Em 1985 foi lançado o livro UM ATRAPALHO NO TRABALHO, que reunia os dois livros de John Lennon lançados nos anos 60, In His Own Write e A Spaniard In The Work (respectivamente 1964 e 1965). Neles, John mostrava seu talento extra-musical em poesias, crônicas e desenhos - tudo muito engraçado e surreal. Confira aqui uma coleção de 20 scans desses desenhos (aos poucos, vamos publicar alguns textos também).
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quinta-feira, 20 de outubro de 2016
Coleção com 20 desenhos de John Lennon
Em 1985 foi lançado o livro UM ATRAPALHO NO TRABALHO, que reunia os dois livros de John Lennon lançados nos anos 60, In His Own Write e A Spaniard In The Work (respectivamente 1964 e 1965). Neles, John mostrava seu talento extra-musical em poesias, crônicas e desenhos - tudo muito engraçado e surreal. Confira aqui uma coleção de 20 scans desses desenhos (aos poucos, vamos publicar alguns textos também).quarta-feira, 19 de outubro de 2016
The Beatles Cartoon, a série animada dos Beatles
Os Beatles fizeram sucesso em todas as mídias. O cartoon foi apenas mais uma delas, um veículo importante para popularizar os Fabs também entre as crianças menores. Produzida em 1965, logo após o boom da Beatlemania nos Estados Unidos, a série de desenhos animados dos Fab Four veio ao mundo pelas mãos de Al Brodax, da King Features, para a rede de TV americana ABC. Os primeiros esquetes dos personagens foram elaborados por Peter Sander, e as animações ficavam a cargo da TVC (TV Cartoons Ltd.), de Londres (a mesma equipe responsável por Yellow Submarine), e da Astransa, de Sidney, Austrália, com ajuda também das equipes do Cine-Centrum (Holanda) e CanaWest (Canadá).
As histórias eram simples - os scripts surgiam com facilidade, já que eram baseados nas mais populares músicas dos Beatles - e os personagens eram fáceis de desenhar. Os animadores se inspiravam na postura dos Beatles em fotos e apresentações ao vivo, bem como nos filmes A Hard Day's Night e Help!. Por isso, não era raro que algumas animações fossem realmente muito parecidas com a "vida real". A orientação dada aos desenhistas e animadores sobre os personagens era mais ou menos assim: John deveria parecer o líder (era o mais alto no desenho), Paul o mais estiloso e elegante. George era um pouco curvado e suas pernas longas e finas eram a característica mais marcante, enquanto que Ringo destacava-se como o mais desconjuntado, um visual coerente com as palhaçadas que fazia.
A dublagem das vozes dos Beatles no desenho era feita por dois atores, o americano Paul Frees (John e George) e o inglês Lance Percival (Paul e Ringo). O produtor Al Brodax optou por americanizar os Beatles, eliminando o sotaque de Liverpool, para que as crianças americanas pudessem entender melhor e identificar-se mais. Isso gerou uma polêmica na época - especula-se que os próprios Beatles não teriam gostado da americanização, muito embora John Lennon tenha dito que assistia a alguns episódios reprisados nos anos 70 em New York. Talvez esse tenha sido o motivo pelo qual a série só tenha sido exibida na Inglaterra em meados dos anos 70, e mesmo assim sem ter uma audiência tão fantástica quanto poderia.
Cada meia hora de programa consistia de 2 episódios e 2 sing-alongs (animações de músicas dos Fabs, nas quais as versões animadas de John, Paul, George e Ringo encorajavam os espectadores a cantar junto seus maiores hits, acompanhando a letra que era exibida na parte inferior da tela). Outro destaque eram as "pontes" entre o programa e os intervalos comerciais, que eram vinhetas cômicas que geralmente tinham Ringo como protagonista. Ringo também era o "rei" das vinhetas de introdução dos sing-alongs. Nelas, John, George ou Paul sempre falavam algo que era interpretado errado por Ringo, que acabava fazendo alguma palhaçada que estimulasse a audiência a cantar com eles. Nos 39 episódios produzidos para a série, as mais diversas músicas foram temas de episódios e dos sing-alongs - as primeiras foram "I Want to Hold Your Hand" e "A Hard Day's Night", mas até mesmo "Komm Gib Mir Deine Hand", a versão alemã de "I Want to Hold Your Hand", foi utilizada em um episódio.
A première na ABC ocorreu num sábado, dia 25 de setembro de 1965, às 10h30 da manhã, e o show foi um sucesso imediato, atingindo um nível de audiência inédito para um programa matutino. Depois do sucesso da primeira temporada, Al Brodax cogitou produzir 4 especiais de animação para o horário nobre. Esses planos, bem como os de fazer outras séries de cartoons baseadas em grupos musicais (Herman's Hermits e Freddie and the Dreamers seriam os próximos), nunca se concretizaram.
O desenho animado dos Beatles foi exibido nos Estados Unidos de 25/09/65 até 20/04/69, sendo que as duas últimas temporadas (de 68 e 69) foram reprises dos cartoons originais. A série perdeu terreno durante a segunda temporada, quando enfrentou a concorrência do desenho "Space Ghost" na CBS, parte de uma programação de manhã de sábado que incluía ainda "Frankestein Jr.", "Os Impossíveis" e "Super Mouse", dentre outros. No outono de 1968, a série foi deslocada para as manhãs de domingo, onde permaneceu até sua última exibição em 1969. Depois disso, houve diversas reexibições, e a última de que se tem notícia ocorreu em 1990, no Disney Channel.
domingo, 16 de outubro de 2016
Letra de "Yesterday" foi escrita em Portugal
A letra de "Yesterday", uma das mais emblemáticas canções de Paul McCartney e dos Beatles, foi escrita em Portugal, dentro de um carro, no trajeto de cinco horas, por estradas más, na época, entre Lisboa e Faro. Foi o próprio McCartney que o relatou no livro Yesterday And Today, editado em 1995 nos 30 anos da canção.
Com mais de 2.500 versões diferentes, um recorde do Guinness, e mais de sete milhões de passagens na rádio norte-americana, outro recorde sem precedentes, "Yesterday", que tem apenas dois minutos de duração, foi composta (melodia) enquanto Paul dormia.
Num dia de 1963, no início da carreira dos Beatles, Paul McCartney, 21 anos, acordou de manhã com a melodia na cabeça e sentou-se imediatamente ao piano a tocá-la, dando-lhe o título provisório, mas pouco romântico, de "Scrambled Eggs (Oh My Baby How I Love Your Legs)".
"Quando pensava na canção com que tinha sonhado, a mãe de Jane entrou na sala e perguntou se alguém queria ovos mexidos ("scrambled eggs"). A melodia saiu-me tão bem que julguei que estava a copiar alguém, a fazer algum plágio inadvertido. Andei meses pesquisando se alguém conhecia a canção", conta Paul McCartney.
Com muitas dúvidas e receios, Paul McCartney tocou a canção pela primeira vez a George Martin em Janeiro de 1964, no Hotel George V, em Paris. O produtor dos Beatles ficou entusiasmado e incentivou McCartney a gravá-la. "Nessa altura, Paul disse-me que queria apenas um nome para a canção, talvez "Yesterday", mas que achava o título 'piroso'. Aconselhei-o no entanto a seguir em frente", lembra George Martin.
O título da canção foi definitivamente fixado em Portugal, a 27 de Maio de 1965, quando Paul McCartney tirou duas semanas de férias, com Jane Asher, na casa de Bruce Welch, dos Shadows, em Albufeira (Algarve). Nesse dia, Paul McCartney voou de Londres para Lisboa (Faro, no Algarve, não tinha ainda aeroporto) e no carro alugado com motorista, a caminho de Albufeira, escreveu a letra de "Yesterday" ao passar pelo rio Mira. "Sempre detestei perder tempo e a viagem era muito longa", justifica assim Paul McCartney a inspiração para a letra.
Nos anos 60, Albufeira era ainda uma pacata aldeia de pescadores, onde estrelas pop como Cliff Richard, Frank Ifield e Bruce Welch, entre outros, tinham casas. Acima de tudo podiam deleitar-se sem ser reconhecidos. Foram aliás os britânicos - e sobretudo os músicos pop - que transformaram Albufeira em uma cidade conhecida no Mundo.Ao chegar a Albufeira, a casa de Bruce Welch, guitarra-base dos Shadows, onde permaneceria de férias, McCartney pediu de urgência uma guitarra. "Já estava fazendo as malas para ir embora de Portugal, quando Paul me perguntou se eu não tinha um violão", conta Bruce Welch. Bruce emprestou-lhe um Martin 0018, de 1959, e McCartney dedilhou, com o instrumento virado ao contrário por ser canhoto, e cantou pela primeira vez "Yesterday", com a letra escrita no carro e que se conhece hoje.
Entusiasmado com a inspiração portuguesa, Paul McCartney e Jane Asher viriam a antecipar o fim das férias em Albufeira (onde, mais tarde, no início de 1969, Paul, já com Linda, viria a compor "Penina" para os Jotta Herre) para gravar imediatamente "Yesterday" em Abbey Road.
A gravação de "Yesterday" decorreu apenas em dois dias, 14 e 17 de Junho de 1965, depois das 19h, no famoso estúdio 2 de Abbey Road, em Londres. No primeiro dia gravou-se a voz e o violão de Paul McCartney, no segundo, o quarteto de cordas. Foi a primeira vez na carreira dos Beatles e na música pop/rock que se gravavam cordas numa canção, o que provocou surpresa.
Os executantes anônimos (não estão creditados no disco) foram Tony Gilbert (primeiro violino), Sidney Sax (segundo violino), Francisco Gabarro (violoncelo) e Kenneth Essex (viola), nomes que só foram tornados públicos, pela primeira vez, em 1988, 23 anos depois da gravação. Os outros três Beatles, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr, não participaram na gravação, o que também acontecia pela primeira vez. Isso provocou comentários na imprensa, sugerindo uma separação do grupo. A verdade é que os três Beatles assistiram às gravações no estúdio, sendo as suas vozes audíveis na fita original do primeiro "take", gravado em mono.
Uma das curiosidades da gravação de "Yesterday", canção ao estilo erudito, é que foi gravada logo depois da gravação de uma das canções mais "rock" dos Beatles, "I'm Down", também cantada por Paul McCartney, o que prova a riqueza e a diversidade de estilos dos Beatles. Outra das curiosidades reside no fato de, ao contrário do que se possa parecer na audição da canção, não existe uma dupla gravação da voz de Paul McCartney.
"O que aconteceu - explica George Martin - é que como não usamos fones, o som do primeiro 'take' entrou pelo microfone do segundo 'take', tendo dado a ilusão de ´double tracking', que não existiu". Os arranjos clássicos da canção são da autoria de Paul McCartney e de George Martin, o qual diz, porém, que a "melhor parte" é da responsabilidade de McCartney. "Quem me dera a mim tê-los feito eu!", afirma.
"Yesterday" nunca foi editado em single na Grã-Bretanha durante a carreira dos Beatles, porque o quarteto de Liverpool nunca acreditou que fosse uma canção "suficientemente forte" para o top. Foi apenas incluída no álbum Help!, lançado em 6 de Agosto de 1965, mas nem sequer está na trilha sonora do filme com o mesmo título.
Embora John Lennon tenha dito uma vez que nunca teria composto uma canção como "Yesterday", admitiu no entanto que se tratava de uma canção "bonita" e com uma letra "boa", mas "inconclusiva".
A grande ironia de "Yesterday", inteiramente da autoria e da responsabilidade de Paul McCartney, é que sempre que o ex-Beatle a canta tem de pagar uma libra simbólica à Sony Music, detentora dos direitos de quase todas as canções dos Beatles.
Em 2000, Paul McCartney solicitou à viúva de Lennon, Yoko Ono, que autorizasse uma alteração na ordem de precedência autoral nos créditos de "Yesterday" - McCartney/Lennon em vez de Lennon/McCartney -, mas a "viúva negra" recusou a ideia. A revelação foi feita pelo próprio Paul McCartney numa entrevista à página britânica da Amazon na Internet, durante a divulgação do projeto Anthology. "Não quero tirar Lennon dos créditos, mas a verdade é que fui eu o único Beatle que compôs a canção e que a gravou sozinho", explicou McCartney. "Pedi a Yoko, como um favor a mim próprio, que após 30 anos de John figurar à frente, ela não se importaria de trocar os nomes só para esta canção. Não quero tirar Lennon dos créditos. Estou mesmo em crer que John não se importaria com isso, mas Yoko importou-se. Esta é uma das razões por que nós não nos damos bem", esclareceu McCartney.Quando começaram a compor no início da década de 60, John Lennon e Paul McCartney, em homenagem às famosas duplas de compositores norte-americanos, como Leiber/Stoller ou Goffin/King, decidiram assinar Lennon/McCartney, independentemente de quem fazia o quê, embora os três primeiros singles ("Love Me Do", "Please Please Me" e "From Me To You") sejam ainda McCartney/Lennon, só se optando depois pela ordem alfabética.
"Yesterday" é dedicada à Mãe, falecida, vítima de câncer, quando Paul McCartney tinha apenas 14 anos.
Por Luis Pinheiro de Almeida
quinta-feira, 13 de outubro de 2016
1965, o ano de ouro dos Beatles e de Bob Dylan
Hoje, mais de meio século depois, dá pra se fazer uma pálida ideia.
Poucos momentos na história da música popular mundial tiveram tanta importância como o ano de 196. Foi a fase em que as grandes estrelas pop influenciaram-se mutuamente, trocando informações e fontes inspiradoras. Bob Dylan influenciou os Beatles, que passaram a utilizar elementos da musica folk em seu Rock'n'roll, além de melhorarem substancialmente suas letras, que passaram a versar sobre temas mais complexos, que iam muito além de romances adolescentes e desilusões amorosas juvenis. Dylan também apresentou a maconha aos garotos de Liverpool, fazendo com que tivessem pensamentos e posturas transcendentes, que culminariam no psicodelismo e nas suas futuras experiências musicais inovadoras.No entanto, o movimento contrário também aconteceu: Bob deixou de tocar apenas folk music, acrescentando o instrumental elétrico em suas gravações e reproduzindo harmonias mais extensas e ricas, coisa que a dupla Lennon & McCartney já fazia com espantosa habilidade. "Acho os acordes dos Beatles surpreendentes, e as harmonias que constroem são super válidas. Para tocar esse som você precisa ter vários músicos. Eu sei que eles estão apontando para a direção certa da música", declarou Mr. Zimmerman na ocasião, dando uma explicação pra uma crítica estupefata com seu novo álbum..
O primeiro resultado concreto desta confluência magnífica está no LP Bringing It All Back Home, lançado por Dylan em março de 65, com um lado folk de voz e violão (para não desagradar ao seu público mais tradicional de então) e outro de rock básico, com guitarras, baixo e bateria. Uma explosão! Aqui estão clássicos como as acústicas "Mr Tambourine Man", "It's All Over Now, Baby Blue" e as elétricas "Subterranean Homesick Blues" (uma precursora do rap, com seu canto falado) e "Maggie's Farm", entre outras. Dylan deixou de lado as sérias canções de protesto e passou a cantar poesias concretas, letras aparentemente sem nexo, mas recheadas de alusões às drogas, ao cinismo, à vida on the road e ao deboche em cima dos padrões do american way of life ("Ei, senhor que toca tamborim, cante uma canção pra mim/ estou sem sono e não tenho pra onde ir, e quando surgir a desconcertada manhã/eu estarei atrás de ti"). Um disco histórico, imperdível e essencial! Daí veio a ideia de seu título, uma espécie de "Manda tudo isso de volta pra casa", ou seja, "deixem-me fazer meu novo som, mandando o que já é velho para onde sempre esteve, nas tradições".
O clima de gravações do LP foi, no mínimo, improvisado. Alguns músicos que tocaram nas sessões - que duraram apenas 3 dias - lembram-se de não saberem direito os acordes das musicas, e que Dylan simplesmente pedia para que não "esquentassem a cabeça" e tocassem de improviso, olhando para os acordes que ele fazia na sua guitarra. Ás vezes, a banda parava de tocar no meio de um take, tudo porque Bob começava a dar gargalhadas dos erros que todos cometiam ou porque eles disparavam a tocar antes que ele completasse a contagem inicial. Enfim, quando lançado, Bringing It All Back Home foi tão malhado quanto elogiado, provocando uma divisão que marcaria a história da carreira de Dylan; uns exigiam que ele voltasse ao folk puro, enquanto outros vibraram com aquelas melodias curtas e marcantes, de letras quase psicodélicas, tocadas em cima de uma base rock. Tudo era possível, era essa a mensagem ("você não precisa de um meteorologista pra saber pra onde o vento sopra", diz a letra de "Subterranean Homesick Blues"). Apenas 5 meses meses depois, em agosto, Bob concretizou a guinada de seu estilo lançando o ainda melhor Highway 61 Revisited, álbum completamente elétrico, e com os clássicos "Like A Rolling Stone" (considerada uma das canções mais marcantes de todos os tempos, segundo pesquisa recente da revista inglesa UNCUT) e "Ballad Of A Thin Man" (com a famosa pergunta "algo está acontecendo aqui, mas você não sabe o que é, sabe, Mr. Jones?").
Em julho, entre as duas obras Dylanescas, os Beatles apareceram com o filme e o álbum HELP!. O filme trazia referências da cultura indiana (que mudaria para sempre a vida de George Harrison). Já o LP representou um grande passo na evolução dos Fabs, mostrando, por exemplo, que eles podiam sim escrever uma canção com toques eruditos: "Yesterday", obra irretocável de Paul McCartney. Mas já havia sinais evidentes da troca de influências com Dylan, principalmente nas canções de Lennon. Em "You've Got To Hide Your Love Away" John reproduz nitidamente o acento folk típico dos temas de Bob, quase lhe imitando o vocal e a levada preguiçosa no violão. Além do mais, a letra fora inspirada em Brian Epstein, um homossexual, com Lennon procurando retratar a difícil situação vivida por alguém com opção sexual diferente em meio a um contexto machista. Em "Ticket To Ride", John escreveu uma letra retratando a partida de uma mulher que decide viajar sem seu companheiro e contra a vontade deste, numa sutil referência à emancipação feminina. Em "It's Only Love" ele se revela um garoto tímido que treme na frente da força de sua amada; e por aí a coisa foi. Musicalmente, HELP! já sinalizava um uso cada vez maior do timbre acústico, com acompanhamento mais intenso de violões e de vocais menos formais e mais improvisados, como na faixa título.Mas a gota d'água e o fechamento de ouro deste ano seria com Rubber Soul. É o disco mais unplugged dos Beatles, com temas melódicos delicados, percussão eficiente e minuciosa de Ringo Starr, mais os arranjos predominantemente acústicos, como "Michelle", "I'm Looking Through You" e "Norwegian Wood", esta última uma descrição de um affair romântico de Lennon com uma garota independente, que usa o parceiro apenas para fazer sexo, invertendo os papéis, saindo no dia seguinte para seu trabalho sem que ele ao menos soubesse seu nome. É a afirmação da temática do feminismo iniciada em "Ticket To Ride". Em "Nowhere Man", John fala do homem comum que no fundo comanda o mundo, o anônimo cidadão, e que não tem consciência do seu poder dentro da sociedade capitalista. Em "Girl", novamente ele se coloca como um 'pobre tolo' diante de uma mulher sorrateira e sem escrúpulos que está sempre na iminência de traí-lo ('ela é o tipo de garota que te faz sentir-se um tolo, quando os amigos estão ao redor'). Neste álbum, um marco dentro da musica pop e do rock, os Beatles deixam de lado a eletricidade e o ritmo acelerado do rock pra entregarem-se com habilidade aos arranjos acústicos claramente inspirados no folk e em letras mais sérias, num movimento contrário aos de Dylan, revelando assim a imensa e criativa troca de influências que ambos realizaram naquele precioso ano de 1965.
Por Marcelo Sanches
terça-feira, 11 de outubro de 2016
Curiosidade: 03 países onde os Beatles foram mal recebidos
A maioria de nós pensa que por todos os lugares onde os Beatles passaram, foram recebidos como reis, com extrema adoração e entusiasmo, certo? Bem, quase todos...
Nas Filipinas, quase sofreram um linchamento, comandado pela própria polícia local, depois de uma campanha de ódio desfechada pela Primeira Dama, Imelda Marcos, porque os Beatles se recusaram a participar de um jantar que ela tinha organizado.
Durante as filmagens de "Help!", os Beatles passaram por Salzburg, na Áustria, onde foram hostilizados pela população, indignada com a presença daqueles músicos esquisitos "na terra de Mozart".
Porém, a coisa mais estranha aconteceu na Itália. Em junho de 1965, a tour européia dos Beatles passava por Milão, Gênova e Roma. Na Cidade Eterna, 150 policiais estavam no aeroporto para garantir a integridade dos Fab Four, mas apenas nove fãs compareceram. Um dia antes, em Gênova, num estádio onde cabiam 20 mil pessoas, apenas três mil assistiram ao show.
domingo, 9 de outubro de 2016
1966 - O ano em que tudo mudou
Na festa de reveillon em 31 de dezembro de 1965, em Londres, os Beatles estavam em companhia dos executivos da gravadora EMI. Estes, provavelmente, previam mais um ano de lucros fantásticos com o grupo. Entretanto o próximo ano seria sim, bastante rentável, mas bem diferente.
Provavelmente o ano de 1966, determinou o que os Beatles seriam até o seu final, em 1970. Durante o ano, o mundo que nunca mais foi o mesmo depois deles, seguiu sua revolução dos anos 60: Pela primeira vez em 400 anos, anglicanos foram recebidos pelo Papa em Roma; o reverendo Martin Luther King liderou uma marcha pelos direitos civis, nos Estados Unidos, enquanto a força aérea americana bombardeou Hanói, capital do Vietnam do Norte. No outro lado do mundo a ciência avançou com a chegada da espaçonave soviética a Vênus, a primeira nave terrestre a chegar a outro planeta, mas na China, o governo proclamou a "Revolução Cultural", promovendo expurgos e perseguindo intelectuais. Toda essa efervescência não foi menor no universo particular de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr há 40 anos.
Um prelúdio de 1966 foi o último mês do ano anterior, quando em três de dezembro, os Beatles lançaram o álbum "Rubber Soul" e o single "Day Tripper"/"We Can Work It Out". Ambos já apresentavam mudanças na concepção musical do grupo. "Rubber Soul" tinha letras e melodias mais elaboradas, além dos Beatles também terem contribuído, pela primeira vez, para a arte da capa do disco. O single com dois lados A, trouxe uma música com alusão as drogas como "Day Tripper". Estes lançamentos repetiram o colossal sucesso que o grupo vinha mantendo desde 1963, indo aos primeiros lugares nos Estados Unidos e Inglaterra e vendendo, segundo estimativas, cinco milhões do álbum e quatro milhões do compacto.
No mesmo dia dos lançamentos fonográficos, os Beatles começaram uma turnê pela Grã Bretanha, em Glasgow, na Escócia, que seguiu até o dia doze, passando por nove cidades. Em um desses concertos, em Manchester, eles foram visitados pelo produtor de seus filmes, Walter Shenson, onde discutiram sobre o terceiro longa-metragem do grupo para 1966, cuja idéia inicial foi um roteiro de "A Talent For Loving" de Richard Condon, já comprado pelo empresário Brain Epstein..
Os jovens milionários também fizeram investimentos, que determinaram suas vidas por um longo período. John instalou um estúdio caseiro em sua mansão em Kenwood (2), onde passou os próximos meses fazendo uma série de experiências sonoras. George adquiriu um possante Ferrari (3), apurando seu gosto pela velocidade. Paul, finalmente, se mudou para sua casa em St. John's Wood (4), após meses de reforma, saindo da casa dos pais de Jane. Também comprou, em Kintyre (5), na Escócia, uma fazenda. Ringo investiu seu dinheiro em uma empresa de decoração e arquitetura chamada Brickley Building Company Ltd (6).
Enquanto isso, as notícias no império Beatle não poderiam ser melhores: Já no começo do ano, o grupo The Overlads, levou ao primeiro lugar na Inglaterra, uma interpretação da canção "Michelle"(do álbum "Rubber Soul"); Os Beatles obtiveram, naquele ano, dez indicações ao Grammy; o documentário "The Music of Lennon & McCartney" foi exibido no prestigiado Festival de Montreaux; John e Paul receberam encomendas de composições para os artistas da gravadora americana Motown e para o cantor Tony Benett; As músicas dos Beatles começaram a penetrar, com força, nas rádios da Polônia, apesar das restrições do regime político daquele país; O jornal inglês "The Sunday Times", em sua edição de 27 de março, anunciou que os Beatles haviam vendido, até então, a impressionante cifra de 159 milhões de discos em todo o mundo. Tal número foi somado ao novo single "Nowhere Man", lançado nos Estados Unidos, que rapidamente vendeu um milhão de cópias; A BBC1-TV transmitiu o antológico concerto dos Beatles no Shea Stadium, em Nova York, durante a turnê americana de 1965.
Aos poucos voltando ao trabalho, os Beatles tiveram seus primeiros compromissos oficiais com a imprensa no ano. Em março, eles concederam uma entrevista a jornalista Maureen Cleave, do jornal "London Evening Standart". John, que sempre destilou seu senso de humor com os repórteres, naquela entrevista, por estar diante da amiga jornalista, baixou a guarda e foi mais crítico ao declarar: "O cristianismo vai acabar. Vai se dissipar e depois sucumbir. Nem preciso discutir isso. Estou certo, e o tempo vai provar. Atualmente somos mais populares que Jesus Cristos" A declaração não causou polêmica na Inglaterra.
Depois os Beatles posaram para uma sessão com o fotografo Bob Whitaker, que muito influenciado por Salvador Dali, produziu fotos com matizes surrealistas como uma em que os Beatles estavam com jalecos brancos segurando bonecas despedaçadas junto a pedaços de carne. Uma das fotos foi escolhidas para figurar a capa do próximo álbum "Yesterday...and Today", só editado nos Estados Unidos, que ficou conhecido como a "capa do açougue".
O assessor de imprensa dos Beatles, Tony Barrow continuou seu trabalho e organizou em um estúdio em Chelsea, ao sudeste de Londres, mais sessões de fotos e entrevistas com jornalistas da Inglaterra, Índia, Canadá e do Brasil, com o conceituado Janos Lengyel. Húngaro, naturalizado brasileiro, Janos fez a primeira reportagem brasileira exclusiva com os Beatles para a antiga revista "Fatos e Fotos". Em sua entrevista Janos perguntou a John se o grupo não temia a concorrência. Ele respondeu: "Não, porque a gente faz o melhor que pode e todos têm o direito de querer aparecer. Nós tivemos nossa oportunidade e soubemos aproveita-la. Por que outros não hão de fazer o mesmo?"
Mas parecia que ninguém fazia como os Beatles. George em uma entrevista falou: "Nós nunca ensaiamos nada, não como os outros grupos". Mesmo em um cenário muito fértil na música pop dos anos 60, eles continuavam a ser o máximo. E enquanto iniciavam as gravações do novo álbum, os Beatles fizeram o que seria seu último concerto na Inglaterra, em primeiro de maio, no NME Poll Winners, onde receberam os três principais prêmios do New Musical Express. Os Beatles fecharam a noite no Wembley Stadium, após apresentações do Herman's Hermits, The Rolling Stones, The Who, The Yardbirds entre outros.
Os Beatles, em quatorze de junho, fizeram, sua única e última, apresentação ao vivo no programa de TV inglês "Top of The Pops". Porém não mais dispostos a fazer aparições em programas de televisão, o grupo inovou ao contratar o diretor Michael Lindsay-Hoog(7) para filmar, em cores, dois filmes promocionais para o novo single "Paperback Writer"/"Rain", enviando depois os video-clipes para as estações de TV mundo afora. Lançado em 30 de maio, o single "Paperback Writer" foi ao primeiro lugar em treze paises! O primeiro produto Beatle de 1966, tinha um complexo arranjo vocal e instrumental em "Paperback Writer" e uma letra de estrutura psicodélica em "Rain"(8). Em seguida, foi lançado, somente Estados Unidos, o álbum "Yesterday...and Today", que ficou cinco semanas em primeiro lugar e vendeu um milhão e meio de discos.
O álbum foi mais um lançamento da gravadora Capitol, apenas para o mercado norte-americano, que de 1964 a 1966, transformou os sete álbuns oficiais da banda em onze (contando com "A Hard Day's Night" lançado pela United Artists, na América). "Yesterday...and Today" abarcou os recentes singles, algumas canções dos originais "Help!", "Rubber Soul" e do ainda do inédito "Revolver". O disco que foi lançado com a "capa do açougue" gerou muita polêmica nos Estados Unidos, pois muitos alegaram mau gosto ou atribuíram a foto a uma mensagem cifrada contra a Guerra do Vietnam ou uma crítica ao desmembramento dos álbuns originais dos Beatles na América. A Capitol teve que, em regime de urgência, recolher os discos e substituir as 750 mil capas já prensadas, o que causou prejuízos a gravadora. Hoje as poucas cópias originais de "Yesterday...and Today" são muito disputadas por colecionadores.
Após os problemas com a capa do disco americano, Os Beatles iniciaram sua turnê mundial de 1966 por cinco países (Alemanha, Japão, Filipinas, Estados Unidos e Canadá) . Seu repertório foi: "Rock'n'Roll Music", "She's a Woman", 'If I Needed Someone", "Day Tripper", "Baby's In Black", "I Feel Fine", "Yesterday", "I Wanna Be Your Man", "Nowhere Man", "Paperback Writer" e "I'm Down"(as vezes substituída por "Long Tall Sally").
Em 24 de junho, na Alemanha, eles fizeram um concerto, no Circus-Krone-Bau, em Munique, aberto pela dupla Peter & Gordon. O show foi filmado pela TV alemã ZDF. Na manhã seguinte, os Beatles seguiram a bordo do "Trem Real" (usado antes somente pela Rainha da Inglaterra) para a cidade de Elsen, onde fizeram dois concertos. Em 26 de junho, eles chegaram a Hamburgo, cidade em que eles se aperfeiçoaram como profissionais, no início da década, e desde então não haviam mais voltado. Além dos dois concertos no Ernst Merck Halle, esta foi uma estada sentimental. Após os shows, eles voltaram ao bairro boêmio de Reeperbahn, e reencontraram antigos amigos como Bert Kaempfert, o produtor de seu primeiro disco, quando eles eram apenas uma banda de apoio para o cantor Tony Sheridan. Ainda em Hamburgo, John visitou a amiga fotografa Astrid Kircherr, que lhe entregou várias cartas do ex-noivo Stuart Sutcliffe (9), amigo de John e integrante dos Beatles, falecido em 1962.
Após a turnê alemã, os Beatles voltaram a Londres para logo embarcarem no vôo inaugural da Japanese Airlines para Tóquio, dando continuidade a turnê mundial do grupo. Em virtude do mau tempo, o avião pousou em Anchorage, no Alaska, onde eles passaram a noite. No Alaska, os Beatles ficaram hospedados no hotel "Top of The World", de onde um DJ local fez com eles um rápido city tour. No dia seguinte eles chegaram no Aeroporto Haneda, e seguiram para o Tokyo Hilton, onde ocuparam a Suíte Presidencial. Um forte esquema de segurança, feito pelo exercito japonês com 30 mil homens, foi posto de prontidão, em virtude dos protestos da extrema direita nipônica, contraria aos concertos dos Beatles no Nippon Budokan Hall. Eles alegavam ser um sacrilégio, uma banda de rock'n'roll tocar em um lugar destinado as artes marciais. Apesar disso, os dois concertos dos Beatles foram um grande sucesso, transmitido pela TV japonesa, em cores. O grupo rumou, via Hong Kong, para as Filipinas.
Na capital Manilha, 50 mil fãs se aglomeravam no aeroporto. Os Beatles sempre recebendo tratamento digno de chefes de estado onde quer que fossem, estranharam a recepção nas Filipinas, que estava sob a ditadura de Ferdinando Marcos. O grupo foi conduzido para fora do avião pela rude policia militar filipina e separados de seu empresário Brain Epstein. A polícia apreendeu a bagagem do grupo, que continha maconha, o que provocou problemas com as autoridades locais. Os Beatles foram mantidos sob custódia da polícia, fortemente armada, em um barco na Baia de Manilha. De lá, dois batalhões militares os conduziram para um navio da marinha, e depois foram levados para uma festa no iate particular do milionário filipino Don Manolo Elizalde, onde foram exibidos para amigos do "anfitrião". Somente às quatro horas da manhã, Brain Epstein obteve controle da situação e finalmente os levou para o Hotel Manila.
No dia seguinte, os Beatles exaustos por terem ido dormir muito tarde, deram dois concertos no Rizal Memorial Football Stadium, superlotado. Após os shows, a primeira-dama Imelda Marcos, tinha organizado uma recepção no Palácio Malacanang, para 300 filhos de oficiais de alta patente do exercito filipino, para apresenta-los ao grupo. Brain Epstein e os Beatles não sabiam nada a respeito da cerimônia, e após os concertos voltaram ao hotel para descansar e se recusaram a participar de qualquer compromisso social. O não comparecimento dos Beatles a recepção no palácio presidencial foi considerado uma falta grave com perigosas conseqüências.
Na manhã seguinte as manchetes dos jornais filipinos estampavam que os Beatles esnobaram a Madame Marcos, e em conseqüência o grupo e sua entourage foram levados as pressas para o aeroporto, onde foram rivalizados no caminho por populares, agredidos pelos militares e tiveram toda a renda do concerto confiscada pelas autoridades filipinas, além de suas bagagens terem ido parar na Suécia!. O grupo, naturalmente, saiu com uma péssima impressão do país, e o incidente ganhou repercussão internacional, tanto que o grupo britânico Freddie & The Dreamers, cancelou imediatamente os concertos que fariam nas Filipinas, em protesto ao tratamento que os Beatles receberam lá. De Manilha, o vôo 862, da KLM, levou os Beatles para Nova Deli, na Índia, onde o grupo esperava ter três dias de paz e descanso. Porém já no aeroporto 600 fãs o aguardavam histericamente.
Anos depois, sobre o incidente nas Filipinas, Paul declarou: "Quando soubemos quem era Marcos e o que ele e Imelda andavam fazendo ao seu povo e a farsa que era tudo aquilo. Ficamos contentes por não termos comparecido aquela recepção. Fomos as únicas pessoas que se atreveram a desconsiderar Marcos."
De volta a Inglaterra, um país eufórico pela conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1966, os Beatles voltavam a receber as boas novas como os três troféus Ivor Novello (premiação máxima da musica inglesa) para "We Can Work It Out" e "Help!" como o primeiro e o segundo compacto mais vendido na Inglaterra em 1965, e por "Yesterday" a canção mais executada do ano. As canções de Lennon e McCartney, em 1966, continuavam a receber interpretações de diversos artistas como Connie Francis, Johnny Mathis, Bob Goldsboro, Cliff Richard, David McCallum, as duplas Jan and Dean e Peter and Gordon entre outros. Mas da América as noticias eram preocupantes. A revista "Datebook" divulgou a entrevista que John Lennon concedeu a Maureen Cleave, destacando, fora do contexto a frase "Somos mais populares que Jesus".
A matéria provocou uma imediata reação de fundamentalistas cristãos. Um radialista, na cidade de Birmingham, (que fazia parte de uma região conhecida como o cinturão da Bíblia) no estado do Alabama, organizou um boicote a execução das músicas do Beatles, e um ato onde os discos do grupo foram queimados em uma grande fogueira. Logo trinta estações de rádio americanas se recusaram a tocar musicas dos Beatles. Na África do Sul (10), onde os Beatles haviam recentemente recusado uma oferta para um concerto, baniu as músicas do grupo de suas estações de rádio por cinco anos. Mesmo na Europa, onde as conseqüências foram bem menores, os Beatles foram criticados pelo governo fascista do General Francisco Franco, na Espanha e o Papa Paulo VI, declarou via o jornal do Vaticano "L'osservatore Romano": "Alguns assuntos não devem ser tratados de forma profana, mesmo no mundo dos beatniks"
Brain Epstein, apesar de estar saindo de uma febre muito alta, embarcou para os Estados Unidos, a fim de tentar contornar os problemas criados pela declaração de John. O grupo estava recebendo ameaças de morte, a Klu Klux Klam condenou os Beatles por blasfêmia e ameaçou fazer atos terroristas nos concertos da banda, em sua excursão americana que começaria no dia doze de agosto. Mal Evans, o roadie dos Beatles, achou que não iria sobreviver naquela turnê.
Tudo aconteceu às vésperas do lançamento do álbum "Revolver"(11), considerado um dos melhores do grupo. Como os Beatles não chegaram a um acordo em relação seu ao terceiro longa-metragem, ao invés de filmar, eles passaram de abril a junho no estúdio Três, da EMI, em Abbey Road, nas sessões de gravação. Um tempo muito longo para época, mas que revelou os Beatles, no topo de sua criatividade. Com letras sofisticadas e um som experimental. "Revolver" foi o divisor de águas entre a fase de turnês e dos "anos de estúdio", e quebrou uma regra mercadológica que o grupo mantinha desde 1963, lançando dois álbuns e três singles por ano. Também marcou o fim das diferenças entre os álbuns lançados na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na capa do disco, pela primeira vez, não tinha uma foto do grupo e sim uma colagem, em preto e branco, de fotos entre desenhos dos rostos dos Beatles. O trabalho gráfico foi realizado pelo antigo amigo dos tempos de Hamburgo, o alemão Klaus Voormann.
O título "Revolver" nada tem a ver com armas e sim com o movimento do disco rodando, no caso o vinil, no prato do toca-disco. Foi o nome escolhido entre vários como: "Abracadabra", "Magic Circle", "Beatles on Safari", "Freewheelin'Beatles", "Bubble and Squeak", "Four Sides of Circle" e "After Geography". O álbum, produzido por George Martin e com a engenharia de som de Geoff Emerick, revelou as preferências individuais de cada Beatle e pela primeira vez, George tinha três canções em um álbum.
"Revolver" abre com a faixa 'Taxman", um grande sucesso radiofônico de George, que protesta contra os altos impostos cobrados pelo governo inglês. "Eleanor Rigby"(12) é uma crítica social sobre a solidão, com um som próximo da música clássica, com Paul no vocal, acompanhado de dois violinos, duas violas e dois violoncelos. Em "I'm Only Sleeping", temos uma interpretação propositalmente letárgica de John, com um solo de guitarra de traz para frente. A influência indiana sobre George é ouvida em "Love You To", que teve como convidado o músico indiano Amil Bhagwat, tocando tabla. A romântica balada "Here There and Everywhere" foi uma das favoritas de John, que segundo Paul foi inspirada no álbum "Pet Sounds" dos Beach Boys. Ringo foi o vocalista perfeito para a canção infantil "Yellow Submarine"(13), com muito efeitos sonoros.
Inspirado em uma conversa com o ator americano Peter Fonda, John compôs "She Said She Said" sobre uma "viagem" de LSD. "Good Day Sunshine" é uma homenagem ao som de Nova Orleans dos anos 30. Apesar de John, nunca ter apreciado "And Your Bird Can Sing" (14), esta é considerada, musicalmente, um dos pontos altos do disco. O ritmo dançante da canção anterior é contrabalançado pela suavidade melódica de "For No One", que traz um solo do corneteiro Alan Civil, da Filarmônica de Londres. O cinismo é a marca de "Doctor Robert", um pseudônimo para um "doutor" nova-iorquino que arranjava vários tipos de droga para as estrelas do rock. "I Want To Tell You", pela sua soberba harmonia, colocou George, no patamar dos grandes compositores. Paul revelou, anos depois, que "Got To Get Into My Life"(13), não foi composta para uma pessoa e sim, foi uma ode a maconha. Musicalmente, a canção foi uma influência da soul music americana, que traz um vigoroso arranjo de metais. E finalizando o disco, uma canção que sintetiza a fase em que os Beatles passavam: "Tomorrow Never Knows", inspirada no "O Livro Tibetano dos Mortos", a letra também faz referencias as primeiras experiências dos Beatles com o ácido lisérgico e seu arranjo é repleta de experimentalismos sonoros e traz George tocando uma citará indiana. O crítico de música americano Dick Summer afirmou: "O álbum 'Revolver' definiu uma era e a música pop"
Lançado em cinco de agosto, o álbum, que já tinha um milhão de pedidos antecipados só na Inglaterra, foi um grande sucesso de vendas e ficou sete semanas em primeiro lugar na Grã Bretanha e seis nos Estados Unidos, onde ficou 77 semanas nas paradas e vendeu dois milhões e meio de cópias. O single extraído do álbum foi "Yellow Submarine"/ "Eleanor Rigby", que atingiu o primeiro lugar em nove paises. Quatro canções do álbum, receberam rapidamente interpretações de artistas como Cilla Black ("For No One"), The Tremeloes ("Good Day Sunshine"), The Fourmost ("Here There and Everywhere"), Cliff Bennett & The Rebel Rousers ("Got To Get Into My Life", que foi ao Top 10 inglês), entre outros.
Uma semana após o lançamento de "Revolver", os Beatles inciaram sua turnê pela América do Norte. Ao chegarem nos Estados Unidos, quase toda a imprensa americana estava esperando por eles, em Chicago (15), para questiona-los sobre a frase "Somos mais populares que Jesus". John, que se recusou a pedir desculpas, fez então a seguinte declaração: "Se eu tivesse dito que a televisão é mais popular que Jesus, teria me safado. Disse Beatles como algo remoto, não que eu penso, mas os Beatles na maneira como as outras pessoas os vêem. Só disse que eles estão tendo mais influência sobre a juventude do que qualquer coisa, inclusive Jesus. Eu não estava criticando, apenas expondo um fato. E é verdade mais para a Inglaterra do que para aqui. Não estou nos comparando a Jesus Cristo como pessoa, ou Deus como uma coisa ou seja lá o que for. Eu disse o que disse e fui mal interpretado e agora virou tudo isso."
Apesar da controvérsia religiosa, os Beatles eram elevados ao grau de divindades. Durante aquela turnê americana, mães levavam seus filhos com deficiência física a fim que os Beatles os curassem!
Contudo a turnê dos Beatles pela América do Norte, em 1966, foi a mais lucrativa de todas. Eles fizeram dezessete concertos em quatorze cidades, abertos pelo cantor Bob Hebb e pelo trio vocal feminino The Ronettes(16). Entretanto foi também a excursão mais tumultuada de todas. As festas em que os Beatles foram recebidos em Los Angeles, com a presença de membros dos Mamas and The Papas, The Beach Boys e The Birds, após o grande concerto no Dodger Stadium para 45 mil pessoas (com o grupo The Monkees na platéia), contrastou com os vários incidentes que aconteceram em outras cidades. No Shea Stadium, em Nova York, após terem o primeiro encontro com uma jovem fotografa especializada em retratar roqueiros, Linda Eastman(17), milhares de fãs invadiram a arena quando os Beatles tocaram "Day Tripper", mas foram contidos pelos policiais. A Klu Klux Klam ameaçou sabotar o concerto dos Beatles, no Mid South Coliseum, em Memphis com atos terroristas, mas a intimidação se transformou em um protesto fora do estádio. Já em St. Louis, a natureza que assustou, quando durante um concerto para 23 mil pessoas, no Busch Stadium, uma forte chuva, molhou os amplificadores, e deixou os organizadores muito apreensivos devido a possibilidade dos Beatles serem eletrocutados. Em uma entrevista em Toronto, John, continuou a gerar polêmica ao encorajar os jovens americanos a pedirem asilo político no Canadá para evitar a convocação para a Guerra do Vietnam(18).
Ao fim de uma conturbada turnê, os Beatles, sem divulgarem o fato, decidiram que davam seu último concerto ao vivo para 25 mil pessoas no Candlestick Park, em São Francisco. Curiosamente, eles concluiram o concerto com a canção "Long Tall Sally", a mesma em que fechavam os antigos shows antes da fama.
De volta a Inglaterra, George comentou: "Não sou mais um Beatle" O desabafo de George captou o senso comum dos outros Beatles, exaustos física e mentalmente. Foram três anos consecutivos de turnês, gravações, aparições em rádio e televisão, dois longas-metragens, além do trabalho de compor as canções. Musicalmente, nos concertos, a histeria era tão grande que eles não podiam ouvir o que estavam tocando, e, segundo os próprios, eles estavam se transformando em músicos ruins. Sobre o fim das turnês, George Martin, declarou: "Eles não estavam perdendo a criatividade musical. Pelo Contrario, estavam ficando cada vez mais produtivos. O trabalho que me apresentavam era cada vez mais interessante. Estavam descobrindo novas fronteiras o tempo todo. Mas em virtude da grande histeria, estavam tocando mal."
O cansaço, a grande histeria e os tumultuados acontecimentos daquela turnê, fizeram com que os Beatles, após cerca de 460 concertos por dezenove países, desde outubro de 1962, no auge de sua popularidade, parassem de se apresentar ao vivo, apesar das inúmeras propostas que eles continuaram a receber de todo o mundo.
Em novembro, os quatro Beatles estavam de volta às terras inglesas e sem mais os concertos, estavam a badalar pela "Swinging London", voltando a freqüentar os concertos de músicos americanos como Ben E. King(1b), The Four Tops e The Young Rascals. Foi também durante estes eventos que John conheceu a artista plástica japonesa Yoko Ono(23), em uma exposição chamada "Unfinished Paintings and Objects", na galeria Indica, em Londres.
O retorno às gravações do novo álbum começou em 24 de novembro, nos mesmos estúdios de Abbey Road, com o produtor George Martin e o engenheiro Geoff Emerick. A primeira concepção para o novo disco, foi tida por Paul, no vôo de volta da África. Era o primórdio do que seria o antológico álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"(24), onde o grupo assumiria seus alter egos em uma banda imaginária. Durante essas sessões os Beatles começaram a trabalhar nas novas composições "Strawberry Fields Forever", "When I'm Sixty-Four" e "Penny Lane". Eram canções sobre o passado em Liverpool e eram diferentes de tudo que eles vinham fazendo. Letras como "Living is easy with eyes closed" ("Viver é fácil com os olhos fechados"), em "Strawbery Fields Forever", uma leitura psicodélica da infância de John, contrastava com o realismo de "Penny Lane" ("Penny Lane tem um barbeiro exibindo suas fotografias"), sobre a meninice de Paul em sua cidade natal. "When I'm Sixty-Four", mostrava uma outra face dos Beatles, não psicodélica, e sim uma sátira carinhosa sobre a velhice. Os instrumentos usados pelos Beatles, já desde o álbum "Rubber Soul", vinham se ampliando da clássica formação de duas guitarras, baixo e bateria. Naquele momento o experimentalismo musical do grupo entrava em sua fase áurea. Para aquelas sessões de gravação, John trouxe um mellotron e um cravo, Ringo passou a usar a percussão, George adicionou instrumentos indianos e Paul se diversificou entre o bongo, tímpano, flauta e piano. George Martin sugeriu a inclusão de trompetes, clarinetas e violoncelos. O próximo álbum, que ali estava nascendo, prometia mudanças ainda mais radicais.
Enquanto iniciavam a fase que se chamaria "the studio years", pela primeira vez, não havia um lançamento inédito dos Beatles para o natal, além do flexi-disc "Pantomine: Everywhere It's Christmas", com suas mensagens de fim de ano, e que foi enviado somente para os membros do fã clube oficial da banda. Para preencher esta lacuna, a gravadora EMI, lançou a primeira coletânea de sucessos do grupo "A Collection of Beatles Oldies...But Goldies!", contendo todos os singles de sucesso do grupo de 1963 a 1966. Lançada na Inglaterra e no resto do mundo (menos nos Estados Unidos), o disco atingiu rapidamente o Top 10 britânico, e suas vendagens globais chegaram a um milhão de cópias, acompanhando as vendas natalinas. Para os fãs ingleses, além de algumas remixagens em estéreo, a coletânea apresentou a faixa inédita "Bad Boy", uma obscura composição do roqueiro dos anos 50, Larry Williams, regravada pelos Beatles, em dez de maio de 1965, especialmente para o mercado norte-americano (constando no álbum "Beatles VI", lançado em junho de 1965).
Os Beatles continuavam juntos, não obstante os rumores de uma separação do grupo ocasionados pelo fim das turnês. Mas os quatro músicos estavam cultivando seus próprios interesses. Ringo recebeu a alegre noticia que sua esposa Maureen estava grávida de seu segundo bebê(25), e foi para Liverpool passar o natal com seus familiares. George, trajando roupas indianas, recepcionou Ravi Shankar (que trajava um terno ocidental!) em sua chegada a Londres e hospedou em sua casa em Esher, o cantor Donovan. Paul compareceu a premiere do longa-metragem "The Family Way", estrelado pela atriz inglesa Hayley Mills. A trilha sonora composta por ele e executada pela orquestra de George Martin (26), derivou o single "Love in The Open Air"(27), lançado simultaneamente ao filme (o álbum com a trilha sonora só chegaria as lojas em junho de 1967).
Paul também apareceu como produtor de uma banda de Liverpool, chamada The Escounts, no single "From Head to Toe". John, por sua vez, foi convidado especial no programa da BBC TV "Not Only...But Also"ao lado dos comediantes Peter Cook e Dudley Moore. John também se encontrou com a artista plástica Yoko Ono, pela segunda vez, na abertura de uma exposição. Percebendo o interesse de John pelo seu trabalho, Yoko o presenteou com uma cópia de seu livro "Grapfruit"(28), sobre arte conceitual. O tumultuado ano que chegava ao fim percebeu os Beatles completamente mudados. Eles haviam abolidos os ternos e passaram a trajar roupas coloridas, óculos não convencionais, longas costeletas, cabelos mais compridos e bigodes.
Em 31 de dezembro de 1966, George, Pattie, Brain Epstein(29) e Eric Clapton(30), foram barrados na porta da boate Annabel, em Londres, pois George estava sem gravata. O porteiro da boate chegou a lhe oferecer uma, mas ele recusou o favor e todos foram passar o reveillon no não tão requintado restaurante Lyon's Corner House, em Conventry Street. Sinal os tempos?!
· (1 a) e (1 b) Os concertos dos artistas em turnê pela Inglaterra, em 1966, vistos pelos Beatles, inspiraram suas carreiras solo, anos depois: Ravi Shankar passou a acompanhar George em quase toda sua carreira solo. Em 1971, Ravi tocou no "Concert for Bangladesh". George produziu, respectivamente, em 1974 e 1997, os álbuns de Ravi Shankar "Shankar Family and Frinds" e "Chants Of India". Stevie Wonder participou do concerto "One To One" de John Lennon, em 1972, no Madison Square Garden, em Nova York. Em 1982, Stevie fez dueto com Paul McCartney no hit single "Ebony and Ivory". Paul também tocou no álbum "Time To Love", de Stevie Wonder, em 2005. A turnê inglesa de Bob Dylan em 1966, foi filmada para o documentário "Eat The Document", de DA Pennebaker com a participação de John Lennon. Bob Dylan compôs com George a canção "I'd Have You Anytime" para o álbum "All Things Must Pass". George se juntou a Roy Orbison, Bob Dylan, Tom Petty e Jeff Lynne e formaram o supergrupo Traveling Wilburrys, em 1988. Ben E. King foi o compositor de "Stand By Me", um grande sucesso de John, em 1975.
· (2) O estúdio caseiro que John construiu em sua casa em Kenwood foi gravado, em 1968, o álbum "Unfinished Music No. 1: Two Virgins", o primeiro disco de John e Yoko, repleto de experiências sonoras.
· (3) O possante Ferrari verde que George Harrison comprou em 1966, pode ter sido o início de seu gosto pela velocidade, que o fez ser um fã de Formula Um, a partir dos anos 70.
· (4) e (5) As propriedades que Paul McCartney adquiriu continuam com ele até hoje. Este ano um tablóide inglês divulgou que Paul possui 32 milhões de libras em imóveis. Sua casa em S. John's Wood, em Londres esta avaliada em 5 milhões de libras. A fazenda na Escócia, em Mull of Kintyre inspirou o grande sucesso homônimo dos Wings, em 1977.
· (6) O investimento de Ringo Starr na Brickley Building Company Ltd, uma empresa de arquitetura e decoração, evoluiu, em 1970, com a criação, em Londres da Ringo or Robin Ltd. Fundada em parceria com o designer Robin Cruikshank, a firma se especializou em criar design de movéis sofisticados. A Ringo or Robin Ltd., teve Elton John como um de seus clientes. A dupla abriu uma filial em Los Angeles em 1974, até fechar dois anos depois
· (7) O diretor Michael Lindsay-Hoog , que dirigiu os video-clipes de "Paperback Writer" e "Rain", dirigiu o último longa-metragem dos Beatles, o documentário "Let It Be". Michael também dirigiu o vídeo-clipe de "Mull of Kintyre" dos Wings, em 1977.
· (8) Em 1976, o cantor Todd Rundgreen gravou uma interpretação de "Rain"
· (9) Stuart Sutcliffe foi um grande amigo de John desde 1956, quando eram colegas em uma escola de arte em Liverpool. Em 1959, ele entrou para a banda de John, um ano depois batizada como The Beatles. Stuart foi o baixista dos Beatles, durante toda a estada do grupo, em Hamburgo, na Alemanha, onde eles tocavam horas a fio em boates baratas. Em 1961, ele saiu do grupo para se dedicar a pintura e se casou com a fotografa alemã Astrid Kircherr. Em 1962, Stuart Sutcliffe morreu vítima de um edema cerebral, aos 22 anos. Hoje seus quadros são expostos em exposições pelo mundo.
· (9) O regime da apartheid da África do Sul proibiu a execução das musicas dos Beatles, por cinco anos devido a declaração de John "Somos mais populares que Jesus". Após o fim da proibição em 1971, a The South Africa Broadcasting Company, liberou as canções dos Beatles e os trabalhos solo de Paul, George e Ringo, mas manteve o veto a John Lennon.
· (10) O álbum "Revolver" recebeu seis indicações ao Grammy, incluindo a de "Álbum do Ano", perdendo para "Sinatra: A Man and His Music" de Frank Sinatra. Mas venceu nas categorias "Melhor Performance Vocal Contemporânea" para Paul McCartney em "Eleanor Rigby" e "Melhor Capa de Disco" para Klaus Voormann. Na mesma cerimônia a dupla Lennon e McCartney recebeu um Grammy para "Musica do Ano" por "Michelle"(do álbum "Rubber Soul")
· (11) "Eleanor Rigby" se tornou uma das canções mais interpretadas da dupla Lennon e McCartney. Entre as mais notórias estão as de Ray Charles e Aretha Franklin.
· (12) "Yellow Bubmarine", outra canção do álbum "Revolver", inspirou um longa-metragem em desenho animado. Com o fim das turnês, no final de 1966, Brain Epstein voltou com a idéia de um terceiro filme em desenho animado, para não ocupar muito os Beatles, pois todos estavam viajando. Porém a idéia foi recusada pela United Artists. A concepção do filme só foi aprovada em 1967, e "Yellow Submarine" foi lançado em julho de1968. O filme foi a segunda maior bilheteria em desenhos-animados nos Estados Unidos em 1969, e recebeu uma menção especial no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça.
· (13) Em 1976, dez anos após o lançamento de "Revolver", foi lançado nos Estados Unidos o single "Got To Get Into My Life" que foi ao Top 10 das paradas de sucesso da revista Billboard. O compacto foi uma promoção para coletânea dos Beatles "Rock'n'Roll Music", que também foi um grande sucesso.
· (14) A canção "And Your Bird Can Sing" pasou a abrir a terceira temporada da série de TV, "The Beatles", em desenho animado, dos Beatles, na ABC - TV, em 1967.
· (15) Pode se dizer que o primeiro "disco solo" de John Lennon foi "I Appologize", um vinil lançado e distribuído pelo correio, produzido pela Sterling Productions. O disco trouxe, na íntegra, a coletiva para imprensa de John, sobre sua frase "somos mais populares que Jesus", em Chicago, em onze de agosto de 1966.
· (16) O grupo vocal feminino The Ronettes, que abriu os concertos dos Beatles, em sua última turnê pelos Estados Unidos em 1966, tinha como produtor o lendário Phil Spector, que produziu "Let It Be", o último álbum dos Beatles, em 1970, e trabalhou nos primeiros álbuns solo de John e George, nos início dos anos 70.
· (17) A jovem fotografa Linda Eastman, que teve o primeiro encontro oficial com os Beatles, nos bastidores do concerto no Shea Stadium, em Nova York, se casou com Paul McCartney, em 1969. Eles tiveram três filhos e ficaram juntos até a morte de Linda, vítima de câncer, em 1998.
· (18) e (20) Os primeiros comentários de John Lennon sobre a Guerra do Vietnam durante a excursão americana de 1966, e sua participação no filme "How I Won The War" foram crescendo até desencadear em uma campanha mundial pela paz "War Is Over - If You Want ", iniciada em 1969 e que identificou John como um pacifista até hoje.
· (19) Os óculos de aros redondos que John usou para as filmagens de "How I Won The War", fizeram ele abandonar as lentes de contato e adota-lo em sua vida cotidiana. Os óculos redondos e se tornaram uma característica sua e ditou moda nos anos posteriores.
· (21) A viagem que George fez a Índia por 40 dias no final de 1966, onde estudou meditação transcendental, converteu George a ser um adepto da seita Hare Krishna, e fez com que George popularizasse a cultura indiana no mundo ocidental.
· (22) O convite que Ringo recusou para um pequeno papel em um filme da série James Bond, pode ter estimulado seu gosto pela sétima arte. Em 1968, ele fez uma participação ao lado de Marlon Brando no filme "Candy" de Christian Marquand, e até 1986, Ringo fez mais onze longas-metragens para o cinema e dois tele-filmes.
· (23) John, se divorciou de Cynthia e se casou com Yoko Ono, em 1969. A exceção de um período de dezoito meses, entre 1973 e 1975, eles ficaram juntos até a morte de John em oito de dezembro de 1980.
· (24) O álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que eles começaram a gravar em novembro de 1966, foi lançado em primeiro de junho de 1967, e é considerado o mais influênte álbum da história da música pop até hoje.O álbum recebeu quatro prêmios Grammy nas categorias "Álbum do Ano", "Melhor Álbum Contemporâneo", "Melhor Engenharia de Som", "Melhor Capa", além de mais três indicações. "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" vendeu, até hoje, mais de quinze milhões e cópias e ficou 27 semanas em primeiro lugar na Inglaterra e 15 nos Estados Unidos, onde permaneceu 168 semanas nas paradas de sucesso.
· (25) Jason Starkey, o Segundo filho de Ringo e Maurren, nasceu em dezenove de agosto de 1967.
· (26) Em 28 de novembro de 1966, foi lançado o álbum "The Beatles Girls", com várias versões instrumentais das músicas dos Beatles, com a George Martin and his Orchestra.
· (27) A canção "Love in The Open Air" tema do filme "The Family Way", composta por Paul McCartney recebeu um prêmio Ivor Novello na categoria "Melhor Tema Instrumental"
· (28) O livro "Grapefruit", que Yoko Ono presenteou John após seu segundo encontro, em 1966, foi uma das sugestões de John para batizar a gravadora Apple em 1968. O casal voltou a divulgar o livro em 1971.
· (29) O empresário dos Beatles, Brain Epstein, foi encontrado morto em sua casa em Londres, vítima de uma overdose, em 27 de agosto de 1967, enquanto os Beatles, estavam em uma conferencia com o Maharishi, em Bangor, no Pais de Gales. Alguns afirmaram que Brain pouco teve tinha a fazer com o grupo após o fim das turnês. Em vinte e três dias ele completaria 33 anos.
· (30) Eric Clapton acompanhou George Harrison em vários momentos de sua vida. Ele tocou no "Concerts For Bangladesh"(1971), no álbum "Cloud Nine"(1987) e na turnê de George pelo Japão, em 1991. Ele se casou com a ex-mulher de George, Pattie, em 1979. Eric Clapton foi o organizador de "Concert For George", em 2002.
· "Revolver" foi último álbum a ter uma versão diferente nos Estados Unidos, na Inglaterra. Em 1966, os Beatles também lançaram os seus últimos EPs (extended players - compactos com quatro músicas). Após dez lançamentos em EPs, desde 1963, em março foi lançado o EP "Yesterday" com "Act Naturally", "You Like Me Tôo Much" e "It's Only Love". Em julho foi a vez de "Nowhere Man" com "Drive My Car", "Michelle" e "You Won't See Me".
· Paul teve um pequeno acidente de trânsito no primeiro semestre de 1966, mas sem consequencias graves. Não se sabe se inspirado nisto ou não, em doze outubro de 1969, Russ Gibbs, um locutor da WKNR-FM, de Detroit, nos Estados Unidos, começou a divulgar uma série de envidencias de que Paul teria morrido em 1966, em um acidente de carro, e substituido por um sosia. O boato conhecido como "Paul Is Dead", tomou tamanha proporção que Paul chegou a aparecer na capa da edição de sete de novembro de 1969, da revista americana "Life", em uma material intitulada "Paul continua entre nós" Em 2000, foi lançado o longa-metragem "Paul Is Dead", do alemão Hendrik Handloegten, sobre uma das maiores fofocas do século 20.
· Os Beatles realmente nunca mais se apresentaram ao vivo, comercialmente falando. Durante as filmagens de "Let It Be" eles tiveram várias idéias para um concerto, porém o que terminou acontecendo foi um show surpresa nos telhados da gravadora Apple, em Londres. O concerto durou 42 minutos e foi interrompido pela policia pois estava causando um grande engarrafamento nos arredores.
Por Sergio Farias
Provavelmente o ano de 1966, determinou o que os Beatles seriam até o seu final, em 1970. Durante o ano, o mundo que nunca mais foi o mesmo depois deles, seguiu sua revolução dos anos 60: Pela primeira vez em 400 anos, anglicanos foram recebidos pelo Papa em Roma; o reverendo Martin Luther King liderou uma marcha pelos direitos civis, nos Estados Unidos, enquanto a força aérea americana bombardeou Hanói, capital do Vietnam do Norte. No outro lado do mundo a ciência avançou com a chegada da espaçonave soviética a Vênus, a primeira nave terrestre a chegar a outro planeta, mas na China, o governo proclamou a "Revolução Cultural", promovendo expurgos e perseguindo intelectuais. Toda essa efervescência não foi menor no universo particular de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr há 40 anos.
Rubber Soul
Um prelúdio de 1966 foi o último mês do ano anterior, quando em três de dezembro, os Beatles lançaram o álbum "Rubber Soul" e o single "Day Tripper"/"We Can Work It Out". Ambos já apresentavam mudanças na concepção musical do grupo. "Rubber Soul" tinha letras e melodias mais elaboradas, além dos Beatles também terem contribuído, pela primeira vez, para a arte da capa do disco. O single com dois lados A, trouxe uma música com alusão as drogas como "Day Tripper". Estes lançamentos repetiram o colossal sucesso que o grupo vinha mantendo desde 1963, indo aos primeiros lugares nos Estados Unidos e Inglaterra e vendendo, segundo estimativas, cinco milhões do álbum e quatro milhões do compacto.
No mesmo dia dos lançamentos fonográficos, os Beatles começaram uma turnê pela Grã Bretanha, em Glasgow, na Escócia, que seguiu até o dia doze, passando por nove cidades. Em um desses concertos, em Manchester, eles foram visitados pelo produtor de seus filmes, Walter Shenson, onde discutiram sobre o terceiro longa-metragem do grupo para 1966, cuja idéia inicial foi um roteiro de "A Talent For Loving" de Richard Condon, já comprado pelo empresário Brain Epstein..
Longas férias
Nos três primeiros meses de 1966, os Beatles, após desistirem da idéia de lançar um novo filme, foram curtir suas férias, que desta vez seriam maiores que de costume. Eles se divertiram em festas com os Rolling Stones Micky Jagger e Brain Jones, o músico Steve Winwood, os americanos P.J. Proby e a banda Herb Alpert & The Tijuana Brass. Além de comparecerem a estréia do filme "Alfie", estrelado pela atriz Jane Asher, namorada de Paul. Eles também foram platéia para artistas em excursão pela Inglaterra, como os americanos(1 a) Stevie Wonder, Roy Orbison, The Lovin'Spoonful e Bob Dylan, o músico indiano Ravi Shankar e o compositor italiano, pioneiro em musica eletrônica, Luciano Berio. Entre uma festa e outra eles viajavam para fins de semana no Caribe e na Suíça, o que acabou gerando a falta de John e Ringo no casamento de George, em 21 de janeiro, com a modelo Patricia Anne Boyd. George e Pattie embarcaram, em seguida, para uma lua de mel em Barbados, nas Bahamas.Os jovens milionários também fizeram investimentos, que determinaram suas vidas por um longo período. John instalou um estúdio caseiro em sua mansão em Kenwood (2), onde passou os próximos meses fazendo uma série de experiências sonoras. George adquiriu um possante Ferrari (3), apurando seu gosto pela velocidade. Paul, finalmente, se mudou para sua casa em St. John's Wood (4), após meses de reforma, saindo da casa dos pais de Jane. Também comprou, em Kintyre (5), na Escócia, uma fazenda. Ringo investiu seu dinheiro em uma empresa de decoração e arquitetura chamada Brickley Building Company Ltd (6).
Enquanto isso, as notícias no império Beatle não poderiam ser melhores: Já no começo do ano, o grupo The Overlads, levou ao primeiro lugar na Inglaterra, uma interpretação da canção "Michelle"(do álbum "Rubber Soul"); Os Beatles obtiveram, naquele ano, dez indicações ao Grammy; o documentário "The Music of Lennon & McCartney" foi exibido no prestigiado Festival de Montreaux; John e Paul receberam encomendas de composições para os artistas da gravadora americana Motown e para o cantor Tony Benett; As músicas dos Beatles começaram a penetrar, com força, nas rádios da Polônia, apesar das restrições do regime político daquele país; O jornal inglês "The Sunday Times", em sua edição de 27 de março, anunciou que os Beatles haviam vendido, até então, a impressionante cifra de 159 milhões de discos em todo o mundo. Tal número foi somado ao novo single "Nowhere Man", lançado nos Estados Unidos, que rapidamente vendeu um milhão de cópias; A BBC1-TV transmitiu o antológico concerto dos Beatles no Shea Stadium, em Nova York, durante a turnê americana de 1965.
A capa do açougue
Aos poucos voltando ao trabalho, os Beatles tiveram seus primeiros compromissos oficiais com a imprensa no ano. Em março, eles concederam uma entrevista a jornalista Maureen Cleave, do jornal "London Evening Standart". John, que sempre destilou seu senso de humor com os repórteres, naquela entrevista, por estar diante da amiga jornalista, baixou a guarda e foi mais crítico ao declarar: "O cristianismo vai acabar. Vai se dissipar e depois sucumbir. Nem preciso discutir isso. Estou certo, e o tempo vai provar. Atualmente somos mais populares que Jesus Cristos" A declaração não causou polêmica na Inglaterra.
Depois os Beatles posaram para uma sessão com o fotografo Bob Whitaker, que muito influenciado por Salvador Dali, produziu fotos com matizes surrealistas como uma em que os Beatles estavam com jalecos brancos segurando bonecas despedaçadas junto a pedaços de carne. Uma das fotos foi escolhidas para figurar a capa do próximo álbum "Yesterday...and Today", só editado nos Estados Unidos, que ficou conhecido como a "capa do açougue".
O assessor de imprensa dos Beatles, Tony Barrow continuou seu trabalho e organizou em um estúdio em Chelsea, ao sudeste de Londres, mais sessões de fotos e entrevistas com jornalistas da Inglaterra, Índia, Canadá e do Brasil, com o conceituado Janos Lengyel. Húngaro, naturalizado brasileiro, Janos fez a primeira reportagem brasileira exclusiva com os Beatles para a antiga revista "Fatos e Fotos". Em sua entrevista Janos perguntou a John se o grupo não temia a concorrência. Ele respondeu: "Não, porque a gente faz o melhor que pode e todos têm o direito de querer aparecer. Nós tivemos nossa oportunidade e soubemos aproveita-la. Por que outros não hão de fazer o mesmo?"
Mas parecia que ninguém fazia como os Beatles. George em uma entrevista falou: "Nós nunca ensaiamos nada, não como os outros grupos". Mesmo em um cenário muito fértil na música pop dos anos 60, eles continuavam a ser o máximo. E enquanto iniciavam as gravações do novo álbum, os Beatles fizeram o que seria seu último concerto na Inglaterra, em primeiro de maio, no NME Poll Winners, onde receberam os três principais prêmios do New Musical Express. Os Beatles fecharam a noite no Wembley Stadium, após apresentações do Herman's Hermits, The Rolling Stones, The Who, The Yardbirds entre outros.
Os Beatles, em quatorze de junho, fizeram, sua única e última, apresentação ao vivo no programa de TV inglês "Top of The Pops". Porém não mais dispostos a fazer aparições em programas de televisão, o grupo inovou ao contratar o diretor Michael Lindsay-Hoog(7) para filmar, em cores, dois filmes promocionais para o novo single "Paperback Writer"/"Rain", enviando depois os video-clipes para as estações de TV mundo afora. Lançado em 30 de maio, o single "Paperback Writer" foi ao primeiro lugar em treze paises! O primeiro produto Beatle de 1966, tinha um complexo arranjo vocal e instrumental em "Paperback Writer" e uma letra de estrutura psicodélica em "Rain"(8). Em seguida, foi lançado, somente Estados Unidos, o álbum "Yesterday...and Today", que ficou cinco semanas em primeiro lugar e vendeu um milhão e meio de discos.
O álbum foi mais um lançamento da gravadora Capitol, apenas para o mercado norte-americano, que de 1964 a 1966, transformou os sete álbuns oficiais da banda em onze (contando com "A Hard Day's Night" lançado pela United Artists, na América). "Yesterday...and Today" abarcou os recentes singles, algumas canções dos originais "Help!", "Rubber Soul" e do ainda do inédito "Revolver". O disco que foi lançado com a "capa do açougue" gerou muita polêmica nos Estados Unidos, pois muitos alegaram mau gosto ou atribuíram a foto a uma mensagem cifrada contra a Guerra do Vietnam ou uma crítica ao desmembramento dos álbuns originais dos Beatles na América. A Capitol teve que, em regime de urgência, recolher os discos e substituir as 750 mil capas já prensadas, o que causou prejuízos a gravadora. Hoje as poucas cópias originais de "Yesterday...and Today" são muito disputadas por colecionadores.
A turnê mundial
Após os problemas com a capa do disco americano, Os Beatles iniciaram sua turnê mundial de 1966 por cinco países (Alemanha, Japão, Filipinas, Estados Unidos e Canadá) . Seu repertório foi: "Rock'n'Roll Music", "She's a Woman", 'If I Needed Someone", "Day Tripper", "Baby's In Black", "I Feel Fine", "Yesterday", "I Wanna Be Your Man", "Nowhere Man", "Paperback Writer" e "I'm Down"(as vezes substituída por "Long Tall Sally").
Em 24 de junho, na Alemanha, eles fizeram um concerto, no Circus-Krone-Bau, em Munique, aberto pela dupla Peter & Gordon. O show foi filmado pela TV alemã ZDF. Na manhã seguinte, os Beatles seguiram a bordo do "Trem Real" (usado antes somente pela Rainha da Inglaterra) para a cidade de Elsen, onde fizeram dois concertos. Em 26 de junho, eles chegaram a Hamburgo, cidade em que eles se aperfeiçoaram como profissionais, no início da década, e desde então não haviam mais voltado. Além dos dois concertos no Ernst Merck Halle, esta foi uma estada sentimental. Após os shows, eles voltaram ao bairro boêmio de Reeperbahn, e reencontraram antigos amigos como Bert Kaempfert, o produtor de seu primeiro disco, quando eles eram apenas uma banda de apoio para o cantor Tony Sheridan. Ainda em Hamburgo, John visitou a amiga fotografa Astrid Kircherr, que lhe entregou várias cartas do ex-noivo Stuart Sutcliffe (9), amigo de John e integrante dos Beatles, falecido em 1962.
Após a turnê alemã, os Beatles voltaram a Londres para logo embarcarem no vôo inaugural da Japanese Airlines para Tóquio, dando continuidade a turnê mundial do grupo. Em virtude do mau tempo, o avião pousou em Anchorage, no Alaska, onde eles passaram a noite. No Alaska, os Beatles ficaram hospedados no hotel "Top of The World", de onde um DJ local fez com eles um rápido city tour. No dia seguinte eles chegaram no Aeroporto Haneda, e seguiram para o Tokyo Hilton, onde ocuparam a Suíte Presidencial. Um forte esquema de segurança, feito pelo exercito japonês com 30 mil homens, foi posto de prontidão, em virtude dos protestos da extrema direita nipônica, contraria aos concertos dos Beatles no Nippon Budokan Hall. Eles alegavam ser um sacrilégio, uma banda de rock'n'roll tocar em um lugar destinado as artes marciais. Apesar disso, os dois concertos dos Beatles foram um grande sucesso, transmitido pela TV japonesa, em cores. O grupo rumou, via Hong Kong, para as Filipinas.
Na capital Manilha, 50 mil fãs se aglomeravam no aeroporto. Os Beatles sempre recebendo tratamento digno de chefes de estado onde quer que fossem, estranharam a recepção nas Filipinas, que estava sob a ditadura de Ferdinando Marcos. O grupo foi conduzido para fora do avião pela rude policia militar filipina e separados de seu empresário Brain Epstein. A polícia apreendeu a bagagem do grupo, que continha maconha, o que provocou problemas com as autoridades locais. Os Beatles foram mantidos sob custódia da polícia, fortemente armada, em um barco na Baia de Manilha. De lá, dois batalhões militares os conduziram para um navio da marinha, e depois foram levados para uma festa no iate particular do milionário filipino Don Manolo Elizalde, onde foram exibidos para amigos do "anfitrião". Somente às quatro horas da manhã, Brain Epstein obteve controle da situação e finalmente os levou para o Hotel Manila.
No dia seguinte, os Beatles exaustos por terem ido dormir muito tarde, deram dois concertos no Rizal Memorial Football Stadium, superlotado. Após os shows, a primeira-dama Imelda Marcos, tinha organizado uma recepção no Palácio Malacanang, para 300 filhos de oficiais de alta patente do exercito filipino, para apresenta-los ao grupo. Brain Epstein e os Beatles não sabiam nada a respeito da cerimônia, e após os concertos voltaram ao hotel para descansar e se recusaram a participar de qualquer compromisso social. O não comparecimento dos Beatles a recepção no palácio presidencial foi considerado uma falta grave com perigosas conseqüências.
Na manhã seguinte as manchetes dos jornais filipinos estampavam que os Beatles esnobaram a Madame Marcos, e em conseqüência o grupo e sua entourage foram levados as pressas para o aeroporto, onde foram rivalizados no caminho por populares, agredidos pelos militares e tiveram toda a renda do concerto confiscada pelas autoridades filipinas, além de suas bagagens terem ido parar na Suécia!. O grupo, naturalmente, saiu com uma péssima impressão do país, e o incidente ganhou repercussão internacional, tanto que o grupo britânico Freddie & The Dreamers, cancelou imediatamente os concertos que fariam nas Filipinas, em protesto ao tratamento que os Beatles receberam lá. De Manilha, o vôo 862, da KLM, levou os Beatles para Nova Deli, na Índia, onde o grupo esperava ter três dias de paz e descanso. Porém já no aeroporto 600 fãs o aguardavam histericamente.
Anos depois, sobre o incidente nas Filipinas, Paul declarou: "Quando soubemos quem era Marcos e o que ele e Imelda andavam fazendo ao seu povo e a farsa que era tudo aquilo. Ficamos contentes por não termos comparecido aquela recepção. Fomos as únicas pessoas que se atreveram a desconsiderar Marcos."
Somos mais populares que Jesus Cristo
De volta a Inglaterra, um país eufórico pela conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1966, os Beatles voltavam a receber as boas novas como os três troféus Ivor Novello (premiação máxima da musica inglesa) para "We Can Work It Out" e "Help!" como o primeiro e o segundo compacto mais vendido na Inglaterra em 1965, e por "Yesterday" a canção mais executada do ano. As canções de Lennon e McCartney, em 1966, continuavam a receber interpretações de diversos artistas como Connie Francis, Johnny Mathis, Bob Goldsboro, Cliff Richard, David McCallum, as duplas Jan and Dean e Peter and Gordon entre outros. Mas da América as noticias eram preocupantes. A revista "Datebook" divulgou a entrevista que John Lennon concedeu a Maureen Cleave, destacando, fora do contexto a frase "Somos mais populares que Jesus".
A matéria provocou uma imediata reação de fundamentalistas cristãos. Um radialista, na cidade de Birmingham, (que fazia parte de uma região conhecida como o cinturão da Bíblia) no estado do Alabama, organizou um boicote a execução das músicas do Beatles, e um ato onde os discos do grupo foram queimados em uma grande fogueira. Logo trinta estações de rádio americanas se recusaram a tocar musicas dos Beatles. Na África do Sul (10), onde os Beatles haviam recentemente recusado uma oferta para um concerto, baniu as músicas do grupo de suas estações de rádio por cinco anos. Mesmo na Europa, onde as conseqüências foram bem menores, os Beatles foram criticados pelo governo fascista do General Francisco Franco, na Espanha e o Papa Paulo VI, declarou via o jornal do Vaticano "L'osservatore Romano": "Alguns assuntos não devem ser tratados de forma profana, mesmo no mundo dos beatniks"
Brain Epstein, apesar de estar saindo de uma febre muito alta, embarcou para os Estados Unidos, a fim de tentar contornar os problemas criados pela declaração de John. O grupo estava recebendo ameaças de morte, a Klu Klux Klam condenou os Beatles por blasfêmia e ameaçou fazer atos terroristas nos concertos da banda, em sua excursão americana que começaria no dia doze de agosto. Mal Evans, o roadie dos Beatles, achou que não iria sobreviver naquela turnê.
Revolver
Tudo aconteceu às vésperas do lançamento do álbum "Revolver"(11), considerado um dos melhores do grupo. Como os Beatles não chegaram a um acordo em relação seu ao terceiro longa-metragem, ao invés de filmar, eles passaram de abril a junho no estúdio Três, da EMI, em Abbey Road, nas sessões de gravação. Um tempo muito longo para época, mas que revelou os Beatles, no topo de sua criatividade. Com letras sofisticadas e um som experimental. "Revolver" foi o divisor de águas entre a fase de turnês e dos "anos de estúdio", e quebrou uma regra mercadológica que o grupo mantinha desde 1963, lançando dois álbuns e três singles por ano. Também marcou o fim das diferenças entre os álbuns lançados na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na capa do disco, pela primeira vez, não tinha uma foto do grupo e sim uma colagem, em preto e branco, de fotos entre desenhos dos rostos dos Beatles. O trabalho gráfico foi realizado pelo antigo amigo dos tempos de Hamburgo, o alemão Klaus Voormann.
O título "Revolver" nada tem a ver com armas e sim com o movimento do disco rodando, no caso o vinil, no prato do toca-disco. Foi o nome escolhido entre vários como: "Abracadabra", "Magic Circle", "Beatles on Safari", "Freewheelin'Beatles", "Bubble and Squeak", "Four Sides of Circle" e "After Geography". O álbum, produzido por George Martin e com a engenharia de som de Geoff Emerick, revelou as preferências individuais de cada Beatle e pela primeira vez, George tinha três canções em um álbum.
"Revolver" abre com a faixa 'Taxman", um grande sucesso radiofônico de George, que protesta contra os altos impostos cobrados pelo governo inglês. "Eleanor Rigby"(12) é uma crítica social sobre a solidão, com um som próximo da música clássica, com Paul no vocal, acompanhado de dois violinos, duas violas e dois violoncelos. Em "I'm Only Sleeping", temos uma interpretação propositalmente letárgica de John, com um solo de guitarra de traz para frente. A influência indiana sobre George é ouvida em "Love You To", que teve como convidado o músico indiano Amil Bhagwat, tocando tabla. A romântica balada "Here There and Everywhere" foi uma das favoritas de John, que segundo Paul foi inspirada no álbum "Pet Sounds" dos Beach Boys. Ringo foi o vocalista perfeito para a canção infantil "Yellow Submarine"(13), com muito efeitos sonoros.
Inspirado em uma conversa com o ator americano Peter Fonda, John compôs "She Said She Said" sobre uma "viagem" de LSD. "Good Day Sunshine" é uma homenagem ao som de Nova Orleans dos anos 30. Apesar de John, nunca ter apreciado "And Your Bird Can Sing" (14), esta é considerada, musicalmente, um dos pontos altos do disco. O ritmo dançante da canção anterior é contrabalançado pela suavidade melódica de "For No One", que traz um solo do corneteiro Alan Civil, da Filarmônica de Londres. O cinismo é a marca de "Doctor Robert", um pseudônimo para um "doutor" nova-iorquino que arranjava vários tipos de droga para as estrelas do rock. "I Want To Tell You", pela sua soberba harmonia, colocou George, no patamar dos grandes compositores. Paul revelou, anos depois, que "Got To Get Into My Life"(13), não foi composta para uma pessoa e sim, foi uma ode a maconha. Musicalmente, a canção foi uma influência da soul music americana, que traz um vigoroso arranjo de metais. E finalizando o disco, uma canção que sintetiza a fase em que os Beatles passavam: "Tomorrow Never Knows", inspirada no "O Livro Tibetano dos Mortos", a letra também faz referencias as primeiras experiências dos Beatles com o ácido lisérgico e seu arranjo é repleta de experimentalismos sonoros e traz George tocando uma citará indiana. O crítico de música americano Dick Summer afirmou: "O álbum 'Revolver' definiu uma era e a música pop"
Lançado em cinco de agosto, o álbum, que já tinha um milhão de pedidos antecipados só na Inglaterra, foi um grande sucesso de vendas e ficou sete semanas em primeiro lugar na Grã Bretanha e seis nos Estados Unidos, onde ficou 77 semanas nas paradas e vendeu dois milhões e meio de cópias. O single extraído do álbum foi "Yellow Submarine"/ "Eleanor Rigby", que atingiu o primeiro lugar em nove paises. Quatro canções do álbum, receberam rapidamente interpretações de artistas como Cilla Black ("For No One"), The Tremeloes ("Good Day Sunshine"), The Fourmost ("Here There and Everywhere"), Cliff Bennett & The Rebel Rousers ("Got To Get Into My Life", que foi ao Top 10 inglês), entre outros.
Candlestick Park
Uma semana após o lançamento de "Revolver", os Beatles inciaram sua turnê pela América do Norte. Ao chegarem nos Estados Unidos, quase toda a imprensa americana estava esperando por eles, em Chicago (15), para questiona-los sobre a frase "Somos mais populares que Jesus". John, que se recusou a pedir desculpas, fez então a seguinte declaração: "Se eu tivesse dito que a televisão é mais popular que Jesus, teria me safado. Disse Beatles como algo remoto, não que eu penso, mas os Beatles na maneira como as outras pessoas os vêem. Só disse que eles estão tendo mais influência sobre a juventude do que qualquer coisa, inclusive Jesus. Eu não estava criticando, apenas expondo um fato. E é verdade mais para a Inglaterra do que para aqui. Não estou nos comparando a Jesus Cristo como pessoa, ou Deus como uma coisa ou seja lá o que for. Eu disse o que disse e fui mal interpretado e agora virou tudo isso."
Apesar da controvérsia religiosa, os Beatles eram elevados ao grau de divindades. Durante aquela turnê americana, mães levavam seus filhos com deficiência física a fim que os Beatles os curassem!
Contudo a turnê dos Beatles pela América do Norte, em 1966, foi a mais lucrativa de todas. Eles fizeram dezessete concertos em quatorze cidades, abertos pelo cantor Bob Hebb e pelo trio vocal feminino The Ronettes(16). Entretanto foi também a excursão mais tumultuada de todas. As festas em que os Beatles foram recebidos em Los Angeles, com a presença de membros dos Mamas and The Papas, The Beach Boys e The Birds, após o grande concerto no Dodger Stadium para 45 mil pessoas (com o grupo The Monkees na platéia), contrastou com os vários incidentes que aconteceram em outras cidades. No Shea Stadium, em Nova York, após terem o primeiro encontro com uma jovem fotografa especializada em retratar roqueiros, Linda Eastman(17), milhares de fãs invadiram a arena quando os Beatles tocaram "Day Tripper", mas foram contidos pelos policiais. A Klu Klux Klam ameaçou sabotar o concerto dos Beatles, no Mid South Coliseum, em Memphis com atos terroristas, mas a intimidação se transformou em um protesto fora do estádio. Já em St. Louis, a natureza que assustou, quando durante um concerto para 23 mil pessoas, no Busch Stadium, uma forte chuva, molhou os amplificadores, e deixou os organizadores muito apreensivos devido a possibilidade dos Beatles serem eletrocutados. Em uma entrevista em Toronto, John, continuou a gerar polêmica ao encorajar os jovens americanos a pedirem asilo político no Canadá para evitar a convocação para a Guerra do Vietnam(18).
Ao fim de uma conturbada turnê, os Beatles, sem divulgarem o fato, decidiram que davam seu último concerto ao vivo para 25 mil pessoas no Candlestick Park, em São Francisco. Curiosamente, eles concluiram o concerto com a canção "Long Tall Sally", a mesma em que fechavam os antigos shows antes da fama.
De volta a Inglaterra, George comentou: "Não sou mais um Beatle" O desabafo de George captou o senso comum dos outros Beatles, exaustos física e mentalmente. Foram três anos consecutivos de turnês, gravações, aparições em rádio e televisão, dois longas-metragens, além do trabalho de compor as canções. Musicalmente, nos concertos, a histeria era tão grande que eles não podiam ouvir o que estavam tocando, e, segundo os próprios, eles estavam se transformando em músicos ruins. Sobre o fim das turnês, George Martin, declarou: "Eles não estavam perdendo a criatividade musical. Pelo Contrario, estavam ficando cada vez mais produtivos. O trabalho que me apresentavam era cada vez mais interessante. Estavam descobrindo novas fronteiras o tempo todo. Mas em virtude da grande histeria, estavam tocando mal."
O cansaço, a grande histeria e os tumultuados acontecimentos daquela turnê, fizeram com que os Beatles, após cerca de 460 concertos por dezenove países, desde outubro de 1962, no auge de sua popularidade, parassem de se apresentar ao vivo, apesar das inúmeras propostas que eles continuaram a receber de todo o mundo.
Strawberry Fields Forever
Ao retornarem a Londres, onde centenas de fãs os aguardavam no aeroporto, os Beatles "se separaram" pela primeira vez. Certamente eles continuariam a gravar, mas o que fazer sem as turnês? Gradualmente eles foram tomando diferentes direções. John cortou seus cabelos e passou a adotar uns óculos redondos(19) para atuar como o recruta Gripweed no filme "How I Won The War"(20), comédia antibelicosa sobre a Segunda Guerra Mundial, dirigida por Richard Lester e co-estrelada pelo ator Michael Crawford. John levou a esposa Cynthia e o filho Julian para as filmagens entre a Alemanha e a Espanha. George e Pattie foram para Índia(21), em uma temporada de quarenta dias. George não apenas estava se interessando pela musica indiana, mas também pela meditação transcendental. Ringo, que era o mais caseiro dos quatro, apesar de ter recebido uma proposta para um pequeno papel no próximo filme da série de James Bond "You Only Live Twice"(22), preferiu ficar em casa com a esposa Maureen e o filho Zak. A familia Ringo, somente saiu para visitar John, em seu set de filmagem, em Almeria, na Espanha onde permaneceram em uma palaciana casa de campo alugada para John. Paul, após passar um fim de semana em Paris com John (que estava de folga das filmagens), compôs a trilha sonora para o filme "The Family Way", e depois embarcou para o Quênia, na África, para um safári com sua noiva Jane.Em novembro, os quatro Beatles estavam de volta às terras inglesas e sem mais os concertos, estavam a badalar pela "Swinging London", voltando a freqüentar os concertos de músicos americanos como Ben E. King(1b), The Four Tops e The Young Rascals. Foi também durante estes eventos que John conheceu a artista plástica japonesa Yoko Ono(23), em uma exposição chamada "Unfinished Paintings and Objects", na galeria Indica, em Londres.
O retorno às gravações do novo álbum começou em 24 de novembro, nos mesmos estúdios de Abbey Road, com o produtor George Martin e o engenheiro Geoff Emerick. A primeira concepção para o novo disco, foi tida por Paul, no vôo de volta da África. Era o primórdio do que seria o antológico álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"(24), onde o grupo assumiria seus alter egos em uma banda imaginária. Durante essas sessões os Beatles começaram a trabalhar nas novas composições "Strawberry Fields Forever", "When I'm Sixty-Four" e "Penny Lane". Eram canções sobre o passado em Liverpool e eram diferentes de tudo que eles vinham fazendo. Letras como "Living is easy with eyes closed" ("Viver é fácil com os olhos fechados"), em "Strawbery Fields Forever", uma leitura psicodélica da infância de John, contrastava com o realismo de "Penny Lane" ("Penny Lane tem um barbeiro exibindo suas fotografias"), sobre a meninice de Paul em sua cidade natal. "When I'm Sixty-Four", mostrava uma outra face dos Beatles, não psicodélica, e sim uma sátira carinhosa sobre a velhice. Os instrumentos usados pelos Beatles, já desde o álbum "Rubber Soul", vinham se ampliando da clássica formação de duas guitarras, baixo e bateria. Naquele momento o experimentalismo musical do grupo entrava em sua fase áurea. Para aquelas sessões de gravação, John trouxe um mellotron e um cravo, Ringo passou a usar a percussão, George adicionou instrumentos indianos e Paul se diversificou entre o bongo, tímpano, flauta e piano. George Martin sugeriu a inclusão de trompetes, clarinetas e violoncelos. O próximo álbum, que ali estava nascendo, prometia mudanças ainda mais radicais.
Enquanto iniciavam a fase que se chamaria "the studio years", pela primeira vez, não havia um lançamento inédito dos Beatles para o natal, além do flexi-disc "Pantomine: Everywhere It's Christmas", com suas mensagens de fim de ano, e que foi enviado somente para os membros do fã clube oficial da banda. Para preencher esta lacuna, a gravadora EMI, lançou a primeira coletânea de sucessos do grupo "A Collection of Beatles Oldies...But Goldies!", contendo todos os singles de sucesso do grupo de 1963 a 1966. Lançada na Inglaterra e no resto do mundo (menos nos Estados Unidos), o disco atingiu rapidamente o Top 10 britânico, e suas vendagens globais chegaram a um milhão de cópias, acompanhando as vendas natalinas. Para os fãs ingleses, além de algumas remixagens em estéreo, a coletânea apresentou a faixa inédita "Bad Boy", uma obscura composição do roqueiro dos anos 50, Larry Williams, regravada pelos Beatles, em dez de maio de 1965, especialmente para o mercado norte-americano (constando no álbum "Beatles VI", lançado em junho de 1965).
Feliz 67
Os Beatles continuavam juntos, não obstante os rumores de uma separação do grupo ocasionados pelo fim das turnês. Mas os quatro músicos estavam cultivando seus próprios interesses. Ringo recebeu a alegre noticia que sua esposa Maureen estava grávida de seu segundo bebê(25), e foi para Liverpool passar o natal com seus familiares. George, trajando roupas indianas, recepcionou Ravi Shankar (que trajava um terno ocidental!) em sua chegada a Londres e hospedou em sua casa em Esher, o cantor Donovan. Paul compareceu a premiere do longa-metragem "The Family Way", estrelado pela atriz inglesa Hayley Mills. A trilha sonora composta por ele e executada pela orquestra de George Martin (26), derivou o single "Love in The Open Air"(27), lançado simultaneamente ao filme (o álbum com a trilha sonora só chegaria as lojas em junho de 1967).
Paul também apareceu como produtor de uma banda de Liverpool, chamada The Escounts, no single "From Head to Toe". John, por sua vez, foi convidado especial no programa da BBC TV "Not Only...But Also"ao lado dos comediantes Peter Cook e Dudley Moore. John também se encontrou com a artista plástica Yoko Ono, pela segunda vez, na abertura de uma exposição. Percebendo o interesse de John pelo seu trabalho, Yoko o presenteou com uma cópia de seu livro "Grapfruit"(28), sobre arte conceitual. O tumultuado ano que chegava ao fim percebeu os Beatles completamente mudados. Eles haviam abolidos os ternos e passaram a trajar roupas coloridas, óculos não convencionais, longas costeletas, cabelos mais compridos e bigodes.
Em 31 de dezembro de 1966, George, Pattie, Brain Epstein(29) e Eric Clapton(30), foram barrados na porta da boate Annabel, em Londres, pois George estava sem gravata. O porteiro da boate chegou a lhe oferecer uma, mas ele recusou o favor e todos foram passar o reveillon no não tão requintado restaurante Lyon's Corner House, em Conventry Street. Sinal os tempos?!
Notas:
O ano de 1966 parece que marcou a vida dos quatro Beatles por muito tempo. Abaixo algumas evidências:· (1 a) e (1 b) Os concertos dos artistas em turnê pela Inglaterra, em 1966, vistos pelos Beatles, inspiraram suas carreiras solo, anos depois: Ravi Shankar passou a acompanhar George em quase toda sua carreira solo. Em 1971, Ravi tocou no "Concert for Bangladesh". George produziu, respectivamente, em 1974 e 1997, os álbuns de Ravi Shankar "Shankar Family and Frinds" e "Chants Of India". Stevie Wonder participou do concerto "One To One" de John Lennon, em 1972, no Madison Square Garden, em Nova York. Em 1982, Stevie fez dueto com Paul McCartney no hit single "Ebony and Ivory". Paul também tocou no álbum "Time To Love", de Stevie Wonder, em 2005. A turnê inglesa de Bob Dylan em 1966, foi filmada para o documentário "Eat The Document", de DA Pennebaker com a participação de John Lennon. Bob Dylan compôs com George a canção "I'd Have You Anytime" para o álbum "All Things Must Pass". George se juntou a Roy Orbison, Bob Dylan, Tom Petty e Jeff Lynne e formaram o supergrupo Traveling Wilburrys, em 1988. Ben E. King foi o compositor de "Stand By Me", um grande sucesso de John, em 1975.
· (2) O estúdio caseiro que John construiu em sua casa em Kenwood foi gravado, em 1968, o álbum "Unfinished Music No. 1: Two Virgins", o primeiro disco de John e Yoko, repleto de experiências sonoras.
· (3) O possante Ferrari verde que George Harrison comprou em 1966, pode ter sido o início de seu gosto pela velocidade, que o fez ser um fã de Formula Um, a partir dos anos 70.
· (4) e (5) As propriedades que Paul McCartney adquiriu continuam com ele até hoje. Este ano um tablóide inglês divulgou que Paul possui 32 milhões de libras em imóveis. Sua casa em S. John's Wood, em Londres esta avaliada em 5 milhões de libras. A fazenda na Escócia, em Mull of Kintyre inspirou o grande sucesso homônimo dos Wings, em 1977.
· (6) O investimento de Ringo Starr na Brickley Building Company Ltd, uma empresa de arquitetura e decoração, evoluiu, em 1970, com a criação, em Londres da Ringo or Robin Ltd. Fundada em parceria com o designer Robin Cruikshank, a firma se especializou em criar design de movéis sofisticados. A Ringo or Robin Ltd., teve Elton John como um de seus clientes. A dupla abriu uma filial em Los Angeles em 1974, até fechar dois anos depois
· (7) O diretor Michael Lindsay-Hoog , que dirigiu os video-clipes de "Paperback Writer" e "Rain", dirigiu o último longa-metragem dos Beatles, o documentário "Let It Be". Michael também dirigiu o vídeo-clipe de "Mull of Kintyre" dos Wings, em 1977.
· (8) Em 1976, o cantor Todd Rundgreen gravou uma interpretação de "Rain"
· (9) Stuart Sutcliffe foi um grande amigo de John desde 1956, quando eram colegas em uma escola de arte em Liverpool. Em 1959, ele entrou para a banda de John, um ano depois batizada como The Beatles. Stuart foi o baixista dos Beatles, durante toda a estada do grupo, em Hamburgo, na Alemanha, onde eles tocavam horas a fio em boates baratas. Em 1961, ele saiu do grupo para se dedicar a pintura e se casou com a fotografa alemã Astrid Kircherr. Em 1962, Stuart Sutcliffe morreu vítima de um edema cerebral, aos 22 anos. Hoje seus quadros são expostos em exposições pelo mundo.
· (9) O regime da apartheid da África do Sul proibiu a execução das musicas dos Beatles, por cinco anos devido a declaração de John "Somos mais populares que Jesus". Após o fim da proibição em 1971, a The South Africa Broadcasting Company, liberou as canções dos Beatles e os trabalhos solo de Paul, George e Ringo, mas manteve o veto a John Lennon.
· (10) O álbum "Revolver" recebeu seis indicações ao Grammy, incluindo a de "Álbum do Ano", perdendo para "Sinatra: A Man and His Music" de Frank Sinatra. Mas venceu nas categorias "Melhor Performance Vocal Contemporânea" para Paul McCartney em "Eleanor Rigby" e "Melhor Capa de Disco" para Klaus Voormann. Na mesma cerimônia a dupla Lennon e McCartney recebeu um Grammy para "Musica do Ano" por "Michelle"(do álbum "Rubber Soul")
· (11) "Eleanor Rigby" se tornou uma das canções mais interpretadas da dupla Lennon e McCartney. Entre as mais notórias estão as de Ray Charles e Aretha Franklin.
· (12) "Yellow Bubmarine", outra canção do álbum "Revolver", inspirou um longa-metragem em desenho animado. Com o fim das turnês, no final de 1966, Brain Epstein voltou com a idéia de um terceiro filme em desenho animado, para não ocupar muito os Beatles, pois todos estavam viajando. Porém a idéia foi recusada pela United Artists. A concepção do filme só foi aprovada em 1967, e "Yellow Submarine" foi lançado em julho de1968. O filme foi a segunda maior bilheteria em desenhos-animados nos Estados Unidos em 1969, e recebeu uma menção especial no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça.
· (13) Em 1976, dez anos após o lançamento de "Revolver", foi lançado nos Estados Unidos o single "Got To Get Into My Life" que foi ao Top 10 das paradas de sucesso da revista Billboard. O compacto foi uma promoção para coletânea dos Beatles "Rock'n'Roll Music", que também foi um grande sucesso.
· (14) A canção "And Your Bird Can Sing" pasou a abrir a terceira temporada da série de TV, "The Beatles", em desenho animado, dos Beatles, na ABC - TV, em 1967.
· (15) Pode se dizer que o primeiro "disco solo" de John Lennon foi "I Appologize", um vinil lançado e distribuído pelo correio, produzido pela Sterling Productions. O disco trouxe, na íntegra, a coletiva para imprensa de John, sobre sua frase "somos mais populares que Jesus", em Chicago, em onze de agosto de 1966.
· (16) O grupo vocal feminino The Ronettes, que abriu os concertos dos Beatles, em sua última turnê pelos Estados Unidos em 1966, tinha como produtor o lendário Phil Spector, que produziu "Let It Be", o último álbum dos Beatles, em 1970, e trabalhou nos primeiros álbuns solo de John e George, nos início dos anos 70.
· (17) A jovem fotografa Linda Eastman, que teve o primeiro encontro oficial com os Beatles, nos bastidores do concerto no Shea Stadium, em Nova York, se casou com Paul McCartney, em 1969. Eles tiveram três filhos e ficaram juntos até a morte de Linda, vítima de câncer, em 1998.
· (18) e (20) Os primeiros comentários de John Lennon sobre a Guerra do Vietnam durante a excursão americana de 1966, e sua participação no filme "How I Won The War" foram crescendo até desencadear em uma campanha mundial pela paz "War Is Over - If You Want ", iniciada em 1969 e que identificou John como um pacifista até hoje.
· (19) Os óculos de aros redondos que John usou para as filmagens de "How I Won The War", fizeram ele abandonar as lentes de contato e adota-lo em sua vida cotidiana. Os óculos redondos e se tornaram uma característica sua e ditou moda nos anos posteriores.
· (21) A viagem que George fez a Índia por 40 dias no final de 1966, onde estudou meditação transcendental, converteu George a ser um adepto da seita Hare Krishna, e fez com que George popularizasse a cultura indiana no mundo ocidental.
· (22) O convite que Ringo recusou para um pequeno papel em um filme da série James Bond, pode ter estimulado seu gosto pela sétima arte. Em 1968, ele fez uma participação ao lado de Marlon Brando no filme "Candy" de Christian Marquand, e até 1986, Ringo fez mais onze longas-metragens para o cinema e dois tele-filmes.
· (23) John, se divorciou de Cynthia e se casou com Yoko Ono, em 1969. A exceção de um período de dezoito meses, entre 1973 e 1975, eles ficaram juntos até a morte de John em oito de dezembro de 1980.
· (24) O álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que eles começaram a gravar em novembro de 1966, foi lançado em primeiro de junho de 1967, e é considerado o mais influênte álbum da história da música pop até hoje.O álbum recebeu quatro prêmios Grammy nas categorias "Álbum do Ano", "Melhor Álbum Contemporâneo", "Melhor Engenharia de Som", "Melhor Capa", além de mais três indicações. "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" vendeu, até hoje, mais de quinze milhões e cópias e ficou 27 semanas em primeiro lugar na Inglaterra e 15 nos Estados Unidos, onde permaneceu 168 semanas nas paradas de sucesso.
· (25) Jason Starkey, o Segundo filho de Ringo e Maurren, nasceu em dezenove de agosto de 1967.
· (26) Em 28 de novembro de 1966, foi lançado o álbum "The Beatles Girls", com várias versões instrumentais das músicas dos Beatles, com a George Martin and his Orchestra.
· (27) A canção "Love in The Open Air" tema do filme "The Family Way", composta por Paul McCartney recebeu um prêmio Ivor Novello na categoria "Melhor Tema Instrumental"
· (28) O livro "Grapefruit", que Yoko Ono presenteou John após seu segundo encontro, em 1966, foi uma das sugestões de John para batizar a gravadora Apple em 1968. O casal voltou a divulgar o livro em 1971.
· (29) O empresário dos Beatles, Brain Epstein, foi encontrado morto em sua casa em Londres, vítima de uma overdose, em 27 de agosto de 1967, enquanto os Beatles, estavam em uma conferencia com o Maharishi, em Bangor, no Pais de Gales. Alguns afirmaram que Brain pouco teve tinha a fazer com o grupo após o fim das turnês. Em vinte e três dias ele completaria 33 anos.
· (30) Eric Clapton acompanhou George Harrison em vários momentos de sua vida. Ele tocou no "Concerts For Bangladesh"(1971), no álbum "Cloud Nine"(1987) e na turnê de George pelo Japão, em 1991. Ele se casou com a ex-mulher de George, Pattie, em 1979. Eric Clapton foi o organizador de "Concert For George", em 2002.
Extras
· Canções lançadas em 1966 como "Eleanor Rigby", "Here There and Everywhere", "Paperback Writer", "I Want to Tell You", "Taxman" e "Yellow Submarine" compuseram o repertório de concertos solo de Paul, George e Ringo, a partir dos anos 90.· "Revolver" foi último álbum a ter uma versão diferente nos Estados Unidos, na Inglaterra. Em 1966, os Beatles também lançaram os seus últimos EPs (extended players - compactos com quatro músicas). Após dez lançamentos em EPs, desde 1963, em março foi lançado o EP "Yesterday" com "Act Naturally", "You Like Me Tôo Much" e "It's Only Love". Em julho foi a vez de "Nowhere Man" com "Drive My Car", "Michelle" e "You Won't See Me".
· Paul teve um pequeno acidente de trânsito no primeiro semestre de 1966, mas sem consequencias graves. Não se sabe se inspirado nisto ou não, em doze outubro de 1969, Russ Gibbs, um locutor da WKNR-FM, de Detroit, nos Estados Unidos, começou a divulgar uma série de envidencias de que Paul teria morrido em 1966, em um acidente de carro, e substituido por um sosia. O boato conhecido como "Paul Is Dead", tomou tamanha proporção que Paul chegou a aparecer na capa da edição de sete de novembro de 1969, da revista americana "Life", em uma material intitulada "Paul continua entre nós" Em 2000, foi lançado o longa-metragem "Paul Is Dead", do alemão Hendrik Handloegten, sobre uma das maiores fofocas do século 20.
· Os Beatles realmente nunca mais se apresentaram ao vivo, comercialmente falando. Durante as filmagens de "Let It Be" eles tiveram várias idéias para um concerto, porém o que terminou acontecendo foi um show surpresa nos telhados da gravadora Apple, em Londres. O concerto durou 42 minutos e foi interrompido pela policia pois estava causando um grande engarrafamento nos arredores.
Por Sergio Farias
Biografia: Alfred Lennon, pai de John Lennon
Muito se fala sobre o pai que John não teve - ele mesmo, em sua canção "Mother", exprime toda a sua dor ao falar de seus pais. Pouco se sabe da vida do pai de John, Alfred Lennon, e eu tentei trazer pra vocês algumas informações. Espero que gostem.
Alfred Lennon, pai de John, nasceu no dia 14 de dezembro de 1912 em Liverpool. Quando seu pai Jack morreu, em 1921, ele tinha 9 anos de idade e foi para a Bluecoat School, uma escola para órfãos.
Alfred ficou na escola até os 15 anos e então ele conseguiu seu 1º emprego como auxiliar de escritório. Foi durante esse período, em 1927, que ele conheceu Julia Stanley, uma garota de apenas 14 anos, no Sefton Park. Ele a abordou e a chamou para sentar-se ao seu lado, mas ela disse que só aceitaria se ele tirasse o chapéu ridículo que estava usando. Ele o fez, e os dois começaram um longo papo que virou um namoro de 10 anos. Nesse meio tempo, Alfred se tornou um marinheiro comerciante em suas viagens fora do país.
Em 1930, ele foi para o mar e se tornou garçom de um navio. Entre as viagens ele ficava na casa dos Stanley na New Castle Road, Wavertree, e ensinava Julia a tocar banjo.
Isso foi quando Julia finalmente sugeriu que eles poderiam se casar, e assim aconteceu no dia 3/12/1938, no Mount Pleasant Register Office. Ninguém da família de nenhum dos dois estava lá e depois da cerimônia o casal foi ao cinema Trocadero. Tarde daquela noite Julia voltou para sua casa em Wavertree e Freddie teria que partir no dia seguinte para uma viagem de 3 meses. Ele também estaria no mar em outubro de 1940, quando John nasceu.
Enquanto estava no mar, Fred se arranjava para mandar sempre uma soma em dinheiro para Julia. Nessa época ele era gerente, mas eram tempos de guerra e ele estava em Nova York. Foi chamado para a Grã-Betanha. Seria assistente na viagem e não gerente, o que o deixou muito magoado e desestimulado. Lamentou o fato com o capitão, que o aconselhou a beber um pouco pra tentar esquecer as mágoas. Foi o que fez. Então ele foi internado na Ellis Island até vir outro navio, que ia para o Norte da África. Lá, ele foi convidado a tomar umas doses de vodka numa festinha e, enquanto tomava, a polícia invadiu a cabine para investigar um contrabando de bebidas alcoólicas. Levaram Fred. Ele ficou preso durante 3 meses e seu dinheiro acabou. Não tinha como mandar dinheiro para Julia, então escreveu uma carta a ela sugerindo que ela deveria tentar se virar sozinha e encontrar outro homem. Ela lamentou a sugestão, mas foi o que fez.
Em 1945 ela deu à luz outra criança, mas um casal norueguês a adotou. Ela também passou a viver com John Dykins, deixando seu filho John com Mimi, na Menlove Avenue.
No verão de 1946, Fred ligou para Mimi e perguntou se ele poderia levar John a Blackpool. Mimi disse que não poderia recusar e Fred levou seu filho para ficar num flat com ele e um amigo em Blackpool.
Durante as poucas semanas que eles passaram juntos, Fred perguntou a John se ele desejava ir à Nova Zelândia com ele. A idéia de Fred veio quando seu amigo se mudou pra lá e via boas chances para trabalhar no mercado negro.
Julia chegou ao flat furiosa, dizendo que John deveria voltar com ela, mas Fred perguntou ao garoto se ele queria voltar com a mãe dele ou se queria ir para a Nova Zelãndia. John disse que queria ir com o pai. Julia deu meia volta e foi embora, mas (GRAÇAS A DEUS) o garotinho de 6 anos mudou de ideia e saiu correndo atrás da mãe, que o levou de volta para a casa de sua tia Mimi.
Em 1964, Fred finalmente decidiu abandonar a vida no mar e foi trabalhar como porteiro no Greyhound Hotel, Hampton, perto de Londres. O jornal Daily Express descobriu que ele era pai de John e queria promover um encontro entre ele e seu filho famoso.
Fred foi ao set de A Hard Day's Night, mas John não pôde recebê-lo, pedindo para que deixasse seu endereço para que ele pudesse escrever. John mandou uma carta para Greyhound com uma nota para "Querido Alf, Fred, pai, papai, ou o que seja", com 30 libras inclusas.
John passou a enviar regularmente 20 pounds por semana a Fred, que se mudou para um flat em Kew, tendo sua vida registrada em várias revistas e à mercê dos flashes. Ele também se encontrou com um empresário que quis gravar um disco seu, com uma canção chamada "That's My Life", que foi lançada como single em dezembro de 1965 pela Pye Records. No encarte, o seguinte texto:
"Freddie Lennon, 53 anos, pai de John, gravou o seu 1º disco. Foi intitulado 'That's My Life (My Love And My Home)'. Mr Lennon tinha sido um divertido 'entertainer' por grande parte de sua vida. Veio de uma família musical, pois seu pai era um dos Kentucky Ministrels, e ensinou-o a cantar quando era jovem.A maior parte da infância de Fred foi em um orfanato, e lá Freddie tocava na maioria dos concertos - tocando sua gaita para as outras crianças. Ele também cantou no teatro, mas as autoridades logo o tiraram de lá, por ser menor de idade, e os sonhos de Freddie logo se dissiparam.
Depois de deixar o orfanato, aos 15 anos, Freddie trabalhou num escritório, mas seu coração batia mais forte pelo mar, e ele fez a sua primeira viagem com 16 anos. Ele ficou no mar durante 25 anos e viajou por todo o mundo.
Freddie sempre estava ligado às atividades artísticas nos navios, atuando, produzindo inúmeros concertos, cantando em clubes novaiorquinos e até foi conduzido a uma orquestra em Londres. Ele tinha muitas histórias interessantes sobre suas aventuras no mar.
Com 25 anos, Freddie se casou, e seu filho John nasceu 3 anos depois. Foi seu único filho.
Quando ele deixou o mar, há 12 anos, Freddie foi trabalhando em vários lugares e chegou à Londres há 7 anos. Através dos anos, Freddie sempre foi interessado em composição, mas nunca levou isso a sério.
Há seis meses ele encontrou Tony Cartwright, que agora é o seu empresário, e juntos eles escreveram 'That's My Life (My Love And My Home)' - uma história sobre sua vida. A canção foi então gravada e lançada."
No final de 1967, Alfred e seu filho se reconciliaram. Na época Fred começou a namorar uma estudante de 19 anos, o que desagradava a todos. Com 56 anos, Fred tinha 3 vezes a sua idade. A família da garota era contra o relacionamento, mas eles foram para a Escócia e se carasaram lá. Foram viver em Brighton. Quando seu filho, David, nasceu, eles o levaram para John conhecer no Tittenhurst Park. John achou aquilo nojento e os expulsou, pois aquela situação lhe trazia amargas lembranças.
Anos mais tarde, quando fred estava morrendo, John conversou com ele pelo telefone em várias ocasiões, apesar de Fred mal poder falar. Quando Fred morreu, John se ofereceu para pagar seu funeral, o que foi rejeitado por sua então viúva, Pauline.
A música de Alfred Lennon
"That's My Life (My Love & My Home)", de Freddie Lennon, foi originalmente editado em 1965, pela Pye como single (7N 35290). Foi composto pelo próprio pai de Lennon e pelo seu "manager" Tony Cartwright e teve produção de John Schroeder, com a ajuda de Alan Tew.A canção tem sons de mar (Fred era marinheiro), a voz tem a característica típica de John e é mais falada do que cantada em tom "country". Conta a história da vida dele.
A canção já existe em CD, tendo sido editada em 1993 na dupla coletânea The Piccadilly Story pela Sequel Records (NED CD 240).
Entre outras preciosidades, esta colectânea inclui também "Tip Of My Tongue", de Tommy Quickly, que, como se sabe, é uma canção Lennon/McCartney.







































