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sábado, 29 de outubro de 2016

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (1967)


Em meados de 67, o chamado "Verão do Amor" estava prestes a acontecer, que iria desencadear uma série de festivais musicais ao redor do mundo. De 57 a 67, parecia que haviam passado muito mais que dez nos, pois se até aquele momento a ordem era aproveitar a vida ao máximo, já que a guerra não poderia ser evitada, e as letras ou eram ligeiramente sexuais ou bem puras, sem qualquer contexto político ou pacifista, com um arranjo eletrizante por trás. Ou melhor dizendo, de 64 a 67 a mesma geração já não pensava do mesmo jeito, pois embora ainda houvesse quem sonhasse com a volta dos Beatles à estrada, a grande maioria agora estava voltada para o conhecimento espiritual, ou engajado em manisfestações ou simplesmente curtindo a vida. E logicamente isto refletiu na música.

Quando os Beatles fizeram Rubber Soul, todos acharam que chegara o momento de investir em algo mais profundo, logo veio o Revolver e o fim das turnês. Vários grupos que apenas copiavam à sua maneira, os Fab, estavam agora adquirindo identidade própria, colocando guitarras distorcidas, como os Monkees, o Who e os Stones estavam apostando em linhas mais melódicas como "Ruby Tuesday" e "As Tears Go By", influenciados por "Yesterday", ao mesmo tempo que tocavam a pesada "Satisfaction", os Beach Boys haviam deixado a Surf Music e estava fazendo uma espécie de Surf psicodélico. Haviam ainda os Yarbirds, os Byrds, Mamas & The Papas, e inúmeros outros grupos ingleses e americanos.

Com tanta "concorrência" e sons novos no mercado, o fim das turnês, muita gente pensou que os Beatles já estariam ultrapassados depois de um sucesso de mais três anos. Não havia como alguém fazer sucesso sem apresentar sua música ao vivo, mesmo em meio à histeria, e quem comprava os discos eram os fãs que gritavam e lotavam os estádios e que sem eles a banda acabaria terminando.

Mas enquanto os rapazes estavam compondo e trabalhando no estúdio com a idéia de lançar um disco sobre suas infâncias, mas um lançamento seria necessário, afim de parar os boatos de separação que corria nas ruas, e decidiram por lançar o single "Penny Lane/Strawberry Fields Forever", sem qualquer citação sobre qual era o lado A e o B, o que caberia ao ouvinte. Mas ainda não havia sido suficiente para calar a boca da crítica. Vale lembrar que o rock ainda era tido como música de marginais (será que hoje finalmente ela não é?) e inferior até mesmo ao blues, e que um grupo popular jamais faria sucesso por tanto tempo, ou conseguiria amadurecer seu som, sem que ele soasse "chato". Mais os Beatles seriam pioneiros novamente.

Lado 1
Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band
Ruídos, afinação de instrumentos seguidos por uma guitarra abrem triunfantemente o disco e a faixa homônimos. Uma nova revolução provocada pelos FAB estava tendo início... Paul injeta seu baixo direto na mesa de gravação, sem usar um amplificador, abusando do timbre do seu Rickenbacker 4001C, ganho no ano anterior. Foi a primeira vez que alguém ousou fazer isto, o que deu um efeito inovador ao conjunto da música. E ainda toca guitarra base. John toca guitarra solo, assim como George, e fazem vocalizações, Ringo toca bateria e vários músicos foram recrutados da Orquestra Sinfônica de Londres para formar um naipe de metais e recriar o clima das bandas de fanfarras (dos parques de antigamente), sendo James W. Buck, Neil Sanders, Tony Randals, John Burden e G. Martin toca órgão. Foi gravada pela primeira vez em 1º de fevereiro, sendo feitos nove takes, terceira a ser gravada.

With A little Help From My Friends
Desde o início estava decidido que esta canção não iria apenas seguir a faixa título, mas sim segui-la, como se fossem um só tema. John toca sino e faz backing, não há guitarra base, portanto, o ritmo é segurado pelo baixo de Paul, que também toca piano e faz backings, George toca pandeiro e guitarra solo, Ringo dá sua contribuição vocal, numa canção composta basicamente por John para ele cantar. Diz a lenda que havia uma frase "What do you think if I sang out of tune, would you throw tomatos on me?" mas, que Ringo teria pedido que colocassem outra, pois ainda tinha lembranças dos dias em que jogavam jujubas, latas e até cadeiras no palco, e tinha receio que virasse uma nova mania. Dez takes foram feitos logo no dia 29 de março, sendo a décima segunda a ser gravada. O take 10 foi reduzido, criando um novo e várias sobreposições foram feitas.

Lucy in The Sky With Diamonds
Julian, filho de John, chegou em casa um dia com um desenho de uma menina num céu de estrelas, fazendo com que a cabeça de John retinisse e ele criasse uma canção inspirada em Alice no País das Maravilhas, um de seus contos favoritos. Mas isto deu muito pano para manga, pois depois que eles se confessaram usuários de drogas, todas suas canções começaram a ser investigadas, e descobriram que este título em siglas significava L.S.D., e a letra totalmente ao estilo poético de John, reforçava esta opinião. Mas a verdade era que foi realmente Julian, uma criança de quatro anos, na época que fez um desenho sobre sua colega de escola chamada Lucy O'Donnell.

Curiosamente, no primeiro registro da canção no estúdio houve apenas um ensaio e não gravações, uma coisa considerada extravagante, mas necessária neste auge de suas carreiras. Somente no dia 1º é que a canção foi finalmente gravada, em sete takes e uma redução, sendo a oitava a ser gravada.

Getting Better
Paul estava caminhando um dia, parece que com sua cadela Martha, quando lembrou-se de Jimmy Nichols, que tocou com eles em 64, quando Ringo operou as amígdalas, que sempre quando lhe perguntavam como iam as coisas, o otimista baterista respondia: "Está melhorando". O que gerava muitas brincadeiras. Então, a partir daí, teve a idéia principal para a letra.

As primeiras gravações foram feitas no dia 9 de março, quando sete takes foram só de ritmo, com participação de Martin tocando as cordas e não as teclas do piano. Bem inovador, sem dúvida. Reduções feitas do 7 e do 8 até o 12º. George faz um excelente trabalho vocal, roubando a cena dos vocais principais de Paul e toca, além do solo, um instrumento chamado tampura, que só foi adicionada dia seguinte. Ringo toca bateria e bongôs, os outros, os de praxe. Foi a 9ª a ser gravada.

Fixing A Hole
Mais uma vez os "intérpretes" pegaram no pé dos rapazes, dizendo que a letra se referia ao buraco causado pelas drogas injetáveis, contra as quais eles sempre foram contra. Paul estava se referindo ao buraco por onde a chuva entra, numa analogia brilhante entre este buraco e o buraco mental que faz a mente vagar, sem seguir em frente. (Pode servir como conselho a estes intérpretes)

No dia 9 de fevereiro, foi gravada pela primeira vez já com vocais e não só instrumentação. Situação incomum para estes dias. Há dúvidas se quem toca o cravo é Paul, pois embora Neil Aspinall tenha dito que foi ele, há registros de que a obra foi gravada em três takes ao vivo e Paul figura tocando baixo e cravo em todas. Como sabemos que ele é ótimo, mas não tem quatro mãos, então provavelmente o cravo deve ter sido tocado por outra pessoa, ou sobreposto mais tarde. John toca maracas. Foi a quinta a ser gravada.

She's Leaving Home
Paul leu uma estória no Daily Mail, sobre uma jovem de nome: Melanie Cole que abandonou a casa de seus pais ricos. Assim como John, Paul também tirava muito de sua inspiração em meio aos jornais, mas sempre fazendo uso de sua veia lírica.

Foi gravada pela primeira vez em 17 de março, a décima-primeira, em seis takes só de cordas, harpa, violinos, violoncelos e contrabaixo executados por Erich Gruenberg, Derek Jacobs, Trevor Williams, José Luis Garcia, John Underwood, Stephen Shingles, Dennis Vegay, Alan Daiziel, Gordon Pearce e Sheila Bromberg. Sòmente no dia eles adicionaram vozes. Apenas John e Paul cantam nesta faixa e a voz de John foi gravada duas vezes e sobreposta ao backing original, dando um efeito um pouco metálico. Diz a lenda que nesta faixa há uma citação à hora em que Paul teria sofrido o acidente.

Being for The Benefit of Mr. Kite
John se inspirou num cartaz de propaganda de um circo do século XIX de propriedade dePablo Fanque para escrever esta, que recebeu o título de "Salvador Dali Oral" de George Martin.

Gravada pela primeira vez em 17 de fevereiro, no mesmo dia do single Strawberry Fields / Penny Lane", foi a sexta, com 7 takes mais dois de reduções e sobreposições. Os primeiros sete foram apenas instrumentais : baixo, bateria e harmoniuns, tocados por George, Ringo, Mal Evans e Neil Aspinall. Muitas sobreposições foram feitas em vários dias de gravação, com John tocando órgão, Martin órgão Wullitzer e piano, George bateria, Paul baixo e guitarra.

Mas, depois de tantos dias, o resultado ainda não se parecia com o som que John tinha em sua cabeça: ele queria que soasse como um circo e Big George teve que se virar para fazer um arranjo que soasse como isto. Como não encontrou nada, teve a idéia de cortar as fitas em pedacinhos e juntá-las, teoricamente, ao acaso. Teoricamente, pois nada na vida é por acaso. A idéia deu certo e agradou John e os outros Beatles, e a milhares de ouvintes do mundo inteiro, pois soa popular e erudita ao mesmo tempo, e no solo dá até para sentir tontura, digna de um carroucel.

Lado 2
Within You, Without You

George compôs esta obra na casa de Klaus Voormann (amigo alemão dos tempos de Hamburgo, da turma de Astrid Kirschner, desenhista da capa de Revolver, que viria a se tornar baixista da Plastic Ono Band e desenhista das capas dos "Anthology"), em Hampstead, Londres.

Foi gravada a primeira vez em 15 de março, em um take. No estúdio estavam presentes apenas George, Neil Aspinall, os funcionários, Martin e músicos contratados. Violinos: Erich Gruenberg, Alan Loveday, Paul Scherman, Ralph Elman, David Wolshal, Jack Rothenstein e Jack Greene Violoncelos: Reginald Kilbey, Alan Ford e Peter Beaven Tabla, dilruba e sword mandel foram executados por músicos indianos, amigos de George. Neil e George tocam tamboura.

Mas uma vez George recorreu ao ADT, afim de conseguir um efeito incrível para sua única composição no disco, única, mas especial. Nela, George exercita seu lado devocional mais profundamente, mostrando tudo que havia aprendido até ali. De novo, os especuladores "cutucam" uma faixa, dizendo que o título seria sobre Paul, que na verdade, significa: com ou sem você.

When I'm Sixty-Four
Foi gravada pela primeira vez em 6 de dezembro, inspirada nos 64 anos que seu James McCartney, pai de Paul, completara em julho. Por isso, o clima nos leva de volta aos anos das Big Bands dos anos 20 e 30, quando o jazz americano e o vaudeville inglês reinavam absoluto, época em que Mr. McCartney tinha sua banda. Paul toca piano, baixo e faz o vocal e um dos backings, John toca guitarra solo e faz backing, George faz backing, músicos de estúdio tocam clarinetas.

Um detalhe audível incrível que prova a inteligência musical dos rapazes, é no trecho musical que segue na segunda parte: "We shall scrimb and save" quando eles repetem vocalmente o mesmo acorde dado pela guitarra na primeira parte "You'll be older, too". Diz a lenda que a melodia foi composta nos idos de 62, mas não há provas concretas sobre isto.

Lovely Rita
Paul compôs esta, logo após saber que nos EUA chamavam as "parquimeters" de "meter maids" (moças que controlam o estacionamento dos carros e os multam).

Seria uma canção de ódio, pois a tal Rita o multou e levou seu carro embora, mas, sendo um Beatle, ele resolveu amá-la, então na canção ela se tornou uma garota legal (afinal de contas, estava cumprindo a lei). George, John e Paul friccionam pentes contra papéis para produzir um som de "cha cha cha". John e George tocam violões, Paul toca baixo e piano com Martin.

Good Morning, Good Morning
John se inspirou num comercial de flocos de milho para criar esta faixa capaz de acordar qualquer um. No dia 8 de fevereiro, quando foi gravada pela primeira vez, porém, não passava de uma canção bem simplesinha, mas mudou muito depois de sobreposições.

Eles recebem a ajuda de um grupo de Kent, The Sound Incorporated, que eles conheceram no Star Club na Alemanha, e que foram contratados por Epstein em 64: Barrie Cameron, David Glyde, Alan Holmes, saxofones, John Lee e A.N. Other, trombones e Tom French, horn. Paul toca guitarra solo, George toca a rítmica, John faz apenas os vibrantes vocais principais.

Ele tinha a idéia de reproduzir o som de uma fazenda, com sons de todo o tipo de animais (inspirado no "Pet Sounds, do grupo americano Beach Boys)

Então, se você não tinha acordado até agora, não iria escapar, pois o final iria ser mais alucinante ainda, uma cadeia alimentar onde animais maiores engolem musicalmente animais menores e de repente somos conduzidos de volta para o teatro onde a banda do Sgt, Pepper se apresentava.

Sgt Pepper's (Reprise)
George Martin, genialmente traça uma analogia entre o carcarejo do galo e a primeira nota da guitarra da banda. Paul conta até quatro para iniciar esta espécie de bis da primeira faixa, com andamento acelerado, sem os metais da abertura com todos os quatro cantando.

Foi gravada a primeira vez em 1º de abril, em nove takes. John toca maracas e guitarra solo, e os outros seus instrumentos normais. Antes que o som desapareça por completo, em meio aos aplausos, entram os acordes daquela que é a mais polêmica das faixas.

A Day In The Life
Esta canção é na verdade junção de duas canções, uma de John e outra de Paul: John começou, mas não conseguia um miolo que o deixasse satisfeito, então perguntou a Paul se ele tinha algo, e ele coincidentemente tinha um miolo, mas não tinha nem começo nem fim da música. E como mágica as duas se encaixaram e se tornaram uma só.

Como esta faixa é a gravação mais complexa de todas realizadas, tentarei fazer o melhor possível, afim de que os detalhes sejam esclarecidos e a curiosidade saciada:

Em seu primeiro dia de gravação 19 de janeiro - foram feitos 4 takes sob o nome de "In the life of..." sem a parte de Paul, apenas com as letras de John, que foram inspiradas em notícias de jornais. No dia 20 foram feitos mais três takes, já com a parte de Paul, título definitivo e sobreposições de outro vocal de John, o baixo de Paul e bateria de Ringo. Havia muito a ser feito, mas o arranjo não estava satisfazendo Ringo e Paul, então foi feito um outro.

Paul percebeu que o meio pedia uma orquestra. Pensou numa orquestra de 90 músicos tocando a menor nota que um instrumento poderia tocar e terminando com um mi maior. Indo de pianissíssimo a fortíssimo. Não haveria partituras e Paul explicaria a Martin o que queria e ele aos músicos profissionais. Eles seriam independentes, tendo o cuidado de fazer algo diferente do outro.

Depois deve ter achado que esta idéia mais parecia ter saído da cabeça de um dodecafônico (músicos eruditos contemporâneos que acham que as escalas tonais podam a criatividade musical) e a orquestra foi reduzida para 41 músicos regidos pelo próprio Paul, mas com o respeito à escala tonal. Não foram usadas partituras e eles tiveram que contar com seu feeling e Martin, que servia de ponte entre os conhecimentos práticos de ouvido de Paul e os teóricos de músicos de orquestra. Finalmente, eles entenderam tudo e se mostravam ansiosos para começar, depois de colocarem narizes e óculos falsos, para completar o clima de fantasia, com Paul regendo com um avental e tudo sendo registrado em filme e fotos!

Foram gravados quatro takes no dia de fevereiro de orquestra. John toca violão e piano, Paul baixo piano, George bongôs e piano, Ringo bateria, maracas, piano e pandeiro, Martin harmônico, Mal Evans conta o tempo (se você separar os sons em canais, ainda vai ouvir sua voz contando, pois não conseguiram limpar tudo, apenas sobrepuseram os sons) toca piano e coloca o despertador que toca antes de Paul "acordar"

Não seria nem necessário mencionar as polêmicas causadas pela canção, primeiro a notícia do fim das turnês e a mudança de visual, o isolamento em estúdio coincidiram com o posterior acidente de moto de Paul, que por causa da letra da música, todos pensaram que era de carro,que foi na verdade tirada de uma notícia de jornal sobre o acidente de Tara Browne, um jovam irlandês. Para eles esta era uma "prova contundente", uma declaração de John em música.

Além disso, girando a faixa ao contrário alguns tiveram mais certeza disso, mas não passava de uma mensagem inaudível para seres humanos (só audível para cães) mesclada com frases que escaparam durante as festas que ocorriam nas gravações do álbum.

Descobriram, ainda uma alusão as drogas "Eu gostaria de ligar", que na verdade, era uma frase corrente nas ruas de Londres na época, mas que não havia sido usada em música, ainda.

A faixa foi proibida de tocar em várias rádios, assim como Lucy in The Sky..., mas não deixaram de virar clássicos famosos. Pois, quem iria deixar de comprar um álbum dos Beatles e conhecer as faixas ?

Quebrando mais barreiras culturais novamente, o álbum foi lançado em 1º de junho de 67, sendo elogiado por público e crítica. Eles conseguiram também, quebrar o preconceito, pela primeira vez todos até os mais conservadores que os criticaram quando foram condecorados poderiam admitir que gostavam deles, sem serem tido como imaturos e ignorantes. Eles haviam crescido. Todos puderam entender por que foi necessário o fim das turnês, que podava sua criatividade.

Embora, alguns proibissem sua música de tocar nas rádios,por julgarem que incitavam o uso de drogas, eles eram considerados revolucionários, mas, não eram uma ameaça pública. Apenas queriam paz, amor e muita música.

Continuando, depois que Sgt. Pepper's foi lançado, muita gente admitiu que gostaria de tê-lo feito e muito daqueles que estavam fazendo sucesso com seus álbuns, como o Pet Sounds, dos Beach Boys, confessaram que não havia nada melhor, era o auge dos Beatles. Brian Wilson, dos Beach Boys chegou a entrar em depressão, julgando que jamais conseguiriam fazer sucesso novamente com os Beatles como concorrentes (ele é realmente bastante carente e depressivo) e só saiu dela depois que Paul declarou que o álbum havia sido inspirado em Pet Sounds, que por sua vez fora inspirado em Rubber Soul. Talvez não há muita semelhança sonora, mas sem dúvida, foi a atmosfera, confirmando a teoria da cadeia musical, ou seja, uma mínima coisa desencadeia uma coisa grandiosa que pode desencadear uma revolução sonora, pelo menos nesta época dourada. E vale dizer, foi gravado em apenas quatro canais (lembram-se de Please Please Me, em apenas dois ?) e com quatro cabeças pensantes e criativas como esta, aliadas à de George Martin e sua equipe, não há necessidade de mais nada.

Por Marcelo Scavazza Sanches

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

The Beatles - Magical Mystery Tour (1967)


O que se podia esperar de um disco dos Beatles realizado após o Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band? Certamente, fãs e imprensa mal conseguiam imaginar que novas canções viessem tão cedo, já que no ano anterior, 1966, o quarteto havia lançado apenas um álbum inédito, o não menos brilhante Revolver, quebrando uma série tradicional de dois LPs por ano desde 1963. Imaginou-se também que uma coleção de preciosidades tão revolucionárias fosse deixar a dupla Lennon/McCartney na lona, sem repetir um nível tão alto de criatividade musical.

Na verdade, dois meses antes do Pepper's ser lançado - o que aconteceu em 1 de junho de 1967 - os Beatles já estavam gravando material para um projeto pretensamente ainda mais ambicioso de Paul McCartney: um filme para a televisão com uma trilha sonora que incluiria novas faixas!

Macca teve a ideia enquanto viajava de avião para a América, no dia 11 de abril. Concebeu uma história modesta, cujo roteiro se basearia em uma viagem de ônibus pela psicodélica Inglaterra de 1967. Quando reencontrou os outros Beatles, dias depois, contou-lhes a idéia e ganhou o apoio dos parceiros. A partir daí, começaram a gravar algumas canções que poderiam ser usadas na trilha para o filme que seria, de fato, um especial de fim de ano para a TV.

As gravações foram acontecendo esporadicamente entre abril e novembro, período de mudanças substanciais na vida do grupo; no dia 14 de junho, eles gravaram "All You Need Is Love" para a primeira transmissão mundial via-satélite da história da humanidade. Lançada em single, esta canção chegou ao primeiro lugar nos dois lados do Atlântico, enquanto o Pepper's fazia o mesmo, deixando público e imprensa de bocas abertas com seu conteúdo inovador, luxuoso, rico em técnicas de arranjos, composição e gravação.

Em função das badalações em torno do lançamento do single e do Pepper's, o projeto do filme e de novas canções para a trilha foi deixado de lado temporariamente. Paul acabou por revelar na TV que usava LSD, causando um rebuliço quase igual ao da célebre frase de John sobre Cristo um ano antes. Portanto, uma subseqüente retirada geral para férias na Grécia veio a calhar. O famoso encontro com a meditação transcendental do Maharishi Yogi se daria no dia 25 de agosto, em Bangor, North Wales.

Nem tudo era luz, afinal. Em 27 de agosto, enquanto John, Paul, George e Ringo conheciam seu guru, Brian Epstein vem a falecer, deixando desnorteados seus pupilos, que não entendiam nada de negócios. Muitos historiadores observam neste trágico desaparecimento de Epstein o início da separação dos Beatles.

Assim, depois de algumas poucas sessões de gravação sem maiores compromissos, os quatro encontraram-se na casa de Macca, no dia 1 de setembro, para decidir o que fazer. E resolveu-se que o Magical Mystery Tour iria acontecer mesmo, o que fez com que as gravações de novos temas se reiniciassem a seguir, bem como as filmagens do especial, que rolariam de setembro até exatamente ao dia 31 de outubro. Os Fabs partiram com uma turma de 43 pessoas –entre amigos, técnicos e atores- em um ônibus pelo interior da Inglaterra, para o desenrolar de uma história improvisada que acabou ganhando 'roteiros' extras de John, George e Ringo. Eles se dividiriam então entre os estúdios da Abbey Road, os sets de filmagem no Shepperton studios, as locações abertas e algumas poucas entrevistas para a TV. O último dia de filmagem aconteceu com a solitária presença de Paul em Nice, frança, quando gravou a famosa cena de The Fool On The Hill.

Em novembro, os Beatles lançavam um novo single com "Hello Goodbye" e "I Am The Walrus"; a boutique da Apple é inaugurada, enquanto Ringo inicia sua carreira solo como ator filmando Candy. Harrison não fica atrás: começa a compor a trilha sonora do filme Wonderwall, inspirada na música indiana.

Em 8 de dezembro, é lançado um EP duplo com as novas canções do filme: "Magical Mystery Tour", "The Fool On The Hill", "Flying", "Blue Jay Way", "Your Mother Should Known" e, novamente, "I Am The Walrus", que conheceu seu segundo lançamento menos de um mês após sair como lado B de "Hello Goodbye". O filme chegou à TV em 26 de dezembro, com sua premiére na BBC 1.

Os críticos malharam o projeto com gosto, considerando-o uma baboseira gigantesca. Era a primeira vez que os Beatles eram criticados negativamente por um trabalho. Apesar do esforço de Paul em defender aquele que era seu projeto de fato, pouco adiantou. A unanimidade se formou ao redor das críticas ruins, que diziam ser perda de tempo total acompanhar tamanha junção de cenas desconexas, sem sentido, absolutamente inócuas para o que se pretendia classificar de entretenimento saudável.

Enquanto na Inglaterra a trilha saiu em EP, na américa a gravadora Capitol tomou uma atitude diferente, reeditando a tradição de antigamente, que era a de montar um repertório próprio. Para tanto, juntou às canções do Magical todos os compactos simples lançados durante o ano; ou seja, pela primeira vez, músicas como "Penny Lane", "Strawberry Fields Forever", "All You Need Is Love", "Baby You're A Rich Man" e "Hello Goodbye" chegaram a um LP. A EMI alemã seguiu a ideia da filial americana e também lançou a trilha no mesmo formato e repertório. No Brasil, o disco saiu exatamente como na Inglaterra, com o lançamento da edição americana acontecendo somente 10 anos depois, em 1977, quando a matriz inglesa finalmente lançou o LP. No entanto, o Magical Mystery Tour tornou-se, para todos os efeitos, o 9º álbum de carreira dos Beatles. Vamos às faixas, todas produzidas pelo bom e velho George Martin.

MAGICAL MYSTERY TOUR
A faixa-título que apresenta o filme, também abre o LP. Não por coincidência, foi a primeira música a ser gravada, o que aconteceu entre 25 de abril e 3 de maio, no estúdio 3 da EMI em Abbey Road. Foi composta por Paul, claro, a partir de sua idéia do filme. Tem uma introdução pesada em 6/8, passando para um acelerado ritmo em 4/4. Ao longo da canção o ritmo muda para um andamento mais lento, que se alterna com os rápidos constantemente. A melodia é simples, deixando a força para os back-vocais e para o tom de 'tema de abertura' da faixa. O arranjo ganhou instrumentos de sopro tocados por David Mason, Elgar Howarth, Roy Copestake e John Wilbraham. Paul tocou percussão, contrabaixo e piano, fez o vocal principal, o coro e idealizou o arranjo; John e George ficaram com os violões, guitarras rítmicas e percussões diversas. Ringo, além da bateria, também tocou percussão.

THE FOOL ON THE HILL
Uma das melodias mais bonitas escritas por McCartney, uma espécie de irmã mais desenvolvida de For No One. George Martin descreveu certa vez a capacidade de Paul de surpreender os ouvintes com uma resolução harmônica súbita acompanhada de um quebra de ritmo, como acontece aqui na volta do refrão para a melodia principal. A letra também é bonita, ressaltando que atrás de uma personalidade aparentemente comum, pode haver um espírito nobre e visionário. Essa música começou a ser gravada em 25 de setembro, terminando com os overdubs das flautas em 20 de outubro. Paul está no vocal e no piano, enquanto John e George, além de violões, tocam harmônicas. A versão final do LP ficou apenas com alguns efeitos percussivos de Ringo. Ken Essex e Leo Birnbaum acrescentaram violas na última sessão também.

FLYING
Único tema inteiramente instrumental (ou sem letra) do grupo lançado até 1994 (quando a "12 Bar Original" saiu no Anthology), esta faixa começou a ser gravada em 8 de setembro. Ganhou o inédito crédito dos quatro Beatles! Trata-se de uma melodia simples e de complemento de cena (aparece durante uma pegada de câmera nas nuvens), na tradicional cadência harmônica de tônica-dominante e sub-dominante em dó maior, melodia esta ressaltada em um coro com as vozes de todos eles. Tinha uma montagem original que a encerrava com um arranjo de jazz tradicional com saxofone, que acabou sendo cortado da versão final. Ao invés disso, um mellotron tocado por Lennon foi acrescentado fechando a canção com ares psicodélicos.

BLUE JAY WAY
Esta é a contribuição de Harrison para o filme. Começou a ser gravada na madrugada do dia 7 de setembro, depois de gravações adicionais em I Am The Walrus e The Fool On The Hill, fato que retrata bem o que George dizia: que suas músicas sempre recebiam atenção apenas nas horas de sobra de estúdio, depois que John e Paul gravavam suas composições. Blue Jay Way segue o esquema de Within You Without You, ou seja, usa desenhos melódicos que insinuam uma forte influência das ragas indianas. A letra é banal, revelando o sentimento de expectativa da chegada de Derek Taylor à casa alugada por George em Los Angeles um mês antes, quando esteve na América. A rua em que ficava a casa deu o título à canção. Neste caso, Harrison dispensou a cítara e a tabla e acrescentou um órgão Hammond, que dá o gosto timbrístico da gravação juntamente com os cellos. Os vocais também são cheios de efeitos, criando um dos mais fortes climas psicodélicos desta fase.

YOUR MOTHER SHOULD KNOW
Esta canção foi gravada algumas vezes com versões distintas. A que entrou no disco acabou sendo a primeira a ser gravada, em 22 e 23 de agosto, antes da morte de Epstein. O trabalho foi feito no Chappell Recording Studio, em Londres. Paul aproveitou a disponibilidade do estúdio após ter produzido a gravação de "Catcall", canção de sua autoria, com o grupo Chris Barber Band. Os estúdios da Abbey Road estavam sem horários livres, o que também levou o grupo a escolher outro local. A melodia de "Your Mother..." tem a mesma raiz criativa de "When I'm 64", embora seja mais simples e não possua uma segunda parte.

I AM THE WALRUS
Um dos maiores clássicos da música popular mundial de todos os tempos, esta canção é um marco da fase psicodélica do rock e o retrato mais visceral das experiências de Lennon com o LSD. Começou a ser gravada no dia 5 de setembro, uma terça feira. Tem uma melodia típica de John, que conseguia como poucos montar um desenho que usava poucas notas, repetindo-as genialmente de tal maneira que se criava uma tensão instigante e assombrosamente bela. O piano elétrico tocado pelo autor e sua voz ácida acrescida de efeitos tétricos de distorção fazem de Walrus uma obra prima da época e uma espécie de visão às avessas do flower-power. O arranjo de Martin é outro ponto alto: cordas que sobem e descem em semitons são a vestimenta perfeita para uma letra que transpira a loucura e o surrealismo de uma viagem alucinógena, mas ao mesmo tempo lúcida, que começou a sugerir à John Lennon uma realidade mais sombria do que as flores coloridas que cercavam a geração paz e amor. Uma revolução.

HELLO GOODBYE
Abrindo o lado 2 do LP americano, está o lado A do último single lançado pelos Beatles em 1967. É uma linda canção de Paul, mais uma vez simples e eficiente, tocada sobre a escala decrescente de dó maior. Assim como no resto das músicas desta fase, há poucos solos de guitarra no arranjo. Aqui, a mixagem final deixou que apenas duas notas como efeitos complementares para as cordas e para o mellotron tocado por John. Ringo obtém um bom jogo de virada de compassos na bateria, enquanto a voz de Macca ganhou uma tonalidade mais aguda com a aceleração da fita onde se registrou seu vocal. Gravação iniciada em 2 de outubro e finalizada em 2 de novembro, 22 dias antes de ser lançada em compacto.

STRAWBERRY FIELDS FOREVER
O que dizer de um LP que tenha em seu repertório "Strawberry Fields", "I Am the Walrus" e "Penny Lane", por exemplo? Sem dúvida, foi a única feliz decisão da Capitol americana no que diz respeito às montagens de discos dos Beatles em seu território. Desnecessário dizer, mas vamos lá: esta é a divisora das águas da música pop, uma obra prima primorosa e avassaladora, os gênios criativos de John Lennon e de George Martin em ação. Sim, pois este último era o único que conseguia traduzir para as pautas musicais e fitas magnéticas o que o compositor tinha em mente. Melodia simples e bela, arranjo audacioso e repleto de efeitos, esta faixa é, como já disse, um marco na história da música popular em vários quisitos: surrealismo da letra, revolução em técnicas de gravação, arranjos e transposição da imaginação em resultados sonoros concretos. São os Beatles voltando ao passado, evocando sua memória infantil e lúdica, observando os detalhes minuciosos escondidos por entre as árvores de um orfanato. Tudo isso revestido com as cores do psicodelismo e com as abstrações provocadas pelo LSD.

PENNY LANE
O diálogo de Paul com o parceiro John, sua resposta igualmente evocativa das memórias de criança que brinca pelas ruas escuras e úmidas de Liverpool. Outro clássico, uma obra prima imprescindível no imaginário musical de qualquer ser humano, uma canção pop com uma melodia nobre e bucólica, lindíssima e envolvente, uma harmonia elaborada adornada por trompetes que resgatam Bach para o ambiente popular/jovem, efeitos sonoros e timbrísticos que nos levam para dentro de nós mesmos, numa viagem interminável e saborosa pelos mais misteriosos cantos da mente humana. Essa era a diferença crucial entre Paul e John: enquanto o último imprimia uma melancolia instigante e uma dor sutil em seus temas, o primeiro sempre deixava transparecer sua doce vocação para a felicidade e o otimismo. E em Penny Lane ele nos fala das ruas de Liverpool, do barbeiro, das gírias malandras e das luzes divinas que se diluem em nosso cotidiano.

BABY YOU'RE A RICH MAN
Esta faixa saiu originalmente no lado B de "All You Need Is Love", em junho. Começou a ser gravada em 11 de maio. É um tema de John, uma canção despretensiosa e agradável, criada para o filme Yellow Submarine, outro projeto oferecido aos Beatles na ocasião. Trata-se de uma daquelas faixas em que eles experimentavam efeitos diferentes, timbres desconhecidos; Lennon toca um instrumento chamado Clavioline, um teclado que podia reproduzir vários sons, enquanto Eddie Kramer, o segundo engenheiro de som de Abbey Road, acrescentou um vibrafone. A letra é uma ironia à vida de 'ricos e famosos' que os quatro levavam.

ALL YOU NEED IS LOVE
O LP americano se encerra com esse mega sucesso lançado seis meses antes em single. É o hino da geração hippie, o ápice da mensagem colorida do verão do amor. Com uma melodia simples e um arranjo rebuscado pela orquestra de Martin, "All You Need Is Love" é mais uma celebração de um evento (a transmissão via satélite) do que uma peça musical, e encerra com um colorido ingênuo e festivo um álbum repleto de visões ácidas, viagens psicodélicas, memórias vívidas e surrealismos saltitantes. Sim, Magical Mystery Tour sobreviveu à proximidade com o Sgt. Pepper's.

Por Marcelo Scavazza Sanches

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

1967: George Harrison visita a Califórnia


Apesar dos Beatles terem sido cultuados por toda a geração hippie, só um deles visitou a turma cabeluda no seu local de origem, a cidade de San Francisco, Califórna, EUA (com rápida passagem por Los Angeles). Foi George Harrison, que em 1967 passou uma semana na terra do flower power, acompanhado pela esposa Pattie e pelo amigo Neil Aspinall - que é quem narra a história, dia a dia. Nessa viagem, a turma passou muito tempo com Ravi Shankar, foram à Disneylândia e até conferiram uma sessão de gravação dos lendários The Mamas & The Papas. Com a palavra, Mr. Aspinal!


Terça-feira, 1º de agosto de 1967
Viagem de avião de Londres a Los Angeles. Estavam George, Pattie, o "gênio" eletrônico Magic Alex e eu (Neil). Os Harrison viajaram como "Sr. e Sra. Weiss", que era o nome do homem que encontraria conosco e depois nos mostraria a Califórnia. O primeiro problema no desembarque foi a falta de uma de minhas malas, que ficou seis milhas atrás, em Londres. Você ganha tempo quando voa do Reino Unido para a América. Almoçamos e ficamos apenas uma tarde em Los Angeles. Fomos de carro do aeroporto até a casa que tínhamos alugado por uma semana.

A casa da colina

Era um pequeno, mas muito bonito lugar numa colina em Hollywood numa rua chamada Blue Jay Way. Eram nomes bastante figurativos. A casa pertencia a um advogado que estava de férias no Hawaí. O longo voo tinha deixado todo mundo bem cansado, mas Pattie não dormiu, pois queria ligar para sua irmã, Jenny, que estava em São Francisco, e ela disse que iria até lá encontrar-nos. George telefonou para Derek Taylor, que começou descrevendo as complicadas regras do lugar para eles.

A nova canção
A conversa com Derek Taylor pelo telefone inspirou George a escrever uma canção chamada "Blue Jay Way". Ele sentou perto de um mini-organ que tinha lá e compôs enquanto esperava por Derek. Você pode ouvir "Blue Jay Way" no disco Magical Mystery Tour.

Quarta-feira, 2 de agosto de 1967
Dormimos até tarde, fizemos algumas compras e depois fomos todos nos encontrar com Ravi Shankar em sua escola de música. Sentamos e ficamos vendo Ravi ensinando sua classe de mais ou menos 50 pessoas de idade entre 16 e 30 anos, pessoas muito diferentes, todos estudantes de música indiana. O tocador de tabla de Ravi, Alla Rahka, deu uma lição que nós só vimos um pouco, pois saímos para almoçar com Ravi em Sunset Trip.

Quinta-feira, 3 de agosto de 1967
De manhã bem cedo (quer dizer, lá pelas 11h), George foi à escola comigo e Alex enquanto Pattie e Jenny foram passear. Amanhã à noite Ravi faria um show no Hollywood Bowl então nesta manhã ele tinha uma coletiva com a imprensa. Todas as rádios locais e repórteres sabiam que George estava lá, é claro, e atacaram-no com milhões de perguntas do tipo: "O que você acha do LSD?" ou "Onde você está hospedado, George?". À tarde George e eu fomos a uma loja chamada Sidereal Time. Compramos muitas camisetas e coisas como mocassins e pôsters. À noite fomos ver Ravi Shankar dar uma palestra sobre a história da música indiana e então fomos a uma sessão de gravação do The Mamas And The Papas com derek Taylor.

Nova guitarra
Um dos caras da sessão tinha uma guitarra fantástica - um primeiro protótipo e algo muito especial. George não pôde resistir e ficou com ela.

Sexta-feira, 4 de agosto de 1967

Às 9h da noite começou o show de Ravi Shankar no Hollywood Bowl, que durou quatro horas. Com ele estava um grupo de estudantes; foi uma maravilhosa noite musical. Primeiro veio Bismillah Khan com acompanhantes tocando uma flauta indiana chamada shennai. O resto da turma acompanhou Bismillah até um certo momento em que não podiam mais acompanhá-lo, então ele teve que tocar sozinho! Veio um tocador de tambor sul-indiano tocando um instrumento chamado mridangam, uma espécie de tambor clássico, que você bate dos dois lados. Então veio Ali Akbar Khar e seu filho Ashish tocando uns tambores modernos que eles chamavam de sarods; eles "conversavam" através de seus tambores. Finalmente, antes de o próprio Ravi tocar, veio um tocador e professor de tabla chamado Alla Rahka, que permaneceu no palco para acompanhá-lo com sua cítara para a última hora do show.

Sábado, 5 de agosto de 1967
Nesta manhã todos nós fomos ao estúdio de gravações com Ravi Shankar assistir Alla Rahka e o tocador de tambor sul-indiano gravarem um lado de um LP. Um cantor sul-indiano, usando sua voz como se fosse um instrumento, gravaria o lado 2 do LP. George ficou muito satisfeito por receber um convite para escrever as notas da capa do outro LP que ali seria gravado esta semana, de Ali Akbar Khan e seu filho Ashish. Mais tarde, nos encontramos com Derek, sua esposa e seus filhos. Foram com eles visitar Alvera Street, um lugar muito histórico. Vinha sendo preservado como atração turística, com aquelas casinhas da Califórnia. Bandas estavam tocando e existiam muitas barraquinhas vendendo souvenirs de Hong Kong! Comemos comida mexicana em um dos restaurante pequenos e engraçados na Alvera Street e compramos uma grande quantidade de quadros mexicanos, feitos sobre veludo. Pequenos shows com fúnebres palhaços aconteciam no local. Eles dançavam sob uma música antiga e seguravam uma grande flor, tirando pétala por pétala. Era uma pechincha - apenas uns poucos dólares cada - e duravam muito tempo. Nós também compramos um toureiro com um grande touro verde junto. George nos deixou (eu e Alex) comprando uns casacos coloridos enquanto ele estava com Ravi Shankar, que comprava uma cítara.

Domingo, 6 de agosto de 1967
George foi sozinho bem cedo ver Ashish e falar sobre as notas da capa do LP e essas coisas. Mais tarde, enquanto todos estavam na Disneylândia, George ficou atrás. Nós não ficamos muito tempo na Disneylândia, mas deu para ver que é um lugar fantástico. Visitamos "Tomorrowland", "Fantasyland" e um pouco de "Frontierland". Lá tem uns telefones que você pode usar para ligar para os personagens. Eu liguei para o Pluto mas uma voz disse: "Desculpe, ele está ocupado. Aqui é o Pateta"! À noite todos foram à casa de Ravi Shankar.

Segunda-feira, 7 de agosto de 1967
Hoje fomos até São Francisco e andamos pelo Haight-Ashbury. Derek foi conosco. Ficou meio esquisito depois de um tempo. Existia uma procissão ridícula de pessoas seguindo o George como se ele fosse o "novo guru". Mas eles não seguiram até o rio. De qualquer forma, foi um bom dia, uma boa cena foi ver coisas que nos deixou felizes e coisas que nos deixou tristes, como todas aquelas pessoas que pegavam o dinheiro dos turistas. E foi a primeira vez que nós vimos São Francisco como um lugar além do show que os Beatles fizeram lá.

Terça-feira, 8 de agosto de 1967
À noite, voamos de volta para casa. Quatro fãs foram até a casa onde estávamos, mas não teve problema algum e George gostou de vê-las. Ah, e quase que eu me esqueço: a minha mala ainda estava em Londres! Eu fiquei 8 dias com a mesma roupa!


terça-feira, 11 de outubro de 2016

Os Beatles falam sobre a música "All You Need Is Love"

"All You Need Is Love", além de ser uma das favoritas dos fãs dos Beatles, tem importância histórica por ter sido a primeira canção transmitida via satélite (Saiba mais), e eles próprios têm consciência disso. Confira uma coleção de pequenos depoimentos dos próprios Beatles (e alguns colaboradores) sobre a transmissão do programa Our World com a lendária música.

Ringo:
A transmissão Our World foi sensacional, atingindo centenas de milhões de pessoas no mundo inteiro. Foi a primeira transmissão mundial via satélite já realizada. Agora é uma coisa padrão, mas na época, quando fizemos, foi a primeira. Isso era emocionante; nós estávamos fazendo uma porção de "primeiras". Eram tempos empolgantes.

Paul:
Fiquei acordado a noite inteira antes do show, desenhando na camisa que eu estava usando. Eu tinha alguns produtos químicos chamados Trichem - dava pra desenhar numa camisa com eles, e depois se podia lavar a camisa e o desenho ficava. Eu os usei muito, muitas foram as camisas ou portas que eu pintei com eles. Era uma boa diversão. Aquela camisa ficou retalhada depois do show; entretanto, do jeito que vem, vai.

George:
Eu não sei quantos milhões de pessoas assistiram à transmissão, mas parece que foi um número fenomenal. Provavelmente foi o mais cedo que a tecnologia possibilitou aquele tipo de ligação via satélite: eles transmitiam do Japão, México, Canadá - por toda a parte.

Lembro da gravação, porque decidimos introduzir pessoas que tivessem a cara da "geração do amor". Se você olhar atentamente para o chão, eu sei que Mick Jagger estava lá. Está também o Clapton, eu acho, em trajes psicodélicos em grande estilo com permanente, sentado bem ali. Foi ótimo: a orquestra estava lá e foi ao vivo. Ensaiamos um pouco e então: "Vocês entram às doze em ponto, rapazes". O sujeito lá em cima apontou o dedo e pronto. Entramos para uma única tomada!

Neil Aspinall:
Foi uma filmagem profissional. Eu me lembro das equipes de câmeras e muita gente colorida. Foi psicodélico e tudo o mais, mas a BBC filmou em preto e branco! Se a gente soubesse disso, nós mesmos teríamos filmado.

Ringo:
Adoramos nos fantasiar e nossas roupas foram feitas para o programa. Simon e Marijke, do grupo The Fool, fizeram a minha. Era pesada pra danar, eu estava com todos aqueles colares que pesavam uma tonelada. Você pode ver os semblantes felizes. Eu tinha o Keith Moon ao meu lado. Todo mundo estava aderindo - foi um momento fabuloso, tanto musical quanto espiritualmente. E para aquele programa, os autores da canção foram mestres em acertar na mosca.

Paul:
Os Beatles cantaram "All you need is love". A canção era do John, principalmente; uma daquelas que estavam à mão na época. Ela se ajustava muito bem, logo, poderia ter sido escrita especialmente para a ocasião (e já que a tínhamos, ela era certamente talhada para o programa). Mas eu tinha a impressão de que era uma das canções do John que de qualquer forma apareceria. Fomos ao Olympic Studios em Barnes e a gravamos e todos disseram: "Ah, é esta que devemos usar".

Brian Epstein:
Nem por um momento me preocupei de que pudessem não propor algo maravilhoso. O compromisso para o programa de TV estava marcado com alguns meses de antecedência. O momento foi ficando cada vez mais próximo e eles ainda não tinham escrito nada. Então, cerca de 3 semanas antes do programa, sentaram para escrever. A gravação ficou pronta em 10 dias. É uma canção inspirada, porque eles a compuseram para um programa mundial e realmente quiseram passar uma mensagem para o mundo. Dificilmente poderia ter sido uma mensagem melhor. É uma gravação maravilhosa, linda, de dar arrepio na espinha.

Paul:
Em estilo, ela remonta um pouco o nosso começo, imagino, mas está realmente na próxima volta da espiral. Eu a defino como uma olhada para trás, como um novo sentimento.

John:
Tocamos apenas uma faixa. Uma vez que eu sabia os acordes, eu tocava qualquer coisa que fosse, até cravo. George tocou um violino e Paul um double bass. Como eles não sabiam realmente tocar esses instrumentos, conseguimos uns barulhinhos legais. Parecia uma orquestra, mas são só os dois tocando. "Ora essa, vamos pôr um pouco mais de instrumentos nessa orquestra esquisita que conseguimos". Mas ninguém tinha ideia de como soaria no final, até o ensaio. Ainda pareceu um pouco estranho na hora".

George Martin:
John compôs "All You Need Is Love" especialmente para o programa de televisão. Brian chegou de repente, desorientado, e disse que iríamos representar a Inglaterra em cadeia mundial e tínhamos que compor uma canção. Era um desafio. Dispúnhamos de menos de 2 semanas para compô-la e então soubemos que seriam mais de 300 milhões de pessoas assistindo, o que na época era uma cifra fenomenal. John propôs a idéia da canção, que era ideal, maravilhosa.

George Harrison:
Pelo clima da época, parecia ser uma grande idéia apresentar aquela canção enquanto o resto do mundo estava mostrando tricô no Canadá ou sapateado na Venezuela. Pensamos: "Bem, nós cantaremos "All You Need Is Love", porque ela é uma peça sutil de relações públicas para Deus". Eu não sei se a canção foi composta antes disso, porque havia muitas canções circulando na época.

George Martin:
Ao fazer o arranjo, empurramos "La Marseillaise" para o início, e uma série inteira de coisas para o fim. Entrei em grandes apuros com isso. Receio que entre todos os pequenos trechos e peças que usamos na apresentação final (que os rapazes não conheciam) havia um pedaço de "In The Mood". Todos achavam que "In The Mood" era de domínio público (e é), mas a introdução não é! A introdução é um arranjo, e foi a introdução que eu peguei!

Era um trabalho publicado! A EMI me procurou e disse: "Você colocou isso no arranjo, e agora você terá que nos indenizar contra qualquer ação que possa ser movida!". Respondi: "Vocês devem estar brincando. Eu ganhei 15 libras para fazer aquele arranjo, e isso é tudo". Eles entenderam a piada. Acho que pagaram um honorário a Keith Prowse, ou para quem quer que fosse o editor, e eu eliminei os arranjos. "Greensleeves" também estava lá (meio andamento) para costurar com um pouco de Bach e o trecho de "In The Mood".

Paul:
Fomos até a EMI para o programa. Fizemos muitos testes de gravação e então cantamos ao vivo para a trilha de fundo. Trabalhamos com a ajuda de George Martin e foi um dia produtivo. Estávamos lá desde o começo da manhã para ensaiar com câmeras e havia uma grande orquestra (para todo aquele trecho com "Greensleeves") tocando no encerramento da canção. Pediram que a banda convidasse pessoas e levamos gente como Mick e Eric, além de todos os nossos amigos e queridas esposas.

George Martin:
Eu apareci no programa. Havia uma câmera para a sala de controle. foi um pouco aflitivo porque foi feito no grande estúdio nº1 da EMI. A sala, na época, ficava ao pé da escada. Não era muito grande e ali ficaram Geoff Emerick, o operador de fita, e eu. Havíamos preparado uma trilha básica da gravação para o programa de televisão mas íamos fazer muita coisa ao vivo. Havia uma orquestra ao vivo e o canto e a platéia também eram ao vivo e sabíamos que seria um programa de televisão com transmissão direta.

Trinta segundos antes de começar, o telefone tocou. Era o produtor do programa, dizendo: "Acho que perdi todo o contato com o estúdio e vocês terão de repassar as instruções para eles, porque agora entraremos no ar a qualquer momento". Pensei: "Meu Deus, se a gente vai fazer papel de bobo, será diante de 350 milhões de pessoas". Naquele ponto, apenas dei risada.

Neil Aspinall:
"All We Need Is Love" foi direto para o primeiro lugar. Acho que ela expressa o clima da época, com o "Flower Power" e todo aquele movimento. Realmente era hora de dizer: "tudo que você precisa é amor".

domingo, 9 de outubro de 2016

1966 - O ano em que tudo mudou

Na festa de reveillon em 31 de dezembro de 1965, em Londres, os Beatles estavam em companhia dos executivos da gravadora EMI. Estes, provavelmente, previam mais um ano de lucros fantásticos com o grupo. Entretanto o próximo ano seria sim, bastante rentável, mas bem diferente.

Provavelmente o ano de 1966, determinou o que os Beatles seriam até o seu final, em 1970. Durante o ano, o mundo que nunca mais foi o mesmo depois deles, seguiu sua revolução dos anos 60: Pela primeira vez em 400 anos, anglicanos foram recebidos pelo Papa em Roma; o reverendo Martin Luther King liderou uma marcha pelos direitos civis, nos Estados Unidos, enquanto a força aérea americana bombardeou Hanói, capital do Vietnam do Norte. No outro lado do mundo a ciência avançou com a chegada da espaçonave soviética a Vênus, a primeira nave terrestre a chegar a outro planeta, mas na China, o governo proclamou a "Revolução Cultural", promovendo expurgos e perseguindo intelectuais. Toda essa efervescência não foi menor no universo particular de John Lennon, Paul McCartney, George Harrison e Ringo Starr há 40 anos.

Rubber Soul


Um prelúdio de 1966 foi o último mês do ano anterior, quando em três de dezembro, os Beatles lançaram o álbum "Rubber Soul" e o single "Day Tripper"/"We Can Work It Out". Ambos já apresentavam mudanças na concepção musical do grupo. "Rubber Soul" tinha letras e melodias mais elaboradas, além dos Beatles também terem contribuído, pela primeira vez, para a arte da capa do disco. O single com dois lados A, trouxe uma música com alusão as drogas como "Day Tripper". Estes lançamentos repetiram o colossal sucesso que o grupo vinha mantendo desde 1963, indo aos primeiros lugares nos Estados Unidos e Inglaterra e vendendo, segundo estimativas, cinco milhões do álbum e quatro milhões do compacto.

No mesmo dia dos lançamentos fonográficos, os Beatles começaram uma turnê pela Grã Bretanha, em Glasgow, na Escócia, que seguiu até o dia doze, passando por nove cidades. Em um desses concertos, em Manchester, eles foram visitados pelo produtor de seus filmes, Walter Shenson, onde discutiram sobre o terceiro longa-metragem do grupo para 1966, cuja idéia inicial foi um roteiro de "A Talent For Loving" de Richard Condon, já comprado pelo empresário Brain Epstein..

Longas férias

Nos três primeiros meses de 1966, os Beatles, após desistirem da idéia de lançar um novo filme, foram curtir suas férias, que desta vez seriam maiores que de costume. Eles se divertiram em festas com os Rolling Stones Micky Jagger e Brain Jones, o músico Steve Winwood, os americanos P.J. Proby e a banda Herb Alpert & The Tijuana Brass. Além de comparecerem a estréia do filme "Alfie", estrelado pela atriz Jane Asher, namorada de Paul. Eles também foram platéia para artistas em excursão pela Inglaterra, como os americanos(1 a) Stevie Wonder, Roy Orbison, The Lovin'Spoonful e Bob Dylan, o músico indiano Ravi Shankar e o compositor italiano, pioneiro em musica eletrônica, Luciano Berio. Entre uma festa e outra eles viajavam para fins de semana no Caribe e na Suíça, o que acabou gerando a falta de John e Ringo no casamento de George, em 21 de janeiro, com a modelo Patricia Anne Boyd. George e Pattie embarcaram, em seguida, para uma lua de mel em Barbados, nas Bahamas.

Os jovens milionários também fizeram investimentos, que determinaram suas vidas por um longo período. John instalou um estúdio caseiro em sua mansão em Kenwood (2), onde passou os próximos meses fazendo uma série de experiências sonoras. George adquiriu um possante Ferrari (3), apurando seu gosto pela velocidade. Paul, finalmente, se mudou para sua casa em St. John's Wood (4), após meses de reforma, saindo da casa dos pais de Jane. Também comprou, em Kintyre (5), na Escócia, uma fazenda. Ringo investiu seu dinheiro em uma empresa de decoração e arquitetura chamada Brickley Building Company Ltd (6).

Enquanto isso, as notícias no império Beatle não poderiam ser melhores: Já no começo do ano, o grupo The Overlads, levou ao primeiro lugar na Inglaterra, uma interpretação da canção "Michelle"(do álbum "Rubber Soul"); Os Beatles obtiveram, naquele ano, dez indicações ao Grammy; o documentário "The Music of Lennon & McCartney" foi exibido no prestigiado Festival de Montreaux; John e Paul receberam encomendas de composições para os artistas da gravadora americana Motown e para o cantor Tony Benett; As músicas dos Beatles começaram a penetrar, com força, nas rádios da Polônia, apesar das restrições do regime político daquele país; O jornal inglês "The Sunday Times", em sua edição de 27 de março, anunciou que os Beatles haviam vendido, até então, a impressionante cifra de 159 milhões de discos em todo o mundo. Tal número foi somado ao novo single "Nowhere Man", lançado nos Estados Unidos, que rapidamente vendeu um milhão de cópias; A BBC1-TV transmitiu o antológico concerto dos Beatles no Shea Stadium, em Nova York, durante a turnê americana de 1965.

A capa do açougue


Aos poucos voltando ao trabalho, os Beatles tiveram seus primeiros compromissos oficiais com a imprensa no ano. Em março, eles concederam uma entrevista a jornalista Maureen Cleave, do jornal "London Evening Standart". John, que sempre destilou seu senso de humor com os repórteres, naquela entrevista, por estar diante da amiga jornalista, baixou a guarda e foi mais crítico ao declarar: "O cristianismo vai acabar. Vai se dissipar e depois sucumbir. Nem preciso discutir isso. Estou certo, e o tempo vai provar. Atualmente somos mais populares que Jesus Cristos" A declaração não causou polêmica na Inglaterra.

Depois os Beatles posaram para uma sessão com o fotografo Bob Whitaker, que muito influenciado por Salvador Dali, produziu fotos com matizes surrealistas como uma em que os Beatles estavam com jalecos brancos segurando bonecas despedaçadas junto a pedaços de carne. Uma das fotos foi escolhidas para figurar a capa do próximo álbum "Yesterday...and Today", só editado nos Estados Unidos, que ficou conhecido como a "capa do açougue".

O assessor de imprensa dos Beatles, Tony Barrow continuou seu trabalho e organizou em um estúdio em Chelsea, ao sudeste de Londres, mais sessões de fotos e entrevistas com jornalistas da Inglaterra, Índia, Canadá e do Brasil, com o conceituado Janos Lengyel. Húngaro, naturalizado brasileiro, Janos fez a primeira reportagem brasileira exclusiva com os Beatles para a antiga revista "Fatos e Fotos". Em sua entrevista Janos perguntou a John se o grupo não temia a concorrência. Ele respondeu: "Não, porque a gente faz o melhor que pode e todos têm o direito de querer aparecer. Nós tivemos nossa oportunidade e soubemos aproveita-la. Por que outros não hão de fazer o mesmo?"

Mas parecia que ninguém fazia como os Beatles. George em uma entrevista falou: "Nós nunca ensaiamos nada, não como os outros grupos". Mesmo em um cenário muito fértil na música pop dos anos 60, eles continuavam a ser o máximo. E enquanto iniciavam as gravações do novo álbum, os Beatles fizeram o que seria seu último concerto na Inglaterra, em primeiro de maio, no NME Poll Winners, onde receberam os três principais prêmios do New Musical Express. Os Beatles fecharam a noite no Wembley Stadium, após apresentações do Herman's Hermits, The Rolling Stones, The Who, The Yardbirds entre outros.

Os Beatles, em quatorze de junho, fizeram, sua única e última, apresentação ao vivo no programa de TV inglês "Top of The Pops". Porém não mais dispostos a fazer aparições em programas de televisão, o grupo inovou ao contratar o diretor Michael Lindsay-Hoog(7) para filmar, em cores, dois filmes promocionais para o novo single "Paperback Writer"/"Rain", enviando depois os video-clipes para as estações de TV mundo afora. Lançado em 30 de maio, o single "Paperback Writer" foi ao primeiro lugar em treze paises! O primeiro produto Beatle de 1966, tinha um complexo arranjo vocal e instrumental em "Paperback Writer" e uma letra de estrutura psicodélica em "Rain"(8). Em seguida, foi lançado, somente Estados Unidos, o álbum "Yesterday...and Today", que ficou cinco semanas em primeiro lugar e vendeu um milhão e meio de discos.

O álbum foi mais um lançamento da gravadora Capitol, apenas para o mercado norte-americano, que de 1964 a 1966, transformou os sete álbuns oficiais da banda em onze (contando com "A Hard Day's Night" lançado pela United Artists, na América). "Yesterday...and Today" abarcou os recentes singles, algumas canções dos originais "Help!", "Rubber Soul" e do ainda do inédito "Revolver". O disco que foi lançado com a "capa do açougue" gerou muita polêmica nos Estados Unidos, pois muitos alegaram mau gosto ou atribuíram a foto a uma mensagem cifrada contra a Guerra do Vietnam ou uma crítica ao desmembramento dos álbuns originais dos Beatles na América. A Capitol teve que, em regime de urgência, recolher os discos e substituir as 750 mil capas já prensadas, o que causou prejuízos a gravadora. Hoje as poucas cópias originais de "Yesterday...and Today" são muito disputadas por colecionadores.

A turnê mundial


Após os problemas com a capa do disco americano, Os Beatles iniciaram sua turnê mundial de 1966 por cinco países (Alemanha, Japão, Filipinas, Estados Unidos e Canadá) . Seu repertório foi: "Rock'n'Roll Music", "She's a Woman", 'If I Needed Someone", "Day Tripper", "Baby's In Black", "I Feel Fine", "Yesterday", "I Wanna Be Your Man", "Nowhere Man", "Paperback Writer" e "I'm Down"(as vezes substituída por "Long Tall Sally").

Em 24 de junho, na Alemanha, eles fizeram um concerto, no Circus-Krone-Bau, em Munique, aberto pela dupla Peter & Gordon. O show foi filmado pela TV alemã ZDF. Na manhã seguinte, os Beatles seguiram a bordo do "Trem Real" (usado antes somente pela Rainha da Inglaterra) para a cidade de Elsen, onde fizeram dois concertos. Em 26 de junho, eles chegaram a Hamburgo, cidade em que eles se aperfeiçoaram como profissionais, no início da década, e desde então não haviam mais voltado. Além dos dois concertos no Ernst Merck Halle, esta foi uma estada sentimental. Após os shows, eles voltaram ao bairro boêmio de Reeperbahn, e reencontraram antigos amigos como Bert Kaempfert, o produtor de seu primeiro disco, quando eles eram apenas uma banda de apoio para o cantor Tony Sheridan. Ainda em Hamburgo, John visitou a amiga fotografa Astrid Kircherr, que lhe entregou várias cartas do ex-noivo Stuart Sutcliffe (9), amigo de John e integrante dos Beatles, falecido em 1962.

Após a turnê alemã, os Beatles voltaram a Londres para logo embarcarem no vôo inaugural da Japanese Airlines para Tóquio, dando continuidade a turnê mundial do grupo. Em virtude do mau tempo, o avião pousou em Anchorage, no Alaska, onde eles passaram a noite. No Alaska, os Beatles ficaram hospedados no hotel "Top of The World", de onde um DJ local fez com eles um rápido city tour. No dia seguinte eles chegaram no Aeroporto Haneda, e seguiram para o Tokyo Hilton, onde ocuparam a Suíte Presidencial. Um forte esquema de segurança, feito pelo exercito japonês com 30 mil homens, foi posto de prontidão, em virtude dos protestos da extrema direita nipônica, contraria aos concertos dos Beatles no Nippon Budokan Hall. Eles alegavam ser um sacrilégio, uma banda de rock'n'roll tocar em um lugar destinado as artes marciais. Apesar disso, os dois concertos dos Beatles foram um grande sucesso, transmitido pela TV japonesa, em cores. O grupo rumou, via Hong Kong, para as Filipinas.

Na capital Manilha, 50 mil fãs se aglomeravam no aeroporto. Os Beatles sempre recebendo tratamento digno de chefes de estado onde quer que fossem, estranharam a recepção nas Filipinas, que estava sob a ditadura de Ferdinando Marcos. O grupo foi conduzido para fora do avião pela rude policia militar filipina e separados de seu empresário Brain Epstein. A polícia apreendeu a bagagem do grupo, que continha maconha, o que provocou problemas com as autoridades locais. Os Beatles foram mantidos sob custódia da polícia, fortemente armada, em um barco na Baia de Manilha. De lá, dois batalhões militares os conduziram para um navio da marinha, e depois foram levados para uma festa no iate particular do milionário filipino Don Manolo Elizalde, onde foram exibidos para amigos do "anfitrião". Somente às quatro horas da manhã, Brain Epstein obteve controle da situação e finalmente os levou para o Hotel Manila.

No dia seguinte, os Beatles exaustos por terem ido dormir muito tarde, deram dois concertos no Rizal Memorial Football Stadium, superlotado. Após os shows, a primeira-dama Imelda Marcos, tinha organizado uma recepção no Palácio Malacanang, para 300 filhos de oficiais de alta patente do exercito filipino, para apresenta-los ao grupo. Brain Epstein e os Beatles não sabiam nada a respeito da cerimônia, e após os concertos voltaram ao hotel para descansar e se recusaram a participar de qualquer compromisso social. O não comparecimento dos Beatles a recepção no palácio presidencial foi considerado uma falta grave com perigosas conseqüências.

Na manhã seguinte as manchetes dos jornais filipinos estampavam que os Beatles esnobaram a Madame Marcos, e em conseqüência o grupo e sua entourage foram levados as pressas para o aeroporto, onde foram rivalizados no caminho por populares, agredidos pelos militares e tiveram toda a renda do concerto confiscada pelas autoridades filipinas, além de suas bagagens terem ido parar na Suécia!. O grupo, naturalmente, saiu com uma péssima impressão do país, e o incidente ganhou repercussão internacional, tanto que o grupo britânico Freddie & The Dreamers, cancelou imediatamente os concertos que fariam nas Filipinas, em protesto ao tratamento que os Beatles receberam lá. De Manilha, o vôo 862, da KLM, levou os Beatles para Nova Deli, na Índia, onde o grupo esperava ter três dias de paz e descanso. Porém já no aeroporto 600 fãs o aguardavam histericamente.

Anos depois, sobre o incidente nas Filipinas, Paul declarou: "Quando soubemos quem era Marcos e o que ele e Imelda andavam fazendo ao seu povo e a farsa que era tudo aquilo. Ficamos contentes por não termos comparecido aquela recepção. Fomos as únicas pessoas que se atreveram a desconsiderar Marcos."

Somos mais populares que Jesus Cristo


De volta a Inglaterra, um país eufórico pela conquista da Copa do Mundo de Futebol de 1966, os Beatles voltavam a receber as boas novas como os três troféus Ivor Novello (premiação máxima da musica inglesa) para "We Can Work It Out" e "Help!" como o primeiro e o segundo compacto mais vendido na Inglaterra em 1965, e por "Yesterday" a canção mais executada do ano. As canções de Lennon e McCartney, em 1966, continuavam a receber interpretações de diversos artistas como Connie Francis, Johnny Mathis, Bob Goldsboro, Cliff Richard, David McCallum, as duplas Jan and Dean e Peter and Gordon entre outros. Mas da América as noticias eram preocupantes. A revista "Datebook" divulgou a entrevista que John Lennon concedeu a Maureen Cleave, destacando, fora do contexto a frase "Somos mais populares que Jesus".

A matéria provocou uma imediata reação de fundamentalistas cristãos. Um radialista, na cidade de Birmingham, (que fazia parte de uma região conhecida como o cinturão da Bíblia) no estado do Alabama, organizou um boicote a execução das músicas do Beatles, e um ato onde os discos do grupo foram queimados em uma grande fogueira. Logo trinta estações de rádio americanas se recusaram a tocar musicas dos Beatles. Na África do Sul (10), onde os Beatles haviam recentemente recusado uma oferta para um concerto, baniu as músicas do grupo de suas estações de rádio por cinco anos. Mesmo na Europa, onde as conseqüências foram bem menores, os Beatles foram criticados pelo governo fascista do General Francisco Franco, na Espanha e o Papa Paulo VI, declarou via o jornal do Vaticano "L'osservatore Romano": "Alguns assuntos não devem ser tratados de forma profana, mesmo no mundo dos beatniks"

Brain Epstein, apesar de estar saindo de uma febre muito alta, embarcou para os Estados Unidos, a fim de tentar contornar os problemas criados pela declaração de John. O grupo estava recebendo ameaças de morte, a Klu Klux Klam condenou os Beatles por blasfêmia e ameaçou fazer atos terroristas nos concertos da banda, em sua excursão americana que começaria no dia doze de agosto. Mal Evans, o roadie dos Beatles, achou que não iria sobreviver naquela turnê.

Revolver


Tudo aconteceu às vésperas do lançamento do álbum "Revolver"(11), considerado um dos melhores do grupo. Como os Beatles não chegaram a um acordo em relação seu ao terceiro longa-metragem, ao invés de filmar, eles passaram de abril a junho no estúdio Três, da EMI, em Abbey Road, nas sessões de gravação. Um tempo muito longo para época, mas que revelou os Beatles, no topo de sua criatividade. Com letras sofisticadas e um som experimental. "Revolver" foi o divisor de águas entre a fase de turnês e dos "anos de estúdio", e quebrou uma regra mercadológica que o grupo mantinha desde 1963, lançando dois álbuns e três singles por ano. Também marcou o fim das diferenças entre os álbuns lançados na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na capa do disco, pela primeira vez, não tinha uma foto do grupo e sim uma colagem, em preto e branco, de fotos entre desenhos dos rostos dos Beatles. O trabalho gráfico foi realizado pelo antigo amigo dos tempos de Hamburgo, o alemão Klaus Voormann.

O título "Revolver" nada tem a ver com armas e sim com o movimento do disco rodando, no caso o vinil, no prato do toca-disco. Foi o nome escolhido entre vários como: "Abracadabra", "Magic Circle", "Beatles on Safari", "Freewheelin'Beatles", "Bubble and Squeak", "Four Sides of Circle" e "After Geography". O álbum, produzido por George Martin e com a engenharia de som de Geoff Emerick, revelou as preferências individuais de cada Beatle e pela primeira vez, George tinha três canções em um álbum.

"Revolver" abre com a faixa 'Taxman", um grande sucesso radiofônico de George, que protesta contra os altos impostos cobrados pelo governo inglês. "Eleanor Rigby"(12) é uma crítica social sobre a solidão, com um som próximo da música clássica, com Paul no vocal, acompanhado de dois violinos, duas violas e dois violoncelos. Em "I'm Only Sleeping", temos uma interpretação propositalmente letárgica de John, com um solo de guitarra de traz para frente. A influência indiana sobre George é ouvida em "Love You To", que teve como convidado o músico indiano Amil Bhagwat, tocando tabla. A romântica balada "Here There and Everywhere" foi uma das favoritas de John, que segundo Paul foi inspirada no álbum "Pet Sounds" dos Beach Boys. Ringo foi o vocalista perfeito para a canção infantil "Yellow Submarine"(13), com muito efeitos sonoros.

Inspirado em uma conversa com o ator americano Peter Fonda, John compôs "She Said She Said" sobre uma "viagem" de LSD. "Good Day Sunshine" é uma homenagem ao som de Nova Orleans dos anos 30. Apesar de John, nunca ter apreciado "And Your Bird Can Sing" (14), esta é considerada, musicalmente, um dos pontos altos do disco. O ritmo dançante da canção anterior é contrabalançado pela suavidade melódica de "For No One", que traz um solo do corneteiro Alan Civil, da Filarmônica de Londres. O cinismo é a marca de "Doctor Robert", um pseudônimo para um "doutor" nova-iorquino que arranjava vários tipos de droga para as estrelas do rock. "I Want To Tell You", pela sua soberba harmonia, colocou George, no patamar dos grandes compositores. Paul revelou, anos depois, que "Got To Get Into My Life"(13), não foi composta para uma pessoa e sim, foi uma ode a maconha. Musicalmente, a canção foi uma influência da soul music americana, que traz um vigoroso arranjo de metais. E finalizando o disco, uma canção que sintetiza a fase em que os Beatles passavam: "Tomorrow Never Knows", inspirada no "O Livro Tibetano dos Mortos", a letra também faz referencias as primeiras experiências dos Beatles com o ácido lisérgico e seu arranjo é repleta de experimentalismos sonoros e traz George tocando uma citará indiana. O crítico de música americano Dick Summer afirmou: "O álbum 'Revolver' definiu uma era e a música pop"

Lançado em cinco de agosto, o álbum, que já tinha um milhão de pedidos antecipados só na Inglaterra, foi um grande sucesso de vendas e ficou sete semanas em primeiro lugar na Grã Bretanha e seis nos Estados Unidos, onde ficou 77 semanas nas paradas e vendeu dois milhões e meio de cópias. O single extraído do álbum foi "Yellow Submarine"/ "Eleanor Rigby", que atingiu o primeiro lugar em nove paises. Quatro canções do álbum, receberam rapidamente interpretações de artistas como Cilla Black ("For No One"), The Tremeloes ("Good Day Sunshine"), The Fourmost ("Here There and Everywhere"), Cliff Bennett & The Rebel Rousers ("Got To Get Into My Life", que foi ao Top 10 inglês), entre outros.

Candlestick Park


Uma semana após o lançamento de "Revolver", os Beatles inciaram sua turnê pela América do Norte. Ao chegarem nos Estados Unidos, quase toda a imprensa americana estava esperando por eles, em Chicago (15), para questiona-los sobre a frase "Somos mais populares que Jesus". John, que se recusou a pedir desculpas, fez então a seguinte declaração: "Se eu tivesse dito que a televisão é mais popular que Jesus, teria me safado. Disse Beatles como algo remoto, não que eu penso, mas os Beatles na maneira como as outras pessoas os vêem. Só disse que eles estão tendo mais influência sobre a juventude do que qualquer coisa, inclusive Jesus. Eu não estava criticando, apenas expondo um fato. E é verdade mais para a Inglaterra do que para aqui. Não estou nos comparando a Jesus Cristo como pessoa, ou Deus como uma coisa ou seja lá o que for. Eu disse o que disse e fui mal interpretado e agora virou tudo isso."

Apesar da controvérsia religiosa, os Beatles eram elevados ao grau de divindades. Durante aquela turnê americana, mães levavam seus filhos com deficiência física a fim que os Beatles os curassem!

Contudo a turnê dos Beatles pela América do Norte, em 1966, foi a mais lucrativa de todas. Eles fizeram dezessete concertos em quatorze cidades, abertos pelo cantor Bob Hebb e pelo trio vocal feminino The Ronettes(16). Entretanto foi também a excursão mais tumultuada de todas. As festas em que os Beatles foram recebidos em Los Angeles, com a presença de membros dos Mamas and The Papas, The Beach Boys e The Birds, após o grande concerto no Dodger Stadium para 45 mil pessoas (com o grupo The Monkees na platéia), contrastou com os vários incidentes que aconteceram em outras cidades. No Shea Stadium, em Nova York, após terem o primeiro encontro com uma jovem fotografa especializada em retratar roqueiros, Linda Eastman(17), milhares de fãs invadiram a arena quando os Beatles tocaram "Day Tripper", mas foram contidos pelos policiais. A Klu Klux Klam ameaçou sabotar o concerto dos Beatles, no Mid South Coliseum, em Memphis com atos terroristas, mas a intimidação se transformou em um protesto fora do estádio. Já em St. Louis, a natureza que assustou, quando durante um concerto para 23 mil pessoas, no Busch Stadium, uma forte chuva, molhou os amplificadores, e deixou os organizadores muito apreensivos devido a possibilidade dos Beatles serem eletrocutados. Em uma entrevista em Toronto, John, continuou a gerar polêmica ao encorajar os jovens americanos a pedirem asilo político no Canadá para evitar a convocação para a Guerra do Vietnam(18).

Ao fim de uma conturbada turnê, os Beatles, sem divulgarem o fato, decidiram que davam seu último concerto ao vivo para 25 mil pessoas no Candlestick Park, em São Francisco. Curiosamente, eles concluiram o concerto com a canção "Long Tall Sally", a mesma em que fechavam os antigos shows antes da fama.

De volta a Inglaterra, George comentou: "Não sou mais um Beatle" O desabafo de George captou o senso comum dos outros Beatles, exaustos física e mentalmente. Foram três anos consecutivos de turnês, gravações, aparições em rádio e televisão, dois longas-metragens, além do trabalho de compor as canções. Musicalmente, nos concertos, a histeria era tão grande que eles não podiam ouvir o que estavam tocando, e, segundo os próprios, eles estavam se transformando em músicos ruins. Sobre o fim das turnês, George Martin, declarou: "Eles não estavam perdendo a criatividade musical. Pelo Contrario, estavam ficando cada vez mais produtivos. O trabalho que me apresentavam era cada vez mais interessante. Estavam descobrindo novas fronteiras o tempo todo. Mas em virtude da grande histeria, estavam tocando mal."

O cansaço, a grande histeria e os tumultuados acontecimentos daquela turnê, fizeram com que os Beatles, após cerca de 460 concertos por dezenove países, desde outubro de 1962, no auge de sua popularidade, parassem de se apresentar ao vivo, apesar das inúmeras propostas que eles continuaram a receber de todo o mundo.

Strawberry Fields Forever 

Ao retornarem a Londres, onde centenas de fãs os aguardavam no aeroporto, os Beatles "se separaram" pela primeira vez. Certamente eles continuariam a gravar, mas o que fazer sem as turnês? Gradualmente eles foram tomando diferentes direções. John cortou seus cabelos e passou a adotar uns óculos redondos(19) para atuar como o recruta Gripweed no filme "How I Won The War"(20), comédia antibelicosa sobre a Segunda Guerra Mundial, dirigida por Richard Lester e co-estrelada pelo ator Michael Crawford. John levou a esposa Cynthia e o filho Julian para as filmagens entre a Alemanha e a Espanha. George e Pattie foram para Índia(21), em uma temporada de quarenta dias. George não apenas estava se interessando pela musica indiana, mas também pela meditação transcendental. Ringo, que era o mais caseiro dos quatro, apesar de ter recebido uma proposta para um pequeno papel no próximo filme da série de James Bond "You Only Live Twice"(22), preferiu ficar em casa com a esposa Maureen e o filho Zak. A familia Ringo, somente saiu para visitar John, em seu set de filmagem, em Almeria, na Espanha onde permaneceram em uma palaciana casa de campo alugada para John. Paul, após passar um fim de semana em Paris com John (que estava de folga das filmagens), compôs a trilha sonora para o filme "The Family Way", e depois embarcou para o Quênia, na África, para um safári com sua noiva Jane.

Em novembro, os quatro Beatles estavam de volta às terras inglesas e sem mais os concertos, estavam a badalar pela "Swinging London", voltando a freqüentar os concertos de músicos americanos como Ben E. King(1b), The Four Tops e The Young Rascals. Foi também durante estes eventos que John conheceu a artista plástica japonesa Yoko Ono(23), em uma exposição chamada "Unfinished Paintings and Objects", na galeria Indica, em Londres.

O retorno às gravações do novo álbum começou em 24 de novembro, nos mesmos estúdios de Abbey Road, com o produtor George Martin e o engenheiro Geoff Emerick. A primeira concepção para o novo disco, foi tida por Paul, no vôo de volta da África. Era o primórdio do que seria o antológico álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"(24), onde o grupo assumiria seus alter egos em uma banda imaginária. Durante essas sessões os Beatles começaram a trabalhar nas novas composições "Strawberry Fields Forever", "When I'm Sixty-Four" e "Penny Lane". Eram canções sobre o passado em Liverpool e eram diferentes de tudo que eles vinham fazendo. Letras como "Living is easy with eyes closed" ("Viver é fácil com os olhos fechados"), em "Strawbery Fields Forever", uma leitura psicodélica da infância de John, contrastava com o realismo de "Penny Lane" ("Penny Lane tem um barbeiro exibindo suas fotografias"), sobre a meninice de Paul em sua cidade natal. "When I'm Sixty-Four", mostrava uma outra face dos Beatles, não psicodélica, e sim uma sátira carinhosa sobre a velhice. Os instrumentos usados pelos Beatles, já desde o álbum "Rubber Soul", vinham se ampliando da clássica formação de duas guitarras, baixo e bateria. Naquele momento o experimentalismo musical do grupo entrava em sua fase áurea. Para aquelas sessões de gravação, John trouxe um mellotron e um cravo, Ringo passou a usar a percussão, George adicionou instrumentos indianos e Paul se diversificou entre o bongo, tímpano, flauta e piano. George Martin sugeriu a inclusão de trompetes, clarinetas e violoncelos. O próximo álbum, que ali estava nascendo, prometia mudanças ainda mais radicais.

Enquanto iniciavam a fase que se chamaria "the studio years", pela primeira vez, não havia um lançamento inédito dos Beatles para o natal, além do flexi-disc "Pantomine: Everywhere It's Christmas", com suas mensagens de fim de ano, e que foi enviado somente para os membros do fã clube oficial da banda. Para preencher esta lacuna, a gravadora EMI, lançou a primeira coletânea de sucessos do grupo "A Collection of Beatles Oldies...But Goldies!", contendo todos os singles de sucesso do grupo de 1963 a 1966. Lançada na Inglaterra e no resto do mundo (menos nos Estados Unidos), o disco atingiu rapidamente o Top 10 britânico, e suas vendagens globais chegaram a um milhão de cópias, acompanhando as vendas natalinas. Para os fãs ingleses, além de algumas remixagens em estéreo, a coletânea apresentou a faixa inédita "Bad Boy", uma obscura composição do roqueiro dos anos 50, Larry Williams, regravada pelos Beatles, em dez de maio de 1965, especialmente para o mercado norte-americano (constando no álbum "Beatles VI", lançado em junho de 1965).

Feliz 67


Os Beatles continuavam juntos, não obstante os rumores de uma separação do grupo ocasionados pelo fim das turnês. Mas os quatro músicos estavam cultivando seus próprios interesses. Ringo recebeu a alegre noticia que sua esposa Maureen estava grávida de seu segundo bebê(25), e foi para Liverpool passar o natal com seus familiares. George, trajando roupas indianas, recepcionou Ravi Shankar (que trajava um terno ocidental!) em sua chegada a Londres e hospedou em sua casa em Esher, o cantor Donovan. Paul compareceu a premiere do longa-metragem "The Family Way", estrelado pela atriz inglesa Hayley Mills. A trilha sonora composta por ele e executada pela orquestra de George Martin (26), derivou o single "Love in The Open Air"(27), lançado simultaneamente ao filme (o álbum com a trilha sonora só chegaria as lojas em junho de 1967).

Paul também apareceu como produtor de uma banda de Liverpool, chamada The Escounts, no single "From Head to Toe". John, por sua vez, foi convidado especial no programa da BBC TV "Not Only...But Also"ao lado dos comediantes Peter Cook e Dudley Moore. John também se encontrou com a artista plástica Yoko Ono, pela segunda vez, na abertura de uma exposição. Percebendo o interesse de John pelo seu trabalho, Yoko o presenteou com uma cópia de seu livro "Grapfruit"(28), sobre arte conceitual. O tumultuado ano que chegava ao fim percebeu os Beatles completamente mudados. Eles haviam abolidos os ternos e passaram a trajar roupas coloridas, óculos não convencionais, longas costeletas, cabelos mais compridos e bigodes.

Em 31 de dezembro de 1966, George, Pattie, Brain Epstein(29) e Eric Clapton(30), foram barrados na porta da boate Annabel, em Londres, pois George estava sem gravata. O porteiro da boate chegou a lhe oferecer uma, mas ele recusou o favor e todos foram passar o reveillon no não tão requintado restaurante Lyon's Corner House, em Conventry Street. Sinal os tempos?!

Notas:

O ano de 1966 parece que marcou a vida dos quatro Beatles por muito tempo. Abaixo algumas evidências:

· (1 a) e (1 b) Os concertos dos artistas em turnê pela Inglaterra, em 1966, vistos pelos Beatles, inspiraram suas carreiras solo, anos depois: Ravi Shankar passou a acompanhar George em quase toda sua carreira solo. Em 1971, Ravi tocou no "Concert for Bangladesh". George produziu, respectivamente, em 1974 e 1997, os álbuns de Ravi Shankar "Shankar Family and Frinds" e "Chants Of India". Stevie Wonder participou do concerto "One To One" de John Lennon, em 1972, no Madison Square Garden, em Nova York. Em 1982, Stevie fez dueto com Paul McCartney no hit single "Ebony and Ivory". Paul também tocou no álbum "Time To Love", de Stevie Wonder, em 2005. A turnê inglesa de Bob Dylan em 1966, foi filmada para o documentário "Eat The Document", de DA Pennebaker com a participação de John Lennon. Bob Dylan compôs com George a canção "I'd Have You Anytime" para o álbum "All Things Must Pass". George se juntou a Roy Orbison, Bob Dylan, Tom Petty e Jeff Lynne e formaram o supergrupo Traveling Wilburrys, em 1988. Ben E. King foi o compositor de "Stand By Me", um grande sucesso de John, em 1975.

· (2) O estúdio caseiro que John construiu em sua casa em Kenwood foi gravado, em 1968, o álbum "Unfinished Music No. 1: Two Virgins", o primeiro disco de John e Yoko, repleto de experiências sonoras.

· (3) O possante Ferrari verde que George Harrison comprou em 1966, pode ter sido o início de seu gosto pela velocidade, que o fez ser um fã de Formula Um, a partir dos anos 70.

· (4) e (5) As propriedades que Paul McCartney adquiriu continuam com ele até hoje. Este ano um tablóide inglês divulgou que Paul possui 32 milhões de libras em imóveis. Sua casa em S. John's Wood, em Londres esta avaliada em 5 milhões de libras. A fazenda na Escócia, em Mull of Kintyre inspirou o grande sucesso homônimo dos Wings, em 1977.

· (6) O investimento de Ringo Starr na Brickley Building Company Ltd, uma empresa de arquitetura e decoração, evoluiu, em 1970, com a criação, em Londres da Ringo or Robin Ltd. Fundada em parceria com o designer Robin Cruikshank, a firma se especializou em criar design de movéis sofisticados. A Ringo or Robin Ltd., teve Elton John como um de seus clientes. A dupla abriu uma filial em Los Angeles em 1974, até fechar dois anos depois

· (7) O diretor Michael Lindsay-Hoog , que dirigiu os video-clipes de "Paperback Writer" e "Rain", dirigiu o último longa-metragem dos Beatles, o documentário "Let It Be". Michael também dirigiu o vídeo-clipe de "Mull of Kintyre" dos Wings, em 1977.

· (8) Em 1976, o cantor Todd Rundgreen gravou uma interpretação de "Rain"

· (9) Stuart Sutcliffe foi um grande amigo de John desde 1956, quando eram colegas em uma escola de arte em Liverpool. Em 1959, ele entrou para a banda de John, um ano depois batizada como The Beatles. Stuart foi o baixista dos Beatles, durante toda a estada do grupo, em Hamburgo, na Alemanha, onde eles tocavam horas a fio em boates baratas. Em 1961, ele saiu do grupo para se dedicar a pintura e se casou com a fotografa alemã Astrid Kircherr. Em 1962, Stuart Sutcliffe morreu vítima de um edema cerebral, aos 22 anos. Hoje seus quadros são expostos em exposições pelo mundo.

· (9) O regime da apartheid da África do Sul proibiu a execução das musicas dos Beatles, por cinco anos devido a declaração de John "Somos mais populares que Jesus". Após o fim da proibição em 1971, a The South Africa Broadcasting Company, liberou as canções dos Beatles e os trabalhos solo de Paul, George e Ringo, mas manteve o veto a John Lennon.

· (10) O álbum "Revolver" recebeu seis indicações ao Grammy, incluindo a de "Álbum do Ano", perdendo para "Sinatra: A Man and His Music" de Frank Sinatra. Mas venceu nas categorias "Melhor Performance Vocal Contemporânea" para Paul McCartney em "Eleanor Rigby" e "Melhor Capa de Disco" para Klaus Voormann. Na mesma cerimônia a dupla Lennon e McCartney recebeu um Grammy para "Musica do Ano" por "Michelle"(do álbum "Rubber Soul")

· (11) "Eleanor Rigby" se tornou uma das canções mais interpretadas da dupla Lennon e McCartney. Entre as mais notórias estão as de Ray Charles e Aretha Franklin.

· (12) "Yellow Bubmarine", outra canção do álbum "Revolver", inspirou um longa-metragem em desenho animado. Com o fim das turnês, no final de 1966, Brain Epstein voltou com a idéia de um terceiro filme em desenho animado, para não ocupar muito os Beatles, pois todos estavam viajando. Porém a idéia foi recusada pela United Artists. A concepção do filme só foi aprovada em 1967, e "Yellow Submarine" foi lançado em julho de1968. O filme foi a segunda maior bilheteria em desenhos-animados nos Estados Unidos em 1969, e recebeu uma menção especial no Festival de Cinema de Locarno, na Suíça.

· (13) Em 1976, dez anos após o lançamento de "Revolver", foi lançado nos Estados Unidos o single "Got To Get Into My Life" que foi ao Top 10 das paradas de sucesso da revista Billboard. O compacto foi uma promoção para coletânea dos Beatles "Rock'n'Roll Music", que também foi um grande sucesso.

· (14) A canção "And Your Bird Can Sing" pasou a abrir a terceira temporada da série de TV, "The Beatles", em desenho animado, dos Beatles, na ABC - TV, em 1967.

· (15) Pode se dizer que o primeiro "disco solo" de John Lennon foi "I Appologize", um vinil lançado e distribuído pelo correio, produzido pela Sterling Productions. O disco trouxe, na íntegra, a coletiva para imprensa de John, sobre sua frase "somos mais populares que Jesus", em Chicago, em onze de agosto de 1966.

· (16) O grupo vocal feminino The Ronettes, que abriu os concertos dos Beatles, em sua última turnê pelos Estados Unidos em 1966, tinha como produtor o lendário Phil Spector, que produziu "Let It Be", o último álbum dos Beatles, em 1970, e trabalhou nos primeiros álbuns solo de John e George, nos início dos anos 70.

· (17) A jovem fotografa Linda Eastman, que teve o primeiro encontro oficial com os Beatles, nos bastidores do concerto no Shea Stadium, em Nova York, se casou com Paul McCartney, em 1969. Eles tiveram três filhos e ficaram juntos até a morte de Linda, vítima de câncer, em 1998.

· (18) e (20) Os primeiros comentários de John Lennon sobre a Guerra do Vietnam durante a excursão americana de 1966, e sua participação no filme "How I Won The War" foram crescendo até desencadear em uma campanha mundial pela paz "War Is Over - If You Want ", iniciada em 1969 e que identificou John como um pacifista até hoje.

· (19) Os óculos de aros redondos que John usou para as filmagens de "How I Won The War", fizeram ele abandonar as lentes de contato e adota-lo em sua vida cotidiana. Os óculos redondos e se tornaram uma característica sua e ditou moda nos anos posteriores.

· (21) A viagem que George fez a Índia por 40 dias no final de 1966, onde estudou meditação transcendental, converteu George a ser um adepto da seita Hare Krishna, e fez com que George popularizasse a cultura indiana no mundo ocidental.

· (22) O convite que Ringo recusou para um pequeno papel em um filme da série James Bond, pode ter estimulado seu gosto pela sétima arte. Em 1968, ele fez uma participação ao lado de Marlon Brando no filme "Candy" de Christian Marquand, e até 1986, Ringo fez mais onze longas-metragens para o cinema e dois tele-filmes.

· (23) John, se divorciou de Cynthia e se casou com Yoko Ono, em 1969. A exceção de um período de dezoito meses, entre 1973 e 1975, eles ficaram juntos até a morte de John em oito de dezembro de 1980.

· (24) O álbum "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", que eles começaram a gravar em novembro de 1966, foi lançado em primeiro de junho de 1967, e é considerado o mais influênte álbum da história da música pop até hoje.O álbum recebeu quatro prêmios Grammy nas categorias "Álbum do Ano", "Melhor Álbum Contemporâneo", "Melhor Engenharia de Som", "Melhor Capa", além de mais três indicações. "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" vendeu, até hoje, mais de quinze milhões e cópias e ficou 27 semanas em primeiro lugar na Inglaterra e 15 nos Estados Unidos, onde permaneceu 168 semanas nas paradas de sucesso.

· (25) Jason Starkey, o Segundo filho de Ringo e Maurren, nasceu em dezenove de agosto de 1967.

· (26) Em 28 de novembro de 1966, foi lançado o álbum "The Beatles Girls", com várias versões instrumentais das músicas dos Beatles, com a George Martin and his Orchestra.

· (27) A canção "Love in The Open Air" tema do filme "The Family Way", composta por Paul McCartney recebeu um prêmio Ivor Novello na categoria "Melhor Tema Instrumental"

· (28) O livro "Grapefruit", que Yoko Ono presenteou John após seu segundo encontro, em 1966, foi uma das sugestões de John para batizar a gravadora Apple em 1968. O casal voltou a divulgar o livro em 1971.

· (29) O empresário dos Beatles, Brain Epstein, foi encontrado morto em sua casa em Londres, vítima de uma overdose, em 27 de agosto de 1967, enquanto os Beatles, estavam em uma conferencia com o Maharishi, em Bangor, no Pais de Gales. Alguns afirmaram que Brain pouco teve tinha a fazer com o grupo após o fim das turnês. Em vinte e três dias ele completaria 33 anos.

· (30) Eric Clapton acompanhou George Harrison em vários momentos de sua vida. Ele tocou no "Concerts For Bangladesh"(1971), no álbum "Cloud Nine"(1987) e na turnê de George pelo Japão, em 1991. Ele se casou com a ex-mulher de George, Pattie, em 1979. Eric Clapton foi o organizador de "Concert For George", em 2002.

Extras

· Canções lançadas em 1966 como "Eleanor Rigby", "Here There and Everywhere", "Paperback Writer", "I Want to Tell You", "Taxman" e "Yellow Submarine" compuseram o repertório de concertos solo de Paul, George e Ringo, a partir dos anos 90.

· "Revolver" foi último álbum a ter uma versão diferente nos Estados Unidos, na Inglaterra. Em 1966, os Beatles também lançaram os seus últimos EPs (extended players - compactos com quatro músicas). Após dez lançamentos em EPs, desde 1963, em março foi lançado o EP "Yesterday" com "Act Naturally", "You Like Me Tôo Much" e "It's Only Love". Em julho foi a vez de "Nowhere Man" com "Drive My Car", "Michelle" e "You Won't See Me".

· Paul teve um pequeno acidente de trânsito no primeiro semestre de 1966, mas sem consequencias graves. Não se sabe se inspirado nisto ou não, em doze outubro de 1969, Russ Gibbs, um locutor da WKNR-FM, de Detroit, nos Estados Unidos, começou a divulgar uma série de envidencias de que Paul teria morrido em 1966, em um acidente de carro, e substituido por um sosia. O boato conhecido como "Paul Is Dead", tomou tamanha proporção que Paul chegou a aparecer na capa da edição de sete de novembro de 1969, da revista americana "Life", em uma material intitulada "Paul continua entre nós" Em 2000, foi lançado o longa-metragem "Paul Is Dead", do alemão Hendrik Handloegten, sobre uma das maiores fofocas do século 20.

· Os Beatles realmente nunca mais se apresentaram ao vivo, comercialmente falando. Durante as filmagens de "Let It Be" eles tiveram várias idéias para um concerto, porém o que terminou acontecendo foi um show surpresa nos telhados da gravadora Apple, em Londres. O concerto durou 42 minutos e foi interrompido pela policia pois estava causando um grande engarrafamento nos arredores.

Por Sergio Farias