo castelo. Desci do carro, tomei muita chuva, mas bati na porta do casarão. Um senhor de idade me atendeu e me convidou para entrar, falando amavelmente.
Disse que esperaria a chuva passar e iria embora, mas a tempestade não passava e eu acabaria dormindo no castelo. O homem insistiu para que eu ficasse e já comecei a tremer de medo, quando notei que êle era o único morador do castelo. Serviu-me um chá com torradas. A parte térra do castelo era bacana, embora um tanto antiga. O homem me indicou um quarto e eu fui lá para dormir. A chuva estava cada vez mais forte, e a ventania fazia com que ambas as janelas batessem com terrível fôrça, me dando aquêles arrepios que vinham da barriga até o queixo. Entrei no quarto. Uma cama super-antiga. Deve ter sido de alguma das esposas de Henrique VIII. Fui deitar-me, mas a cama fazia um ruído estranho como que iria cair a qualquer momento.
Eu me cobria e de repente as janelas batiam e entrava aquela ventania assobiando como nos filmes de terror. Eu ficava todo arrepiado, pois tinha a impressão de estar rodeado de fantasmas por todos os lados. A noite prosseguia, a chuva também e eu não conseguia fechar os olhos e pegar no sono. O assobio penetrante da ventania prosseguia. Que noite horrorosa. Eu dizia a mim mesmo: seria melhor eu ter dormido no automóvel, pois estaria livre disto. Não aguentei e fui fechar as janelas. Nada adiantava.
O vento batia mais forte, de novo. Desisti. Pensei comigo: vou acender a luz, pois só assim eu posso ficar com sono. Acendi a luz e o que eu vi deixou-me terrivelmente apavorado. Dezenas de aranhas, dessas de grande porte, andavam pelo chão e pelas parêdes. Que castelo maldito, pensava eu. Como vou sair de uma situação destas? A decisão veio da forma mais rápida possível. Sem pestanejar, desci as escadarias do castelo, abri a porta principal e, sem me despedir do meu anfitrião, corri para o Jaguar e acelerei, parando sòmente a uns 20 quilômetros de lá…Como a chuva continuava, eu dormi no carro. Mas essa noite eu nunca esquecerei.
Fonte:
BEATLES – Edição da Revista do Rock
Rio 1968 – Ano III – N° 15 – NCr$ 0,70
(Deixamos com a grafia usada na época)
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Documentário sobre George Harrison nos EUA será lançado como DVD duplo
Em 1963 George Harrison se tornou o primeiro beatle a conhecer os EUA. Ele atravessou o oceano para visitar sua irmã Louise Harrison, em Benton, Illinois. Foi a última vez que ele andou pelas ruas norte-americanas sem ser reconhecido, já que naquela ocasião os Beatles eram famosos apenas no Reino Unido e Alemanha, praticamente desconhecidos na terra do Tio Sam.
Esse episódio rendeu um documentário em 2005, “George Harrison: A Beatle in Benton, Illinois”, do cineasta Bob Bartel. Esse trabalho acaba de ser relançado em DVD duplo, com o material muito ampliado, com novos depoimentos, novas imagens e atualizações de informações. Segundo o diretor, o DVD será vendido para o mundo inteiro, via lojas virtuais.






