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sábado, 14 de janeiro de 2017

Magic Alex, amigo e funcionário dos Beatles, morre aos 74 anos

Alexis Mardas, mais conhecido no mundo beatlemaníaco como “Magic Alex” se tornou a primeira perda de 2017 no universo dos Beatles. Aos 74 anos, ele foi encontrado morto no seu apartamento. Segundo as várias notícias, inclusive da CNN Grécia, embora só tenha sido encontrado ontem, faleceu há vários dias, por causas naturais.

Magic Alex foi um dos personagens mais pitorescos na trajetória dos Beatles, especificamente na época da Apple Music. Foi apresentado a John Lennon por Brian Jones, dos Rolling Stones, mas também era muito amigo de John Dumbar, ex-marido de Marianne Faithful e grande amigo de Paul McCartney. Ou seja, era um cara “da turma”.

Seu conhecimento em eletrônica e sua simpatia o tornou logo um cara querido pelos Beatles, principalmente John Lennon, que ganhou do novo amigo grego vários presentes e o apelidou de “Magic Alex”. Aos poucos, foi ganhando a confiança de todos, o que lhe rendeu o cargo de diretor de um setor da empresa, chamado Apple Electronics. Com um laboratório de primeira à sua disposição, criou vários aparelhos exóticos, a maioria sem utilidade prática. Entre eles estavam alguns broches eletrônicos que faziam sons engraçados, um sol artificial usando raios laser e até uma cortina eletrônica que serviria para proteger os Beatles dos seus fãs!

Segundo consta, pelo menos uma das suas idéias poderia ter rendido milhões para os Beatles, caso tivessem se interessado o suficiente para patenteá-la: um telefone com discagem por reconhecimento de voz, que também exibia o número de quem chamava (muitos anos depois se transformaria no Bina, utilizado em todos os celulares conhecidos). A idéia foi negligenciada pelos não muito experientes empresários Beatles.

"Eu inventei muitos dispositivos eletrônicos, nenhum deles ligados à música dos Beatles", disse ele em 2010. “Vários não foram levados em consideração na época, embora a maioria deles seja de uso comum hoje em dia”. Ou seja, de certa forma, era um sujeito à frente do seu tempo. Porém, em sua principal missão, que era criar um estúdio multi-canais para os Beatles, ele fracassou, tendo criado não mais que uma sala com caixas de som espalhadas pelas quatro paredes – sem nem sequer lembrar de deixar aberto um buraco para a passagem dos fios entre o estúdio e a sala de produção.

Além de funcionário da Apple, se tornou um amigo dos mais próximos, a quem Lennon chamava de “meu novo guru”. Tinha tanta influência que conseguiu fazer os Beatles aceitarem a ideia de comprar uma ilha na Grécia. Eles chegaram até a ir visitar o local, mas desistiram por motivos políticos, fiscais e financeiros. Também consta que foi ele que “azedou” a relação dos Beatles com o Maharishi (provavelmente em uma disputa pelo título de “guru dos Beatles”), fazendo-os abreviarem sua estada na Índia. Naquele episódio em que John e Yoko foram flagrados na cama por Cynthia, Alex estava presente, levando a então Sra. Lennon para sua casa, onde ele a teria assediado.

Com a chegada do novo empresário dos Beatles, Allan Klein, vários setores da empresa foram extintos e muitos funcionários demitidos. Alex conseguiu se manter ainda por algum tempo, graças à proteção de John e Yoko, porém, em 1969 sua história com os Beatles foi finalmente rompida, demitido por Klein. E o Magic Alex sumiu da Apple e da vida pública. Voltou a morar na Grécia e durante muitos anos seu paradeiro foi desconhecido, reaparecendo só já no novo milênio, para algumas entrevistas. Sem dúvida, um personagem importante, muito interessante e que deu um certo tom de estranheza na já exótica história dos Beatles.







sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Morreu Allan Williams, o homem que deu os Beatles de presente pra Brian Epstein

2016 vai ficar marcado durante muito tempo ainda pela grande quantidade de mortes que aconteceram no meio artístico. O universo beatle não ficou imune: hoje, na véspera do fim de ano, foi anunciado o falecimento de uma importante figura: Allam Williams, aos 86 anos. Ele ficoi - se sempre será - conhecido como "the man who gave The Beatles away" (o homem que deu os Beatles), por ter cedido o contrato que tinha com os Beatles a Brian Epstein por um valor insignificante, em comparação com o que a banda renderia nos anos seguintes, até hoje.

Em 2001 Allan Williams revelou em entrevista que ainda se arrependia de ter vendido o contrato que tinha com a banda por 9 libras (que em valores atuais, daria cerca de 200 libras, menos de R$ 2 mil) a Brian Epstein, pouco antes deles decolarem. “Ainda perco o sono por não ter visto o potencial dos Beatles no início. Ninguém poderia ter imaginado The Beatles se tornaria tão famoso.”, disse.

Allan Williams foi o chefe dos Fab Four por três anos, antes de ter entregue a direção a Brian Epstein, em 1962, que os levou para gravar seu primeiro disco em um ano. Hoje com 81 anos de idade, Williams disse ao Daily Record que se desentendeu com a banda depois de terem deixado de pagar de volta £9, como parte de uma comissão de 15% pelos seus primeiros shows em Hamburgo.

“Naquela época havia 300 grupos em Liverpool, que eram tão bons ou melhores que os Beatles. E eu nem sequer receber minhas 9 libras”, disse o ex-empresário, que passou a beber depois que viu o grupo subir ao estrelado. “Eu me lembro de vê-los fazendo uma apresentação diante da Rainha, cerca de um ano mais tarde, e jogando uma almofada na TV”, explicou. “Mas eu já não tenho arrependimentos. Fico feliz de ter estado lá nos anos 60 no início de tudo”.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Capa do Sgt. Pepper é parodiada par mostrar astros e estrelas que faleceram em 2016

O ano de 2016 foi bastante severo em relação à morte de grandes artistas. Logo no início, em 10 de janeiro, David Bowie faleceu depois de deixar como testamento aos seus fãs, Blackstar, um álbum memorável. De lá para cá partiram Prince, em 21 de abril, Cauby Peixoto, em 15 de maio, Sharon Jones e Leonard Cohen, em 7 e 18 de novembro, respectivamente.

Para homenagear todas essas estrelas que partiram, um usuário do Twitter chamado Christhebarker recriou a capa do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, dos Beatles, colocando essas e outras figuras que morreram em 2016. Lemmy Kilmister, fundador da banda de rock inglesa Motörhead, que faleceu no final de 2015, também foi lembrado na homenagem. Bem como George Martin, produtor responsável pelo próprio Sgt. Pepper's, trabalho que lhe consagrou na história da música, morto em maio.

O internauta também fez questãoo de relembrar estrelas de Hollywood como Gene Wilder, intéprete de Willy Wonka na versão de A fantástica fábrica de chocolate, de 1971, e Alan Rickman, o Professor Snape da saga Harry Potter. Assim como estrelas do esporte, como o lutador Muhammad Ali, e figuras políticas, como Fidel Castro. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Uma narrativa emocionante sobre os últimos dias de George Harrison


Em 2001, o mundo foi forçado a suportar a partida de mais um Beatle. Duas décadas depois de John Lennon, era George Harrison que "despertava desse sonho" (nas palavras da viúva Olivia). Confira um trecho emocionante, que narra os últimos momentos de George, que selecionamos do espetacular livro A Batalha Pela Alma dos Beatles, de  Peter Doggett, lançado em 2009.

Ao longo de 2000, Harrison convalesceu, trabalhou esporadicamente em material para um novo álbum e supervisionou o relançamento do álbum All Things Must Pass. Foi incluído um arranjo retrabalhado de My Sweet Lord, omitindo cuidadosamente todos os elementos que tornaram o compacto original um trabalho tão comercial. Foi um gesto tipicamente intencional, irritante, mas estranhamente admirável, como a própria pessoa do guitarrista. Houve rumores de que os Harrisons sairiam de Friar Park, não obstante a casa em Maui ainda estar sob condições de litígio. Mais surreal foi a sugestão de que Neil Aspinall se aposentaria como diretor executivo da Apple, e Harrison assumiria o cargo – uma opção bizarra para uma celebridade notoriamente reclusa.

Logo transpareceu que não haveria tempo para mudanças, e restava apenas um pequeno e precioso tempo a ser vivido. Em março de 2001, Harrison passou por uma cirurgia para remover um tumor no pulmão. No mês seguinte, ficou sob os cuidados do Instituto de Oncologia do Sul da Suíça, passando uma temporada numa casa à beira de um lago próximo à fronteira com a Itália. Ele se encontrou com Paul McCartney brevemente, em Milão, algumas semanas depois, mas pela maior parte do tempo usufruiu da privacidade que sempre desejara, embora sabendo que a doença lhe sobrepujava pouco a pouco. Se o assassinato de John Lennon foi possivelmente a exposição mais nua e crua dos perigos de ser uma celebridade, os meses finais de Harrison foram, a seu modo, lembretes igualmente cruéis.

Última foto de Paul, Ringo e George juntos

Por uma ironia selvagem, ele, uma das figuras públicas mais relutantes em aceitar sua notoriedade, foi explorado não uma, mas duas vezes, por gente que se preocupou menos com o lado humano do que com a fama. Ele divulgou um comunicado, no início de julho de 2001, declarando que estava ‘se sentindo bem’ e se desculpando por quaisquer preocupações sentidas pelos fãs. Porém, duas semanas depois, o produtor dos Beatles, George Martin, foi amplamente citado como se tivesse virtualmente emitido uma sentença de morte: ‘Ele é um espírito indomável, mas sabe que vai morrer em breve, e está aceitando isso.’ Quando essa declaração apareceu na imprensa, um Martin chocado telefonou a Harrison para pedir desculpas e negar que tivesse feito aqueles comentários. E falou a verdade: suas palavras de fato tinham sido: ‘Ele foi resgatado várias vezes... Acho que ele espera ser resgatado novamente. E acho que vai. Mas ele sabe perfeitamente que há uma chance de não ser’. Este texto foi a seguir distorcido por uma série de editores até se transformar em algo mais sensacional. Harrison insistiu que estava ‘ativo e se sentindo muito bem’, mas a primeira reportagem foi a que ficou na mente das pessoas, mesmo depois de Richard Starkey visitar o amigo e anunciar que Harrison estava ‘bem’.

No início de outubro, Harrison entrou em estúdio pela última vez, para gravar uma canção chamada "Horse to Water" [Cavalo à água] com a banda de Jools Holland. ‘Ele não passou bem no início do ano,’ reconheceu Holland, ‘mas então pareceu muito, muito melhor. Pareceu forte, e sua voz soou realmente forte. Ele vai continuar a melhorar’. Ainda assim, a letra da canção de Harrison soava rude como a voz de um profeta do Velho Testamento confrontando, do leito de morte, os pecados de seu povo. Havia uma estrofe sobre ‘um amigo meu sofrendo tanto’, na qual dificilmente não se via o rosto assombrado de Paul McCartney em luto; outra sobre um alcoólico; uma terceira sobre um ‘pregador’ que ‘me alertou contra Satã’, ficando a inferência de que nenhum desses aparentes heróis conseguira encontrar a paz. Quando os direitos autorais da canção foram registrados, Harrison usou uma nova empresa editora: RIP Ltd, 2001. Foi um golpe final de humor negro.

Duas semanas depois da gravação, a saúde de Harrison declinou acentuadamente. Ciente de que a luta entrava nas semanas finais, ele renunciou ao cargo de diretor da Harrisongs em favor de sua esposa, que logo sucedeu o marido também no conselho da Apple. O câncer seguira um caminho comum, dos pulmões ao cérebro; Harrison ficou dolorosamente magro e sofreu as alucinações provocadas pelos analgésicos mais fortes. Ele cruzou o Atlântico para o período terminal, em busca de um tratamento experimental com radiação na clínica pioneira do Hospital da Universidade de Staten Island. Dali a alguns dias, recebeu uma visita de McCartney. Os dois homens, amigos por mais de 45 anos, mas tantas vezes divididos em consequência da fama, passaram as últimas horas juntos relembrando o passado em comum. ‘Nós rimos e brincamos, como se nada estivesse acontecendo. Fiquei impressionado com a força dele’, recordou McCartney posteriormente.

Uma equipe médica buscou focalizar doses de alta densidade de radiação no tumor cerebral de Harrison, para tentar lhe ganhar alguns meses a mais de vida. Porém, de acordo com uma queixa registrada alguns anos depois, um médico perdeu a compostura e rendeu-se aos apelos da fama de Harrison. Segundo declarou Olivia Harrison, em 2004, o médico levou seus filhos até a casa alugada pelos Harrisons, ‘onde [George] estava de cama e passava por grandes desconfortos’. Lá, o médico fez Harrison ouvir o filho tocar guitarra, e depois pediu-lhe que autografasse o instrumento do garoto. O debilitado músico recusou: ‘Eu nem sei se consigo mais soletrar meu nome’, disse ele. O médico teria dito: ‘Vamos lá, você consegue’, colocando uma caneta na mão de Harrison e ajudando-o a rabiscar o nome na guitarra.

Harrison abandonou o tratamento e voou para Los Angeles, para sessões mais convencionais de radioterapia. Durante o voo, ele estava tão fraco que quase morreu, mas agarrou-se à vida por mais duas semanas. Em 28 de novembro, no entanto, era óbvio que estava perto da morte, e seu velho amigo Ravi Shankar viajou a Los Angeles para visitá-lo. A filha de Shankar, Anoushka, recordou: ‘[George] tinha um olhar que eu nunca tinha visto antes, tão cheio de amor e paz. Ele não podia mais dizer nada com os lábios, mas seus olhos falavam por ele. Aquela casa estava tão cheia de amor’.

George e Olivia Harrison
No dia seguinte, George Harrison morreu às 13h30, na presença da esposa, do filho e de amigos devotos de Krishna. ‘George aspirava a deixar seu corpo de maneira consciente, essa era uma das metas da sua vida’, recordou a esposa. Seu amigo Mukanda Goswami disse simplesmente: ‘Ele era uma pessoa muito espiritual, que não tinha medo de morrer’. Partiu com o perfume do incenso nas narinas, enquanto os amigos cantavam louvores a Krishna. Seu corpo foi coberto com uma manta de seda amarela, e ungido com pétalas de rosas e água benta. A causa oficial da morte foi menos poética: ‘câncer metastático nas células do pulmão’ acompanhado de ‘carcinoma nas células escamosas da cabeça e do pescoço’.

Não houve nada semelhante ao choque gerado pela morte de Lennon 21 anos antes; apenas um profundo pesar por este homem complexo e determinado ter morrido com 58 anos de idade. Seu filho Dhani descreveu a natureza espiritual de Harrison: ‘Não havia nenhuma urgência para ele. Ocasionalmente ele ficava motivado, mas não porque sentisse que ia morrer. Ele nunca se sentou e sentiu pena de si mesmo. Não tinha mais nem medos nem preocupações quando morreu’. Harrison faria falta, disse Richard Starkey, por seu humor e generosidade de espírito. Paul McCartney, que ainda se lembrava de como uma única palavra mal colocada lhe causara problemas quando da morte de Lennon, pronunciou um tributo cuidadoso, mas sincero: ‘Estou arrasado e muito, muito triste. Ele era um cara adorável e um homem muito corajoso, e tinha um maravilhoso senso de humor. Ele é realmente o meu irmão caçula’. O corpo de Harrison foi cremado, e sua família levou as cinzas para Varanasi, na Índia, onde as águas sagradas do Ganges, do Yamuna e do Saraswati se encontram. Olivia Harrison proferiu um réquiem adequadamente espiritual: ‘Estamos profundamente tocados pelo extravasamento de amor e compaixão das pessoas ao redor do mundo. A beleza profunda do momento da passagem de George – de seu despertar deste sonho – não foi surpresa para aqueles de nós que sabiam como ele desejava estar com Deus. Nesta busca, ele foi incansável’. Numa repetição bizarra das repercussões após a morte de Linda McCartney, a mídia atentou para as discrepâncias na certidão de óbito de Harrison – criando um mistério de cinco dias que só foi resolvido ao revelarem o local verdadeiro do falecimento, uma casa nas colinas de Hollywood, arrendada por Paul McCartney (A certidão citava como lar de Harrison um endereço em Lugano, na Suíça, presumivelmente para efeitos fiscais).

Em janeiro de 2002, My Sweet Lord foi o compacto mais vendido na Grã-Bretanha, e Olivia Harrison preparou uma ação judicial contra um membro mais afastado da família, acusado de roubar pertences do marido e vendê-los no dia seguinte à morte dele. Em julho, ela realizou uma celebração particular da vida do músico, em Friar Park, com a presença de McCartney, Starkey e George Martin. E em 29 de novembro de 2002 – ‘fazendo um ano hoje’, como diziam os cartazes – ela organizou o Concerto Para George, no Royal Albert Hall, onde muitos dos amigos mais próximos apareceram para prestar-lhe uma homenagem musical. Dhani Harrison, arrepiantemente parecendo uma reencarnação do pai, como este era em 1963, permaneceu no palco durante todo o concerto.

Como confessou Eric Clapton, George Harrison provavelmente teria dito algo como: ‘Muito obrigado, mas eu realmente não queria isso’. Clapton acrescentou ironicamente que Harrison ‘colocaria um pouco de água no ponche... Ele podia ficar bastante contrariado’. Mas o Harrison a ser celebrado era o buscador espiritual, o mestre de sutis mudanças melódicas e profundo lirismo pessoal. Ambos os Beatles sobreviventes estavam lá. Starkey, quase roubando a cena no evento: ‘Eu amava George; George me amava’, declarou ele, cheio de confiança. Por seu turno, McCartney aparentava hesitação, e quase constrangimento – talvez intimidado por estar em companhia dos aliados mais próximos de Harrison. Ansioso para que não pensassem que buscava os holofotes, ele se apresentou com uma discrição não característica, embora com emoção claramente visível. Mas não seria difícil imaginar o cinismo de Harrison, quando McCartney conduziu a banda numa interpretação intensa de "All Things Must Pass" – uma das canções que os outros Beatles se recusaram a levar a sério em janeiro de 1969.

Sendo naturalmente uma ocasião comovente, o concerto apenas representou uma parte da personalidade de Harrison. ‘George era o homem mais engraçado que eu já conheci’, declarou sua viúva. ‘Quando ele morreu, foi como um “ah, acabou a festa”’. Com um humor astuto que seu marido teria saboreado, ela recordou: ‘Ele não tolerava nenhuma rabugise que não fosse a dele mesmo’. Nos anos seguintes, ela e Dhani supervisionariam os relançamentos dos álbuns de Harrison, e Dhani lançou sua própria carreira musical, além de assumir a função muito necessária de estabelecer conexões entre a Apple e o público do século XXI. ‘A descrição do meu trabalho é ser um entusiasta’, disse ele, aos 30 anos de idade, em 2009.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Datas de Falecimentos na história dos Beatles

Infelizmente, na história dos Beatles, o mundo teve que se despedir de personagens importantes - até mesmo antes da gravação do primeiro disco. Confira aqui as datas de falecimentos (e nascimentos) das várias pessoas que fizeram parte da mais bela história do mundo das artes na nossa civilização.

Alfred Lennon (Pai de John)
Nasc: 14/12/1912
Falecimento: 01/04/1976

Allan Richard Williams  (Ex-empresário dos Beatles)
Nasc: 17/03/1930
Falecimento: 30/12¹2016

Alma Cogan (Alma Angela Cohen, amiga dos Beatles)
Nasc: 19/05/1932
Falecimento: 26/10/1966

Andy White (Baterista de ‘Love me Do’)
Nasc: 27/06/1930
Falecimento: 09/11/2015

Billy Preston (William Everett Preston, músico)
Nasc: 09/09/1946
Falecimento: 06/06/2006

Brian Samuel Epstein (Empresário dos Beatles)
Nasc: 19/09/1934
Falecimento: 27/08/1967

Cynthia Powell (Esposa de John)
Nasc: 10/09/1939
Falecimento: 01/04/2015

Ed Sullivan (Apresentador de TV)
Nasc: 28/09/1901
Falecimento: 13/10/1974

John Lennon
Nasc: 09/08/1940
Falecimento: 08/12/1980

George Harrison
Nasc: 25/02/1943
Falecimento: 29/11/2001

George Martin (Produtor)
Nasc: 03/01/1926
Falecimento: 08/03/2016

Ivan Vaughan (Amigo dos Beatles)
Nasc: 18/06/1942
Falecimento: 18/08/1993

James “Jim” McCartney (Pai de Paul)
Nasc: 07/07/1902
Falecimento: 18/03/1976

Julia Stanley Lennon (Mãe de John)
Nasc: 12/03/1914
Falecimento: 15/07/1958

Linda McCartney (Esposa de Paul)
Nasc: 24/09/1941
Falecimento: 17/04/1998

Maharishi Mahesh Yogi (Guru)
Nasc: 12/01/1918
Falecimento: 05/02/2008

Mal Evans (Funcionário dos Beatles)
Nasc: 27/05/1935
Falecimento: 05/01/1976

Mary Elizabeth "Mimi" Smith 
Nasc: 24/04/1906
Falecimento: 06/12/1991

Mary Patricia McCartney (Mãe de Paul)
Nasc: 29/09/1909
Falecimento: 31/10/1956

Maureen Cox (Esposa de Ringo)
Nasc: 04/08/1946
Falecimento: 30/12/1994

Mike Smith (Decca Records)
Nasc: 30/04/1935
Falecimento: 03/12/2011

Neil Aspinall (Funcionário dos Beatles)
Nasc: 13/10/1941
Falecimento: 24/03/2008

Stuart Fergusson Victor Sutcliffe  (Ex-Beatle)
Nasc: 23/06/1940
Falecimento: 10/04/1962

Ravi Shankar (Músico)
Nasc: 07/04/1920
Falecimento: 11/12/2012


Beatlemania Nacional


Carlos Assale (Músico, empresário, colaborador do Portal Beatles Brasil)
Nasc: 27/03/1950
Falecimento: 31/08/2010

Marcus Rampazzo (músico)
Nasc: 15/07/1954
Falecimento: 29/03/2016

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Morre a atriz Theresa Saldana, do filme Febre de Juventude

A atriz americana Theresa Saldana, conhecida por sua participação no filme “Touro indomável” (1980) e na série “The Commish”, morreu nesta terça-feira (7) aos 61 anos, informou o jornal “Los Angeles Times”. A causa da morte não foi informada. Theresa ficou conhecida por sobreviver ao ataque de um fã obsessivo em 1982, que a golpeou com uma faca várias vezes em Los Angeles.

Nascida em 1954 em Nova York, a atriz participou de filmes como “Febre de Juventude” (1978), em que faz o papel de uma das garotas que viajam vários quilômetros de carro para ver os Beatles. No final, é barrada no programa Ed Sullivan, mas tem a sorte de dar uma carona para Paul, John, Ringo e George. Além de “Touro Indomável”, o longa de boxe dirigido por Martin Scorsese e estrelado por Robert De Niro. Theresa interpretava a esposa do personagem de Joe Pesci, irmão do protagonista.

Posteriormente, a atriz se dedicou à TV, onde participou de séries como “Carro comando”, “Matlock”, “Cagney & Lacey”, “Falcon Crest” e “MacGyver – Profissão: perigo”. Por “The commish”, foi indicada ao Globo de Ouro. Depois do ataque que sofreu, a Theresa fez campanha para conscientizar à sociedade sobre os riscos de assédio que as celebridades enfrentam.

sábado, 4 de junho de 2016

Paul, Ringo, Julian e Sean lamentam a morte de Muhammad Ali

O falecimento da lenda do Boxe Muhammad Ali sensibilizou celebridades de todos os lugares do mundo. Com os Beatles não foi diferente. Eles soltaram notas oficiais através das suas contas oficiais do Twitter.

Paul McCartney foi o que soltou a nota mais comprida e emocionada: “Querido Muhammad Ali. Eu amava esse homem. Ele foi grande desde o primeiro dia que nos encontramos com ele em Miame, e em inúmeras ocasiões em que eu fui até ele através dos anos. Além de ser um grande boxeador, foi um homem bonito, gentil e com senso de humor em que apresentava um grande pacote de cartas no bolso. Não importava em qual ocasião, ele sempre tinha uma carta epra você. O mundo perdeu um homem verdadeiramente grande. Com amor, Paul”.

Já Ringo Starr foi bem mais econômico, como de costume: “Deus abençoe Muhammad Ali. Paz e amor para a sua família”.

Os dois filhos de John Lennon também lamentaram a morte do ídolo. Julian Lennon: “Descanse em Paz Muhammad Ali.. o único… um campeão em muitos níveis. Mando meu coração e orações para a família e amigos”.  Já Sean Lennon foi o mais econômico, com um “RIP Muhammad Ali”.

domingo, 15 de maio de 2016

Morreu Tony Barrow, assessor de imprensa dos Beatles


Você costuma chamar os Beatles de “Fab Four”? Faleceu neste sábado, aos 80 anos, o homem que criou essa expressão. Tony Barrow era acessor de imprensa da NEMS Enterprises, empresa de Brian Epstein, e cuidava dos press releases dos artistas contratados, principalmente, claro, os Beatles.

Barrow nasceu em Crowby, Inglaterra, em 1936 e ainda muito jovem passou a trabalhar como assessor de imprensa na gravadora Decca (ironicamente, a que rejeitou os Beatles), escrevendo resumos sobre os artistas nas contracapas dos seus discos. Em 1962 foi contratado por Brian para a mesma função, cargo em que trabalhou até 1968.

Na sua vida pós-Beatles, Barrow continuou atuando na industria fonográfica, divulgando diversos artistas, incluindo The Kinks, The Bay City Rollers, The New Seekers, Bob Monkhouse, David Cassidy, Gladys Knight, David Soul, The Monkees, Tony Bennett, the Jackson Five, Andy Williams e Neil Sedaka. Sobre os Beatles, lançou dois livros: The Making of the Beatles’ Magical Mystery Tour (1999) e John, Paul, George, Ringo and Me: The Real Beatles Story (2006).

segunda-feira, 3 de dezembro de 2001

George Harrison deixa álbum gravado em segredo

O Beatle George Harrison estava gravando um último álbum em segredo nos meses que antecederam à sua morte, disse a mídia britânica no domingo. O jornal The Sunday Times informou que Harrison fez sua família ouvir faixas do álbum no domingo passado, num hospital em Los Angeles, quatro dias antes de sua morte por câncer aos 58 anos.

O Beatle teria dado ao álbum o título temporário de "Portrait of a Leg End'', que seria uma referência jocosa a sua relação complicada com a fama. Ainda segundo o jornal, Harrison teria trabalhado sobre 25 faixas inéditas num estúdio montado em sua mansão na zona rural inglesa. "Algumas das canções novas são muito comoventes e falam de sua vida nos últimos anos'', teria afirmado o músico californiano Jim Keltner, que tocou bateria em algumas das faixas, segundo o Sunday Times. "O CD estava muito perto de ficar pronto.''

O tablóide Sunday Express disse que a mulher de Harrison, Olivia, vai decidir se o álbum será lançado e quando, já que George Harrison não tinha contrato com nenhuma gravadora. Ele gravou uma de suas últimas canções, "Horse to Water'', no dia 1º de outubro, ao lado de seu filho, Dhani, para uma compilação que será lançada pelo músico britânico Jools Holland. A canção contém referências à luta física e espiritual de Harrison contra o câncer.

Enquanto isso, políticos britânicos estão pedindo que Harrison receba uma condecoração póstuma com o título de cavaleiro, informou o Sunday Express. A iniciativa exigiria uma mudança no sistema britânico de títulos honorários, pelo qual apenas militares podem receber o título "sir'' após sua morte.

"Considerando o tipo de pessoa que anda sendo condecorado como cavaleiro, como deixar de dar o título ao homem que compôs 'Here Comes the Sun'?'', teria dito o deputado conservador (oposicionista) Boris Johnson, segundo o Sunday Express.

domingo, 2 de dezembro de 2001

Beatles: Sua Mística Viagem Mágica

Ocorrida neste período de perdas, a morte de George Harrison nos faz recordar que apesar de os Beatles serem mortais, a sabedoria deles ainda nos toca.

Ele foi o beatle calado apenas por estar ao lado de duas enormes personalidades extrovertidas e à frente de um sujeito que tocava bateria. Ele tinha muitas opiniões fortes - sobre a beatlemania, sobre a pobreza mundial, sobre seu direito à privacidade, sobre Deus - e as expressou de forma firme. Mas George Harrison certamente foi o beatle mais relutante, desejando sair quase ao mesmo tempo em que entrou. Várias vezes ele disse que sua maior sorte foi entrar para a banda e a segunda maior foi sair dela. Certa vez ele disse: "Ser um beatle foi um pesadelo, uma história de horror. Eu nem mesmo gosto de pensar nisso". Ele realmente nunca pareceu à vontade naquele terno e corte de cabelo, nem mesmo no divertido "Os Reis do Ié, Ié, Ié" (A Hard Day's Night), e nisto talvez ele tenha sido o beatle mais honesto, o menos convincente quando usava uma máscara. O comentário padrão é que George Harrison era um enigma, mas talvez ele fosse transparente: um guitarrista excelente, um ótimo compositor, um prodígio, um buscador e, acima de tudo, uma celebridade que odiava e temia a celebridade.

Harrison morreu na semana passada na casa de um amigo em Los Angeles aos 58 anos, perdendo sua última batalha contra o câncer. Em 1997 ele teve um tumor canceroso removido de sua garganta; no início deste ano ele foi operado de um câncer encontrado no pulmão e subseqüentemente recebeu tratamento para combater um tumor no cérebro, incluindo uma forma controversa de terapia de radiação no Hospital da Universidade de Staten Island em Nova York. "George era muito diferente de muitas pessoas que vêm aqui, pois ele não temia a morte", disse Gil Lederman, um de seus médicos. "Para ele, vida e morte faziam parte do mesmo processo". A morte de Harrison deixa apenas Paul McCartney e Ringo Starr como integrantes sobreviventes do "Fab Four"; John Lennon foi assassinado em Nova York em 1980.

Olivia, a mulher de Harrison, e o filho Dhani, de 23 anos, estavam ao lado dele no momento de sua morte, e, à medida que a notícia era divulgada, Harrison foi lamentado e elogiado por multidões que se reuniram do lado de fora dos estúdios Abbey Road, em Londres, e em Strawberry Fields, a área no Central Park em Manhattan do outro lado da rua onde Lennon foi morto, e por seus ex-companheiros de banda. "Ele era um sujeito maravilhoso. Ele era como um irmão caçula para mim", disse sir Paul, que perdeu sua mulher, Linda, para o câncer de mama em 1998. Ringo Starr, o melhor amigo de Harrison na banda, disse: "Nós sentiremos falta de George pelo seu senso de amor, seu senso musical, e senso de humor".

Tais louvores para George Harrison, que nasceu filho de um motorista de ônibus de Liverpool durante os dias mais sombrios da Segunda Guerra Mundial, estão de acordo com os tipos de milagres que os Beatles fizeram para si mesmos. A mais famosa das manobras do destino ligadas aos Beatles envolve um passeio de Paul McCartney a um festival de verão na Igreja de São Pedro, no distrito de Woolton, em Liverpool, em um dia quente de 1957, no qual se impressionou com uma banda de skiffle chamada Quarrymen. Por acaso Paul tinha trazido sua guitarra, com a qual também impressionou o líder da banda, um rapaz convencido chamado John Lennon, com interpretações roucas de canções de Eddie Cochran e Little Richard. Esse foi o grande momento cósmico, mas na história dos Beatles há um acontecimento anterior. Ele ocorreu em 1955. George Harrison, na época com apenas 12 anos, era um estudante pobre que viajava diariamente no ônibus de seu pai, indo da casa de sua família em Speke até o Liverpool Institute. Certo dia ele começou a conversar com um menino que estava um ano adiante na escola, o filho de um vendedor de algodão de Allerton. Paul McCartney era tão apaixonado por guitarras e astros do rockabilly americano quanto Harrison, e logo ele se juntaria ao jovem George para praticar à noite suas versões de "Don't You Rock Me Daddy-O" e "Besame Mucho".

Deixando de lado as muitas transformações pelas quais passaram os Quarrymen no final dos anos 1950 - os Moondogs, os Silver Beatles, e o número interminável de bateristas - nós chegamos ao Reeperbahn, o famoso distrito de cabarés de Hamburgo, Alemanha, no início dos anos 1960, com uma banda cuja linha de frente era Lennon-McCartney-Harrison porque Lennon, em sua sabedoria, optou por abrir mão de seu predomínio para formar o grupo mais forte. Uma forma de encarar os Beatles no início é como uma das mais toscas, rudes e melhores bandas punk de todos os tempos, ganhando entrosamento e aperfeiçoando seu som noite após noite, durante apresentações que podiam durar oito horas. "Nós espumávamos pela boca", lembrou Harrison em "The Beatles - Antologia", um álbum de fotos e recordações publicado no ano passado, "porque nós tínhamos que tocar todas aquelas horas e os donos dos clubes nos davam preludins, que eram pequenos tabletes. Eu não acho que eram anfetaminas, mas eram estimulantes. Assim costumávamos estar lá em cima espumando, mandando ver". Em muitas ocasiões ele disse que os melhores shows dos Beatles ocorreram nos clubes de Hamburgo.

Harrison era o bebê da banda, e se a dinâmica interna dos Beatles fosse diferente, sua idade poderia ter lhe custado seu lugar na história. Durante a primeira temporada de cinco meses na Alemanha, as autoridades descobriram que Harrison, então com 17 anos, era jovem demais para trabalhar nos clubes noturnos de Reeperbahn. Elas o deportaram. Guitarristas podem ser substituídos, mas na época McCartney e Lennon gostavam de proteger o irmãozinho deles - os Beatles era uma família unida tanto quanto uma banda de rock - e poucas semanas depois os rapazes estavam novamente tocando juntos na Inglaterra. Soando melhores do que nunca, e muito melhores do que qualquer outra banda de Liverpool, os Beatles se tornaram lendas locais pelos shows que realizaram no Cavern Club. Eles conseguiram um contrato de gravação, substituíram seu baterista pelo talentoso Ringo Starr e tomaram o rumo do sucesso.

Mas para Harrison, muito mais rapidamente do que para os outros, a magia do momento tremeluziu e desapareceu. "A princípio todos nós pensávamos que queríamos a fama e tudo mais", disse ele em 1988. "Pouco depois nós percebemos que a fama não era exatamente o que estávamos buscando, mas sim os frutos dela. Após a empolgação inicial ter passado, eu fiquei deprimido. Isto é tudo o que procuramos na vida? Sermos perseguidos por uma multidão de lunáticos de um quarto de hotel ruim para outro?"

Durante a grande conquista da América pelos Beatles em 1964, quando a primeira aparição deles no programa The Ed Sullivan Show atraiu impressionantes 73 milhões de espectadores e os transformou em fenômenos da noite para o dia, Harrison passou seus dias isolado no Plaza Hotel, com febre alta, enquanto os outros três integrantes do quarteto desfilavam pela cidade, surpreendendo a imprensa mundial com sua vitalidade e sagacidade. Então seguiram para Washington para o concerto no Coliseum diante de mais de 7 mil fãs que não paravam de gritar. "Foi horroroso", Harrison contou para o biógrafo Geoffrey Giuliano. "Algum jornalista aparentemente desenterrou uma antiga citação de John de que eu gostava de "jelly babies" (doces em forma de bebês) e escreveu em sua coluna. Naquele noite nós fomos absolutamente apedrejados... Imagine ondas de balas duras chovendo sobre você. A toda hora uma atingia uma corda da minha guitarra, fazendo soar uma nota ruim enquanto eu tentava tocar. Dali em diante, para onde quer que fôssemos era exatamente a mesma coisa".

Os ídolos da guitarra de Harrison incluíam não apenas o roqueiro Carl Perkins, mas também Andrés Segóvia, e ele se esforçou muito para dominar uma técnica complexa, precisa (suas experiências posteriores com guitarras de 12 cordas, sem contar a cítara, seriam enormemente influentes no rock). Só que naquele momento os freqüentadores dos shows não podiam ouvi-lo, e pior, nem se importavam. Harrison, que fez 21 anos após aquela primeira e breve turnê americana, perguntou aos demais durante o vôo de volta para casa: "Que estúpido é tudo isto. Tanta confusão para preparar, apenas para terminar como pulgas amestradas".

Não demorou muito para os demais Beatles compartilharem sua opinião, e o último concerto público da banda ocorreu no Candlestick Park de San Francisco em 29 de agosto de 1966. (A cidade queria promover um desfile com o grupo, mas os rapazes disseram não à idéia. Eles estavam assustados com o empurra-empurra dos beatlemaníacos e pensaram não apenas no assassinato de John F. Kennedy, mas também nas ameaças de morte que os Beatles vinham recebendo após o recente comentário de Lennon, "nós somos mais populares que Jesus"). Com o fim das apresentações ao vivo, a banda, e Harrison em particular, passou a tratar de empreendimentos que considerava mais sérios. Seu casamento com Patti Boyd no início de 1966 alterou sua perspectiva, assim como o que ele chamou de "a experiência dental", que, segundo ele, "nos fez ver a vida sob uma luz diferente".

A experiência dental aconteceu em 1964. Os gerentes dos clubes de Hamburgo apresentaram os estimulantes para os Beatles, e Bob Dylan os fez se interessarem pela maconha. Mas em um jantar na casa do dentista de George em Londres, o anfitrião botou cubos de açúcar com LSD no café pós-jantar servido para George e Patti, John e sua esposa Cynthia. Em questão de meses, todos os Beatles estavam experimentando o ácido, e eventualmente Paul passou para a cocaína, John para a heroína e George se tornou fã de haxixe (pelo qual foi preso em março de 1969). A música que continuavam produzindo em estúdio mudou. Ela se tornou mais densa, viajante. O compacto "Strawberry Fields Forever" foi seguido pelo álbum seminal "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band", e os Beatles guiaram sua geração para o mundo psicodélico. À medida que Harrison começava a despontar como compositor, suas composições com arranjos requintados -"Within You, Without You", "Love You Too", "Blue Jay Way"- marcavam não apenas o uso de drogas, mas sua melodia e mensagem também mostravam o crescente interesse pela religião, cultura e música orientais.

Tal interesse, que se tornaria a força propulsora de sua vida, surgiu quando o roteiro do segundo filme dos Beatles, "Help!", exigiu cenas de perseguição envolvendo vilãos hindus caricatos, e citaristas indianos foram trazidos para fornecer a música para as seqüências. George começou a brincar com o instrumento e a fazer perguntas. Isso levou à sonoridade exótica da balada "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)" de Lennon e posteriormente a um aprendizado com o mestre citarista Ravi Shankar, que deu a Harrison não apenas lições sobre o instrumento, mas também sobre a vida. "Ele foi um amigo, um discípulo e um filho para mim", disse Shankar, que visitou Harrison pela última vez na quarta-feira. "George foi uma alma bela e corajosa, cheia de amor, humor infantil e uma profunda espiritualidade. Nós passamos o dia anterior com ele, e mesmo naquele instante ele parecia em paz, cercado de amor".

A famosa viagem dos Beatles para Índia em 1968, onde eles meditaram sob a orientação do Maharishi Mahesh Yogi, foi em grande parte obra de Harrison. Ele e Patti se tornaram devotos do líder religioso e arranjaram para que a banda passasse algum tempo no ashram do Maharishi na base do Himalaia. Outras celebridades - Mia Farrow, o cantor Donovan, Mike Love dos Beach Boys - também fizeram um retiro lá, e o episódio é lembrado como um dos momentos chaves, e dos mais peculiares, do Flower Power dos anos 60. Alguns dos inquestionavelmente belos frutos da escapada foram as canções compostas lá. John disse que compôs "centenas"; Paul voltou com pelo menos 15; e grande parte do "Álbum Branco" e do "Abbey Road" foi concebido em Rishikesh. George contribuiu com quatro canções, incluindo a ladainha pró-vegetariana "Piggies" e as belíssimas "Here Comes the Sun" e "Something". Com mais de 150 versões gravadas, "Something" é a canção mais gravada dos Beatles depois de "Yesterday", mas uma medida da obscuridade de Harrison dentro da banda é o fato de que Frank Sinatra costumava apresentar "Something" como sua canção favorita de Lennon e McCartney.

Tal confusão terminaria com a separação acrimoniosa da banda, anunciada em 1970. Para Harrison, a separação abriu a porta da liberdade artística. Ele acumulava canções havia meses - anos - canções que não encontravam espaço nos álbuns dos Beatles, repletos dos esforços de Lennon e McCartney. Naquele momento, em um trabalho que é a própria definição de magnum opus, Harrison lançou o álbum triplo "All Things Must Pass". (O relançamento de 30º aniversário ocorrido no início deste ano apenas confirmou que essa foi a obra-prima de Harrison.)

A caixa chegou ao primeiro lugar em 1971, impulsionada por sucessos como "My Sweet Lord" e "What Is Life". Harrison tinha encontrado um novo mentor espiritual, Srila Prabhupada, da Sociedade Internacional para a Consciência de Krishna, e sentimentos e sons hindus permeavam o álbum, estimulando a venda de cítaras e incitando o interesse de muitos ouvintes pelas religiões orientais. Logo após o fim dos Beatles, Harrison, a revelação, passou a rivalizar com Lennon e McCartney como ícone pop, e Shankar percebeu que seu amigo poderia ser o homem de frente perfeito para uma boa causa. Em agosto de 1971, Harrison e os amigos Bob Dylan, Ringo Starr, Leon Russell e Eric Clapton realizaram dois concertos no Madison Square Garden de Nova York para levantar dinheiro para o subcontinente indiano, devastado por enchentes e pela fome. O Concerto para Bangladesh estabeleceu Harrison como pioneiro na filantropia do rock, e estabeleceu o modelo para esforços futuros para arrecadação de fundos envolvendo celebridades como o Live Aid, o disco "We Are the World" e o Concerto para Nova York, promovido por Paul McCartney seis semanas atrás no Madison Square Garden, em auxílio às vítimas dos ataques ao World Trade Center.

Com George agora no centro, seus fãs passaram a conhecê-lo melhor. Ficou evidente que, na verdade, o beatle calado possuía a mesma sagacidade direta, sarcástica pela qual Lennon era conhecido. (Durante uma sessão de gravação dos Beatles com o produtor George Martin em 1962, este lhes perguntou: "Alguma coisa com a qual não estejam satisfeitos?" Foi George, e não John, quem respondeu: "Para começar, eu não gostei de sua gravata"). Harrison, com o sucesso individual, pareceu mais à vontade, e sua cordialidade ao longo dos anos 1970 transformou sua imagem na de um místico feliz.

Clapton, assim como Dylan, tornou-se um dos melhores amigos de Harrison, e é surpreendente o fato de a amizade deles não ter sido destruída quando Patti se tornou a sra. Clapton em 1979, dois anos depois de ela ter se divorciado de George e um ano depois de este ter se casado com a americana Olivia Arias. No final dos anos 1970, Harrison era um empreendedor tanto quanto músico. Ele abriu sua própria gravadora (a Dark Horse, em 1974) e sua própria produtora de cinema, a HandMade Films, que ele criou para ajudar seu amigo Eric Idle a concluir seu filme do Monty Python, "A Vida de Brian". Outras produções da HandMade incluem a fantasia "Bandidos do Tempo" de 1981, e o drama "Mona Lisa" de 1986, que lançou o ator Bob Hoskins. O envolvimento de Harrison com o cinema também incluiu uma ponta no falso documentário de Idle, "All You Need Is Cash", sobre os Rutles. Segundo George, a paródia contava a história dos Beatles "muito melhor do que os habituais documentários tediosos".

Assustado até se tornar quase um recluso após o assassinato de Lennon por Mark David Chapman em dezembro de 1980, Harrison passou grande parte do seu tempo meditando, produzindo música, cuidando de jardinagem e assistindo a corridas de Fórmula 1 na televisão em Friar Park, sua extraordinária propriedade em Henley-on-Thames, e no seu refúgio na ilha havaiana de Maui. Ele saiu ocasionalmente para gravar e tocar com os Traveling Wilburys, um supergrupo que incluía Dylan, Tom Petty e outros. Mas várias batalhas legais cada vez mais tomavam seu tempo. Em 1976 ele teve de pagar US$ 587 mil (cerca de R$ 1,47 milhão) por "plagiar inconscientemente" o antigo sucesso dos Chiffons, "He's So Fine", na melodia de "My Sweet Lord". Em 1991, ele processou o tablóide "The Globe" por difamação por ter publicado uma história o chamando de "Grande Fã dos Nazistas". E em 1996 ele venceu um julgamento de US$ 11,6 milhões (cerca da R$ 29 milhões) contra seu ex-sócio na HandMade Films, Denis O'Brien, por não assumir a divisão acertada das dívidas da empresa. Naquele mesmo ano Harrison pediu para as autoridades investigarem uma série de ameaças de morte.

Não foi provada que alguma ameaça tenha vindo de Michael Abram, mas foi Abram, um obcecado pelos Beatles de 33 anos de um subúrbio de Liverpool, que, na madrugada de 30 de dezembro de 1999, passou pelos alarmes e proteções de Friar Park e invadiu a casa de Harrison. George levou uma facada no peito antes que Olivia nocauteasse Abram com um abajur. Harrison recuperou-se, e Abram foi enviado para um hospital psiquiátrico.

Apesar de Harrison ter conseguido sobreviver às pressões de ser um beatle e a um ataque de um maníaco, ele não conseguiu derrotar o câncer. Ele, entretanto, tornou a passagem para a morte mais fácil para si mesmo ao acreditar fervorosamente por tanto tempo em uma vida após esta. Sua amiga Mia Farrow disse na semana passada: "Uma das coisas mais inspiradoras foi sua busca durante toda a vida para conhecer o Deus dele. E se Deus existir, eu não tenho dúvida de que George terá um lugar perto dele". Se ela estiver certa, Harrison está feliz. Ele pode ter tido medo de multidões de fãs, mas ele nunca teve medo de partir.

Por Richard Lacayo (TIME)
Tradução: George El Khouri Andolfato

sábado, 1 de dezembro de 2001

Emerson Fittipaldi: "Harrison morreu acreditando na vida eterna"


O ex-piloto Emerson Fittipaldi, que era amigo do ex-Beatle George Harrison, divulgou hoje uma nota hoje, por meio de sua assessoria de imprensa, sobre a morte do músico.
O piloto Emerson Fittipaldi passou a manhã de hoje inteira em contato por telefone com a família e amigos do músico George Harrison. Muito triste com a notícia da morte de seu grande amigo, Emerson lembrou em seu escritório, que conheceu George Harrison no Grande Prêmio da Inglaterra em Brands Hatch, em 1973. Fã fervoroso da Fórmula 1, depois disso, George passou a se encontrar com Emerson em vários outros GPs. 'Nós ficamos muito amigos e passamos a nos encontrar também fora da pista. Passamos férias com nossas famílias e sempre que ia à Inglaterra, jantávamos juntos', conta Emerson.

Muito emocionado, Emerson Fittipaldi contou que esteve em agosto com George Harrison, quando a doença já estava em estado adiantado. 'Fiquei três dias em Lugarno, na Suíça, com George e sua esposa Olívia, e conversamos muito. Quando eu cheguei senti que ele estava bastante abatido. Aos poucos foi se animando e no último dia ele não queria deixar eu ir embora. Mostrou várias músicas novas que estava gravando em um novo CD. Muitas delas falava de Cristo, o que me deixou muito contente em saber que George aceitou Cristo em seu coração, acreditando na vida eterna'.

Emerson contou que George era uma pessoa que cultivava muito as amizades. 'Quando gostava da pessoa ele se tornava um amigão. Mostrava sempre muito carinho e gestos de amor para com seus amigos. Sua doença o vinha abatendo muito, mas sempre com o espírito de guerreiro mostrava um amor impressionante pela vida. Sua esposa Olívia também sempre foi uma grande guerreira ao lado de George', conta.

Lembrou também que quando sofreu o grave acidente na Fórmula Indy, George Harrison fez uma música enquanto se recuperava, hospitalizado nos Estados Unidos. 'Hoje é um dia bastante triste para mim, mas tenho certeza que George morreu acreditando na vida eterna e que um dia nós estaremos novamente juntos'.

sexta-feira, 30 de novembro de 2001

Lemmy sente a morte de Harrison


Lemmy, do Mötorhead, expressou sua tristeza tardia pela morte de George Harrison. Em entrevista à revista Kerrang!, o roqueiro admitiu que o passamento do ex-Beatle, que perdeu uma batalha contra o câncer em 29 de novembro, o atingiu tanto quanto a morte de Sid Vicious.

"É curioso como isso me atingiu", disse Lemmy, explicando, "A última morte que me afetou foi a de Sid Vicious, porque o cara nunca teve uma chance. Mas a de George Harrison realmente me chateou. Demorou uns 3 dias para eu realmente aboserver isso. É uma pena. Ele era o melhor músico dos Beatles e no final, ele escreveu as melhores músicas. Enquanto Lennon e McCartney estavam longe cuidando de assuntos pessoais, Harrison etsava chegando com grandes músicas".

A chegada de George Harrison no céu


George Harrison faleceu em 29 de novembro de 2001 e chegou aos céus hoje. Demorou um pouco para deixar os Estados Unidos devido ao tráfego aéreo, que anda bastante complicado por lá. Mesmo tendo viajado acompanhado dos anjos de Los Angeles, a maior complicação aconteceu exatamente na porta do céu, pois São Pedro já tinha tomado uns goles por conta do fim de semana e recebeu o Beatle de cara feia.

George foi logo dizendo:

- Good morning, eu sou George Harrison...

Ao que o santo respondeu:

- Eu sei, você está em todos os noticiários de hoje. Naturalmente, tá querendo entrar aqui... mas para adentrar os portões celestiais, você tem que provar que cumpriu a sua tarefa na Terra... e adianto que isso não vai ser muito fácil. Por exemplo, tem um jornalista brasileiro que disse que você saiu de lá deixando uma dívida muito grande com os teus fãs. Ele disse que você, depois que deixou os Beatles, foi ficando tão preguiçoso que nos últimos anos não fez porra nenhuma!

- Injustiça, santidade! Além dos meus últimos anos terem sido marcados pela doença, meu trabalho na banda dos anos 60 era mais relacionado com a estrutura sonora e eu sempre tive dificuldades em colocar minhas canções, devido ao fervor criativo da dupla principal. Veja o senhor que nos 4 primeiros LPs, eu só consegui colocar uma canção, que é Don't Bother Me. Já no "Help!", consegui colocar duas, I Need You e You Like me Too Much. Nas 222 músicas que nós colocamos em 26 LPs, 22 são de minha exclusiva autoria e 2 em parceria com Lennon, Paul e Starkey. Mais tarde, consegui colocar 4 canções no "Álbum Branco" e 4 no "Let It Be". No "Help!" e "Rubber Soul" eu tenho 2 em cada, e no "Revolver" tenho 3. De qualquer forma, 24 músicas significam apenas 10% das 222. Se o tal jornalista disse que eu "trabalhei pouco" por causa deste percentual, está sendo muito injusto e parcial. Pois eu criei, por exemplo, a grande maioria dos solos de quase todas as músicas!

- Eu sei, eu sei... mas eu acho que vocês andaram explorando demais a galera! E você é cúmplice... Olha, dos 26 LPs vocês fizeram, tem muita música repetida! É uma repescagem do cacete! A campeã é Can't Buy Me Love, que aparece em 8 discos. Depois vem as que aparecem em 6 LPs, olha só: A Hard Day's Night, Help, Ticket to Ride e She Loves You. Se formos pegar as que aparecem em 6, veja só o que dá: Alll You Need is Love, Yesterday, Yellow Submarine, Paperback Writer, The Long and Winding Road, Let it Be, I Wanna Hold Your Hand e Hey Jude. Que aparecem em 5 LPs tem um monte: You've Got To Hide Your Love Away, We Can Work it Out... Além disso, aquele LP chamado "Rock'n'roll Music" é todo feito de música outros cantores. Isso é sacanagem! Todo mundo pensa que Twist Shout é de vocês, mas ela é do Medley e do Russell... Afora Long Tall Sally, Bad Boy e Roll over Beethoven... Desse jeito é fácil faturar uma grana preta... e você ainda disse por lá que andou tendo problemas financeiros...

- Santidade, por favor, não me maltrate mais do que tenho sofrido! A intenção de tocar músicas dos outros é simplesmente uma forma de homenagear os nomes que abriram a estrada rock'n'Roll e nos ensinaram a língua da nossa juventude. E eu realmente entrei em dificuldades financeiras, porque além de não ter a mesma participação nos direitos autorais, andei fazendo umas besteiras nos meus negócios, por falta de talento comercial. Meu negócio mesmo é meditação, filosofia... eu sempre gostei disso... pode parecer bobagem, mas nunca fui ligado em fama, poder e grana. Veja minhas canções, eu posso mostrar ao senhor...

- É... Mas nessa misticismo, você fez muita balada no embalo da cuca cheia de fumaça. Você falou dos discos nos quais colocou 2 ou 3 músicas. Mas no "Sgt Pepper's" e no "Magical Mystery Tour" você estava tão doido, que só conseguiu colocar uma música em cada: Whitin You Without you e Blue Jay Way.

- Santidade, nosso caminho, nessa época, era religioso, por incrível que possa parecer...

- Religioso? Você tem coragem de me falar um negócio desses?! Chamar LSD e maconha de religião?! Deixa o Jotacê saber disso!!! Aí é que você não entra aqui nunca mais! Você acha que eu não te conheço? Quer que eu fale rapidinho o nome das tuas 26 músicas da fase beatle, em ordem alfabética? Blue Jay Way, Dig It, Don't Bother Me, For You Blue, Here Comes the Sun, l Me Mine, I Need You, I Want to Tell You, If l Needed Someone, lt's All Too Much, Long Long Long, Love You To, Maggie Mãe, Oíd Brown Shoe, Onty a Northern Song, Piggies, Savoy Truffle, Something, Taxman, The Inner Light, Think for Yourself, While My Quitar Gently Weeps, Whitin You Without You e You Like Me Too Much. Fora isso, você andou fazendo umas outras merrecas, mas nada que valha grande coisa. Pra mim, este é o teu inventário, o balanço da tua vida...

- Santidade, eu nunca gostei muito de ficar brigando com ninguém... e ando muito estressado. Além da doença, há pouco tempo tentaram me meter uma faca na barriga. Estou vendo que o senhor conhece minha vida melhor do que eu. Então não adianta ficar tentando me defender. O negócio seguinte: já vi que a barra aqui tá esquisita... deixa eu ir caçar um outro canto pra ficar...

- Calma lá, Georgin! Você acaba de cair na Pegadinha do Pedroca! Por que você acha que eu conheço tudo dos Beatles e especialmente de você? Eu adoro vocês, cara! Entra logo, vamos lá, que Deus, Khrisna e todas as hordas e habitantes celestes estão loucos prá te ver cantando My Sweet Lord, de alma para alma! E vou te falar mais: esse alvoroço que vocês fizeram na terra mudou muita coisa no céu. Vocês conseguiram o que jamais ninguém havia conseguido antes: vamos lá, que aqui agora tá tudo liberado!

Toninho Buda

quinta-feira, 29 de novembro de 2001

George Harrison - Do efêmero ao eterno

Morte de George Harrison emociona o mundo e destaca seu legado

A morte do ex-Beatle George Harrison não cessa de comover o mundo, suscitando um sentimento inesgotável de perda, tanto maior quanto mais se faz perceptível a rica e complexa personalidade e o legado daquele que foi um dos principais sustentáculos da revolução musical e de costumes que sacudiu o século XX, criando um novo paradigma de estilo e compreensão do viver, na sociedade contemporânea.

Diz-se que quando os tempos estão grávidos de mudança parem os avatares que encarnam sua mensagem mais profunda. O parto, no entanto, é precedido de sinalizações que deixam entrever a revolução ainda silenciosa que avança pelas entranhas mais profundas do meio social e cultural a serem abalados.

Essas sinalizações são como fios da intricada teia de eventos-troncos que abrem caminho para uma infinidade de possibilidades que se emulam na busca de ser a portadora do ato final de deflagração da metamorfose perseguida. Geralmente, são atos despidos de portentosidade: pode ser um banho de tina, cuja água transborda e faz o banhista gritar: Eureka! - resolvendo uma equação há muito buscada.

Pode ser também um pai que, fugindo aos rígidos preceitos disciplinares, consuetudinários, deixa-se levar por um ímpeto de liberdade e cede sua estimada garagem para que o filho dê curso a suas "treslouquices"... e surge o Machintosh, primeiro computador individual, pelas mãos do irrequieto Steven Jobs.

Ou pode ser ainda o motorista de ônibus que dá de ombros para moral vitoriana e deixa que o filho George Harrison exploda o porão com os acordes frenéticos de sua guitarra...e o mundo vira de ponta cabeça e descobre, maravilhado, que é possível viver sem amarras mentais e mergulhar na euforia estonteante da liberdade, da espontaneidade e do respeito ao diferente.

Que têm esses jovens - John, Paul, George e Ringo - transgressores, cabeludos e irreverentes que cativam corações e mentes, ao menor contacto com suas melodias febricitantes, como sereias sedutoras de contemporâneos odisseus? Terão chegado os últimos dias anunciados pelos profetas?: "Vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos jovens terão visões e vossos velhos sonharão" (At 2,17-18).

Os que ouviram estas palavras de Pedro, no romper do Pentecostes, diziam estupefatos: "Como é que os ouvimos falar, cada um de nós, no próprio idioma em que nascemos?" (At 2, 8-9) - pois eram pessoas procedentes de várias nações.

E eis que diante dos olhos céticos e racionalistas dos filhos do século XX, uma nova glossolalia irrompe sob forma musical, fazendo-se entender simultaneamente por anglo-saxões, latinos, japoneses, hindus, malaios, turcos, gregos, árabes, nepaleses... - todos tocados pela mesma emoção e embalados pela mesma poesia, já que identificados com sua linguagem musical.

Que outro meio poderia ser mais adequado para fazer explodir as fronteiras artificiais que separam os homens pela nacionalidade, cor da pele, classe social, religião, ideologia? Foram eles - os Beatles - o instrumento providencial para fazer cair as escamas dos olhos do preconceito, da discriminação e do exclusivismo e levar os homens a enxergarem que a Humanidade é una e uno é o Cosmo e todo o criado.

Uma conscientização fundamental, no preciso momento da História em que o poder adquirido sobre a Natureza cegava os poderosos do mundo e lançava-os na jactância de ameaçar com destruição o planeta, num arroubo de arrogância e estupidez.

A dinamitação das amarras mentais desencadeou uma revolução paradigmática que enterrou de vez o século XIX (este só veio a morrer, de fato, a partir daí) A revolução dos costumes irrompeu como um maremoto, alcançando todos os quadrantes da Terra. Como toda ruptura, veio acompanhada por um período de excessos.

Os Beatles não escaparam de seus efeitos colaterais e viveram todas as experiências marginais da permissividade. Mas, por serem movidos por uma experiência artística verdadeira, inevitavelmente teriam de abeirar-se do mysterium tremendum. Logo, perceberam que não poderiam encontrar no efêmero e no mundo ilusório das drogas o alimento substancioso capaz de matar sua sede de infinito.

Assim, voltaram-se para a busca interior ("O Reino dos céus está dentro de vós"), indo ao encontro, primeiro (por só terem tido acesso a uma caricatura de Cristianismo) da tradição espiritual do Oriente.

Dessa forma, escaparam das viagens sem volta em que sucumbiram Jimmy Hendrix, Janis Joplin e tantos outros de sua geração. Envolveram-se na luta pela paz, confrontando-se com a lógica amoral do establishment, denunciando, sobretudo, a guerra do Vietnã.

Como prova de que essa procura foi alcançada, aí estão as palavras de George Harrison ao morrer: "Tudo o resto pode esperar, só não a busca de Deus e o amor ao próximo". Descanse em paz, George.

Personalidades falam sobre a morte do George Harrison


Infelizmente chegamos a um dos piores dias na história da Beatlemania. George Harrison partiu para o infinito, vencido por um câncer contra o qual batalhava há anos. A notícia comoveu não apenas a nós, fãs anônimos espalhados pelo mundo, mas também pessoas influentes. Vejam o que eles disseram sobre George hoje de manha:

Sir Paul McCartney: Para mim ele era meu irmãozinho mais novo, nós crescemos juntos na velha Liverpool e tivemos tantos bons momentos juntos, e é isso que eu vou carregar na minha lembrança. Quando eu o vi pela última vez ele estava mal, mas ainda fazendo piadas como sempre, ele vai fazer muita falta. Ele é um homem maravilhoso, o mundo todo sentirá sua falta.

Familia Real: Estamos muito tristes com a notícia da passagem de George Harrison.

Yoko Ono: George trouxe mágica para as vidas daqueles que o conheceram. Meus sentimentos vão para Olivia e Dhani, eles eram a família mais apegada uns aos outros do que você pode imaginar. George nos deu tanto durante a sua vida e ainda continua a nos ensinar depois de sua morte, com sua música, senso de humor e sabedoria. Sua vida foi mágica e todos nos sentimos como se tivéssemos alguma parte disso. Obrigada George, foi ótimo conhecê-lo.

Tony Blair (Primeiro Ministro): Ele não foi somente um grande músico e artista, mas também fez muito pela caridade. Eu nunca tive o privilégio de conhecê-lo, mas a minha geração cresceu com os Beatles, suas músicas foram a trilha sonora de nossas vidas.

Bertie Ahern (Primeiro Ministro da Irlanda): Ele contribuiu tanto para a música! Ele e os Beatles são quase tão populares agora quanto eram há mais de 30 anos.

Michal Palin (integrante do Monty Python e amigo pessoal): George não era o Beatle calado, ele nunca parava de falar quando estávamos juntos! George sempre teve muitos amigos e era muito divertido, ele nunca foi o quietinho que sentava num canto. A morte nunca o aterrorizou, ele ainda aproveitou muito da vida e não havia perdido o senso de humor quando o vi pela última vez, em Agosto.

Sir Bob Geldof: O lugar de George na cultura popular está totalmente assegurado. Lembro de quando os Boomtown Rats estavam começando e ele veio assistir um show nosso em Oxford. Eu fiquei chocado e surpreso quando ele entrou no salão. Ali estava um beatle em pessoa.

Alan Williams (primeiro empresario): Ele era o "baby" do grupo, aos 17 anos. Era um pessoa muito amável. Eu até diria que ele era a mola principal da banda naquela época. Eu tenho tantas lembranças boas dele e sei que ele será feliz onde quer que esteja agora. Eu estou arrasado e muito muito triste. Eu fui visita-lo há algumas semanas e ele estava muito divertido, como sempre foi. Ele é um cara durão. É uma honra falar de alguém tão maravilhoso. Gostaria de mandar meus pêsames para sua esposa e filho, em meu nome e em nome de toda a cidade.

Alan Clayson (biógrafo de George): Ele nasceu como compositor bem próximo ao fim dos Beatles, ele ganhou o jogo porque nos últimos álbuns, as suas letras se sobressaiam. "Here Comes The Sun" e "Something", que foi o único cover dos Beatles gravado por Frank Sinatra.

Simon Bates (radialista): Ele teve uma vida extraordinária, pode-se dizer que ele foi o beatle relutante. Foi uma pessoa que não queria fama, que decidiu fugir da fama. Mas eu sempre achei que ele foi o cara que era realmente a "cola" dos Beatles, eles teriam se separado muito antes se não fosse pela calma de George.

domingo, 19 de abril de 1998

Mentira sobre local da morte de Linda McCartney gera suspeitas

Uma mentira aparentemente inocente tumultuou o que seria uma notícia triste: a morte de Linda Eastman, mulher de Paul McCartney, aos 55 anos, no último dia 17. A morte em si não foi surpresa. Linda estava perdendo a batalha contra o câncer, como se via nas aparições públicas, em que exibia os sinais da quimioterapia. Seu fim foi relativamente tranqüilo, na medida em que isso é possível. Dois dias antes de morrer, ela cavalgou ao lado do marido. Não chegou a ser internada nem a enfrentar o terror dos dias derradeiros num hospital. Morreu nos braços de Paul. A notícia da morte só foi divulgada dois dias depois, quando o corpo já estava cremado. "Foi uma bênção que o final tenha sido rápido e ela não tenha sofrido", conformou-se o marido. A versão da família veio a público por intermédio de um porta-voz do ex-beatle, Geoff Baker — e a boataria logo começou. Baker disse que a pacífica morte de Linda havia ocorrido em Santa Bárbara, na Califórnia. Onde estava o atestado de óbito? Onde aconteceu a cremação? Ninguém sabia, e a polícia de Santa Bárbara abriu investigação. A primeira suspeita foi de que a morte teria sido um suicídio assistido — operação humanamente compreensível, mas ilegal, em que um médico ajuda um paciente terminal a morrer.

A eterna mística dos Beatles deu um impulso extra aos boatos. Paul e Linda casaram-se em 1969, apenas um ano antes da dissolução do conjunto. Inevitavelmente, a fotógrafa americana foi acusada de responsável pelo fim do conjunto mais famoso de todos os tempos. Águas passadas. Foi John Lennon quem quis sair do grupo. O casal conseguiu o prodígio de manter um casamento estável, com evidentes sinais de amor, por quase trinta anos. Em 1995, o inferno começou. Operada de câncer de mama, Linda chegou a se acreditar livre da doença. Engano. A metástase devastadora atingiu o fígado. Restou apenas o pequeno consolo da morte pacífica.

Diante da boataria e de uma investigação policial em andamento, o porta-voz Baker apresentou nova versão na quinta-feira. Linda havia morrido na verdade no Estado do Arizona, onde o casal tinha, em segredo, uma fazenda havia mais de vinte anos. O objetivo da mentira sobre o local da morte era apenas preservar a privacidade da família. O médico Lawrence Norton confirmou a morte natural. Alguma dúvida, porém, sempre restará — no Arizona, os atestados de óbito são protegidos por uma garantia de sigilo.

Fonte: Veja