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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: as Harmonicas (Gaitas)



Os Órgãos de Boca têm uma história muito antiga no Extremo Oriente, tendo sido primeiramente descritos na China aproximadamente 3.000 anos atrás. Instrumentos desse tipo, de vários graus de sofisticação, são executados hoje em muitos países ocidentais.

São instrumentos de palheta livre montadas em tubos ressonantes - como são os órgãos tradicionais - no qual o executante sopra numa câmara e faz soar os tubos individualmente tapando com os dedos os furos de escape de ar, que então é forçado a passar pelas palhetas. Assim emite apenas as notas desejadas.

A versão ocidental, que é chamada de Harmônica ou Gaita, só começou a aparecer no primeiro quarto do século XIX e foi desenvolvido devido ao interesse nos Órgãos de Boca do Extremo Oriente. São instrumentos versáteis, produzidos em grande quantidade para o uso de amadores e profissionais.

Seu mecanismo é muito simples. Palhetas vibrantes são montadas em câmaras individuais. Quando o executante exala, as palhetas fixadas perto da boca (a) é que vibram. Quando ele inala, vibram as fixadas longe da boca (b). A nota emitida depende do comprimento da palheta. A língua do executante tampa as câmaras das palhetas que ele não deseja que soem. Muito barato, de fácil aprendizado, portátil e pequeno, logo tornou-se muito popular entre os praticantes de música. As concertinas, os acordeons e as escaletas são instrumentos que compartilham o mesmo princípio.

Lá por 1962, "Hey Baby", cantada por Bruce Channel, fazia grande sucesso na Inglaterra e nos EUA. A canção - incômoda, atraente, desprezada pelos adultos, cativante - tinha um belo trabalho de gaita e fazia grande sucesso entre os jovens. John Lennon foi imensamente influenciado por ela e suas performances na gaita estavam para se tornar um dos mais importantes fatores no sucesso das gravações dos Beatles no início de carreira.

Muitos sucessos dessa fase inicial apresentam execuções de gaita e elas são um fator diferencial entre as canções da época. Entretanto a maioria das análises musicais ou históricas, com as honrosas exceções de Pat Missin e Greg Panfile, passam ao largo desse fato.

As harmônicas são encontradas em dois tipos: as cromáticas e as diatônicas.

Cromáticas

Hohner Super Chromonica

As cromáticas permitem tocar todas as 12 notas usadas na música ocidental. Elas têm um botão deslizante que altera as palhetas que são tocadas permitindo execução totalmente cromática, com todos os acidentes da escala. Podem ter 10, 12 ou 16 buracos. Estão disponíveis em várias afinações, que nesse caso definem a faixa de notas disponível para o músico.

Blues Harp

As diatônicas usam apenas as 8 notas de uma escala maior. É a afinação normal para as gaitas de 10 ou 12 buracos que também são chamadas de "harpa diatônica (diatonic harp)" ou de "blues harp". Estão disponíveis em várias afinações, que nesse caso definem a faixa de notas e a tonalidade em que o instrumento pode ser executado.

Hohner Blues Harp

Echo Vampers

Há muitos fabricantes de gaitas mas o mais conceituado é a Hohner, na Alemanha. Na Europa inteira, era praticamente a única utilizada. A fábrica exportava modelos exclusivos para os EUA, que se tornaram lendários. Um deles era o Marine Band, uma diatônica de 10 ou 12 buracos. Todo gaitista europeu achava que a excelência dos gaitistas americanos era devido a disponibilidade desse modelo por lá.

Na Europa estava disponível o modelo Echo Vamper, que era funcionalmente idêntico ao Marine Band mas não alcançava seu prestígio. Os europeus acreditavam que havia algo especial, quase mágico, nas "Marine Band". As gaitas com 12 buracos dessa linha tinham a característica de serem afinadas uma oitava abaixo do padrão. John usaria duas dessas gaitas, em E e em C, em duas canções.


Hohner Echo Vamper em E e C

Os Beatles, europeus, usavam exclusivamente os modelos Hohner mostrados acima. O modelo cromático da marca era chamado de "Chromonica", a gaita cromática mais popular do mundo.

Nessa canção, qual gaita?



É difícil identificar exatamente qual o tipo de gaita e sua tonalidade apenas de ouvido. Há que se conhecer profundamente o instrumento, suas sonoridades e seus detalhes de execução. Pat Missin e Greg Panfile estudaram o assunto e, apesar da excelência técnica de ambos, chegaram a conclusões diferentes. Mas não são conclusões conflitantes: as frases podem ser executadas nas gaitas diferentes que eles indicam.

Na minha opinião o trabalho de Pat Missin é mais preciso, já que utilizou vários recursos modernos de edição digital de áudio como variação de velocidade, loops de curtíssima duração, reconhecimento de frequências, etc..., que expuseram claramente os detalhes da execução - que são a impressão digital da gaita usada - e justificam suas conclusões. Os resultados estão transcritos abaixo. Quando não há outra indicação o executante é John Lennon. A marca é sempre Hohner.




Por Carlos Assale

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Fender Stratocaster 1961



Por volta de 1939 Leo fundou a Fender RadioService, em Fullerton, uma empresa de varejo e manutenção de produtos eletrônicos, discos, instrumentos musicais, sistemas de PA e partituras.

A guitarra Havaiana (Lap-Steel), assim como o Ukulele, tinha se tornado moda entre os americanos desde os anos 20 e ainda gozava de extrema popularidade nessa época. Por isso foram as primeiras guitarras a serem "eletrificadas" nos anos 30. Várias empresas inovadoras, como a Rickenbacker, começaram a experimentar com captadores eletromagnéticos montados em guitarras e conectados a pequenos amplificadores.



A loja de Leo Fender era frequentada por muita gente da área da música e da eletrônica e algumas delas se mostraram muito importantes para seu futuro sucesso. A primeira dessas foi o violinista e "lap-steel player" chamado Clayton Orr Kauffman, conhecido por todos como "Doc". A segunda foi Dan Randall, que operava um pequeno atacado de peças de rádio e era fornecedor de Leo.

Um dia, no início dos anos 40 Doc levou um amplificador para Leo consertar e ele começaram a conversar. Doc tinha trabalhado no design de guitarras elétricas para a Rickenbacker e nessa época Leo estava bastante interessado no potencial delas e experimentado com a construção de captadores.


Durante a Segunda Guerra Mundial Doc foi trabalhar numa fábrica de aviões mas ele e Leo encontraram tempo para se encontar. Desses encontros desses incorrigíveis pensadores nasceu um projeto de um toca discos automático cuja venda lhes rendeu US$5.000, uma soma significativa na época.


Boa parte desse dinheiro foi canalizado para a fundação da K&F que começou a fabricar "lap-steels" e pequenos amplificadores em 1945. A empresa teve vida curta.

Doc, mais tarde, contou:

"Nós íamos até a loja onde, nos fundos, uma sala de metal abrigava o departamento de guitarras. Trabalhávamos até meia noite. Eu costumava montar todos os nossos instrumentos, encordoá-los e tocar algumas frases. Leo dizia que podia saber como a produção estava indo só de contar as músicas que eu estava tocando."

Leo era o que chamamos hoje de "workaholic" e esse ritmo não agradava a Doc, que gostava de passar horas em casa com sua família. Ele também tinha um rancho e, com a lembrança da depressão de 1930 ainda viva, temia perdê-lo se ficasse muito comprometido com dívidas. Em fevereiro de 1946 retirou-se da empresa e deixou tudo com Leo.

Don Randall passou três anos servindo na Segunda Guerra Mundial e quando voltou tornou-se o gerente geral da "Radio & Television Equipment Co. (R&TEC)" de Francis Hall - que mais tarde compraria a Rickenbacker - e passou, em 1945, a ser o distribuidor exclusivo dos produtos Fender.

Fender Electric Intruments Co.

Em 1946 Leo fundou a Fender Electric Instruments Co. continuando a fabricar lap-steels e amplificadores mas gradualmente oferecendo novos produtos. Era um homem introvertido, trabalhador compulsivo, inclinado a dedicar horas seguidas a uma tarefa e sua maior felicidade era ficar na prancheta desenvolvendo novos projetos. Ele tinha a convicção de que se já houvesse um produto no mercado ele poderia fazê-lo melhor e mais barato e ainda obter lucro no processo.

Agora que a Segunda Guerra Mundial tinha terminado a sensação de um recomeço era generalizada e um dos processos que os industriais americanos estavam explorando para obter seus objetivos era a produção em massa. A aplicação desse princípio à fabricação de guitarras foi seu grande lance.

Após observar outros designs como os da Rickenbacker, Les Paul e Paul Bigsby, projetou o instrumento que hoje conhecemos por Telecaster, que antes se chamou "Esquire" e "Broadcaster". Esse instrumento simples e efetivo, desenvolvido para produção em massa, foi a primeira guitarra elétrica de corpo sólido com sucesso comercial da história. E é produzida até hoje.

A Fender Stratocaster

Após um período de grandes dificuldades financeiras, administrativas e organizacionais, quando a empresa quase quebrou, a produção e as vendas se ajustaram e o negócio começou a andar de maneira satisfatória. Leo tinha agora homens competentes tocando a fábrica e uma reputação pequena porém crescente.

Mas a Telecaster era um produto espartano, sem enfeites, num tempo em que outras marcas enfeitavam suas guitarras com filetes e sofisticada marchetaria. Leo precisava de um produto novo que fosse mais chamativo.

Ele estava ouvindo atentamente aos comentários dos usuários e ele e Freddie Tavares começaram a formular o que viria a se tornar a Stratocaster. Uma quantidade expressiva de usuários reclamava do corpo com cantos vivos da Telecaster e eles começaram a experimentar com seus contornos. A contribuição mais expressiva veio do guitarrista Bill Carson, que foi quem deu as idéias dos seis rastilhos com ajuste horizontal e vertical, o corpo com contornos que deveria ajustar-se ao executante como uma camisa e o trêmolo que deveria, além de manter a afinação das cordas quando acionado em qualquer sentido, subir ou descer pelo menos meio tom um acorde sem desafinar.

A Stratocaster, que passou a ser conhecida também como "Strat", foi lançada com um corpo radicalmente esguio, com cortornos que o tornavam confortável para o guitarrista e - sendo a primeira guitarra sólida com esta característica - com três captadores. O trêmolo desenvolvido continha numa só peça os rastilhos ajustáveis, o prende cordas e o sistema de alavanca - um mecanismo inédito e avançado para a época. Como um todo a guitarra era mais filha do design automobilístico do que das formas tradicionais dos instrumentos musicais, especialmente nas formas flúidas, sensuais de seu bem proporcionado corpo. O novo escudo complementava as curvas com extremo bom gosto e a impressão que se tinha era que todos os seus componentes combinavam uns com os outros perfeitamente. Até mesmo o soquete do jack de sáida era novidade, ficando rebaixado numa placa estilizada.

Não é à tôa que a Strat se tornou a mais popular, a mais copiada, a mais desejada e muito provavelmente a mais tocada guitarra da história.

A produção começou em 1954 e eram pintadas apenas num sunburst de duas cores: de amarelo para preto.

Custom Colors - Sonic Blue

Às vezes algumas guitarras, como pedidos especiais, eram pintadas em cores sólidas. Não era, a princípio, algo comum. A idéia porém foi pegando e em 1956 essas pinturas constavam no catálogo como Players Choice e custavam 5% extra. Em 1957 eram constavam como "Custom Colors" e ainda custavam os 5% extra. Em 1960 foram impressas cartas de cores mostrando as 14 custom colors disponíveis. As cores tinham nomes evocativos como "Lake Placid Blue (azul lago tranquilo)", "Shoreline Gold (ouro costeira)", "Foam Green (verde espuma)" e "Fiesta Red (vermelho festa)", todas usando as tintas fabricadas pela DuPont para a indústria automobilística.



Uma delas chamava "Sonic Blue (azul sônico)". Originalmente desenvolvida para os Cadillacs de 1956, era feita com a laca DuPont 2295L. Sua tonalidade, não muito desejada na época, era algo como o que chamamos de azul-bebê. Hoje é uma cor clássica, muito valorizada no mercado "vintage".

Em 1961 as Strats vinham com escala escura, escudo laminado branco/preto/branco (na verdade levemente esverdeado) com onze parafusos de fixação e logotipo com dois números de patente: 2.573.254 e 2.741.146. O primeiro referia-se às cordas passando através do corpo como nas Telecaster e o segundo ao trêmolo.

Nowhere Man

Em 1964 os Beales atingiam um sucesso extraordinário e um problema se apresentou à Fender: eles não usavam nenhum equipamento da marca, nem guitarras nem amplificadores.

Dan Randall, apesar de contra a regra de ouro da companhia de não pagar artistas para endossar seus produtos, enviou seu funcionário Jim Williams para tentar um acerto com Bian Epstein. A idéia era fornecer à banda todo o equipamento Fender que eles quisessem. A reunião foi agendada para os dias 28 ou 29 de agosto, em New York, durante a passagem da banda pela cidade para os shows no Forest Hills Tennis Club Stadium. Entretanto Williams não conseguiu se encontrar com Epstein e provavelmente apenas conversou com Neil Aspinall ou Mal Evans. A resposta foi que a banda estava satisfeita com o seu equipamento e não tinha intenção de trocar.

Poucos meses depois, em fevereiro de 1965, durante as sessões de gravação de Help!, John e George decidiram comprar suas Strats. George conta:

"Era engraçado, porque todas aquelas bandas americanas vinham sempre à Inglaterra dizendo: 'Como você consegue aquele som de guitarra?' E quanto mais eu o ouvia, mais eu me convencia que não gostava do som de guitarra que eu tinha. Era uma porcaria... Então decidi ter uma Strat e John decidiu ter uma também."

Mandaram então Mal Evans, o roadie, sair e buscar "um par de Strats". Mal as encontrou na loja Grimwoods em Kent e voltou com duas Strats 1961 Sonic Blue (Brian Epstein tinha concordado em pagar por elas só se fossem da mesma cor). É irônico que, meses antes, a Fender teria pago para que eles usassem este instrumento.

Fotos das sessões de HELP! mostram John tocando sua Strat mas não há registros que qualquer delas tenha sido usada em alguma canção deste álbum. Entretanto quando se ouve as notas Lá simples tocadas em "Ticket To Ride", o timbre de uma Stratocaster parece evidente. Com certeza elas foram intensamente usadas nas sessões de Rubber Soul, notadamente no solo de Nowhere Man e regularmente nos álbums posteriores.

Não se conhece o paradeiro da Strat de John.

Rocky

Na primavera de 1967 o movimento psicodélico estava força total. Viagens coloridas, promovidas pela ingestão de comprimidos de LSD, eram comuns entre os jovens. O grupo então resolveu pintar seus instrumentos. George escolheu uma pintura psicodélica para sua Strat e a apelidou de "Rocky". George:

"Roupas coloridas, casas coloridas, carros coloridos... era lógico ter uma guitarra colorida. Nesses dias tintas day-glo laranja e limão eram muito raras mas eu descobri onde comprá-las. Comprei várias cores e pintei a Strat com um pincel, nada muito artístico já que a tinta era muito espessa. Eu também aprendi sobre a tinta nitrocelulose, que vinha num tubo com uma ponta esfé (como uma grande caneta esferográfica), enchi o escudo com elas e fiz desenhos na paleta com o esmalte de unha verde cintilante de Pattie (ex-mulher)."

A guitarra assim pintada apareceu no programa Our World, a primeira tranmissão mundial de TV usando um satélite onde os Beatles, representando a Grã Bretanha, tocaram All You Need Is Love. Mais tarde, no mesmo ano, apareceu na cena de I Am The Walrus do filme Magical Mistery Tour.

Na carreira solo George ajustou a Rocky para o uso de slide e a usou no solo de "Free As A Bird". Sua última aparição pública registrada foi no "Concert For George", de 2003, quando foi usada por Andy Fairweather Low. Pertence ao espólio de George Harrison.

Especificações Técnicas

Por Carlos Assale

sábado, 1 de outubro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: A primeira Rickenbacker 360/12


No último trimestre de 1963 Francis Hall, proprietário e presidente da Rickenbacker, começou a receber informações sobre uma banda de muito sucesso na Inglaterra, da qual ele nunca tinha ouvido falar. Os Beatles iriam visitar os EUA no ano seguinte e a Capitol Records orquestrava uma campanha na mídia para preparar a América para a sua chegada.

Harold Buckner, um dos representantes de venda da companhia, foi o primeiro a chamar sua atenção. Logo depois, Roy Morris - sócio da distribuidora de instrumentos musicais londrina Rose-Morris e interessado na distribuição da Rickenbacker no Reino Unido - também mandou uma carta para Hall na qual anexou um recorte de jornal com uma foto da banda tocando nas suas Rickenbackers 325 e 425. Pedia amostras dos dois modelos.

Francis Hall enxergou uma oportunidade aí e, através de informações obtidas com Roy Morris, entrou em contato com Brian Epstein e conseguiu marcar uma reunião com os Beatles em New York na semana de sua primeira aparição no Ed Sullivan Show, em fevereiro. Hall tinha noção da importância dessa reunião tanto que escreveu para Harold Brucker confirmando que conseguira marcá-la e pedindo enfaticamente para que ele não comentasse com ninguém, pois não queria que a concorrência soubesse que ele estaria em New York na mesma época que a banda.


Os equipamentos da marca estavam disponíveis a partir de 7 de janeiro numa suíte do Hotel Savoy Hilton e, além das guitarras, incluiam os amplificadores "B-16" para baixo, "B-22D" para guitarra e um recente desenvolvimento - uma câmara de eco usando um princípio eletrostático patenteado. Apesar de testados, os equipamentos eletrônicos não seriam usados pela banda devido ao acordo com a Jennings para o uso exclusivo dos amplificadores Vox.

No dia 8 de fevereiro, após ensaios para o Ed Sullivan Show, Brian Epstein, John Lennon, Paul McCartney e Ringo Starr apareceram. George Harrison tinha ficado em sua suíte do Hotel Plaza, isolado do grupo por estar com gripe. John testou alguns instrumentos, entre eles a nova guitarra de 12 cordas. Achando-a muito interessante, disse que gostaria que George a visse e se eles se importariam de levá-la até ele no outro hotel. Eles atravessaram o Central Park e lá estava George em sua suíte, ouvindo ao rádio. Hall desempacotou a 360/12 e Harrison a dedilhou por uns instantes. Logo em seguida o telefone tocou e era a sua irmã, Louise, que dava uma entrevista à estação WDGY de Minneapolis e havia ligado a pedido do DJ pra saber como ele estava se sentindo. Ao ser perguntado o que estava fazendo, respondeu: "Estou dedilhando uma guitarra de 12 cordas". O interlocutor então perguntou se ele estava gostando e ele respondeu: "Sim, é uma Rickenbacker!". O DJ então ofereceu o instrumento como um presente. Mas Francis Hall já tinha decidido presentear George com a guitarra e assim o fez.

O instrumento

A guitarra de George foi fabricada em dezembro de 1963. Foi a segunda a ser feita e foi pintada num "sunburst" avermelhado chamado de "Fireglo", tinha filetes brancos na frente e atrás do corpo, marcações triangulares em madrepérola, escudo duplo branco e knobs pretos pequenos.

A característica mais marcante e inovadora desse modelo é a distribuição das tarraxas.


As guitarras de 12 cordas normalmente têm as doze tarraxas distribuídas seis de cada lado do headstock, que tem que ser alongado para acolhê-las. Isso além de quebrar o equilíbrio da guitarra também torna a afinação um pouco confusa, já que muitas vezes estamos tentando afinar uma corda e girando a tarraxa de outra. A Rickenbacker visualizou uma maneira muito criativa de dispô-las juntando o modo de colocação das tarraxas do violão clássico com o do violão de aço. Isso simplificava muito a afinação e equilibrava física e esteticamente o instrumento.

Mas algo não funcionava bem.


O primeiro instrumento foi encordoado da maneira tradicional, com a corda oitavada acima da corda normal. Dessa maneira, as tarraxas que normalmente afinavam as cordas normais estavam afinando as cordas oitavadas - o que tornava tudo confuso. A solução foi inverter tudo, colocando a corda oitavada abaixo da normal, o que foi feito na segunda guitarra - aquela que foi dada a George. Era criado o encordoamento reverso, que levou a um instrumento com timbre único e que é uma das características mais marcantes da música dos anos 60.

A guitarra foi usada praticamente em todo ano de 1964 - ao vivo e no estúdio - na fase do disco A Hard Day's Night. A primeira música a ser gravada com ela foi "You Can't Do That", seguida de "I Should Have Known Better". A última foi "Ticket To Ride". Depois dessas, nas canções gravadas com guitarra de doze cordas, foi utilizada outra Rickenbacker 360/12, comprada em 1965. Na carreira solo, George usou a sua primeira Rickenbacker na gravação de "Fish On The Sand" no álbum Cloud Nine.

A guitarra pertence até hoje ao espólio de George Harrison e pôde ser vista exposta no palco no magnífico "Concert For George".

Especificações Originais

Número de série: 
CM 107

Ano de fabricação: 
1963

Cor: 
Fireglo

Escudo: 
Duplo, branco

Corpo: 
Maple, semi sólido

Braço: 
Maple, laminado

Escala: 
Rosewood, 628mm

Marcadores de posição: 
Triangulos de madrepérola

Tarraxas: 
Kluson, não seladas

Captadores: 
2 Single coil estilo "toaster" (torradeira)

Controles: 
Chave seletora de três posições, 2 controles de volume, 2 controles de tom e 1 "blend"

Saídas: 
Standard (mono) e Rick-o-Sound (stereo)

Ponte: 
Rickenbacker

Cordal: 
Chapa estampada

Knobs: 
Pretos, pequenos

Preço de tabela: 
US$ 524,50 (aprox. US$ 3.300,00 hoje)

Por Carlos Assale

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Rickenbacker 325-58



O escritor Ray Colemann, numa entrevista em 1965, pediu a John Lennon que dissesse qual a sua posse de maior valor. "Minha primeira Rickenbacker. Eu a comprei na Alemanha em prestações. Não importa quanto tenha custado, era muito dinheiro pra mim", respondeu John. Já milionário na época da entrevista, tinha adquirido muitos bens materiais. Mas foi sua velha Rickenbaker que ele considerou o seu bem mais valioso.

Devido à sua raridade e à sua associação com John Lennon, esta guitarra tornou-se o Santo Graal para colecionadores e estudiosos. Também é o instrumento mais modificado por ele e do que mais se tem informações desde sua fabricação.

Adolph Rickenbacher (era assim que seu sobrenome era escrito originalmente) nasceu na Suíça em 1892. Aparentemente seus pais faleceram quando ele ainda era menino e parentes o levaram para a América. Morou em Columbus (Ohio) e Chicago antes de fixar-se em Los Angeles em 1918. Ele e dois sócios fundaram a "Rickenbacher Manufacturing Company" em 1925, uma empresa que fabricava peças metálicas e plásticas. Engenheiro brilhante, Adolph também era um homem agradável e generoso. Seus amigos o chamavam de Rick. Com sua competência fez a Rickenbacher Mfg. crescer rapidamente e logo possuía uma das maiores prensas de repuxo da Costa Oeste dos EUA.

George Beauchamp, texano, tocava guitarra havaiana nos teatros de revista e, como muitos outros guitarristas, andava frustrado. Queria um instrumento que pudesse ser ouvido quando tocado junto com um naipe de metais ou que pelo menos tivesse um volume compatível com o banjo, o instrumento de cordas que tocava com maior volume naquele tempo. Sua busca o levou ao luthier John Dopyera, que mantinha uma oficina com seu irmão Rudy. Desse esforço nasceu um tipo de violão que chamado de "Ressonator Guitar", aqui conhecido como Violão Dinâmico, produzido por muito tempo pela Del Vecchio. A National String Instrument Corporation foi fundada em 1928 com vários sócios, entre eles George Beauchamp e John Dopyera, para fabricar e distribuir os violões dinâmicos com corpo de madeira ou aço. Depois de algum tempo houve um desentendimento entre os sócios quando os irmãos Dopyera saíram da sociedade e fundaram a Dobro (Dopyera Brothers) que fabricava o mesmo tipo de instrumento.

Esses violões exigem um alto grau de precisão na manufatura das peças metálicas para que funcionem direito e passo lógico era contratar uma empresa metalúrgica que pudesse garantir essa qualidade. A National e a Dobro tornaram-se clientes de Adolph Rickenbacher.

Nos anos 20 a idéia de instrumentos de corda elétricos já estava no ar por algum tempo. Com os problemas societários se acumulando na National, George Beauchamp começou a pesquisar avidamente essa possibilidade trabalhando à noite na mesa de jantar de sua casa. Acabou desenvolvendo o primeiro captador para guitarras, o "Horse Shoe" (ferradura). Ele foi montado num protótipo de guitarra havaiana feito à mão na garagem de sua casa pelo artesão Harry Watson e esta foi a primeira guitarra elétrica construída no mundo. É conhecida por Frying Pan (frigideira) por motivos óbvios. A patente desse produto foi pedida em 1932 e concedida em 1937.

Adolph Rickenbacher tinha tomado gosto pelo pela indústria de instrumentos musicais e gostava bastante de Beauchamp. Ao ver a nova invenção e acreditando em seu sucesso comercial, propôs a Beauchamp a fundação de uma nova companhia. Os dois e mais alguns amigos fundaram a Ro-Pat-In Corporation em 1931 que tinha Adolph Rickenbacher como seu presidente. A empresa fixou endereço num prédio ao lado da Rickenbacher Mfg. e iniciou a produção das "Frying Pan" e violões elétricos que traziam a marca Electro Strings Instruments. Em 1934 o nome da companhia foi mudado de "Ro-Pat-In" para "Electro Strings Instruments Corporation" e os instrumentos fabricados começaram a se chamar Rickenbacker Electros já com a grafia americanizada. O nome Rickenbacker era famoso na época por causa de um primo de Adolph - Eddie Rickenbacker, um ás da aviação da Primeira Guerra - e eles desejavam capitalizar essa conexão. Mas chamar os instrumentos com o sobrenome de Adolph era um movimento natural já que ele era o maior acionista da empresa e suas contribuições técnicas aos produtos eram inestimáveis.

George Beauchamp, com a saúde abalada, renunciou à sua posição na corporação em 1940 e vendeu suas ações para o guarda-livros de Adolph. Pouco depois morreu de um ataque do coração enquanto, contra a orientação de seu médico, pescava em mar profundo. A procissão em seu funeral tinha mais de 3 km de comprimento... não lhe faltavam amigos.

A Electro Strings Instrument Corporation, sob o comando de Adolph, continuou produzindo uma grande gama de instrumentos de corda e acessórios. Aproximando-se da idade da aposentadoria, Adolph começou a pensar em vendê-la. Encontrou um entusiasmado comprador em 1953.

Francis C. Hall nasceu em Iowa em 1909 e mudou-se para Santa Ana, Califórnia, em 1919. Em 1927 fabricava baterias (pilhas) em casa e as vendia através da loja de seu pai. O negócio evoluiu para uma das mais prósperas companhias de distribuição de peças para eletrônica do sul da Califórnia. No final dos anos 30 ele rebatizou a empresa de Radio and Television Equipment Company, também conhecida como Radio-Tel. Em 1946 a Radio-Tel começou a distribuir guitarras havaianas e amplificadores feitos por Leo Fender em Fullerton - Califórnia, rapidamente se transformando seu distribuidor exclusivo e construindo uma rede nacional de distribuição para os produtos Fender.

Hall apoiou Leo Fender financeiramente numa época em que a fabricação de guitarras elétricas era algo considerado de alto risco pelos homens de negócio. Claramente ele foi uma das primeiras pessoas a reconhecer as brilhantes possibilidades comerciais existentes nas guitarras elétricas.

Em dezembro de 1953 Adolph Rickenbacker vendeu a Electro Strings Instruments Co. para Mr. Hall. Pouco depois Leo Fender e Don Randall fundaram a Fender Sales, Inc. que iria gerenciar toda a distribuição dos produtos Fender. Hall vendeu suas ações da companhia e começou a se dedicar à modernização da Electro Strings e da sua linha de guitarras Rickenbacker.

Mr. Hall dirigia os caminhos da empresa com competência, decidindo quando introduzir novos modelos e sempre estimulando a criatividade de seus empregados. Um deles, Roger Rossmeisl em 1957, desenvolveu um modelo semi acústico, estilisticamente inovador e batizou a linha de "Capri". Logo o nome foi abandonado e as guitarras ficaram mais conhecidas como Modelo 300. Francis Hall acreditava que versões com tamanho reduzido do original seriam bem vindas e definiu uma linha neste sentido chamando os modelos de 310, 315, 320 e 325. Na Rickenbacker os códigos com final "0" significam guitarras com ponte fixa comum e os de final "5", guitarras com tremolo.

Em 1960 John Lennon ouviu na Alemanha, no rádio, a banda de jazz de George Shearing tocar e ficou entusiasmado com o som da guitarra. O guitarrista era Jean "Toots" Thielemans, há longo tempo um endorser das guitarras Rickenbacker. Na capa de um disco de "Toots" notou que ele usava uma Rickenbacker.

Um dia, acompanhado de George Harrison, John entrou numa loja em Hamburgo e comprou uma Rickenbacker em prestações, mas pensando no esquema "algum dinheiro agora e o resto quando te pegarem". Não há registros de que john tenha pago o instrumento algum dia. A Rickenbacker que John comprou era um Modelo 325 com acabamento natural, quatro knobs, três captadores, escudo dourado e um trêmolo VibRola - número de série V81.

A fabricação desses modelos teve início no começo de 1958 com os números de série começando em V80. Isso indica que a guitarra de John foi a segunda a ser fabricada. A guitarra com o número V80 tinha acabamento sunburst (chamado de Autummglo) o que torna a guitarra de Lennon a primeira em acabamento natural (chamado de Mapleglo) a ser produzida. Apenas 28 guitarras foram fabricadas no ano de 1958: 20 Autummglo e 8 Mapleglo. A guitarra de John tem o tampo sólido enquanto a maioria das 325 produzidas têm um "f-hole", um buraco em forma de "f" parecido com os usados nos instrumentos de arco. Isso a torna um dos instrumentos mais raros já fabricados pela Rickenbacker.

Mr. Hall e a guitarra de Lennon.

A guitarra comprada em Hamburgo também foi fotografada na Feira de Instrumentos Musicais da NAMM (National Association of Music Merchants) de 1958 em New York. Numa foto do stand vê-se a guitarra de John no canto inferior direito e em outra, onde "Toots" Thielemans está tocando, vê-se a guitarra na direção de seu cotovelo. Ela pode ser reconhecida por um desenho específico da madeira em seu "chifre" maior, pela curvatura incomum da alavanca do trêmolo e pelos cinco parafusos de fixação do escudo - provavelmente um ajuste feito na própria feira a pedido do demonstrador. A guitarra de Lennon é a única com essa curva dupla e com esse número de parafusos de fixação, o que a torna especialmente rara. Todas as outras têm a alavanca praticamente reta e quatro parafusos.


As guitarras foram um fracasso, ninguém se interessou por elas. Decidiu-se então fazer algumas modificações. De volta à Los Angeles o circuito elétrico foi modificado sendo acrescentados dois potenciômetros, disponibilizando agora dois controles de volume e dois de tom, aumentando a versatilidade. Também foram equipadas com novos knobs em estilo Art-Deco, hoje conhecidos como "botões de fogão". Todas as peças originais foram reaproveitadas, o que explica a guitarra de John continuar com os cinco parafusos e com a alavanca com a dobra extra.


Registros da fábrica detalham o embarque, em 15 de outubro de 1958, de três Modelos 325 Mapleglo, incluindo a de numero de série V81, para o distribuidor na Alemanha - a Framus Company. Praticamente dois anos depois John Lennon entra na loja Musikhaus Rotthoff, em Hamburgo, e pede uma Rickenbacker. Coincidentemente eles têm uma encalhada no estoque há muito tempo e as vontades se complementam. John tem agora uma legítima guitarra americana, algo com que sempre sonhara e a loja livrou-se de um produto difícil de vender. Esta coincidência salvou o Modelo 325 de uma extinção quase certa e ainda tornou-o um dos produtos mais populares e procurados da Rickenbacker.

John não era muito apegado à originalidade das peças de sua guitarra e promoveu profundas transformações nela. A primeira foi uma troca de trêmolo em 1961. O Kaufmann VibRola não era um equipamento muito estável e não conservava a guitarra afinada por muito tempo. Talvez inspirado na Duo Jet de George, encomendou um trêmolo Bigsby B-5. Quando o equipamento chegou, John foi com sua guitarra buscá-lo e o trêmolo foi instalado na própria loja. Um novo cavalete de alumínio, chamado de "Bow Tie" (gravata borboleta), veio com o conjunto e também foi instalado no instrumento. John ficou satisfeito com seu novo e muito mais estável trêmolo.

O Vibrola original e o novo Bigsby com a Bow Tie

Mas os knobs estavam sempre caindo e John começou a usar um modelo cromado, comprado em loja de equipamentos eletrônicos, talvez pela maior facilidade de obtenção.

Em 1962 John decidiu pintar a guitarra. Não se sabe exatamante o que o levou a isso, mas provavelmente a idéia de Brian Epstein em ter o visual da banda com tudo combinando tenha influenciado na decisão de pintá-la de preto, combinando com a Duo Jet de George. O serviço foi feito por Charles Bantam, um pintor de automóveis com oficina em Birkenhead, um subúrbio de Liverpool. Ao mesmo tempo John resolveu trocar os knobs por um modelo da Hofner, iguais aos do baixo de Paul. A primeira foto que denota esta mudança foi tirada em 12 de outubro de 1962. Mas como o pintor pouco entendia de guitarras, devolveu o instrumento com as ligações elétricas erradas e a guitarra não funcionava direito. Ela vivia com o escudo apenas preso por dois parafusos o que mostra que várias tentativas de consertá-la estavam sendo feitas entre as apresentações. E os knobs continuavam caindo.

Na última quinzena de 1963, com o grupo em férias, a guitarra foi levada para Jim Burns, um fabricante de guitarras de Essex, e a parte elétrica foi consertada. Nesse momento ganhou o último jogo de knobs que teria - os knobs que Burns usava em suas guitarras.

 Na ordem: a) Knobs originais, estilo botão de fogão; b) Knobs da loja de eletrônicos; c) Knobs Hofner e d) Knobs Burns

A guitarra foi usada por John em todas as apresentações ao vivo e em todos os trabalhos de estúdio entre sua compra em 1960 e a primeira apresentação no Ed Sullivan Show em New York em 1964, onde ela fez sua última aparição pública. Na segunda apresentação, em Miami, John já usou sua nova Rickenbacker 325, Jetglo (preta), fabricada em 1964 e que lhe foi entregue um dia antes do programa. As últimas fotos em que a velha Rick aparece são de 30 de setembro de 1964, dentro do estúdio, data em que aparentemente foi definitivamente aposentada.

A guitarra não foi tocada seriamente até 1970 quando John resolveu restaurá-la. Levou-a ao luthier Ron de Marino de New York, que a retornou ao seu acabamento transparente original, trocou o escudo dourado que estava rachado por um branco e colocou novas tarraxas Grover Sta-Tite seladas. A guitarra ainda pertence a Yoko Ono e está exposta no Museu John Lennon de Tóquio.

A Rick em sua condição atual

Especificações Originais

Número de série:
V81

Ano de fabricação:
1958

Cor:
Mapleglo (natural)

Escudo:
Simples, dourado

Corpo:
Alder, semi sólido

Braço:
Alder, laminado

Escala:
Alder

Marcadores de posição:
Discos (bolinhas) de plástico cor creme

Tarraxas:
Grover, não seladas

Captadores:
3 Single coil estilo "toaster" (torradeira)

Controles:
Chave seletora de três posições, 2 controles de volume e 2 de tonalidade

Ponte:
De roletes

Trêmolo:
Kaufmann VibRola

Knobs:
Art Deco - estilo botões de fogão

Por Carlos Assale

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Gretsch Duo Jet


"Minha primeira boa guitarra foi a Gretsch Duo Jet. Não era fácil conseguir uma guitarra americana em Liverpool em 1960 por causa da severa deficiência no suprimento e, mais importante ainda naqueles tempos, insuficiência de dinheiro. Um dia, numa edição do Liverpool Echo, vi um anúncio na seção For Sale onde um marinheiro, que a tinha comprado na América, a colocou à venda.

Só Deus sabe como consegui juntar 75 libras economizando o que eu estava começando a ganhar tocando... parecia uma fortuna! Me lembro de ter o dinheiro no bolso e pensar 'Espero que ninguém me assalte!'. Corri ao endereço indicado no anúncio e voltei pra casa como um muito satisfeito proprietário de uma Gretsch. Foi minha primeira guitarra americana de verdade e eu te digo - era realmente de segunda-mão, mas eu a poli direitinho. Estava muito orgulhoso de tê-la." - George Harrison

Era 1961. George acabara de comprar uma Gretsch 6128 "Duo Jet" de 1957. Usou essa bela e robusta guitarra nos primeiros singles, nas sessões do Please, Please Me e em inúmeros shows em Hamburgo, no Cavern, no Casbah e por concertos pela Inglaterra até meados de 1963. Depois disso ela ainda foi levada em excursões pela Europa e América como back-up.

Depois daquelas turnês a guitarra foi presenteada a Klaus Voormann, que trocou um captador e ficou com ela por mais ou menos 20 anos, quando a devolveu a George. Em 1986 ou 1987 ela foi levada ao luthier Roger Giffin para um trabalho de reabilitação. Toda a fiação foi refeita e dois captadores DeArmond iguais aos originais foram colocados. George voltou a usá-la em 1987 nas gravações de Cloud Nine, com a qual aparece na foto da capa.


Especificações

Número de série:
21179

Cor:
Preta.

Escudo:
Prata.

Corpo:
Mogno semi-sólido (oco), com "top" arqueado em maple.

Braço:
Mogno.

Escala:
Jacarandá da Bahia (mesmo!), 628mm.

Marcadores de posição:
Retangulares com uma corcova, em celulóide imitando madrepérola (característica única das Duo Jet de 1957).

Filetes:
Branco e preto no corpo, braço e paleta (mão).

Tarraxas:
Grover StaTite.

Captadores:
 Dois DeArmond Dynasonics.

Controles:
Volume para cada captador, tom, volume master e chave de seleção de 3 posições.

Ponte (cavalete):
Barra contínua (Não original).

Tremolo:
Bigsby com recorte em V (Não original).

Knobs:
Metálicos, marcados com um "G" atravessado por uma flecha (introduzidos em 1957).

Por Carlos Assale

domingo, 25 de setembro de 2016

Os Instrumentos dos Beatles: Guitarra Resonet Futurama


Em 1959 o embargo britânico sobre produtos americanos ainda vigorava e marcas como Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker eram impossíveis de se conseguir no Reino Unido. A maioria dos jovens guitarristas sonhava com instrumentos inalcançáveis. George Harrison, na adolescência, sonhava acordado com guitarras, desenhando-as nos cadernos da escola e estudando as capas dos discos de seus ídolos.

A Futurama era o mais próximo que, nessa época, na Grã Bretanha, um guitarrista conseguiria chegar da mais desejada guitarra da época: a Fender Stratocaster. Desde 1958 os guitarristas britânicos estiveram olhando a capa de um disco de Buddy Holly cobiçando a guitarra brilhante, futurista, com três captadores, que aparecia nela. George Harrison era um deles.

"Se fosse do jeito que eu queria, a "Strat" (Fender Stratocaster) teria sido a minha primeira guitarra. Eu tinha visto a Strat de Buddy Holly na capa dp álbum "Chirping Crickets" e tentei achar uma. Mas em Liverpool, nesses dias, a única coisa que pude encontrar que lembrasse uma Strat foi uma Futurama. Era muito difícil de tocar, as cordas ficavam a mais ou menos meia polegada da escala. Mas apesar disso ela realmente parecia algo futurista", disse George.

Em 20 de novembro de 1959, George Harrison e Paul McCartney foram à loja de instrumentos de Frank Hessy.

"Paul estava comigo quando comprei a Futurama. Ela estava pendurada na parede com todas as outras guitarras e Paul a plugou num amplificador mas nenhum som saiu dela. Então aumentou o volume do amplificador ao máximo. A guitarra tinha três chaves oscilantes e quando acionei uma delas um poderoso "boom" saiu do amplificador e todas as outras guitarras caíram da parede. Minha mãe assinou a compra a prazo por mim, o que significava uma libra agora e o resto quando te pegarem".

A Cooperativa Drevokov

Anos antes, em 1953, em Blatna, Checoslováquia, hoje República Checa, a Cooperativa Drevokov - uma empresa estatal especializada em produzir lambris, móveis, cabides e outros produtos de madeira - recebia um novo gerente: Josef Ruzicka, um homem com inclinações musicais. Por sua decisão a companhia começou a experimentar a produção de instrumentos musicais e em 1954 ele e o designer Vlcek lançaram o primeiro instrumento elétrico da empresa. Era uma guitarra estilo havaiana que ostentava a marca "Resonet". O modelo era chamado de "Akord" e a "Resonet Akord" marcou o início da manufatura de guitarras elétricas na Checoslováquia.

Resonet foi o nome que a Drevokov usou para todos os seus instrumentos elétricos. Apesar de ainda fazerem confusão não existe uma empresa Resonet, esse nome é só uma marca. No cartão de garantia havia a frase: "Resonet: a marca dos primeiros instrumentos eletrofônicos checoslovacos".

A Resonet Grazioso 

A Resonet Akord se mostrou muito popular e no ano seguinte a Drevokov decidiu fabricar uma guitarra elétrica, instrumento que se popularizava rapidamente. A inspiração para esse projeto foi uma Fender Stratocaster 1955 trazida dos EUA. Entretanto, ao invés de copiá-la, eles a examinaram cuidadosamente e a redesenharam completamente. De fato, várias funções da Stratocaster foram aperfeiçoadas, particularmente a parte elétrica e o trêmolo.

A nova Resonet tinha interruptores oscilantes para a seleção de captadores que permitiam sete combinações (oito se considerarmos a guitarra sem emitir som) ou seja, sete timbres diferentes. Isso estava muito à frente da Stratocaster, que naquela época só permitia três. Ela também tinha um controle de tom "master", que atuava em todos os captadores - a Stratocaster não tinha um controle desses para o captador da ponte. A pestana era uma peça totalmente inovadora integrando as guias e o apoio das cordas. Esse sitema foi muito usado por luthiers independentes nos anos 80 e ainda é utilizado por alguns. Os captadores tinham polos com ajustes individuais que não existiam na Stratocaster. O suporte do jack de saída era praticamente idêntico ao do instrumento da Fender.


O trêmolo foi um projeto totalmente novo e tornou-se um mecanismo muito sofisticado. Nada disponível no mundo se aproximava da excelência da engenharia desse dispositivo. Muito mais avançado que o da Fender, pivotava em dois pilares - como seriam os Floyd Rose bem mais tarde - e tinha seis molas individualmente ajustáveis, uma para cada corda.


Detalhes do trêmolo

Uma diferença evidente estava na paleta, que abrigava tarraxas no estilo de violão clássico, com pinos grossos, distribuídas no formato "3+3" ao contrário das da Stratocaster que eram de pino fino e distribuidas no formato "6-em-linha". As maiores similaridades maior estão na forma de construção do braço em uma só peça, sem uma escala em separado e na cor escolhida para seu acabamento.

Apesar de serem encontrados instrumentos pintados em cores sólidas como preto e vermelho, a grande maioria teve o corpo pintado em sunburst de dois tons com os braços em acabamento natural, uma combinação tradicional da Stratocaster. Ao modelo foi dado o nome de "Grazioso" e ele se tornou um grande sucesso, ganhando até uma medalha de ouro na "Expo 1958" em Bruxelas.

A Resonet Futurama 

No final de 1957 a Drevokov assinou um contrato com a Selmer para distribuição de seus produtos na Grã Bretanha. As primeiras peças chegaram ostentando o nome "Grazioso" na paleta, mas isso logo se mostrou inadequado mercadologicamente. Logo depois a Selmer as rebatizou de Futurama e elas começaram a chegar sem nenhum nome inscrito na paleta, vinham apenas com o logo "Resonet" no escudo. Só instrumentos sunburst foram importados. Pelas novidades que apresentava, a Selmer as promovia como "A Mais Avançada Guitarra Elétrica Do Mundo", o que não fugia muito da verdade na época.

Era uma Futurama dessa primeira versão que George Harrison usava.

Apesar de George reclamar da dificuldade em tocá-la, tudo indica que ela não era um mau instrumento e com certeza era um instrumento muito moderno para os padrões disponíveis na Grã Bretanha na época. Ela era vendida por £57.75 (aprox. £1030 hoje), incluindo uma correia. Um case custava mais £6.30. Isso fazia da Futurama um instrumento muito caro numa época que um Hofner Club 40 custava £33.60 e uma Rosetti Solid 7 £18.90. Mais tarde a Futurama foi comercializada como uma linha mais econômica, mas as primeiras certamente se colocavam na faixa mais alta. Muitos guitarristas influentes da época usavam uma, entre eles Gerry Marsden do Gerry and the Pacemakers e o jovem Jimmy Page, que trocou sua Hofner Senator por uma Grazioso quando suas habilidades guitarrísticas começaram a melhorar. E é fato que quase todas as bandas da Grã Bretanha tinham uma Futurama entre seus intrumentos no início dos anos 60. Larry Wassgren, um colecionador de Wisconsin, EUA, possui uma exatamente igual à de George e conta que ela tem uma excelente sonoridade e é muito confortável de tocar.

George a usou desde o final de novembro de 1959 até a primeira quinzena de julho de 1961 quando comprou a Gretsch Duo Jet. Isso cobre várias apresentações em Liverpool e as duas viagens à Hamburgo. Foi ela que George usou nas gravações em junho de 1961 quando os Beatles acompanharam Tony Sheridan em oito canções, que foram lançadas no LP Tony Sheridan & The Beat Brothers (Os Beatles foram rebatizados por Bert Kaempfert, o produtor do disco, como "The Beat Brothers" porque a palavra "beatles" pronunciada com sotaque germânico soava muito parecida com "peedles" que é uma palavra alemã para "pênis"). Nesse dia os Beatles também gravaram "Ain't She Sweet" e "Cry For A Shadow" na qual se pode ouvir George fazendo o solo com a sua Futurama.

A Drevokov inovadora 

Outros instrumentos Resonet interessantes eram o lap-steel Arioso e o baixo Arco, um baixo elétrico para ser tocado como um contrabaixo acústico de orquestra. A Arioso, introduzida em 1955, tinha um captador com duas bobinas reversas - os tchecos haviam inventado o captador humbucker independentemente de Seth Lover e nem se deram conta disso! Estranhamente ele não foi desenvolvido posteriormente e nunca mais apareceu num instrumento da marca.

O Baixo Arco era um instrumento de concepção inédita na época. Tinha um formato angular, um repouso regulável para o joelho e um controle de volume na traseira do instrumento, para fácil acesso. O baixo Arco também foi importado pela Selmer como o Futurama Bass.

Outro instrumento à frente de seu tempo foi o baixo Pedro VI que aparentemente foi o primeiro baixo de seis cordas a aparecer comercialmente.

A Drevokov até os dias de hoje 

Em 1959 um novo diretor tomou posse na Drevokov, um homem que não se importava muito com música. Josef Ruzicka e sua equipe foram movidos para uma nova fábrica em Hradec Kralove e posteriormente as fábricas em Krnov e Horovice. Agora a produção estavam sob a tutela da estatal CSHN (Instrumentos Musicais Tchecoslovacos) e várias marcas foram utilizadas, como Neoton, Delicia e Jolana. Muitas mudanças foram feitas na Futurama mas sempre no sentido do barateamento de produto, acabando por comprometer sua qualidade. Conta-se uma interessante história: a mudança de braço parafusado por braço colado aconteceu não por uma busca de timbre mas sim porque eles acabaram ficando sem parafusos.

No momento que o embargo aos produtos americanos foi levantado e as Fender, Gibson, Gretsch e Rickenbacker ficaram disponíveis na Grã Bretanha, as Futurama foram imediatamente esquecidas. Apesar disso, a fábrica continua produzindo até hoje e há inclusive um modelo Grazioso atualizado. Nos anos 80 eles até fabricaram os modelos Striker e Vanguard para a Kramer.

Hoje, com o crescente entusiasmo com coisas relacionadas aos Beatles, as Futurama têm sido alvo de um maior interesse no mercado "vintage".

Não sei se vai chegar à procura que têm os outros instrumentos mais nobres que os Beatles usaram mas, conhecendo toda a história e as inovações escondidas nela, ficamos com vontade de ter uma Futurama bem ao ao alcance das mãos.

É um capítulo honroso da história da guitarra!

por Carlos Assale