quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Montserrat, a ilha encantada de George Martin


Montserrat, nome dado por Cristóvão Colombo em 1493, em tributo ao Mosteiro de Santa Maria de Montserrat, em Barcelona (Espanha), é uma minúscula e longínqua ilhota, situada na confluência do Oceano Atlântico e do Mar das Caraíbas, ao leste das Antilhas (West Indies). A terra firme mais próxima é a Venezuela. Com apenas 102 Km2 e uns 11 mil habitantes, a ilha de Montserrat era tida como a "esmeralda das Caraíbas", destino turístico de abastados. Águas cristalinas, o verde como tapete da terra, vegetação luxuriante, língua inglesa (a ilha ainda é um  território dependente britânico), a maior concentração mundial de campos de golfe por metro quadrado, cascatas deslumbrantes, praias de areia fina e branca e águas tépidas faziam a delícia dos visitantes, ideal para cidadãos britânicos bem posicionados na vida.

 George Martin apaixonou-se pela ilha em 1977. Além da beleza, encontrou nela a paz de espírito suficiente para a criatividade da música. Escassos dois anos depois concluiu, num local idílico, os AIR Studios, os mais modernos e sofisticados de então. Pelos estúdios passaram dos maiores "monstros sagrados" da história do rock, como Paul McCartney, Rolling Stones, Eric Clapton, Dire Straits, Elton John, Stevie Wonder, Police, Ultravox, Lou Reed e tantos outros, que usufruíram das excelentes condições técnicas e ambientais para a produção de canções que ainda hoje perduram na memória. Os estúdios viraram uma atração turística e o maior produto de exportação da ilha, suplantando o algodão do tipo Sea Island. O povo não esqueceu e tratava-o, como ainda o trata hoje, por Saint George.

Mas o sonho coletivo de George Martin, dos músicos e do povo de Montserrat só durou 10 anos. Em 1989, o furacão Hugo destruiu parcialmente a ilha e com ela os estudios modelares, obrigando a sua deslocalização para Londres, onde permanece. Não foi esse o único desastre da ilha. Tivesse George Martin ficado e provavelmente não teria escapado às múltiplas erupções do vulcão Soufriére, o maior do mundo em atividade, que se iniciaram em 1995 e duram até hoje. A última grande ocorrência registrou-se em 12 de julho de 2006. Vistos do observatório vulcânico, os estúdios de George Martin são um soco no estômago. Situados na base to vulcão, não muito longe do que foi um espetacular campo de golfe e uma praia de areia branca, o complexo é um fantasma indesejado do passado.

"Ainda na semana passada, tudo isto era verde", dizia-me um guia, apontando para o manto cinzento que cobre os estúdios, do vulcão ao mar. "Tudo é muito triste". E não é para menos. A atividade do vulcão diminuiu para menos da metade a população da ilha, obrigada a fugir, destruiu a capital, Plymouth, e seu aeroporto, fechou ao mundo dois terços do seu território. Os estúdios de George Martin situam-se na zona interditada aos olhares. Só de longe se pode enxergar. A ilha tornou-se verde e cinzenta, coberta pelas cinzas das erupções, e os habitantes e turistas são obrigados a usar máscaras. Mas o povo de Montserrat não desiste de lutar pela chegada de novos Georges Martins. Ostenta orgulhosamente tshirts com os dizeres "I'm Proud Montserraneant", mas até o novo campo de futebol, ainda por concluir, a mais recente "jóia da coroa" da ilha, foi parcialmente destruído em junho.

Um dos que não desiste é George Martin. Empenha o seu nome e reputação na organização de eventos que possam devolver o sorriso aos rostos dos orgulhosos habitantes da ilha. Logo em 1989, imediatamente a seguir ao furacão, George Martin pôs de pé um álbum de solidariedade, After The Hurricane - Songs From Montserrat, com nomes e canções gravadas na ilha, das quais destaco "Fancy Man Blues" (Rolling Stones), Ebony and Evory (Paul McCartney e Stevie Wonder), "Why Worry" (Dire Straits), "Invisible Sun" (Police), "I Guess That's Why They Call It The Blues" (Elton John) e "New Moon On Monday" (Duran Duran). Em 1997, depois das erupções, reuniu no Royal Albert Hall, de Londres, um super-concerto com Paul McCartney, Mark Knopfler, Elton John, Sting e Eric Clapton, ex-clientes de Montserrat.

Todos os proveitos foram para a ilha. Mais recentemente, o antigo produtor dos Beatles leiloou, com a ajuda de Paul McCartney, 500 litografias de "Yesterday", angariando fundos para a construção de um Centro Cultural em Montserrat. A ilha de Montserrat está moribunda, mas ainda não está morta. Enquanto houver Georges Martins, o povo de Montserrat pode olhar para o futuro com algum otimismo. Mas não é tarefa fácil. Quase nada está de pé. Ainda hoje, mês e meio depois da minha primeira visita à ilha, ao consultar as minhas notas, os dedos das mãos ficaram cobertos por um pó finíssimo. É triste.

Por Luís Pinheiro de Almeida

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Entrevista: Aramis Barros, da banda Os Canibais

Além de atuar na garage band pioneira, Os Canibais, Aramis Barros também está investindo na criação do The Cavern Brasil.

Vocês iniciaram com um compacto com duas músicas dos Beatles. Você pode falar sobre a influência deles na sua vida?
Eu devo tudo na minha vida profissional aos Beatles. Nós entramos na música há cerca de 40 anos atrás por causa deles e seguimos trabalhando posteriormente nesta carreira.

Por volta de 63/64, a gente aqui ainda não sabia muito sobre o que já estava acontecendo na Europa. Nós já curtíamos rock e guitarras, mas os Beatles ainda estavam entrando nos EEUU e ainda não tínhamos acesso aos lançamentos europeus, que vinham através dos EEUU... Nós gostávamos da música instrumental dos Ventures, Shadows, Duane Eddy e aqui no Brasil: The Jet Blacks, The Jordans e The Clevers (Os Incríveis). Claro que já curtíamos Neil Sedaka, Paul Anka, Bill Haley, Chuck Berry, Little Richard, Elvis, April Stevens etc... mas aquilo pra nós já estava ficando meio “careta”, muito “lamê”...

Aí aparece uma reportagem no Globo de quatro caras que estavam arrebentando na Europa e invadindo os EEUU... foi a gota d'água! Nós vimos que uma banda alem de tocar guitarras, podia cantar, vocalizar, compor, vestir roupas mais interessantes, cabelos grandes, botas... foi tudo! “I Want To Hold Your Hand” pegou a minha geração pelos ouvidos, olhos, mente e coração! Durante aqueles anos, tocamos todos (todos mesmo!) sucessos dos Beatles. Era o Big Boy lançar na rádio Mundial e a gente gravar em cassete antes mesmo do disco ser lançado... Depois era aquela correria nas lojas!

Nunca mais me afastei da música desde então e carrego comigo o apuro técnico e musical que aprendemos ouvindo atentamente tudo o que eles lançavam, para poder tocar cada novo sucesso que aparecia. Como começamos a gravar os nossos próprios discos, acabei aprendendo os segredos das técnicas de gravação e produção artística, que nortearam minha carreira profissional.

O LP Sgt. Pepper está completando 40 anos. Você se lembra de como o descobriu o qual a sua impressão sobre ele?
Veja bem: nós não podemos dizer que “descobrimos” este LP, porque nós simplesmente vivemos cada lançamento dêles. Mas a coisa era bem mais lenta do que hoje.
Primeiro correu o boato que eles iam acabar. Mais tarde a notícia era de que eles estavam insatisfeitos com os equipamentos de palco que já não atendiam os seus shows devido à grande quantidade de fãs que gritavam o tempo todo abafando tudo o que eles tocavam ou falavam. Ainda nesta época corria o boato também da morte do Paul.

De repente o Big Boy, que tinha um dia que era só de Beatles, acaba mostrando alguma coisa. Se não me engano “Sgt Peppers” e “With a Little Help From My Friends”. QUE QUE É ISSO??? E a gente nem tinha visto ainda o trabalho de arte da capa.

Claro que quando o LP chegou às lojas, eu fui um dos primeiros a comprar. Eu lembro que uma vez nos bastidores da TV Rio, antes do programa “A Festa do Bolinha” do Jair de Taumaturgo, durante os ensaios, Os Canibais e The Sunshines conversamos muito sobre o disco e ficamos ali curtindo tudo o que já estávamos tocando do Sgt Peppers. Detalhe: nesta época não tínhamos condições técnicas nem recursos para tocar com autenticidade algumas músicas deste disco. Mas tocávamos assim mesmo! Melotron, cordas e metais viravam órgão. E a gente se virava como podia para reproduzir aqueles sons de guitarras. Mal sabíamos nós que a intenção era essa mesma. Eles fizeram um disco que nem eles mesmos poderiam tocar ao vivo.

Outro detalhe interessante (alem da novidade das letras na arte e a magnífica foto da capa) foi o acirramento dos boatos a respeito do Paul com ele de costas no centro da capa e um trecho de gravação que foi colocado no final do lado B, próximo à etiqueta do disco que só tocava um pouquinho antes de o braço do toca discos levantar. Para ouvir, você tinha que desarmar o automático, colocar a”pick-up” em cima do trechinho e rodar manualmente o disco ao contrário! A gente ouvia qualquer coisa que parecia dizer que o Paul já estava morto.

Como pintou a idéia de criar uma filial do Cavern Club no Brasil?
Eu não criei esta filial. Na verdade eu fui convidado a participar como sócio do lançamento do RIO ROCK & BLUES CLUB no centro da cidade ainda no final do ano passado. Mas para a minha surpresa e satisfação, mais tarde o Dr. Carlos Chaves que é o detentor dos diretos da marca no Brasil, se juntou ao grupo com esta proposta de abrir o Cavern também.

Recentemente você anunciou um adiamento da inauguração do Cavern Club, talvez até mudança de endereço. Algum problema específico?
Por enquanto o Cavern ainda não muda de endereço. Devido a problemas com o projeto de adaptação do espaço e de gestão administrativa, acabamos demorando mais do que prevíamos para abrir agora. Nós estaremos iniciando as obras possivelmente na próxima semana e pretendemos inaugurar o Rio Rock em agosto. Se a obra for aprovada também pelo Cavern mantemos o projeto inicial, mas se não houver consenso, abrimos em outro local.

Além do nome "Cavern Club", que outras características dos anos 60 essa casa vai ter? Existe alguma decoração especial?
A casa não vai ter só uma característica de anos 60. Assim como o Cavern original, que revelou os Beatles e tantas outras bandas, nós pretendemos implementar um projeto de Escola do Rock e concursos de bandas de pop-rock e blues da nova geração também. Assim como já era a característica do Rio Rock na sua antiga sede da Barra da Tijuca. Também vamos oferecer palestras sobre o mundo do rock, exibições de vídeos e exposições da artistas plásticos sempre sobre o assunto pop-rock e blues de todas as gerações. A decoração reproduz as paredes de tijolos do Cavern original e o espaço será temático, com imagens, documentos, instrumentos, etc. (tipo Hard Rock).

Os Canibais sempre tiveram um som mais underground, mais roqueiro, do que a maioria dos artistas da Jovem Guarda. Você a considera como uma "banda da Jovem Guarda"?
Realmente nós vivemos um universo quase que paralelo à Jovem Guarda. Assim como Os Canibais, a Bolha, Sunshines, B. Bitles, Baobás, Beatnicks, Os Aranhas, Os Santos etc... se apresentavam nos programas da Jovem Guarda que eram os meios que tínhamos para chegar ao nosso público, mas nós não ficávamos presos a este esquema. Tanto nas TVs quanto ao vivo, a gente sempre acabava tocando o que gostávamos e que a nossa geração mais curtia. Ao vivo então, nos palcos dos clubes e casas de show o “buraco” era mais embaixo. Até inclusive realizamos o trabalho do BANGO em 70, que saiu completamente dos arranjos e melodias açucaradas da época.

Depois de muitos anos, os Canibais voltaram e estão mais ativos do que nunca. Qual a influência da Internet, principalmente do Orkut nisso?
Bem, nós fizemos um lançamento quase que caseiro. Não usamos de nenhum recurso de “marketing” das majors para a nossa divulgação e por isso o Orkut e a Internet tem sido de grande ajuda sim. Esta semana inclusive consegui abrir o nosso site: www.oscanibais.com.br Tem tudo lá: história, release, discografia, fotos, contatos...

Além dos Canibais (claro!), que outros artistas deverão se apresentar no espaço? Você tem uma agenda de eventos idealizada?
Ainda não existe uma previsão da agenda. Mas com certeza os covers dos Beatles e anos 60 de maneira geral, artistas e bandas novas com repertório próprio...

Além dos músicos dos Canibais, vocês sempre foram ligados à indústria fonográfica e às gravadoras. Como você analisa o avanço da pirataria? O que fazer para combatê-la?
É... não tomaram os devidos cuidados no início e agora não tem muito o que fazer. Se você pensar que tem de tudo pirata (remédios, ônibus, artigos eletrônicos, roupas, tênis, sapatos, gasolina...), fica realmente difícil de ser ver alguma luz no fim do túnel. As condições socioeconômicas da população aliadas aos preços exorbitantes de alguns lançamentos acabaram por disseminar esta cultura de não precisar comprar um CD, muitas vezes por causa de apenas um sucesso. Pode ser que no futuro haja uma volta ao princípio, quando o artista não lançava um Lp inteiro logo. Eram lançados vários compactos simples com apenas duas músicas, que eram divulgados um de cada vez durante certo período e só depois se juntavam estes lançamentos num único LP. Pode ser um caminho divulgar uma música na Internet através dos sites, até justificar o download de truetones ou posteriormente o lançamento do CD cheio.

Como está sendo aceito o disco novo, "A máquina do tempo"? Quais os planos para o futuro dos Canibais?
Temos um carinho muito especial com este trabalho porque ele significa não só a nossa volta, como também a confirmação de um longo caminho de uma grande amizade entre todos nós. O Cd tem sido muito bem aceito e temos recebido altos elogios, não só de radialistas e críticos como também do público de várias gerações. Tem sempre aquela sensação de surpresa pela jovialidade que conseguimos imprimir às nossas interpretações. Acho que conseguimos verdadeiramente a essência da idéia de “Vintage”, que foi reproduzir algo de 40 anos atrás com uma sonoridade convincente para os nossos dias. Apesar da originalidade dos arranjos mais atuais, não deixamos escapar o “clima” da nossa época. Agora nossos planos estão mais ousados. Temos várias composições prontas e planos de regravações de alguns sucessos de outras bandas nacionais que marcaram época.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A Northern Songs

Pouco se sabe sobre os direitos autorais das músicas dos Beatles. Esclareça a maioria das suas dúvidas sobre os verdadeiros proprietários das músicas criadas pelos Beatles.

Esta matéria é baseada em documentos oficiais coletados em cartórios e por outras fontes ligadas ao assunto. É importante ressaltar que se trata apenas de uma pesquisa histórica e para realizá-la foi deixado de lado todas as fábulas cridas através do tempo sobre os assuntos abordados nessa matéria. Por se tratar de um assunto extremante polêmico entre os fãs dos Beatles e com muita pouca coisa escrita sobre o assunto da Criação da Editora das músicas dos Beatles e da sua posterior compra (incluindo os direitos autorais das músicas dos Beatles).

Nota: As fontes usadas para a formação desse artigo são idôneas e conseguidas de forma totalmente legal.


Visão Geral

Nome legal: Northerm Songs Ltd.
Escritório central até 1985: Londres, Inglaterra. Hoje localizado em Nassau, nas Bahamas.
Capital até 1985: Aberto (A empresa emite ações para sócios).
Hoje: Fechado (Devido a centralização da maioria do seu capital, cerca de 70%, na mão de um único dono)


Era Beatles

Criada em fevereiro 1963 com os diretores Brian Epstein e Dick James, a Northern tinha um capital de inicial de cem libras em ações de uma libra cada. Estas ações foram divididas em partes. 49 delas sendo de Dick James, 20 de Lennon, 20 de McCartney e os 11 restantes pertenciam às empresas NEMS. A companhia foi reestruturada antes de fevereiro 1965. Depois disso Lennon e McCartney recebiam cada um £ 94.270 por ação e perdendo 15% delas. Os 15% restantes foram vendidos na bolsa de valores. A empresa assim se tornou de capital aberto e durante a reestruturação, as ações tinham um valor de 7.500.000 em 2% do valor de face. Isto deu à companhia um valor de 2.718.750 libras.

Então o controle da empresa era o seguinte: John e Paul tinham 15%, Dick James com 7%, sua família com 15%, Emmanuel Charles, presidente da Northerm com 15%, as empresas NEMS com 7% e George e Ringo com apenas 1,6% das ações (o restante de sócios minoritários). Esse arranjo se manteve até 1973. Dick James sempre ganhava 10% sobre a renda bruta da empresa como taxa de gerência.

Foram criadas empresas filiais para administrar os direitos autorais aonde a lei era diferente da lei do Reino Unido, com contratos exclusivos entre a Maclen Music Ltd. (Empresa que representava os Beatles legalmente) e as "filiais" da Northerm. Isso ocorria em certos países como EUA, Canadá, México e Filipinas. Havia também outros contratos com companhias na França e Austrália. O núcleo do relacionamento entre Maclen e o a Northerm é o fato que a Maclen atribuiu o copyright das canções à Northern, que retornava os pagamentos dos royalties. John e Paul recebiam os direitos, mas eles não mantiveram o controle sobre as ações. O que provocou a perda total do controle da empresa e também dos direitos autorais sobre as músicas da mesma.

Quando Allen Klein assumiu os negócios dos Beatles, Dick James vendeu suas ações para Lew Classe e a ATV Music por 35% do valor de face. Quando a oferta foi feita, Dick James visitou Lennon e McCartney na casa de Paul para explicar sua situação. Ambos ficaram irritados com o fato e consideravam o negocio um absurdo, então os dois ofertaram um valor alto oferecido pela a Northerm que era de 42/6d por ação. Mais os investidores majoritários preferiam o negócio com a ATV. Quando foi realizado o negocio, John prendeu 650.000 ações, e Paul prendeu 750.000 [a diferença ficou com Cynthia por causa do seu divorcio com o John. John e Paul obtiveram um lucro líquido de mais de 1.000.000 de libras do negócio].

Embora a imprensa divulgasse que este era o fim do controle de Beatles sobre suas próprias canções, tem-se que recordar que a Northerm era nada mais do que o arrecadador para a Maclen, que continuaria a fornecer aos Beatles uma renda sobre as suas canções.

Durante os anos, havia um número de disputas e de ações judiciais que envolvem ATV e o Beatles. Entretanto, os dois tentaram estabelecer um relacionamento, até certo ponto que Lennon e McCartney assinaram contratos de solo com a ATV através de suas companhias respectivas. Com isso eles obtiveram o controle sobre a ATV, que se transformou em uma subsidiária da Associated Communications Corporation, que era própria o assunto de uma batalha que já estava na última instância. Mudando o controle da ATV para Robert Holmes A'Court, que vendeu então a ATV a Michael Jackson.

Os originais da época mostram que Jackson arranjou um empréstimo de $30.000.000 USD do Chemical Bank para facilitar a compra antes de transferir a Northerm para Nassau nos Bahamas (Local conhecido até hoje como um paraíso fiscal), onde dois banqueiros facilitaram a transferência. O grupo inteiro da ATV foi comprado. Não há nenhuma documentação que mostra o valor total pago, embora os relatórios de imprensa indiquem que foram 34.000.000 libras.

Os anuários aos clientes da companhia arquivados nos anos antes do takeover de Jackson dão o balanço anual dos lucros da Northerm Songs Ltd.:

1978. £ 2,637,161.
1979. £ 2,953,206.
1980. £ 2,305,089.
1981. £ 2,278,017.
1982. £ 2,920,039.
1983. £ 3,358,455.
1984. £ 2,081,833.
1985. £ 942,010.

No período antes da compra de Michael Jackson a Northerm Songs Ltd., não explicava de onde vinha a sua renda. Isto não acontecia quando a Northerm era meramente uma subsidiária da ATV. Os dados abaixo se referem apenas o que era recolhido pela as músicas dos Beatles no período de quinze meses até 30/06/83.

UK Mechanical. £ 647,886.
UK Performance. £ 199,901.
UK Lyric. £ 1,144.
UK Sheet Music. £ 176,028.

Mechanical relaciona-se à renda das companhias BRITÂNICAS da gravação, para gravações de Beatles das canções escritas por membros do grupo, ou de versões de outros artistas. O Performace relaciona-se a pagamentos feitos apenas pela execução das músicas. Os Beatles são incapazes de resolver o caso devido à complexidade do caso.

O ponto chave aqui é que os Beatles atribuíram seus direitos de publicação a Northern Songs. Assim eles ganhavam 90% de tudo que era arrecadado.

Quando, Jackson comprou a Northern acabou adquirido a maioria dos direitos de publicação das canções do Beatles. Fora quatro canções dos dois primeiros discos da banda. Que foram publicadas antes da formação de Northern. Essas canções hoje pertencem a MPL de McCartney.

As canções de George Harrison e do Ringo Starr também estão fora do controle da Northern Songs, porque o contrato de ambos com a Northern expirou em 1968. E Não foi renovado por divergências nas negociações.


Era pós Beatles

Desde a compra, Jackson embolsa grande parte dos lucros e se recusa a vendê-los de volta. Há diversas ações na justiça sobre esse caso. Apesar de que não se tem mais acesso a como se encontra a real situação da empresa.

Devo mencionar que a Sony Corp. Teria pagado a Michael Jackson $95 milhões em 1995 para fundir ATV com a Sony. Da fusão resultou a Sony/ATV que controlava Northern até o inicio de 2004.

Em janeiro desse ano Jackson teve que vender mais uma pequena parte a Sony. Para ostentar "seu modo de vida excêntrico" (foi publicado nessas palavras em diversas fontes na imprensa). Assim se chega à conclusão que a gravadora Sony detem mais da metade dos direitos autorais das músicas dos Beatles.

Os preços cobrados pelas canções são extremamente abusivos. O que leva a um segundo ponto chave na questão. A visão do capitalista explorador que é tido como o "dono" da empresa. Embora os donos da Northern recebem os royalties gerados por canções dos Beatles em virtude de sua posse dos direitos autorais, Paul McCartney e John Lennon recebem sempre à parte de compositores que é 50% dos royalties para todas as canções de Lennon-McCartney.

A empresa dos Beatles conhecida como Apple Records controla os direitos de imagem e também a venda de material promocional da banda, o que gera mais dinheiro com o nome "The Beatles". No caso das gravações elas pertencem a EMI, que também paga aos Beatles pela execução das músicas.

Desde da época da compra a Northerm a forma de administração da empresa é bem interessante financeiramente para Jackson. Por exemplo, quando Paul fez a sua excursão em 1989 ele queria imprimir as letras de músicas como "Eleanor Rigby" no roteiro dos shows. Descobriu que teria que pagar uma taxa a Michael Jackson, porque ele era o proprietário dos direitos de publicação e execução.


O que a Northern não pode fazer

Há umas coisas que a Northerm pode e não pode fazer de maneira alguma. Ela não pode interferir no lançamento de CDs ou regravações feitas nos EUA. Isso tem a ver com as licenças de gravação dos Beatles. Há um caso bem interessante, onde Michael Jackson concordou em licenciar letra da música "Revolution" para um comercial da Nike em 1987, mas a Capitol não permitiu que a gravação original fosse utilizada.

Uma outra coisa que a editora não pode fazer (nos ESTADOS UNIDOS, ao menos) é impedir que alguém grave uma versão de alguma música que ela possui. A única função da editora é controlar os royalties pela regravação. Entretanto, se as negociações falharem, a lei dos EUA permite que o artista introduza a gravação no mercado, pagando um royalty estipulado (geralmente bem alto quando o assunto é Beatles) à editora. O que mostra que a Northerm não tem total controle sobre as músicas do seu catálogo.


Conclusão

O processo de dissolução e de compra da ATV está sendo contestado na justiça Britânica. Ele está sendo movido por as empresas que eram a holding da ATV antes de 1985. Este processo ocorre sobre regime de segredo de justiça. E poderá definir o futuro da Northerm, pois se for decidido que a compra se deu de forma fraudulenta a empresa volta a pertencer aos antigos acionistas.

Não existe um culpado sobre o a situação tão complicada dos direitos autorais das músicas dos Beatles. O que houve foram erros consecutivos na administração deles. E um oportunismo cometido por um dos controladores dos direitos autorais.

No meio disso tudo quem sempre leva a pior são os fãs dos Beatles, pois eles ficam como reféns do jogo capitalista que envolve toda a confusão causada pelo caso. E como sabemos a ética é uma palavra que não existe quando falamos em dinheiro. E de algo que rende milhões por ano totalmente sem transparência ou fiscalização de órgãos competentes para o assunto.

Por Marcos Augusto Fernandes

terça-feira, 5 de outubro de 2004

DVD: The Beatles no Ed Sullivan Shows

Existe no mercado (por ora somente via importação) uma jóia preciosa da alta tecnologia: um DVD duplo contendo simplesmente os quatro programas do lendário animador Ed Sullivan – pai do formato de quase todos os programas de auditório que conhecemos – com as históricas performances ao vivo dos Beatles. Certo que o material já circulava na pirataria há algum tempo. Primeiramente em VHS, e mais recentemente em DVD-R. Mas o DVD duplo disponível oficialmente para qualquer mortal comum vai além de tudo o que temos. Em 240 minutos, lá estão os programas que Ed Sullivan apresentou nos dias 9 de fevereiro de 64, 16 de fevereiro de 64, 23 de fevereiro de 64 e 12 de setembro de 65 na íntegra! Íntegra mesmo, já que foram incluídos os comerciais, as variadíssimas e até exóticas atrações do programa – mágicos, palhaços, dançarinos, cantores que jamais fariam sucesso, etc e etc. Para americano ver.

Foi em meio à esse mix que os Beatles resultaram escalados para aparecer pela primeira vez em larga escala na América bairrista e aparentemente pouco interessada no barulho do rock and roll produzido pelos jovens ingleses de então. A estratégia de marketing de Brian Epstein previa apresentações em teatros como o Carneggie Hall e até numa arena de boxe como o Coliseu de Washington. O que efetivamente aconteceu. Os irmãos Maysles foram especialmente contratados para filmar toda a passagem dos Beatles pela América, como se alguém soubesse que eles estavam mesmo fadados à consagração mundial Só que nada seria comparável à possibilidade de aparecer ao vivo na TV CBS, no programa de maior audiência dos Estados Unidos, o Show de Ed Sullivan na noite de domingo.

Os Fabs foram assistidos por uma colossal audiência de 73 milhões de pessoas. Pode-se dizer sem exagero que ali a Beatlemania nascia de fato porque agigantava-se para o mundo, rompendo de vez as fileiras do Reino Unido e de meia dúzia de países europeus. Pois este programa, onde os Beatles inicialmente apresentam três números na primeira hora, e mais três na segunda hora do show, está integralmente disponibilizado em DVD, com imagem restaurada e som distribuído para os sistemas Dolby 5.1 e DTS. O máximo. Esqueça material similar. A masterização leva o produto a apresentar-se ainda mais nítido que no documentário The First US Visit. O mesmo ocorre com as edições dos dias 16 e 23 de fevereiro de 64. E com o programa gravado no dia 14 de agosto de 65, exibido no dia 12 de setembro daquele ano.

LANÇAMENTO OCORRE QUASE NA MARRA

George Martin tem razão quando comenta que os contratos assinados por Brian Epstein em favor dos Beatles eram risíveis. A banda foi paga pela produção de Ed Sullivan para apresentar-se. E perdeu o direito à própria imagem divulgada no programa justamente por conta disso! Para completar, o material que hoje aparece integralmente neste DVD duplo não pertence à Apple ou a EMI, mas à empresa do cineasta Andrew Solt.

Aquele que produziu o filme Imagine, de John Lennon. Certo que nos créditos do DVD temos agradecimentos ao senhor Neil Aspinall, mas no final das contas a decisão de lançamento foi mesmo do staff de Andrew Solt e gerou polêmica até mesmo com sites como a Amazon (obrigados a retirar por duas vezes o item de seu catálogo) e até com patrocinadores como os da pomada Anacin (histórico anunciante de Ed Sullivan) pelo uso da marca sem licença na edição em DVD. Com tudo superado (aparentemente) o item passou a ser vendido em larga escala através do site www.edsullivan.com.

OS QUATRO PROGRAMAS TRACK BY TRACK

February 9, 1964 Show
1. Ed's Opening
2. THE BEATLES - All My Loving
3. THE BEATLES - Til There Was You
4. THE BEATLES - She Loves You
5. FRED KAPS – Card and Salt Shaker Trick
6. THE CAST OF "OLIVER" - I'll Do Anything For You
7. GEORGIA BROWN ("OLIVER") - As Long As He Needs Me
8. FRANK GORSHIN - Comedian /Impressionist
9. TERRY McDERMOTT - Olympic Athlete
10. TESSIE O'SHEA - Medley of favorite show tunes
11. McCALL & BRILL - Comedy / Office Sketch
12. THE BEATLES - I Saw Her Standing There
13. THE BEATLES - I Want To Hold Your Hand
14. WELLS & THE FOUR FAYS – Acrobatic Physical Comedy
Comentário:
George Harrison subiu ao palco às custas de muito remédio por conta da tremenda gripe com a qual desembarcou na América. Não participou da passagem de som e sequer do teste de palco para as câmeras (fotos históricas mostram Neil Aspinall em seu lugar). Quando os Beatles tocam Till There Was You e John Lennon é enquadrado, aparece a legenda histórica: "sorry girls – he´s married". Curiosidades: integrando uma atração chamada Cast For Oliver, um jovem chamado Davy Jones – aquele dos Monkees em sua fase pré-banda. A platéia que assistiu os Beatles no estúdio da CBS foi de 728 pessoas. No dia 8 de fevereiro eles realizaram os primeiros ensaios.

February 16, 1964 Show

1. THE BEATLES - She Loves You
2. THE BEATLES - This Boy
3. THE BEATLES - All My Loving
4. SONNY LISTON - Heavyweight Champion/Audience Bow
5. JOE LOUIS - Former Heavyweight Champion/Audience Bow
6. ALLEN AND ROSSI – Boxing Skit
7. MITZI GAYNOR - It's Too Darn Hot
8. MITZI GAYNOR - Medley Of Hits
9. THE NERVELESS KNOCKS - Sway Pole Routine
10. MYRON COHEN - Complex Comedy Bits
11. THE BEATLES - I Saw Her Standing There
12. THE BEATLES - From Me To You
13. THE BEATLES - I Want To Hold Your Hand
14. THE VALANTI'S - Comedic Unicyclists
Comentário:
Esta apresentação aconteceu em Miami, no Deauville Hotel, e para lá todo o staff do programa se transferiu. Há um excesso de luz no palco, e é possível notar um certo desconforto de Ringo Starr por conta disso. Os microfones disponibilizados para John e Paul são colocados excessivamente baixos, fato que atrapalha os vocais. O show, todavia, é arrasador, com destaque para a impecável interpretação de This Boy. E o backing vocal de John Lennon em I Saw Her Standing There, bem mais alto que a voz principal de Paul. Curiosidades: dois dos grandes pugilistas da história do boxe assistem o evento da platéia, e são citados por Ed Sullivan – Sonny Liston e Joe Louis. 3.500 pessoas formaram a platéia que assistiu os Beatles no cenário montado no Deauville Hotel. Ensaios extensivos foram realizados nos dois dias anteriores à apresentação.

February 23, 1964 Show

1. ED'S Opening
2. THE BEATLES - Twist & Shout
3. THE BEATLES - Please Please Me
4. GLORIA BLEEZARDE - Safety In Numbers
5. PINKY & PERKY - Caterpillar & Crow Routine
6. PINKY & PERKY - Dog & Cow Routine
7. MORECAMBE & WISE - Louis XIV Sketch
8. ACKER BILK - Acker's Lacquer
9. GORDON & SHEILA MACRAE - Take Off On The Garry Moore Show
10. DAVE BARRY - STAND-UP Re: His Daughter's Marriage
11. CAB CALLOWAY - St. James Infirmary
12. CAB CALLOWAY - Old Man River
13. MORTY GUNTY - COMEDY Stand-Up
14. THE BEATLES - I Want To Hold Your Hand
Comentário:
Neste programa os Beatles se apresentaram em formato pré-gravado. A gravação foi feita na tarde de sua estréia no Ed Sullivan Show, dia nove de fevereiro. Cenários diferentes foram providenciados especialmente para a ocasião. Eles iniciam com Twist and Shout e Please Please Me. E fecham o programa com I Want to Hold Your Hand. Um dos destaques – além da dupla de humoristas ingleses Morecambe and Wise - é Cab Calloway, um ídolo de George Harrison. Uma composição dele, Between the Devil and a Deep Blue Sea seria gravada por George muitos anos mais tarde, no CD Brainwashed.

September 12, 1965 Show

1. ED's Opening
2. SOUPY SALES - Reminisces With Ed
3. CILLA BLACK - September In The Rain
4. FANTASIO - Slight-Of-Hand Artist
5. THE BEATLES - I Feel Fine
6. THE BEATLES - I'm Down
7. THE BEATLES - Act Naturally
8. ALLEN & ROSSI - Try To Remember
9. CILLA BLACK - Goin' Out Of My Head
10. SOUPY SALES - The Mouse
11. THE BEATLES - Ticket To Ride
12. THE BEATLES – Yesterday
13. THE BEATLES - Help!
Comentário:
Esta performance foi a última dos Beatles tocando ao vivo no Ed Sullivan Show, mas também foi ao ar em formato pré-gravado. Eles estavam nos EUA para a consagradora turnê de 65. Um dia antes da histórica apresentação no Shea Stadium (15/08), eles foram para o estúdio 50 da CBS pela manhã e iniciaram os ensaios para o programa. O trabalho foi presenciado por platéia de 700 pessoas. A gravação teve início às oito e meia da noite daquele dia 14 de agosto, mas só seria exibida no dia 12 de setembro. Entre as atrações, um mágico tradicional chamado FANTASIO. E, definitivamente, a performance curiosa de uma "cria" do empresário Brian Epstein, a cantora Cilla Black interpretando September in the Rain, música que os Beatles gravaram nas sessões para a gravadora Decca. Nesta clássica apresentação porém, John, Paul, George e Ringo estão indubitavelmente no auge. Em Act Naturally temos George Harrison arrasando no arranjo country and western de sua guitarra. John Lennon toca I'm Down no teclado e usando os cotovelos. E a versão de Ticket to Ride é diferente, com introdução maior, e sem a repetição do refrão. Não há como não destacar também Yesterday, onde os Beatles simplesmente deixam o palco para que Paul McCartney tenha seu momento-solo. Na bagagem – para essa apresentação – eles levaram uma fita contendo o playback de três violinos. Paul cantou e acompanhou-se ao violão enquanto a fita era executada. Esse violão aliás, é o mesmo que Macca tem utilizado em suas turnês atual para interpretar Yesterday. Na hora em que sobem os créditos, durante o encerramento do programa, é repetida a interpretação de Help.

RAZÕES PARA NÃO JOGAR FORA SUA GRAVAÇÃO PIRATA DO ED SULLIVAN SHOW

O DVD duplo não inviabiliza a cópia que ora circula em DVD-R e VHS desse mesmo material e por algumas boas razões. Como não há extras no lançamento oficial, é justamente no pirata que encontramos um pouco mais de material. A saber...

· DRESS REHEARSAL: somente na pirataria é possível ver o dress rehearsal completo e realizado poucas horas antes do programa ao vivo que foi realizado em Miami, no Deauville Hotel, dia 16 de fevereiro. Eles tocam as mesmas seis canções que executaram no programa, porém é impagável o profissionalismo desse ensaio que envolveu toda a produção e o próprio apresentador Ed Sullivan. Embora sua imagem não seja das melhores, é um documento raro e que bem poderia ter vindo como extra de luxo deste lançamento oficial.

· OUTRAS PERFORMANCES: de 66 a 70, os Beatles somente apareceram no Ed Sullivan Show através dos avós dos videoclipes, ou seja, os promos. Estes circulam na pirataria! Entre eles: Papperback Writer, Rain, Hello Goodbye, Let it Be e outros. Detalhe: Ed Sullivan anuncia cada um dos promos.

Por Cláudio Teran

sábado, 29 de novembro de 2003

George Harrison: a Turnê norte-americana de 1974


Estamos "comemorando" (na verdade, lamentando) nestes dias os dois anos de passagem do saudoso e querido George Harrison, que em 29 de novembro de 2001 faleceu vitimado por câncer, deixando uma lacuna irreparável no cenário da música popular mundial. O amigo Eric Clapton, juntamente com a viúva Olivia de Arias e o filho Dhani Harrison organizaram um show em homenagem ao eterno guitarrista dos Beatles exatamente um ano depois, no Royal Albert Hall londrino, quando muitos músicos e artistas amigos de Harrison prestaram uma homenagem à ele reinterpretando várias de suas preciosas canções, desde aquelas compostas com os Fabs até temas criados em sua carreira solo precocemente interrompida com o agravamento da doença. O DVD e o CD duplos que estão saindo agora trazem o concerto na íntegra, dando-nos uma sensação da presença sutil de George entre os colegas que reproduziram com afeição e amor as suas músicas, incluindo-se aí os colegas de banda Paul McCartney e Ringo Starr. Paul, aliás, escolheu a maravilhosa "All Things Must Pass", composta por George em 1968 e que acabou sendo renegada pelo grupo (leia-se Macca e Lennon) durante as filmagens de "Let It Be" em janeiro do ano seguinte.

Quem possui os bootlegs destas sessões percebe a displicência da dupla em acompanhar Harrison nesta faixa magnífica que exalta em sua letra a inerente condição de transformação e efemeridade que acompanha a vida humana em todos os sentidos, seja material ou espiritualmente. Pode ser impressão minha, mas McCartney talvez tenha escolhido essa canção justamente para 'pagar' seu débito com George, reconhecendo sua indisponibilidade (ou má vontade) com o colega naquela ocasião, quando não lhe dava espaço para incluir suas composições nos discos dos Beatles. Bem, o fato é que a Warner parece estar de posse do catálogo de Harrison novamente, e Dhani promete muitas novidades para os próximos anos, coisas como remasterizações de álbuns antigos, bônus tracks e out-takes da carreira solo do pai, além, é claro, de músicas inéditas. E aí só nos resta rezar para que George 'ventile' nos pensamentos do filho a permissão para lançar material da mal fadada excursão realizada em fins de 1974 pela América do Norte, há 29 anos atrás, quando o guitarrista dos Beatles apresentou-se em 26 cidades daquele continente, em 45 concertos, entre os dias 2 de novembro e 20 de dezembro. Eu escrevi 'mal fadada' por força de expressão, já que as críticas negativas à turnê foram massacrantes, fazendo com o que o próprio Harrison - que registrou em fita muitos shows com a idéia de lançar um LP duplo e um filme - se limitasse a exibir esse material editado apenas para os privilegiados visitantes de Friar park.

O ano de 1974 não foi dos melhores para George. Logo de início, ele teve que suportar a partida da esposa Patti com seu melhor amigo, Eric Clapton. A relação do casal não estava mais dando certo há muito tempo e Harrison na verdade parecia não investir muito nela, já que vivia desenvolvendo affairs românticos com outras mulheres (entre elas, a de Ringo!) e dedicando-se às meditações e rituais da seita Hari-Khrisna, o que irritava e magoava Patti. Mas é sempre complicado ver a mulher partir, e com nosso herói não foi diferente. Pintou crise, e George atolou-se no trabalho como forma de tapear a dor de corno... montou seu selo próprio, Dark Horse Records, gravou uma série de novas canções, compôs em parceria com RonWood, tocou em jams sessions com músicos de jazz-rock em Los Angeles e produziu dois álbuns do amigo e mestre Ravi Shankar, além do excelente disco de estréia do duo Splinter.


Ao final do ano, ele reuniu algumas faixas gravadas no decorrer do período em diferentes estúdios de LA e Londres e preparou o LP "Dark Horse", que fora concluído em outubro de 1974 em meio aos ensaios da turnê pela América, que ele anunciou em setembro e também numa grande coletiva à imprensa no dia 24 de outubro já em território americano. Tantas atividades e ensaios (além de alguns drinks) fizeram com que George perdesse sua voz. No dia 2 de novembro, Harrison & banda (Billy Preston, teclados; Willie Weeks, contrabaixo; Andy Newmark, bateria; Jim Keltner, bateria (a partir da metade da turnê); Robben Ford, guitarra; Tom Scott, saxophone; Jim Woods, sopro; Chuck Findley, trompete, e Emil Richards, percussão) dividindo os holofotes com Ravi Shankar e banda, iniciaram sua peregrinação em Vancouver, Canadá. O repertório começava com "Hari's On Tour", número instrumental que também abria o LP "Dark Horse", e passava por "The Lord Loves The One" (esta apresentada somente no primeiro show), "While My Guitar Gently Weeps", "Something", "Will It Go Round In Circles" (com Billy Preston), "Who Can See It" (também só no primeiro show), "Sue Me Sue You Blues", sete (7) peças indianas de Shankar, "For You Blue", "Give me Love", "Soundstage Of Mind" (outro instrumental com criação coletiva, embora registrada em nome de George), "In My Life" (Lennon/ McCartney), "Tom Cat" (instrumental com Tom Scott & LA Express), "Maya Love", "Dark Horse", "Nothing From Nothing" (Billy Preston), "Outa Space" (Billy Preston) e "What Is Life", com "My Sweet Lord" no 'encore'. A última apresentação aconteceu no dia 20 de dezembro no Madison Square Garden novaiorquino, quando John Lennon assistiu a apresentação da platéia, indo ao encontro de George no backstage. Na maior parte dos dias o grupo apresentou-se em duas sessões, uma vespertina e outra noturna, como era costume nos anos 70.

Na verdade, esses shows tiveram inúmeros bons momentos, com uma excelente performance dos músicos participantes e uma proposta ousada para a época, que era unir em um só espetáculo a música pop, o funk e o jazz-rock com a tradicional e clássica música indiana (os músicos brincavam entre si, classificando-se de 'cowboys' e 'indianos'). Mas vamos começar pelos maus bocados: as críticas negativas ao ritmo do espetáculo tinham lá um pouco de razão; afinal, apesar da proposta interessante e do caráter enriquecedor da troca de informações culturais para uma audiência acostumada ao barulho (e à cada vez mais fugaz pasteurização musical já em vigor na ocasião), as apresentações de Shankar acabaram sendo longas demais para os 'ligadões' e afoitos fãs dos Beatles e do rock & roll em geral. Além do mais, insistir numa 'catequização' de Khrisna para um público já mergulhado no mundo da cocaína e no desbunde pré-punk e barra pesada que marcaria a primeira metade da década era remar na contramão dos modismos vigentes, bem como uma cantilena meio careta. Mas George gostava de ser do contra. E foi em frente. Shankar, no entanto, sucumbiu à tensão dos primeiros 18 dias da excursão e acabou sofrendo uma ameaça de enfarte, o que o impossibilitou de atuar nos shows durante alguns dias, voltando a fazer parte do programa somente em 19 de dezembro, no penúltimo concerto.

A voz de Harrison foi outro problema, fazendo com que as interpretações fossem, em algumas oportunidades, constrangedoras, pois nas partes melódicas de notas mais altas George passou a usar um recurso antigo do amigo Bob Dylan, que era o de simplesmente 'falar' as canções, alterando suas melodias para adequa-las à carência do vocal. Isso sem falar nas mudanças das letras originais, outra mania copiada de Dylan. Em "something", por exemplo, George cantava "If there's something in the way/ we can moved it", ao invés da linha original "something in the way/ she moves", numa possível citação ao fim de seu casamento. Em "While My Guitar Gently Weeps", ele cantava "gently smile", tentando acrescentar um otimismo oriental ao tema originalmente melancólico da letra; em "In My Life" (uma das surpresas dos shows, pois ninguém podia imaginar George cantando um tema Lennon/McCartney nestas alturas do campeonato) ele cometeu uma 'heresia às avessas' ao cantar "in my life i love God more", alterando a letra do clássico de "Rubber Soul"!



Segundo declarações do saxofonista Tom Scott à revista Rolling Stone, durante os ensaios para a turnê, Ravi Shankar - temendo uma rejeição ruidosa do público - procurou convencer Harrison a incluir temas dos Beatles no repertório do show, coisa que ele se recusava a fazer em princípio. Convencido pelo amigo a ceder, mesmo assim o guitarrista parecia cultivar uma irritante indiferença ao cantá-las, como se ele se sentisse 'obrigado' pelas circunstâncias a fazê-lo. Parecia alimentar uma espécie de auto-paródia, imprimindo também um certo cinismo na maneira de interpretá-las. Na verdade, Harrison buscava auto-afirmação como um artista solo, tratando os Beatles como um fato do passado. O seu bom e sarcástico humor também aparecia, vez por outra. Em alguns shows, ele insistia em se anunciar como Neil Diamond! E seu encontro com o então presidente Ford na Casa Branca para um lanche naqueles dias proporcionou aos fãs e à mídia um espetáculo bizarro, inusitado e meio deslocado. Quem podia entender?

Durante muitas apresentações, George parecia desanimar-se com a apatia da platéia, que pouco aplaudia alguns de seus temas mais recentes, parecendo mais entusiasmada com Billy Preston, que vivia naqueles tempos um período de muito sucesso. No show realizado em Uniondale, estado de NY, no dia 15 de dezembro, ele disse ao público: 'Oh, merda! Tem alguém aí embaixo? Vocês estão tão quietos!'. Em Los Angeles, no dia 5 de novembro, inconformado com a pouca vibração das pessoas, ele foi ao microfone resmungar: "Daqui de cima a gente não consegue ver direito, mas parece-me que vocês estão mortos aí embaixo!". O bode de George com o público refletiu-se em alguns momentos de maneira mais perceptível, como em Long Island, em 15 de novembro, quando ele cantou com um desânimo incrível e parecia definhar-se no palco. Coincidentemente, George e John haviam saído juntos - com suas respectivas namoradas na época, Olivia de Arias e May Pang - na noite anterior, e Lennon estava presente entre os convidados nesta mesma apresentação do dia 15, prometendo a George que tocaria com ele quando a excursão chegasse em Nova Iorque. Se aconteceu algum stress entre eles, ninguém soube ao certo.

Billy Preston, por sua vez, tinha três faixas no set list, e procurava incendiar o público o tempo todo com gritos e danças amalucadas pelo palco. Alguns críticos escreveram que ele salvara os shows da melancolia e pasmaceira, chegando a ofuscar Harrison, que em muitas oportunidades mostrava-se acuado e incomodado com tal situação. Até a versão de 'My Sweet Lord' que fechava a apresentação era a gravada por Preston em 1971! Na verdade, George tinha grandes dificuldades em sentir-se seguro no palco, e precisava de qualquer maneira assegurar-se de que não era o centro das atenções, preferindo dividir a cena com Preston e os outros músicos (na turnê realizada no Japão, 17 anos depois, Eric Clapton acabou sendo seu parceiro nesta 'divisão'). Assim, sentia-se mais livre como músico, como se fosse menos 'cobrado'. Para um repórter que insinuou que o ex-beatle sentia ciúmes do pique de Preston, Harrison respondeu: "Preciso muito de Billy ao meu lado, não sei o que seria de mim sem ele". Ele falava sério...

Voltar a se expor na mídia, para qualquer um dos 4 ex-beatles, significava submeter-se à um verdadeiro bombardeio com a pergunta "Quando é que os Beatles vão voltar?", o que irritava e descontrolava Harrison, que, visivelmente nervoso, respondeu certa vez à Rolling Stone: "Ghandi disse 'crie e preserve sua própria imagem'. A minha imagem escolhida não é a do 'beatle George'. Se o público só quer pensar em Beatles, que vá assistir ao show dos Wings! Por que viver no passado? Esteja aqui e agora, e se você não gosta de mim, dane-se, pois eu sou o que sou". Quando se perguntava sobre as reações negativas do público dos shows, a coisa ficava mais pesada: "Olha, tem muito mais coisa rolando do que bêbados chatos gritando, enchendo o saco e passeando durante a parte de Ravi. O público tem que pensar um pouco. Tem que sacrificar alguma coisa, tem que criar uma boa energia também. Tem que ouvir e observar, e se prestar atenção, verá que existe conteúdo no palco. Se as pessoas deixarem de fazer delas mesmas uma barreira e abrirem suas mentes, se divertirão muito mais com o coração. Há muita alegria no mundo!".

Na última apresentação, em Nova Iorque, George havia insistido para que John subisse ao palco com ele para juntos tocarem "In My Life", faixa que ele sempre terminava dizendo 'Obrigado, John, Paul e Ringo, os ex, ex, ex- beatles! Deus os abençoe!". Voltando atrás na promessa feita alguns dias antes, não subiu ao palco, deixando o parceiro decepcionado. Quando foi ao encontro de Harrison no backstage, após o final do show, teria recebido um empurrão dele em meio a uma discussão relativa à Apple e seus constantes problemas burocráticos e financeiros. John alegou depois que George estava de fato enfurecido com ele porque não assinou um dos milhões de termos contratuais que envolviam os Beatles, sob conselho de seu astrólogo, que não achava o dia "propício a esse tipo de coisa". Alegando também falta de tempo para ensaiar, Lennon achou melhor não subir ao palco "para tocar só um ou dois acordes". Alguns dias mais tarde, declarou à imprensa: "Apesar de sua voz estar péssima, a atmosfera do show em Long Island (no dia 15/12) era boa, e o público vibrou. O grande erro de George foi não ter tocado as coisas antigas que o público queria. Mas eu o entendo e o respeito. Ele não estava preparado, pois comigo aconteceu o mesmo durante os shows beneficentes que fiz em Nova Iorque dois anos antes". Passado o momento de atrito, os dois teriam seguido juntos para a boate Hippopótamus com toda a equipe do espetáculo, para uma festa de despedida. Até Yoko estava presente, mais uma vez cercando John, que poucos dias depois já estava ao lado da esposa outra vez. Foi o último encontro dos amigos em vida. Pelo menos aqui, neste planetinha...

Quando se ouve aos vários discos piratas gravados da platéia durante as apresentações (e principalmente as duas faixas mixadas e lançadas em um compacto oficial que acompanhou o livro caríssimo e de edição limitada "Songs From George Harrison", de 92) pode-se perceber que as performances de George e do grupo que o acompanhou eram em sua maioria fortes e concisas, dotadas de swing e de um espírito funk e até jazz-rock, como já disse acima, estilos estes então inéditos na carreira de Harrison. A influência de Billy Preston certamente foi decisiva, mas o fato é que o ex-beatle estava buscando novas direções para sua música, investindo mais no apuro técnico e na diversificação rítmica como formas de renovar sua criatividade, assim como fizera anos antes com a música indiana nos discos dos Beatles, com a country music e o gospel em "all Things". Neste sentido, essas apresentações soaram mais eloqüentes e representativas do que os seus discos da ocasião (com exceção do 'Thirty-Three and a Third', de 76, que revela o mesmo espírito funk vibrante e um guitarrista no auge de sua capacidade técnica); ao reinterpretar seus temas, ele buscou também não utilizar a fórmula fácil de reproduzir ao vivo os arranjos bolados e tocados em estúdio, praticando um pouco de improvisação e enriquecendo mais o feeling das execuções das músicas. Ao final de muitos shows, a platéia entendia sim essa empreitada, e os aplausos e palmas eram intensos. Essa turnê, portanto, serve de síntese dos caminhos percorridos pela música de George Harrison, já que a igualmente instigante presença de Shankar trouxe a parte indiana ao evento como parte fundamental de sua transição de roqueiro rock-a-billy para horizontes mais extensos. Como todos sabem, George Harrison foi um dos principais responsáveis pela inclusão da música indiana no circuito da música pop dos anos 60.

Em vida, George parecia não querer se submeter às críticas negativas que tanto o derrubavam, deixando esse material arquivado e para uso pessoal, apenas. Mas o que se espera é que Dhani nos dê esse presente um dia, abrindo um capítulo esquecido e mal compreendido da carreira de seu pai, lançando essas apresentações em DVD e em CD. Enquanto isso não acontece, recomendo aos fãs a audição de 'Washington 74', 'Live At Seattle', 'FortWorth, Texas' e 'Baton Rouge', as melhores gravações da turnê de 74 disponíveis entre os colecionadores.

Por Marcelo Sanches

Clique Abaixo e veja todas as datas e alinhamentos da turnê americana de 1974:
http://www.bekkoame.ne.jp/~garp/hari/live74.htm






sexta-feira, 24 de outubro de 2003

Entrevista: Olivia Harrison no Jools Holland

Transcrição da curta entrevista com Olivia Harrison e o percurssionista Ray Cooper no programa Later...with Jools Holland, em 24/10/2002, sobre o show tributo Concert For George. 



Jools: Como esse filme surgiu realmente, de quem foi a idéia de fazer esse show?
Olivia: Foi realmente do Eric Clapton, ele estava... bem, nós todos estávamos sentindo muita falta de George... e ele chegou pra mim e disse: "Você pode fazer um show tributo?" e eu deixei ele organizá-lo e Ray instigou-o por um tempo.

Jools: Como você (para Ray) se envolveu... claro, eu deveria mencionar que você não é só um grande percussionista mas também está no mundo do cinema britânico... mas como você conheceu George?
Ray: Nos dias sombrios da Saville Row, quando os Beatles estavam fazendo projetos individuais e todos eles tinham seus co-músicos e aconteceu de eu ser um desses privilegiados, trabalhando nos projetos de George, tudo aquilo ainda sendo Beatles, e foi assim que aconteceu, há muito tempo atrás.

Jools: Este filme que nós fizemos agora... que vocês fizeram... é realmente extraordinário não é? Quem são as outras pessoas envolvidas nele?
Olivia: Há Ringo, Paul e Tom Petty - Travelling Wilburys - Jeff Lynne, Billy Preston, um velho amigo do George que ele conheceu em Hamburgo, um cara chamado Jools Holland, Sam Brown, Joe Bown.

Jools: Todas as pessoas que o amavam. Ravi Shankar...Olivia: Sim, Ravi Shankar, claro, Anoushka Shankar, Klaus Voorman, dos tempos de Hamburgo.

Jools: O que eu sempre achei fantástico sobre George é que ele não era somente um incrível compositor, como um Burt Bacharach, mas acontece que ele foi um dos Beatles e foi também um dos maiores produtores de cinema que a Inglaterra já teve. O pessoal do Monty Python estava envolvido. Por quê?
Olivia: Eles eram alguns de seus melhores amigos e nós tínhamos que ter algum humor porque George não era o calado, como você sabe... Ele nunca se calava... e ele tinha um grande senso de humor... e eles eram amigos dele... então nós não poderíamos solenizar demais a ocasião, ele não gostaria que isso acontecesse, e eles asseguraram de que não estava solene demais. E, claro, Tom Hanks estava por ali uma noite antes e então foi convidado a ser um Mountie no sketch Limberjack.

Jools: É incrível e estará em vários cinemas e em DVD... e na América, o filme foi bem recebido?Olivia: Muito bem recebido, conseguiu críticas muito boas... muita gente amava George, eles querem vê-lo e agora. É realmente um documento histórico.

Jools: O que você pensa que George teria achado do filme?Olivia: Eu acho que ele gostaria muito. Ver todos os amigos, ele adorava ver todo mundo junto... até porque ele não teria que tocar. Ele poderia só sentar e assistir.

Jools: Para onde vai o lucro?Olivia: Ele vai pro Material World Charitable Foundation, que George criou em 1973, e que ajuda instituições de caridade como instituições pra crianças e pessoas com necessidades especiais.

Jools: Okay, Olivia Harrison, Ray Cooper, muitíssimo obrigado. 

sábado, 18 de outubro de 2003

"The Long And Winding Road" - A canção que separou os Beatles


Já que uma versão despida do último disco dos Beatles acaba de ser lançada, Paul McCartney fala sobre o nascimento de "The Long And Winding Road". Ela foi a canção que separou os Beatles, a última gota no já desgastado relacionamento entre Paul McCartney e John Lennon, e o motivo que colocou os membros da banda em décadas de antipatias e amarguras.
Na altura do lançamento do álbum Let It Be... Naked, McCartney revelou o que o fez escrever "The Long And Widing Road" e de seu prazer de finalmente poder ouvi-la sem o "wall of sound" de Phil Spector, após um esforço de 35 anos para vê-la ser lançada.

"Ela está tão limpa... assim mesmo, sem frescuras, sem artifícios", disse McCartney ao ouvir o resultado do árduo trabalho para restaurar a canção até a forma que ele originalmente queria. A canção foi escrita em 1968 na fazenda onde McCartney depois escreveria "Mull Of Kintyre" e "Maybe I'm Amazed". Ela foi inspirada nas tensões que acabaram por separar a banda.

"Eu estava na Escócia e apenas sentei ao piano. Comecei a tocar e me veio a canção, imaginando que acabaria sendo dada para alguém como Ray Charles", disse ele. "Sempre me inspirei na beleza tranqüila da Escócia e esta é mais uma prova que lá é o lugar onde encontro a inspiração".

Mas a gravação da música - e do álbum Let It Be inteiro - provou ser um doloroso processo. A idéia original era mostrar os Beatles como uma banda ao vivo, sem os grandes e caros arranjos de estúdio que se tornaram uma marca de seus mais recentes discos até então. Mas o desânimo imperou nas sessões de gravação e a banda acabou infeliz com o resultado.

De acordo com Revolution In the Head, um aclamado livro sobre as canções dos Beatles escrito pelo falecido Ian MacDonald, "The Long And Widing Road" foi um dos motivos fundamentais das desavenças logo no início. O baixo tocado por Lennon na canção foi considerado como algo lamentável.

MacDonald escreveu: "A canção foi feita no estilo dos velhos standards para ser interpretada por baladeiros de sucesso. Fitas demo foram enviadas a Tom Jones e Cilla Black. Elas incluíam um baixo tocado de forma detestável por Lennon, como se ele não estivesse certo sobre as harmonias e cometendo erros bobos. A forma crua com que Lennon toca em 'The Long And Winding Road', embora bastante acidentalmente, equivale a uma sabotagem quando apresentada como um trabalho finalizado".

Os Beatles logo abandonaram o formato básico de Let It Be para serem novamente "plugados" pelos técnicos de estúdio. Como eles ainda se sentiram insatisfeitos com os resultados, Lennon pediu ao produtor americano Phil Spector que fisseze uma operação de salvamento.

Spector completou o trabalho em apenas oito dias, pondo overdubs em "The Long And Winding Road", "Across The Universe" e "Let It Be", que contavam com 18 violinos, quatro violas, quatro cellos, uma harpa, três trompetes, três trombones, dois guitarristas e um coral de 14 pessoas.

Assim que ouviu o resultado, McCartney ficou furioso, mas sem poderes para impedir o lançamento do álbum. Ele se refere ao trabalho feito em "The Long And Winding Road" como um sacrilégio. Alguns dias depois ele disse aos outros Beatles que estava deixando a banda.

Ele nunca escondeu sua decepção e recentemente convenceu o outro Beatle Ringo Starr e a viúva de Lennon, Yoko Ono, a concordarem com o lançamento da versão nua do álbum.

McCartney disse: "Adoro a ideia do lançamento da versão limpa do disco, pois ela traz apenas a banda. Você tem uma imagem muito clara de como a banda estava tocando e cantando na época - e que banda boa ela era. Isto é o que é mostrado neste novo álbum".

"Quando falamos sobre as tensões entre as músicas, infelizmente isto conta, pois era um grupo se separando. Não posso dizer, 'Sim, era fácil entrarmos em um acordo', ou que isto me traz boas lembranças, pois era minha banda favorita que estava se separando".

McCartney não é o único que se encantou pela nova versão. "'The Long And Winding Road' me deixou espantado na versão sem as cordas", disse Ringo Starr. "Não há nada de errado com o trabalho de Phil, esta é apenas uma forma diferente de ouvi-la. Já são 30 anos desde a última vez que a ouvi assim e ela simplesmente me deixou louco!".

Logo após a separação dos Beatles, McCartney voltou à sua fazenda na Escócia e teve o que ele definiu como uma espécie de colapso - bebendo muito e passando dias na cama. Foi lá que ele descobriu o que é ser vegetariano e também onde, com sua falecida esposa Linda, ele encontrou forças para ser reerguer. E onde também foi preso por ter plantado pés de maconha.

Ele comprou a fazenda após visitá-la com sua namorada da época, a atriz Jane Asher, mas, ironicamente, ela foi deixada de lado durante anos até a separação dos Beatles.

No momento McCartney está dividindo seu tempo entre as gravações de seu novo álbum em Londres e as responsabilidades da paternidade, após o nascimento de sua filha Beatrice no mês passado.

Por Mike Merritt da UTV